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Os(as) bibliotecários(as) na pós-pandemia: Desafios e perspectivas na era das fake News

RC: 57150
239
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/os-bibliotecarios

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SANTOS, Josué Pereira da Silva [1]

SANTOS, Josué Pereira da Silva. Os(as) bibliotecários(as) na pós-pandemia: Desafios e perspectivas na era das fake News. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 08, Vol. 04, pp. 05-20. Agosto de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/os-bibliotecarios, DOI: 10.32749/www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/os-bibliotecarios

RESUMO

Apresenta conceitos sobre desinformação, fake news e pós-verdade. Discute e reflete sobre os desafios dos profissionais da informação diante da desinformação disseminada sobretudo durante o período de isolamento social no Brasil. Analisa o presente, passado e possível futuro dos (as) bibliotecários (as) diante da pandemia causada pelo novo coronavírus. Estabelece diferenciação entre os conceitos de desinformação, fake news e pós-verdade. Utiliza da abordagem qualitativa e bibliográfica a fim de compreender os conceitos, discussões e abordagens da informação e desinformação, apresentando dados relevantes sobre a disseminação de fake news e algumas das consequências geradas pelo compartilhamento de notícias falsas. Conclui que o (a) bibliotecário (a) precisará se reinventar para uma nova sociedade tecnológica e que este profissional deverá estar atento (a) com as novas mudanças e no compromisso incisivo com a credibilidade informacional a fim de combater a desinformação e promover habilidade e competências informacionais em seus usuários.

Palavras-chave: Desinformação, bibliotecário (a), fake News, pandemia.

1. INTRODUÇÃO

Desde dezembro de 2019, o mundo começa a ouvir rumores de um surto epidêmico de pneumonia na China, algo até então insignificante ou de inimagináveis proporções para países europeus ou americanos. Contudo, ao decorrer dos dias esse contágio foi se espalhando e nos deparamos com uma nova doença nomeada de SARS-CoV-2, conhecida também como COVID-19 ou Novo Coronavírus. Foi alarmante a contaminação que demorou cerca de 4 meses para registrar casos em todos os continentes do mundo. Declaramos uma Pandemia Mundial e tomarmos medidas como o isolamento social, uso obrigatório de máscaras e fechamento de indústrias, serviços de turismo, atividades religiosas, culturais, empresas de pequeno, médio ou grande porte etc.

No Brasil, as portas de instituições educacionais foram as primeiras a fechar e consequentemente deparamos com uma situação nunca vivenciada de forma tão visível, o denominado Home Office ou Trabalho em Casa tornou-se rotina dos profissionais, assim como também os Professores, em sua maioria, assumiram as aulas remotas e o(a) bibliotecário(a) teve que repensar todos os serviços e ações para demonstrar a importância de seu trabalho e ganhar visibilidade diante do contexto educacional.

Contudo, os bibliotecários(as), além de se depararem com uma nova realidade forçada pelas circunstâncias, encontraram desafios da informação diante da avalanche de fake news e de um futuro profissional ainda obscuro para muitos, aqueles(as) que ainda percebem as tecnologias como uma rival do serviço informacional e de ameaça ao papel do(a) bibliotecário(a).

Diante deste cenário de fake news e pandemia, o presente artigo busca refletir sobre a seguinte problemática: Quais possíveis desafios os bibliotecários(as) devem enfrentar para contrapor fake news em um cenário pós-pandemia? Ainda assim, têm-se um olhar para a questão sobreposta de discussão: Qual o futuro dos(as) bibliotecários(as) na pós-pandemia?

A fim de discutir possíveis respostas para estas questões, o presente trabalho destaca que o objetivo geral desta pesquisa consiste em fazer uma análise conceitual e reflexiva a respeito do futuro dos(as) bibliotecários(as) em um cenário pós-pandemia, visto uma evolução de uso das tecnologias e consequentemente da disseminação de desinformação exacerbada durante a obrigatoriedade do isolamento social.

Para atender a necessidade deste objetivo geral, tem-se os seguintes objetivos específicos: a) Conceituar fake news, desinformação e informação. b) Listar e refletir os desafios dos(as) bibliotecários(as) diante do cenário de pandemia. c) Buscar reflexões a respeito dos comportamentos e competências necessárias para o(a) bibliotecário diante da nova realidade pós-pandemia. d) Analisar os aspectos prejudiciais das fake news perante a informação e ao profissional da informação, o(a) bibliotecário(a).

