Biologia

Interações entre malassezia restricta e o micobioma humano: uma perspectiva abrangente

ARTIGO DE REVISÃO

BERLOFA, Maria Vitória Cavalheiro [1], SIQUEIRA, Ana Carolina de Oliveira Ramos [2], MARIA, Yara Natércia Lima Faustino de [3], OLIVEIRA, Rafaela de Campos [4], TAKAO, Paulo Salarrola [5], SILVA, Ana Clara da [6], NATUCCI, Milena Coutinho [7], MENEGIDIO, Fabiano Bezerra [8], JABES, Daniela Leite [9]

BERLOFA, Maria Vitória Cavalheiro et al. Interações entre malassezia restricta e o micobioma humano: uma perspectiva abrangente. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 08, Vol. 01, pp. 21-34. Agosto de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/biologia/interacoes-entre-malassezia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/biologia/interacoes-entre-malassezia

RESUMO

Introdução: Malassezia é o fungo mais prevalente identificado na microbiota da pele humana. O papel da Malassezia permanece controverso porque este gênero tem sido associado tanto a pele saudável como em patologias. No entanto, com o desenvolvimento de métodos de sequenciamento de nova geração, ampliou-se a descrição sobre a diversidade fúngica de várias microbiotas. Assim, a Malassezia vem sendo identificada como um fungo residente em diversos nichos anatômicos saudáveis e em disbiose. Objetivo: realizar uma revisão narrativa sobre a presença da Malassezia restricta no micobioma humano. Metodologia: consulta da base de dados Pubmed, com seleção de artigos publicados entre os anos de 2011 e 2021. Revisão de Literatura: foram selecionados 14 estudos que identificaram membros do gênero Malassezia em nichos anatômicos como o oral, intestinal e aparelho respiratório, tanto na saúde, como em condições patológicas. Porém, sua presença em quadros inflamatórios intestinais, em especial na doença de Crohn e colite, vem ganhando destaque na literatura. Além disso, um crescente número de evidências vem demonstrando que essa espécie pode estar associada à Doença de Crohn (DC) e Colite Ulcerativa (UC), ambas caracterizadas por inflamação da parede do trato digestivo. Conclusão: Malassezia restricta pode estar associada a doenças, especialmente as relacionadas ao intestino humano. Esses fungos foram encontrados em abundância em amostras fecais, tanto em contextos saudáveis quanto em contextos patológicos. Estudos futuros com o intuito de aumentar a nossa compreensão sobre a Malassezia na disbiose intestinal, bem como em outros órgãos, podem levar a novas abordagens terapêuticas direcionadas a este gênero específico.

Palavras-chave: Malassezia restricta, Microbioma fúngico, Micobioma, Disbiose.

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, tem-se observado uma mudança fundamental de paradigma  na compreensão dos microrganismos, sendo  agora aceite que todos os eucariotas são metaorganismos que, juntamente com a sua microbiota, devem ser considerados  como unidades funcionais inseparáveis1. Por exemplo, o microbioma intestinal humano é agora considerado um ecossistema complexo e diversificado povoado por microrganismos como bactérias, fungos, arquéias e vírus que desempenham um papel fundamental na saúde do hospedeiro2,3.

Mesmo com o crescimento dos estudos que buscam caracterizar o microbioma em humanos, esses projetos, em sua maioria, se concentram na caracterização bacteriana. Até o momento, poucos estudos sobre o micobioma vem sendo realizados quando comparados àqueles que se dedicam ao microbioma2, 3. No entanto, mesmo com a baixa prevalência desses estudos na literatura científica, novos métodos independentes de cultura para determinar a diversidade microbiana possibilitaram aos cientistas começar a descobrir a identidade de fungos comensais e determinar seu papel na saúde e nas doenças humanas4.

O gênero Malassezia compreende mais de 14 espécies que são reconhecidas como membros do microbioma humano saudável. Essas leveduras de brotamento unipolar, dimórficas e lipofílicas colonizam áreas sebáceas da pele, como as faces, couro cabeludo e parte superior do tronco. Mais recentemente, este gênero tem sido relatado como causador de infecções sistêmicas oportunistas5.

Nesse sentido, membros do gênero Malassezia são os principais componentes da microbiota fúngica da pele de vários mamíferos e M. globosa, M. restricta, M. sympodialis e M. furfur são as espécies mais comumente identificadas. O gênero também foi associado a doenças de pele humana, como Dermatite Seborréica (SD), Dermatite Atópica (AD), Pitiríase Versicolor (PV) e foliculite de Malassezia6. Embora tenha sido considerado um fungo estritamente localizado na pele, o gênero Malassezia vem sendo identificado regularmente em várias outras localizações, como leite materno humano, sistema nervoso central e intestino7, 8, 9.

Dentre as mais de 14 espécies identificadas no gênero Malassezia, destaca-se a Malassezia restricta, uma das mais abundantes na microbiota da pele e uma das mais relacionadas a doenças inflamatórias e síndromes intestinais9. As doenças inflamatórias intestinais (DII) são os desequilíbrios mais estudados entre micróbios e o sistema imunológico. Doença de Crohn (CD) e a Colite Ulcerativa (UC) são dois exemplos de DIIs em que se observa a presença de uma microbiota característica da disbiose10.

