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As Incubadoras de Empresas Entendidas como uma Organização do Conhecimento

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As Incubadoras de Empresas Entendidas como uma Organização do Conhecimento
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SOUSA, Marco Aurélio Batista de [1]

SOUSA, Marco Aurélio Batista de. As Incubadoras de Empresas Entendidas como uma Organização do Conhecimento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 05, Vol. 05, pp. 419-431, Maio de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

O conhecimento ao longo dos tempos tem se tornando um dos principais fatores de competitividade entre as organizações. Sendo assim, o gerenciamento adequado e a valorização deste elemento (o conhecimento), bem como os investimentos dispensados à aprendizagem interativa e contínua de seus colaboradores, auxiliam as organizações a manter, e ampliar o seu potencial competitivo. Neste cenário, as incubadoras de empresas surgem como uma base de apoio e sustentação aos empreendimentos em incubação, provendo-os com estrutura física, administrativa, entre outros recursos, em um ambiente propício para que as ideias e conhecimentos sobre um determinado assunto possam se concretizar. Desta forma, o artigo tem como objetivo apresentar as incubadoras de empresas como uma organização do conhecimento. Para tanto, buscou-se referencial teórico sobre os assuntos que contemplam o conhecimento. Na seqüência, comenta-se a respeito das incubadoras de empresas. Em seguida, identificam-se estas instituições como organizações do conhecimento. E, por fim, apresenta-se às considerações finais do artigo.

Palavras-chaves: Conhecimento, Gestão do Conhecimento, Incubadora de Empresas.

1. Considerações iniciais

O final do século XX foi marcado por uma série de acontecimentos e alterações nos mais variados segmentos da sociedade, que incentivaram a competitividade dos mercados. Acontecimentos como a globalização, a formação e organização de blocos econômicos entre países, a redução ou a eliminação de barreiras alfandegárias, dentre outros fenômenos, obrigaram as organizações a se adaptarem a esta nova realidade competitiva.

Estes acontecimentos, além do desenvolvimento e da expansão dos mercados, têm sido acompanhados pela constante e crescente evolução da tecnologia, proporcionando transformações nas atividades realizadas pelas organizações, dando a elas a possibilidade de desfrutar de suas funções.

Entretanto, salienta-se que nem todas as organizações apresentam o mesmo estágio de desenvolvimento e aprimoramento de suas atividades, não conseguindo participar de tais transformações por várias razões: restrição de crédito, falta de investimentos, entre outros. Geralmente as empresas de pequeno e médio porte encontram mais dificuldades, especialmente em captar recursos e competências, sejam elas quais forem.

Além disto, o cenário econômico e a dinâmica do desenvolvimento mundial têm sido conduzidos pela geração, utilização e difusão de informações e conhecimento. Esses novos parâmetros têm norteado os esforços das empresas, na busca por um melhor desempenho econômico de seus fatores produtivos, com a finalidade de se sustentarem no mercado e de prosperarem diante dos concorrentes.

Neste panorama, as incubadoras de empresas surgem como uma estrutura que tem a capacidade de promover e colaborar para que o conhecimento possa ser empregado no desenvolvimento de projetos que resultem na constituição de empresas. Leite (2000) diz que as incubadoras de empresas são mecanismos de criação e desenvolvimento de micro e pequenas empresas por meio da formação técnica e gerencial do empreendedor, possibilitando o processo de inovação e contribuindo para o seu desenvolvimento.

As incubadoras buscam preparar estas empresas para serem competitivas perante os anseios do mercado e a necessidade de inovações. Lemos (2001, p. 2) menciona que:

na fase atual, caracterizada como a Era do conhecimento, reconhece-se ser este o principal recurso e aponta-se que o mais importante não é apenas ter acesso à informação ou possuir um conjunto dado de habilidades, mas fundamentalmente ter capacidade para adquirir novas habilidades e conhecimentos para viabilizar a inovação.

Era que, de acordo com Spolidoro (1997), está baseada em uma economia na qual a maioria dos custos de fabricação, em comparação com os custos dos outros insumos, se deriva da contribuição do trabalho intelectual.