A metodologia deste estudo tem uma abordagem qualitativa, tendo em vista a concepção de Mascarenhas (2012) que considera a abordagem qualitativa como uma técnica metodológica de investigação do objeto com profundidade, tendo maior liberdade para desenhar os procedimentos necessários e sem buscar dados estatísticos para a comprovação de resultados. Essa pesquisa também se embasa na proposta de Gil (2017), sendo assim é classificada como pesquisa bibliográfica sendo que sua elaboração consiste no levantamento de materiais já publicados e se embasa nestes materiais para a definição de conceitos, reflexões e análises a respeito do objeto deste estudo que é especificamente os desafios enfrentados por bibliotecários(as) perante às fake news em um cenário de pós-pandemia.

O presente artigo trabalha com o levantamento de 3 capítulos teóricos denominados Passado, Presente e Futuro da informação e a importância dos(as) bibliotecários(as) neste novo cenário global, tendo em vista um contraponto razoável da situação deste profissional perante a uma análise estrutural de conjuntura e os possíveis desafios que deverão ser superados neste campo da biblioteconomia. Sendo assim, o próximo tópico apresentaremos conceitos e reflexões à cerca da informação, das fake news e dos(as) bibliotecários(as) em um passado não muito distante.

2. NO PASSADO: SURGE UMA AMEAÇA PARA A INFORMAÇÃO

Qual será a fórmula da Coca-Cola? Quais segredos esconde a biblioteca do Vaticano? O que esconde a Nasa sobre a vida extraterrestre? São perguntas curiosas e que suas respostas são meras informações. Talvez se a sociedade soubesse a fórmula da Coca-Cola não fosse algo ameaçador para a grande multinacional famosa, mas com certeza, essa é uma informação de grande valor comercial para empresas concorrentes no ramo de bebidas. A grande maioria das pessoas já conhece a famosa frase: “Informação é Poder!” que já viralizou como ditado popular, e de certa forma é consistente a afirmação se compreendemos como a informação se torna relevante para o campo social e científico. A necessidade de informação abrange todos os campos sociais e mesmo as pessoas que não usam da informação como objeto de trabalho e estudo, ainda assim, necessitam de informações constantemente, como por exemplo, ao procurar informações de suas contas bancárias, quantos seguidores curtiram sua última publicação no Instagram ou qual o preço do celular desejado em empresas virtuais. Necessitamos de informações de forma diária, mas será que sabemos onde buscar a informação de forma eficaz e que supram nossas necessidades?

São muitas perguntas a respeito da informação e sabe-se que a informação faz parte da constituição social e suas relações. Contudo, entender os conceitos de informação não é uma tarefa fácil, pois estes estão repletos de encargos e interpretações em diversos campos científicos. Ainda assim, a informação possui uma base interpretativa muito mais aguçada no campo da Ciência da informação. Capurro (2003) identifica três modelos básicos de desenvolver uma reflexão acerca da informação de acordo com o campo da ciência da informação, este categoriza a informação em três modelos: como um elemento físico, ou seja, que necessita de um suporte para a comprovação de sua materialidade. Em um segundo momento Capurro (2003) verifica que a informação também pode estar associada a dimensão cognitiva, ou seja, considerando os conhecimentos pré-existentes do indivíduo para a compreensão e definição da informação, fazendo sentido para seu receptor. Por último e mais elevado, a informação se estabelece como um fenômeno de natureza intersubjetiva e social. Neste último, a informação é vista como um elemento constitutivo da intersubjetividade social que não se cria ou se determina de forma isolada. A informação se estabelece se os sujeitos não a compreendem, conhecem e utilizam. Sendo assim, o sentido da informação é se transformar em conhecimento. Os modelos de informação apresentados por Capurro (2003) apresentam conceitos relevantes para entender a informação, primeiramente como um elemento que necessita de um veículo ou suporte para se estabelecer, segundo quanto um elemento que depende do indivíduo que busca interpretá-la através da cognição humana e terceiro e mais relevante como um meio de transformação social e produtora de conhecimento.

Em 2016 durante as eleições presidenciais entre Donald Trump e Hillary Clinton, a informação começa a ser ameaçada pelas suas rivais, a desinformação e as fake news. Neste período de eleições, como afirma D’Ancona (2018) o termo fake news ganhou popularidade exacerbada e já se tornava difícil distinguir entre a verdade e a mentira dos fatos, adentrando em uma era que o autor denomina como Pós-verdade. Não foi diferente no Brasil, o interesse político nas eleições de 2018 tomou conta das redes sociais e robôs de transmissão de notícias falsas começaram uma guerra entre a veracidade dos fatos, confundindo os eleitores.

Antes de relacionar o perigo das fake news e da desinformação na pandemia, precisa-se conceituar e distinguir o que são de fato os termos: fake news, desinformação e pós-verdade.

Ainda que em muitos lugares os termos fake-news, desinformação e pós-verdade denotem o mesmo significado para mentiras ou notícias falsas, ainda assim, existem particularidades relevantes em cada um destes termos que são relevantes ao discutir sobre fake news na era da pós pandemia.

Em primeiro lugar, o termo Pós-verdade ou originalmente denominado de “Pós Truth” é um verbete apresentado pelo Dicionário Priberam (2017) para significar o evento de opinião pública que ignora a veracidade dos fatos, enraizando apelos emocionais e a supervalorização de crenças e ideais. Ainda neste sentido, D’Ancona (2018) reflete que a era da Pós-verdade torna-se uma preocupação, pois neste cenário, o cidadão se corrompe com a indiferença dos fatos, pauta-se em emoções e minimiza o valor da verdade perante os aspectos de crença, emoções e ideologias. Paula, Silva e Blanco (2018) reafirmam que a Pós-verdade tem o objetivo de fragilizar o desenvolvimento do conhecimento e senso crítico para a reafirmação de valores e crenças pessoais baseando-se em insinuações.

Ao compreender que a Pós-verdade refere-se a um sentimento social pautado em emoções que designam a indiferença social perante a verdade para reafirmar crenças e ideologias, conceitua-se as fake news ou notícias falsas como uma ferramenta que se alimenta da era Pós-verdade para se legitimar e viralizar. De acordo com Farkas e Schou (2016, online):

O conceito de fake news tornou-se um componente importante nas lutas políticas contemporâneas e passou a ser utilizado por diferentes posições dentro do espaço social como meio de desacreditar, atacar e deslegitimar adversários políticos.  (FARKAS; SCHOU, 2018).

Neste sentido, as fake news tornam-se ferramentas de ataque a adversários políticos e um elemento preocupante para a informação diante da indiferença social na era da Pós-verdade. Ainda neste conceito, de acordo com Allcott e Gentzkow (2017) as fake news são artigos intencionalmente produzidos com intenções de enganar. Neste contexto, entende-se a necessidade de produção e compartilhamento de notícias falsas a fim de manter-se no poder a partir da deslegitimação do adversário, de ganhar seguidores e de arrecadar dinheiro com o acesso e compartilhamento.

Ainda assim, algumas pessoas não compartilham informações com a intenção de enganar ou desconhecem a informação verídica e por isso acabam favorecendo os criadores de fake news. Neste caso, outro termo precisa ser conceituado, a desinformação.

De acordo com Pinheiro e Brito (2014) a desinformação não pode ser considerada apenas a exclusão de informação para a sociedade, mas está também relacionada ao consumo de produtos e informações de baixo valor cultural e informacional. Quem nunca se deparou com uma informação incompleta ou mal explicada? A desinformação engloba todo tipo de informação falsa, aquelas que são produzidas intencionalmente com o objetivo de ataque e desmoralização, como também aquelas que não se explicam por completo, que se apresentam descontextualizadas.

Sendo assim, entende-se várias são as características e estratégias de desinformação e que se agregam tornando uma sociedade repleta de ódio que descredibiliza a verdade e desmoraliza a ciência se pautando em emoções, em boatos, crenças e ideologias. Neste contexto social, a informação de credibilidade e os veículos informacionais se esforçam para se reerguer e se reafirmarem para a sociedade, mesmo em assuntos e teses já comprovadas pela ciência, como no caso da esfericidade da terra, em que hoje já aparecem grupos que desmoralizam tais conceitos e põe em choque o método científico.