Cavalcante, Gomes e Pereira Neto (2001, p. 50-51), destacam que “a capacidade de gerar conhecimentos, inovar e empreender são as condições necessárias para o sucesso de uma empresa na sociedade do conhecimento”. Lundvall (1992) enfatiza que a competitividade de uma empresa, isto é, a sua capacidade de sobrevivência, é fortemente relacionada à capacidade de aprender e inovar.

Assim, o conhecimento de acordo com Teixeira filho (2000, p. 17), “tornou-se o fator econômico mais importante no ambiente competitivo das organizações. Conhecimento não no sentido abstrato, ou teórico, mas aplicado ao dia-a-dia das empresas. Conhecimento sobre seu mercado, seus processos, seus clientes, sua tecnologia seus concorrentes, entre outros”. E quando bem utilizado, pode se transformar em uma das vantagens competitiva nos negócios. (GRANWFORD 1994).

2. O conhecimento

O conhecimento está diretamente relacionado com a maneira como que uma atividade é realizada. Ele é algo pessoal, que se desenvolve ao longo dos tempos através das experiências de vida de cada indivíduo, sendo absorvido por meio de fontes formais e informais.

No entanto, o conhecimento de acordo com Davenport e Prusak (1998, p. 6-7), “deriva da informação da mesma forma que a informação deriva dos dados”. Desta forma, Teixeira filho (2000, p. 21), esclarece que “o conhecimento não é nem dado nem informações, mas está relacionado a ambos”.

Os dados, conforme Davenport e Prusak (1998, p. 2), “representam um conjunto de fatos distintos relativos a eventos. Num contexto organizacional, eles são utilitariamente descritos como registros estruturados de transações”. Eles são elementos brutos com pouca relevância ou propósito. No entanto, Angeloni (2003, p. 17), salienta que eles são importantes, pois “constituem a matéria-prima da informação”. Assim, coletar os dados, bem como selecioná-los, verificar a veracidade de suas fontes é essencial para a qualidade das informações e conseguintemente do conhecimento.

As informações, por sua vez, são os dados com significados, fazem a diferença e que tem relevância e propósito. Para Machlup (1983 apud NONAKA E TAKEUCHI, 1997, p. 63), “a informação proporciona um novo ponto de vista pra a interpretação de eventos ou objetos, o que torna visíveis de significados antes invisíveis ou lança luz sobre contextos inesperada”.

A informação é um conjunto de dados agrupados e direcionados a uma determinada finalidade tendo como base o contexto histórico, entre outros aspectos que deveram ser observados por quem irá utilizá-la. Ela corresponde o elemento fundamental para o conhecimento. Conhecimento que para Granwford (1994, p. 21), “é a capacidade de aplicar as informações a um trabalho ou a um resultado específico”.

Capacidade que segundo Davenport e Prusak (1998, p. 6), “existem dentro das pessoas, faz parte da complexidade e imprevisibilidade humana”. São as pessoas que tem a capacidade de transformar dados e informações em conhecimento, sendo este processo é individual e inerente a cada ser humano.

E para que isto possa ocorrer, as pessoas de acordo com Davenport e Prusak (1998), devem realizar comparações, observando de que forma as informações relativas a uma determinada situação se comparam com outras situações conhecidas. Verificar as consequências, identificando as possíveis conseqüências que estas informações trazem para as decisões e domadas de ações. E estabelecer as conexões no sentido de averiguar as relações deste novo conhecimento com o já acumulado.

Neste sentido, Davenport e Prusak (1998, p. 6), esclarecem que o conhecimento “é uma mistura fluida de experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, a qual proporciona uma estrutura para avaliação e incorporação de novas experiências e informações”. Elementos, que devem ser organizados e agrupados para possibilitar o entendimento e a criação de significado.

Além destes atributos, o conhecimento de acordo com Granwford (1994), é difundível e se auto-reproduz; é substituível, transportável e compartilhável. No entanto, vale ressaltar que este processo dependerá de quem cria, gerencia, e transfere o conhecimento, bem como do ambiente no qual as pessoas estão inseridas.

Deste modo, o conhecimento poderá ser utilizado como uma vantagem competitiva, tanto para as pessoas que o detém como para as organizações, que conseguem criar, captá-lo e gerenciá-lo. Neste aspecto, evidencia-se o processo pelo qual ocorre o processo de criação e conversão do conhecimento individual e organizacional.

2.1 Criação e conversão do conhecimento

O processo de criação do conhecimento inicia-se pelo indivíduo, tendo a necessidade de uma interação entre o saber e o fazer, de forma que as ideias possam ser testadas e as capacidades humanas ampliadas. Davenport e Prusak (1998, p. 73), dizem que “reunir pessoas com experiências e conhecimentos diferentes é uma das condições necessárias à criação do conhecimento”.

Portanto, a criação do conhecimento conforme Nonaka e Takeuchi (1997) ocorre no nível individual, do grupo e da organização, entre a interação do conhecimento tácito e explícito.

Davenport e Prusak (1998, p. 86), explicam que o conhecimento tácito é aquele “desenvolvido e interiorizado pelo conhecedor no decorrer de um longo período de tempo”. Representa os componentes subjetivos, de difícil visualização e formalização, transmissão e compartilhamento.

Por sua vez, o conhecimento explícito para Nonaka e Takeuchi (1997, p. 7),  é aquele registrado que “pode ser expresso em palavras e números, e  facilmente comunicado e compartilhado”. Sveiby (1998, p. 42), relata que este conhecimento “envolve conhecimento dos fatos e é adquirido principalmente pela informação”.

Este conhecimento trata de acontecimentos passados ou objetos, e é orientado para uma teoria independente do contexto, além de ser racional e criado sequencialmente. A Tabela 1 apresenta-se algumas das distinções entre o conhecimento tácito e explícito.

Tabela 1 – Conhecimento: tácito x explícito

Conhecimento Tácito Conhecimento Explícito
(Subjetivo) (Objetivo)
Conhecimento da experiência Conhecimento da racionalidade
(corpo) (mente)
Conhecimento simultâneo Conhecimento seqüencial
(aqui e agora) (lá e então)
Conhecimento análogo Conhecimento digital
(prática) (teoria)

Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997, p. 67).

O entendimento destes conhecimentos e a distinção entre as maneiras sob as quais eles podem ser transmitidos, processados e armazenados, correspondem às forças motrizes do processo de criação de conhecimento na organização. Estes conhecimentos fazem parte do ciclo onde o indivíduo obtém o conhecimento explícito interioriza e o utiliza como tácito, gerando novo conhecimento explícito que será absorvido por outra pessoa gerando mais conhecimento e assim sucessivamente.

Partindo deste pressuposto de que o conhecimento é criado por meio da interação entre o conhecimento tácito e explícito, Nonaka e Takeuchi (1997) mencionam quatro formas para convertê-los: conhecimento tácito em tácito denominado de socialização; conhecimento tácito em explícito, chamado de externalização; conhecimento explícito em explícito, combinação e de conhecimento explícito para o tácito ou internalização. A Figura 1 mostra estes modelos, e o conteúdo do conhecimento criado por eles.

Figura 1 – Conteúdo do conhecimento criado pelos quatro modos. Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997, p. 87).
Figura 1 – Conteúdo do conhecimento criado pelos quatro modos. Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997, p. 87).

Estas formas de conversão do conhecimento apresentadas criam conteúdos distintos. Sua interação gera segundo Nonaka Takeuchi (1997), a espiral do conhecimento que possibilita a transferência do conhecimento individual para o organizacional.

Do ponto de vista da criação do conhecimento organizacional, Nonaka Takeuchi (1997, p. 83), dizem que “a essência da estratégia está no desenvolvimento da capacidade organizacional de adquirir, criar, acumular e explorar o conhecimento”. Para tanto, propõem cinco condições em nível organizacional que irão promover a espiral do conhecimento, são elas: a intenção, a autonomia, a flutuação e caos criativo, a redundância e variedade de requisitos.