Ao esclarecer os conceitos e abordagem para as grandes ameaças da informação, dentre elas a Pós-verdade, às fake news e a desinformação, parte-se para uma nova abordagem, os desafios da informação no presente.

3. NO PRESENTE: A FRAGILIDADE DA INFORMAÇÃO NA ERA DA PANDEMIA

Durante a Pandemia causada pelo novo Coronavírus com o sistema de saúde a beira do colapso no Brasil e as determinações governamentais para frear a contaminação, surgem inúmeras notícias falsas sobre o vírus. De acordo com Dino (2020) em uma matéria publicada no dia 19 de junho de 2020 para o Estado de Minas Internacional relata que a disseminação de fake news na pandemia em um estudo produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com materiais coletados entre 17 de março e 10 de abril, demonstrou que 65% das fake news que estavam circulando e sendo compartilhadas envolviam curas caseiras para o COVID-19, como exemplo na imagem a seguir de notícia compartilhada pela rede social do WhatsApp:

Figura 1 – Fake News água quente ou fria para matar o coronavírus

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020, online[2]
A notícia sobre a vulnerabilidade do vírus perante água quente e fria foi compartilhada pelas redes sociais, sobretudo pelo WhatsApp. Estes tipos de desinformação acabam sendo absorvidas por diversos indivíduos que não buscam averiguar a credibilidade ou veracidade dos fatos. Sendo assim, a desinformação perante este período de pandemia colocou em risco não apenas a ciência e os pesquisadores, mas também, a saúde e vida da população.

De acordo com Dino (2020) a Fiocruz em seu estudo sobre as fake news na pandemia 5,7% das desinformações estavam relacionadas a golpes bancários e 5% tratam-se de golpes em projetos para arrecadar recursos à instituições de pesquisa e 4,3% trataram a doença como uma manobra política.

Um outro caso de desinformação que foi popularizado e se tornou famoso durante a pandemia foi o vídeo que demonstrava supostamente um apelo midiático para alarmar a população e as imagens mostravam pessoas desenterrando caixões vazios no Amazonas. Contudo, não passava de uma desinformação, onde a data de publicação do vídeo era anterior ao próprio surgimento do vírus e se tratava de um golpe de seguro registrado no ano de 2017. De acordo com o site de verificação da Agência Lupa duas imagens foram publicadas e uma de fato era uma fila de caixões em vala comum e que supostamente estariam vazios, a imagem foi publicada originalmente pelo jornal da Band e que negou a informação. O título da publicação também chamou a atenção dos internautas e que de acordo com a Agência Lupa “Texto em post no Facebook que, até as 12h de 29 de abril de 2020, tinha mais de 6,5 mil compartilhamentos” (MORAES, 2020, online).

Figura 2 – Fake News: Caixões vazios no estado do Amazonas

Fonte: MORAES, 2020, online[3]
Diante da avalanche de notícias falsas e desinformação no período da pandemia, os(as) bibliotecários(as), assim como demais profissionais da informação, assumem novos desafios, o de combate a desinformação com a informação de credibilidade e a alerta sobre a veiculação de notícias falsas. Quanto fala-se desses desafios do profissional da informação, sobretudo do(a) bibliotecário(a) não se refere a uma obrigatoriedade com o combate às notícias falsas, mas sim, de um compromisso com a informação de qualidade e de credibilidade para seus usuários, amigos e contatos próximos.

Ainda neste período de pandemia, o(a) bibliotecário(a) se deparou com um desmonte de estereótipos e com a reinvenção de serviços ofertados pela biblioteca, sobretudo quando se refere ao livro físico e espaço de estudo. Pois agora estes serviços precisavam ter um novo olhar perante a realidade do isolamento e distanciamento social.

Corrêa e Custódio (2018, p. 211) afirmam que a missão do(a) bibliotecário(a) está relacionada as novas circunstâncias do ambiente virtual:

[…] a missão do bibliotecário nos dias de hoje, disposto de um leque infinito de interagentes com acesso aos mais diversificados conteúdos online deve ser repensada em torno de uma nova configuração de competências direcionadas a esta realidade, caracterizada por um contexto político, econômico, social e cultural específicos da era da pós-verdade e que possam prover às comunidades respostas às suas demandas informacionais (CORRÊA; CUSTÓDIO, 2018, p. 211).