A intenção é a aspiração de uma organização à suas metas. A autonomia possibilita aos indivíduos e aos grupos, dentro da organização, estabelecerem os limites para suas tarefas e motivar-se para criar novo conhecimento. A flutuação e caos criativo estimulam a interação entre a organização e o ambiente externo. A redundância de informação permite o compartilhamento de conhecimento e acelera o processo de criação de conhecimento. E a variedade de requisitos consistente em garantir o acesso mais amplo possível à informação, de forma mais fácil e ágil possível. (NONAKA TAKEUCHI, 1997)

O processo de criação de conhecimento e as condições facilitadoras mencionadas se combinam no modelo denominado por Nonaka Takeuchi (1997), de cinco fases do processo de criação de conhecimento organizacional, evidenciado na Figura 2.

Figura 2 – Modelo de cinco fases do processo de criação do conhecimento. Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997, p. 96).
Figura 2 – Modelo de cinco fases do processo de criação do conhecimento. Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997, p. 96).

Observa-se, que o processo de criação de conhecimento organizacional, inicia-se pelo compartilhamento do conhecimento tácito, entre os membros da organização. Posteriormente, este conhecimento se converte em um novo conceito, onde ocorre o processo de exteriorização. Sequencialmente, a organização decide, mediante processos coletivos, se este conceito deve ser desenvolvido. Caso a organização decida em aceitá-lo, desenvolve o arquétipo, que de acordo com Nonaka Takeuchi (1997), pode tomar a forma de um protótipo de um determinado produto físico e no caso de serviço ou inovação um mecanismo operacional, e em seguida o disponibiliza.

Neste sentido, verifica-se que à medida que as pessoas passam a realizar suas atividades, ocorre a interiorização do conhecimento, e a espiral do conhecimento se completa na inter-relação entre o conhecimento tácito e explícito. Sumariamente, pode-se dizer que a  criação do conhecimento consiste, basicamente, no processo de transformar o conhecimento tácito em explícito e de convertê-lo de individual para coletivo.

2.3 Transferência e compartilhamento do conhecimento

O conhecimento, somente irá gerar novas descobertas se ele for transferido, difundido e compartilhado, que o individual torna-se coletivo em um ciclo de desenvolvimento e avanços em todos os setores e atividades que permeiam a humanidade.

Davenport e Prusak (1998, p. 21), dizem que “a mera existência do conhecimento em alguma parte da organização é de pouca ajuda; ela só é um ativo corporativo valioso quando está acessível, e seu valor aumenta na proporção do grau de acessibilidade”.

Em relação às formas de transferir o conhecimento, Sveiby (1998), destaca que ela pode ocorrer: pela informação ou tradição. A informação, conforme Sveiby (1998, p. 58), “transfere o conhecimento de forma indireta por meio de veículo como palestras e apresentações audiovisuais”.

No entanto, a transferência mediante a utilização destas técnicas não tem sido eficientes, pois o receptor do conhecimento tem dificuldade ou mesmo não consegue memorizar mais do que uma pequena parcela do que lhe fora transmitido. Para Sveiby (1998, p. 51),

depois de cinco dias, a maioria das pessoas se recorda de menos de um décimo do que ouviram durante uma palestra. Uma combinação visual e auditiva é preferível e produz uma retenção de aproximadamente 20 por cento. Mas aprender fazendo é mais eficaz: as pessoas se lembram de 60 a 70 por cento do que fazem.

As pessoas têm uma capacidade limitada de aproveitar e, sobretudo de armazenar informações. Por isto, em muitos casos a transferência de conhecimento pela informação não se mostra eficiente e confiável, uma vez que a informação enviada pelo transmissor pode adotar significados diferentes aos receptores.

Sendo assim, o processo de transferência do conhecimento pela tradição conforme Sveiby (1998) é mais dinâmico, representado pelo que acontece entre mestre e aprendiz. Como o receptor é parte integrante da ação, o conhecimento é memorizado facilmente, o que torna este método mais seguro em relação ao outro que utiliza a informação. Na seqüência, destaca alguns aspectos relacionados ao processo de transferência do conhecimento pela informação e pela tradição, no Quadro 1

Quadro 1 – Transferência de conhecimento pela informação e pela tradição

Informação Tradição
Transfere informações articuladas Transfere capacidades articuladas e não-articuladas
Independente do indivíduo Dependente e independente
Estática Dinâmica
Rápida Lenta
Codificada Não-codificada
Fácil distribuição em massa Difícil distribuição em massa

 Fonte: Sveiby (1998, p. 54).

Como se observa, o processo de transferência do conhecimento, pela tradição, é mais complexo do que pela informação, uma vez que este conhecimento é tácito, e difícil de ser transferido. As peculiaridades deste conhecimento, de certa forma dificultam a sua difusão, pelo fato de que a tradição presume um mínimo de contato entre o transmissor e o receptor.

Independente de como ocorre à transferência do conhecimento na organização Davenport e Prusak (1998, p. 112), dizem ser imprescindível que “o método de transferência do conhecimento devem ser compatível com a cultura organizacional”. Em algumas organizações, há fatores culturais que inibem esta transferência, e que são denominados por estes autores de atritos. O Quadro 2 apresenta-se alguns desses atritos e suas possíveis soluções.

Quadro 2 – Atritos culturais que inibem o compartilhamento do conhecimento

Atrito Soluções possíveis
Falta de confiança mútua Construir relacionamentos e confiança mútua através de reuniões face a face.
Diferentes culturas, vocabulários e quadros de referência. Estabelecer um consenso através de educação, discussão, publicações, trabalhos em equipe e rodízio de funções.
Falta de tempo e de locais de encontro; ideia estreita de trabalho produtivo. Criar tempo e locais para transferência do conhecimento: feiras, salas de bate-papo, relatos de conferências.
Status e recompensa vão para possuidores do conhecimento Avaliar o desempenho e oferecer incentivos baseados no compartilhamento.
Falta de capacidade de absorção pelos recipientes Educar funcionários para a flexibilidade, propiciar tempo para aprendizado; basear as contratações na abertura a ideias.
Crença de que o conhecimento é prerrogativa de determinados grupos, síndrome do não inventado aqui Estimular a aproximação não hierárquica do conhecimento; a qualidade das ideias é mais importante que o cargo da fonte.
Intolerância com erros ou necessidades de ajuda Aceitar e recompensar erros criativos e colaboração; não há perda de status por não se saber tudo.

Fonte: adaptado de Davenport e Prusak (1998, p. 117).

À medida que os atritos são amenizados ou mesmo eliminados o conhecimento tornará mais acessível e consistente na organização.

A transferência do conhecimento, e o seu compartilhamento para Stewart (1998, p. 107), “revela-se um dos fatores que envolvem a gestão do conhecimento”. Infere-se do exposto, a importância do compartilhamento do conhecimento para a geração de novos conceitos e conhecimentos, bem como para a gestão do conhecimento. Assim, na seqüência destaca-se o tema gestão do conhecimento.

3. Gestão do conhecimento

A gestão do conhecimento surgiu como uma proposta de agregar valor à informação e facilitar o seu fluxo interativo em toda a organização, de modo a possibilitar condições satisfatórias de competitividade. Este termo surge a partir da premissa de que o conhecimento tornou um recurso econômico de grande importância para as organizações.

Teixeira Filho (2000), enfatiza que o conhecimento é um fator decisivo para a sobrevivência da empresa no novo ambiente competitivo, numa economia cada vez mais de serviço. Desta forma, o conhecimento tornou-se a matéria-prima da carreira profissional dos indivíduos dentro e fora das empresas. Gerenciá-lo passa a ser essencial no estágio contemporâneo da história da sociedade, tanto para as organizações quanto para as pessoas.

A gestão do conhecimento conforme Fleury e Fleury (2000, p. 33) “está imbricada nos processos de aprendizagem nas organizações, e assim, na conjugação desses três processos: aquisição e desenvolvimento de conhecimentos, disseminação e construção de memórias, em um único processo coletivo de elaboração das competências necessárias à organização”.

Além disto, Thives Júnior e Angeloni (2000, apud TRZECIAK, 2002, p. 22), salientam que a “gestão do conhecimento é um campo multidisciplinar, que envolve a gestão da informação, a tecnologia da informação, a comunicação interpessoal, o aprendizado organizacional, a motivação, o treinamento e a análise de processos”. Entre outras disciplinas que permeiam este assunto.