Nestas circunstâncias o(a) bibliotecário(a) tem o papel fundamental de repensar os serviços e ações para dispor a informação de credibilidade em um novo suporte, o digital. Portanto, além do papel ético de dispor da informação de credibilidade o(a) bibliotecário(a) tem a missão de se integrar às novas demandas informacionais e propor estes serviços aos usuários, a fim de desenvolver competências informacionais para a busca e uso da informação. No próximo tópico buscaremos discutir o futuro não muito distante da pós-pandemia e os desafios para o(a) bibliotecário(a) neste novo cenário global.

4. NO FUTURO: NOVOS RUMOS DO(A) BIBLIOTECÁRIO(A) NA PÓS PANDEMIA

A proposta deste capítulo não está em adivinhar o futuro dos(as) bibliotecários(as) na era pós pandemia, mas sim, racionalizar alguns dos possíveis desafios e estratégias que poderão ser estruturadas por estes profissionais para facilitar o desenvolvimento de produtos e serviços informacionais mesmo diante de inúmeras desinformações sendo disseminadas constantemente em redes de comunicação, seja por indivíduos ou robôs de disparo de fake news.

Vale ressaltar que a pós pandemia ainda é um mistério, mas durante o período que vivenciamos em escala global nos forçou a aprender um pouco mais sobre tecnologia e a experimentar recursos desconhecidos ou pouco utilizados para se manter conectado ao trabalho, escola, família, ao comércio, lazer etc. Para isso, muitos recursos tecnológicos durante este período ganharam maior destaque como o home office, as plataformas de ensino a distância (EAD), bases de dados, delivery, aplicativos de vídeos, ebooks etc.

O(a) bibliotecário(a) ao buscar se adaptar em uma nova realidade começou-se a desenvolver serviços virtuais de forma mais incisiva e clara. Neste sentido, o profissional bibliotecário(a) assume novas responsabilidades de acordo com a necessidade e mudança social, como afirma Coelho Neto (1996, p. 5):

O papel do Bibliotecário na sociedade está se alterando devido às novas tecnologias de informação e comunicação. Novas formas de trabalhar surgiram porque novas ferramentas foram criadas para o controle, organização e disseminação da informação. O profissional não está mais limitado ao espaço físico da biblioteca; agora ele trabalha com vários suportes em que a informação está registrada, onde o usuário passa a ser o foco principal e não mais o acervo, ao mesmo tempo que a disseminação passa a ter mais importância que a preservação da informação. (COELHO NETO, 1996, p. 5).

Diante das novas tecnologias e novas necessidades informacionais, como no caso do crescimento massivo de conteúdo de desinformação e o surgimento de novas tecnologias e suportes que evoluem a capacidade de acesso e velocidade de propagação de conteúdo, este bibliotecário(a) assume a responsabilidade do combate à desinformação e a preservação da credibilidade informacional. Competências estas, essenciais na formação do(a) bibliotecário(a) e que se torna emergente diante da nova realidade social causada pelo coronavírus.

Quando se diz que é competência essencial do(a) bibliotecário(a) o zelo pela informação e o combate às fake news refere-se essencialmente ao cuidado com o compartilhamento, a denúncia de informações enganosas e a checagem da informação a fim de esclarecer ao seu usuário quais os processos para checagem dos fatos e auxiliar no letramento informacional destes indivíduos a fim de que consigam desenvolver a pesquisa, checagem e avaliação da informação e de suas fontes, desenvolvendo competências informacionais.

Diante disso o Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB) da 1ª Região em uma nota de repúdio contra à disseminação de fake news fortalece o papel do(a) bibliotecário(a) no aprimoramento da democracia e no compromisso com a informação:

Estamos seguros que o bibliotecário é agente essencial no combate a desinformação, responsável por evitar ações enganosas, pois se preocupa com a veracidade do conteúdo produzido e disseminado, e parte importante no aprimoramento efetivo da democracia brasileira. (CRB, 2018, online).