Na gestão do conhecimento, identifica-se a importância da tecnologia da informação como um meio facilitador, tendo como foco central à criação de infra-estrutura para a transferência e sistematização de estoque de informações, tais como os bancos de dados, entre outros. Davenport e Prusak (1998, p. 148) citam que “a gestão do conhecimento é muito mais do que a tecnologia, mas, com certeza, a tecnologia faz parte da gestão do conhecimento”.

Porém, a tecnologia da informação fornece estrutura, mas não fornece o conteúdo a ser difundido na organização. Sveiby (2000, p. 5), diz que “certamente a tecnologia é um facilitador, mas por si só não consegue extrair informações da cabeça de um indivíduo”. Ela depende do conhecimento e da ação humana, apoiada nos recursos disponibilizados.

Além dos assuntos referentes à tecnologia da informação, a gestão do conhecimento também aborda a necessidade da criação de um ambiente propício a comunicação, a confiança e as condições necessárias à geração e transferência do conhecimento. Wah (2000, p. 53), destaca que as organizações que se utilizam à gestão do conhecimento, buscam:

captar, armazenar, recuperar e distribuir ativos tangíveis de conhecimento, tais como patentes ou direitos autorais; coletar organizar e disseminar conhecimentos intangíveis, tais como Know-how e especialização profissional, experiências individuais, soluções criativas entre outras; e criar um ambiente de aprendizado interativo no qual as pessoas transfiram prontamente o conhecimento, internalizem-no e apliquem-no para criar novos conhecimentos.

A gestão do conhecimento proporciona as organizações vantagens competitivas sustentáveis frente aos desafios. Cavalcante, Gomes e Pereira Neto (2001, p.50-51) destacam que “a capacidade de gerar conhecimentos, inovar e empreender são as condições necessárias para o sucesso de uma empresa na sociedade do conhecimento, formando o tripé que se complementa para o sucesso das organizações”.

Neste sentido, as incubadoras de empresas são importantes, ao proporcionar aos empreendimentos residentes um ambiente onde é possível coletar, armazenar, recuperar, distribuir e difundir o conhecimento, como, por exemplo, a transmissão das experiências individuais e know-how adquirido, contribuindo para a especialização profissional e soluções criativas.

4. Incubadoras de empresas

As incubadoras de empresas foram criadas para auxiliar as empresas, principalmente aquelas que estão em formação. Buscam prepará-las, disponibilizando recursos necessários desde o início de suas atividades, a fim de se tornarem competitivas. Estas entidades representam um ambiente de proteção e apoio, que pode fazer a diferença entre um negócio qualquer e um negócio destinado ao sucesso.

As incubadoras também evidenciam a necessidade de as empresas residentes procurarem entender a importância da aquisição, bem como o gerenciamento do conhecimento humano e da aprendizagem contínua, como diferencial competitivo no mercado, não deixando de visualizar o seu negócio dentro de uma conjuntura sistêmica e aprender a gerenciá-lo.

O conhecimento tem se tornado um dos fatores primordiais para o sucesso de qualquer empreendimento, independentemente de quais sejam suas características. Nesta realidade, empresas e ideias a respeito de iniciar um determinado empreendimento foram sucumbidas pelas dificuldades impostas pelo mercado. Rosa Júnior (1995, p. 10) comenta alguns desses desafios, principalmente as de pequeno porte, enfrentam:

dificuldade no conhecimento do próprio mercado e de técnicas gerenciais. O pequeno empresário não tem completa noção de como montar o seu próprio negócio; de como descobrir, vender e manter seu mercado. A inovação tecnológica, a contratação de pessoal, a falta de crédito e de apoio para formar um ambiente pró-negócio, também são fatores que prejudicam o desenvolvimento do empreendimento de pequeno porte.