Além de reafirmar a segurança e confiança no papel do bibliotecário no combate a desinformação, o CRB (2018) ainda propõe algumas ações importantes para verificar a credibilidade informacional diante da notícia, dentre elas, propõe: 1- Verificar onde a informação foi publicada, pois isso diz muito sobre a intencionalidade da notícia; 2- Realizar a leitura completa do texto em questão pois às vezes o título pode enganar o leitor; 3- Confrontar a informação com outros veículos e canais de comunicação sem esquecer de checar a data de publicação; 4- Pesquisar sobre os autores pois muitas vezes o texto sem identificação de autoria pode ser uma armadilha; 5- Use a biblioteca como fonte segura de informação, pois o(a) bibliotecário(a) “é o profissional habilitado para desmascarar informações propositalmente falsas e enganosas” (CRB, 2018, online).

Saber como desmascarar desinformações e fake news são elementos essenciais e desafiadores diante da pós pandemia para o(a) bibliotecário(a), tendo em vista que as informações falsas e enganosas cada vez mais se apresentam robustas e imperceptíveis para a população, sobretudo aqueles(as) indivíduos que se estabelecem na pós-verdade e sobrepõem a emoção sobre a razão. Ainda para facilitar a verificação das notícias, a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA) estabelece algumas ações essenciais para desmascarar as notícias falsas e enganosas, apresentadas na figura a seguir.

Figura 3 – Observâncias para identificar fake news

Fonte: IFLA, 2020, online[4]
Estas ações apresentadas pela IFLA (2018) facilitam na checagem de notícias e são orientações que cabem a qualquer usuário da informação que busca checar a notícia antes do compartilhamento. Ressalta-se que é relevante verificar a credibilidade e veracidade da informação, pois a desinformação pode causar diversos danos psicológicos e até mesmo, como no caso das fake news na área da saúde que podem causar mortes ou complicações no estado de saúde das pessoas.

Outros desafios que o(a) bibliotecário(a) deverá estar atento(a) na pós-pandemia são os serviços ofertados, que garantam segurança e saúde, de maneira virtual ou mesmo presencial é preciso observar os protocolos estabelecidos. Neste sentido é preciso pensar em serviços adaptados e acessíveis ao usuário.  Um dos grandes questionamentos diz respeito a necessidade do empréstimo presencial de obras em bibliotecas físicas. Um dos serviços que poderia ser ofertado nessa circunstância seria o empréstimo Drive Thru, mas vale ressaltar que de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) o coronavírus sobrevive sobre a superfície de papel, obra prima do livro impresso, por 5 dias (MARTINS, 2020). Por este motivo, os cuidados de quarentena do livro também devem ser observados nestes casos.

É importante também que o(a) bibliotecário(a) fortaleça o contato com o usuário(a) através de serviços remotos, como o serviço de referência a fim de realizar levantamentos bibliográficos que é a busca exaustiva sobre o assunto de interesse do usuário; A alimentação de plataformas com materiais digitais; O desenvolvimento e alimentação de redes sociais da biblioteca a fim de esclarecer serviços e informações relevantes sobre a organização e o atendimento personalizado por canais acessíveis de comunicação. Muitas das instituições e profissionais estão adaptando e promovendo serviços em diversos lugares de acordo com as circunstâncias, realidades e recursos disponíveis, o que é de grande valor para manter o organismo da biblioteca vivo e presente para o usuário.

O combate ao coronavírus é uma preocupação mundial, assim como deveria ser também a preocupação com a disseminação da informação falsa e enganosa. Como o vírus da COVID-19 se estabelece causando danos e destruindo a saúde de diversas famílias, a desinformação atinge grande número de pessoas também de forma veloz e favorece a destruição do conhecimento e da ciência, assim como relações familiares, da saúde física e mental e pode destruir também a vida do outro(a). É preciso uma força tarefa no compromisso do(a) bibliotecário(a) em combater a desinformação e desenvolver habilidades e competências em seus usuários para a busca da informação com credibilidade a fim de fortalecer a verdade e paz na democracia do país e na vida de seus cidadãos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em 2020 nos deparamos com uma circunstância radical que ameaçava a saúde das pessoas, a economia, a educação e os diversos setores sociais, a biblioteca e o(a) bibliotecário(a), por sua vez, não escaparam da pandemia e das adaptações necessárias dentro deste novo contexto mundial. Além do coronavírus causar desastres a nível mundial, outro elemento que já causava danos a sociedade, a informação e a ciência que são às fake news e a desinformação ameaçam de forma incisiva a área da saúde.