As incubadoras passaram a existir como uma possibilidade para que as ideias pudessem ser concretizadas a partir da constituição de empresas. Conforme o Programa Nacional de Apoio à Incubadora de Empresas (PNI), do Ministério da Ciência e Tecnologia (2000, p. 11), estas entidades representam:

um mecanismo que estimula a criação e o desenvolvimento de micro e pequenas empresas industriais ou de prestação de serviços, de base tecnológica ou de manufaturas leves por meio da formação complementar do empreendedor em seus aspectos tecnológicos e gerenciais e que, além disso, facilita e agiliza o processo de inovação tecnológica nas micro e pequenas empresas. Para tanto, conta com um espaço físico especialmente construído ou adaptado para alojar temporariamente micro e pequenas empresas industriais ou de prestação de serviços e que, necessariamente, dispõe de uma série de serviços e facilitadores.

Com a finalidade de cumprir esta missão, esses empreendimentos se constituem em um mecanismo que sistematiza o processo de formação de novas empresas, fornecendo-lhes uma gama completa e integrada de serviços. Assim, as incubadoras tendem a colaborar no processo de formação e desenvolvimento de novos empreendimentos, ampliando as suas chances de obterem sucesso e de se consolidarem no mercado.

5. As incubadoras de empresas entendidas como uma organização voltada para o conhecimento

As incubadoras de empresas, independentemente do empreendimento que abrigam, caracteriza como empreendimento provido de instalações adequadas, infra-estrutura, entre outros recursos, com vistas a contribuir na criação de um ambiente favorável para a geração, difusão e compartilhamento do conhecimento.

Nonaka e Takeuchi (1997, p. 97), destacam que “uma organização criadora de conhecimento não opera em um sistema fechado, mas em um sistema aberto, no qual existe um intercâmbio constante de conhecimento com o ambiente externo”.

As incubadoras identificam-se com a abordagem do modelo preconizado como sistema aberto, uma vez que se constituem em sistemas complexos, integrados por elementos em interação e intercâmbio contínuo com o ambiente. Além de buscar alcançar os objetivos comuns, contribuem para que cada participante possa atingir seus objetivos individuais.

Cerqueira (1993) menciona que o sucesso das incubadoras de empresas, assim como das empresas em incubação, depende de sua interação com o meio, o que possibilitará a maximização e utilização de todos os recursos disponíveis na incubadora e o melhor aproveitamento de todos os fatores de produção.

A interação entre os diferentes agentes instalados em uma mesma localidade, como é o caso da maioria das incubadoras de empresas, propicia o estabelecimento de significativa parcela de atividades inovadoras que colaboram e estimulam as empresas incubadas no desenvolvimento e aprimoramento dos seus projetos. Stacey (1996), afirma que a participação de variados agentes é importante para o desenvolvimento de conhecimento conjunto.

Davenport e Prusak (1998, p. 64), destacam que este tipo de organização que denominadas de saudáveis que geram e usam o conhecimento. “À medida que interagem com seus ambientes, elas absorvem informações, transformam-nas em conhecimento e agem com base numa combinação desse conhecimento com suas experiências, valores e regras internas”.

As organizações do conhecimento, de acordo com Davenport e Prusak (1998, p. 184), devem possuir:

uma cultura orientada para o conhecimento; uma infra-estrutura técnica e organizacional; apoio da gerência; vinculação ao valor econômico ou setorial; alguma orientação para processos; clareza de visão e linguagem; elementos motivadores não-triviais; alguns níveis da estrutura do conhecimento; múltiplos canais para a transferência do conhecimento.

A cultura orientada para o conhecimento é uma das condições fundamentais para o sucesso das organizações. Cultura, que para Davenport e Prusak (1998), é constituída por uma série de componentes diferentes, como: uma orientação positiva para o conhecimento; ausência de inibidores do conhecimento na cultura.

Em relação à infraestrutura técnica e organizacional. Davenport e Prusak (1998), citam que projetos terão maior probabilidade de sucesso quando lançam mão de uma infra-estrutura mais ampla de tecnologia e de organização. Desta forma, as incubadoras de empresas como organização do conhecimento disponibilizam aos empreendimentos uma infra-estrutura que seja compatível com o negócio a ser instalado.