O(a) bibliotecário(a) teve que se adaptar a esta nova realidade e manter o compromisso da credibilidade informacional de buscar os mecanismos necessários no combate as notícias falsas e desenvolver competências e habilidades informacionais em seus usuários para buscar, analisar e utilizar a informação verídica e de credibilidade. Além dos desafios causados pela grande quantidade de notícias falsas disseminadas no período de pandemia, o(a) bibliotecário(a) enfrenta desafios sobre a disposição de serviços, conteúdos e ações para a biblioteca, tendo que se reinventar diante de uma nova realidade social.

A problemática desta pesquisa foi respondida com êxito, trazendo reflexões a partir dos desafios enfrentados pelos(as) bibliotecários(as) em relação ao grande volume de desinformações geradas diante da pandemia causada pelo Coronavírus e esclarecendo os impactos gerados pela ascensão das fake news e da desinformação, apresentando algumas ações da IFLA (2018) e do CRB (2018) que facilita a checagem de informações e discutem possíveis ações e serviços que os (as) bibliotecários (as) deverão repensar na pós pandemia.

Os objetivos desta pesquisa foram atendidos, tendo em vista que se buscava uma reflexão e discussão conceitual a respeito dos desafios enfrentados pelos(as) bibliotecários(as) na pós pandemia e as possíveis adaptações de produtos e serviços que serão necessários para o atendimento ao usuário da informação. Ainda assim apresentou-se a relevância da informação de credibilidade e as ameaças da desinformação para o bem-estar social.

Por fim, este estudo apresentou uma discussão conceitual, refletindo sobre o passado, presente e futuro a respeito das destruições causadas pela desinformação e as ações necessárias ao profissional bibliotecário(a). Neste sentido esta pesquisa pode ser base para outras pesquisas e reflexões sobre o futuro dos(as) bibliotecários(as) diante das fake news e das exigências tecnológicas de uma nova sociedade na pós pandemia.

REFERÊNCIAS

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MORAES, Maurício. #Verificamos: Foto e vídeo de caixão vazio são antigas e não têm relação com enterros por Covid-19 no Amazonas. Folha de São Paulo, Rio de Janeiro: Agência Lupa. 29 abr. 2020. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/29/verificamos-foto-caixao-vazio-enterros-covid-19-amazonas/. Acesso em: 28 jul. 2020.

PAULA, L. T. de; SILVA, T. dos R. S. da. BLANCO, Yuri Augusto. Pós verdade e fontes de informação: um estudo sobre fake news. In: Revista do conhecimento em ação, Rio de Janeiro, RJ, v.02, n.1, p.93- 110, jan./jun. 2018. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/view/16764. Acesso em: 28 jul. 2020.

PINHEIRO, Marta Macedo Kerr; BRITO, Vladimir de Paula. Em busca do significado da desinformação. DataGramaZero: revista de informação, v. 15 n. 6. 2014.

APÊNDICE – REFERÊNCIAS DE NOTA DE RODAPÉ

2. Disponível em: https://www.saude.gov.br/fakenews/46577-tomar-ou-bebidas-quentes-para-matar-o-coronavirus-e-fake-news. Acesso em: 28 jul. 2020.

3. https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/29/verificamos-foto-caixao-vazio-enterros-covid-19-amazonas/. Acesso em: 28 jul. 2020.

4. Disponível em: www.ifla.org/III/wsis/BeaconInfSoc-pt.html. Acesso em: 10 jun. 2020.

[1] Mestrando em Comunicação (Eixo de Mídia e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação – Universidade Federal de Goiás); Pós-graduado em Formação de Professores na Era da Complexidade (Instituto de Pós-Graduação e Graduação); Especialista em Letramento Informacional (UFG); Bacharel em Biblioteconomia (UFG).

Enviado: Agosto, 2020.

Aprovado: Agosto, 2020.

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Josué Pereira da Silva Santos

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