O apoio da alta gerência é um fator primordial para que a organização do conhecimento, no caso a incubadora de empresas obtenha sucesso. Apoio que nesta instituição não se concretiza somente no nível mais alto de hierarquia, mas também é uma característica de todas as pessoas na instituição. Assim, como destaca Davenport e Prusak (1998), a gestão do conhecimento deve ser responsabilidade de todos na organização.

Em relação à vinculação ao valor econômico ou setorial, destaca que a gestão do conhecimento pode ser dispendiosa e deve, portanto, ser vinculada ao benefício econômico ou ao sucesso no setor. E que os benefícios mais notáveis da boa gestão do conhecimento envolve economias ou ganhos monetários. (DAVENPORT E PRUSAK, 1998, p. 188). Estas questões são percebidas pelas incubadoras, uma vez que qualificam os empreendedores, e disponibilizam recursos para o sucesso de seus empreendimentos.

As incubadoras também possuem algumas orientações para processos quer seja de aprendizagem organizacional, como também para melhoria contínua de bens, serviços e/ou processos a ser desenvolvidos facilitando o processo de gestão do conhecimento e o fluxo de conhecimento em suas instalações.

Há em sua estrutura, clareza e visão de linguagem. Fatores que para Davenport e Prusak (1998) são importantes e favorecem a qualquer tipo de projeto, no caso empreendimento disponibilizando aos empreendedores informações a respeito da incubadora de empresa, do que poderá possibilitar, bem como das obrigações e direitos para com esta organização.

Davenport e Prusak (1998, p. 190), dizem que “o sucesso de um projeto pode depender dos incentivos de longo prazo que a empresa oferece a seus funcionários”. Incentivos que são ofertados pela incubadora mediante seus programas, serviços e recursos, e que também ocorre através das parcerias que a incubadora têm com outras instituições de fomento público e privadas.

Sobre os níveis de estrutura do conhecimento, sua importância está no fato de oferecer uma infraestrutura que possibilite captar e armazenar informações em bancos de dados e também possa ter condições que estas informações possam ser repassadas mediante os canais facilitadores. Para tanto, as incubadoras de empresas utilizam-se de múltiplos canais para que ocorra a transferência do conhecimento e que as informações possam constituir em alicerce do conhecimento organizacional e individual tornado-se estas práticas efetivas no processo de gestão do conhecimento nesta organização.

Verifica-se que estes aspectos apresentados são facilmente identificados nas incubadoras de empresas, que as qualificam como uma organização do conhecimento de sucesso no país e no exterior.

Considerações finais

As organizações configuram-se em elementos fundamentais para satisfazer as mais diversas necessidades humanas. Para tal, utilizam-se de todos os seus recursos disponíveis para desenvolver bens processos e serviços compatíveis a este fim.

Um destes recursos é o conhecimento, que ao longo dos tempos tornou-se fundamental para que as organizações alcançassem ou mesmo mantivesse sua competitividade. Conhecimento, de seus processos, do mercado, fornecedores, do ambiente entre outros. Esta importância é verificada com maior intensidade no final do século XX, onde as mudanças na economia globalizada foram mais intensificadas, ocasionando um processo de acirrada competição entre os mercados e as nações.

Neste panorama, muitas empresas e principalmente ideias a respeito de iniciar um determinado empreendimento foram sucumbidas pelas dificuldades impostas pelo mercado. Desta forma, as incubadoras surgem como uma possibilidade para que as ideias, e projetos se tornem realidade.

As incubadoras se tornaram um reduto de ideias, com o intuito de concretizá-los a partir da constituição de empresas. Elas tendem auxiliar os empreendedores, fornecendo-lhes estrutura física, materiais, além de outros recursos, a fim de contribuir para a criação de um ambiente onde os conhecimentos possam ser gerados e compartilhados.

Desta forma, as incubadoras de empresas, configuram-se como organizações do conhecimento, sabem da importância que estes recursos têm em suas atividades e em toda à sua estrutura. São capazes de criar, estimular e difundir o conhecimento pessoal e organizacional. Buscam preparar os empreendimentos, bem como os empreendedores e toda a sua equipe a efetivar-se e manter-se atuante no mercado altamente competitivo e complexo.

Referências

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[1] Professor do Curso de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Câmpus de Três Lagoas (UFMS-CPTL).

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