Assim, a partir desse panorama, um estudo mais aprofundado se faz necessário para avaliar a presença de diferentes espécies fúngicas, principalmente do gênero Malassezia, no micobioma humano. O presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão narrativa sobre a presença da Malassezia restricta no micobioma humano em indivíduos saudáveis e com patologias.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão da literatura atual, em que foram selecionados artigos científicos indexados no PubMed. Nesse estudo foram incluídos trabalhos publicados na íntegra, de 2011 a 2021, no idioma inglês, nas modalidades artigo original e revisão da literatura. A pesquisa na base de dados utilizou os termos delimitadores “Malassezia restricta” e/ou “disease”, “microbiome” e “mycobiome” em conjunto com o operador booleano AND para restringir os descritores (Figura 1). Esse processo envolveu atividades de busca, identificação, fichamento de estudos, mapeamento e análise de dados.

Figura 1 – Fluxograma representativo da metodologia de pesquisa empregada durante a revisão narrativa

Fonte: os autores, 2021.

3. RESULTADOS

Após a pesquisa na base de dados foram identificados 15 artigos científicos que passaram pelos critérios de inclusão, sendo 1 excluído da análise, uma vez que se tratava de um modelo de estudo de microbioma em Felídeos, e não em humanos, tema do trabalho (Tabela 1).

Tabela 1: Artigos obtidos durante a pesquisa na base de dados PubMed após aplicação de filtros descritos na metodologia

N Autores (Ano) Título do Trabalho Revista Publicada
1 Perera et al., 2017 A dysbiotic mycobiome dominated by Candida albicans is identified within oral squamous-cell carcinomas J Oral Microbiol
2 Fidel et al., 2021 Effect of HIV/HAART and Other Clinical Variables on the Oral Mycobiome Using Multivariate Analyses mBio
3 Kragelund; Keller, 2019 The oral microbiome in oral lichen planus during a 1-year randomized clinical trial Oral Dis.
4 Kim et al., 2021 Inferences in microbial structural signatures of acne microbiome and mycobiome J Microbiol

 

5 Xu et al., 2021 Skin Microbiota in Non-inflammatory and Inflammatory Lesions of Acne Vulgaris: The Underlying Changes within the Pilosebaceous Unit Mycopathologia
6 Suzuki et al., 2021 Scalp Microbiome and Sebum Composition in Japanese Male Individuals with and without Androgenetic Alopecia Microorganisms
7 Tao; Li; Wang, 2021 Skin microbiome alterations in seborrheic dermatitis and dandruff: A systematic review Exp Dermatol
8 Stehlikova, et al., 2019 Dysbiosis of skin microbiota in psoriatic patients: co-occurrence of fungal and bacterial communities. Front Microbiol
9 Xu et al., 2020 Changes and roles of intestinal fungal microbiota in coronary heart disease complicated with nonalcoholic fatty liver disease Am J Transl Res
10 Jayasudha et al., 2019 Implicating Dysbiosis of the Gut Fungal Microbiome in Uveitis, an Inflammatory Disease of the Eye Invest Ophthalmol Vis Sci
11 Yalcin et al., 2022 (Epub 2021) Intestinal mycobiota composition and changes in children with thalassemia who underwent allogeneic hematopoietic stem cell transplantation Pediatr Blood Cancer
12 Hamad et al., 2018 Metabarcoding analysis of eukaryotic microbiota in the gut of HIV-infected patients PLoS One
13 Limon et al., 2019 Malassezia is associated with Crohn’s disease and exacerbates colitis in mouse models Cell Host Microbe
14 Gelber et al., 2016 Evaluation of Malassezia and Common Fungal Pathogens in Subtypes of Chronic Rhinosinusitis Int Forum Allergy Rhinol

Fonte: os autores, 2021

Dentre os 14 trabalhos selecionados, 12 (85,71%) eram artigos originais, enquanto 2 (14,28%) eram revisões da literatura. Além disso, 6 haviam sido publicados em 2021, 1 artigo havia sido publicado em 2020, 4 artigos em 2019, 1 artigo em 2018, 1 artigo em 2017 e 1 artigo em 2016. Nenhuma publicação foi encontrada, utilizando os unitermos desse trabalho (metodologia) entre 2011 e 2015.

Entre os artigos selecionados, 5 tratavam sobre microbioma cutâneo, 2 focaram sua análise no microbioma oral, 6 reportavam estudos a respeito do microbioma intestinal ou de doenças intestinais e 1 estudava o microbioma do aparelho respiratório.

4. DISCUSSÃO

4.1 MALASSEZIA RESTRICTA ASSOCIADA AO MICROBIOMA ORAL

Microrganismos orais formam comunidades homeostáticas que vivem em uma relação mutualística com o hospedeiro. No entanto, os desafios ecológicos locais podem perturbar o equilíbrio da comunidade e resultar em uma disbiose caracterizada por um perfil de microbioma alterado e com potencial de causar ou contribuir para o desenvolvimento de doenças11, 12.

Em estudo de Perera e colaboradores12 (2021), foi realizada uma análise de micobioma em carcinomas orais, comparando com a microbiota de pacientes saudáveis. Como resultado, a riqueza e diversidade de espécies foram significativamente menores nos pacientes com câncer. Os gêneros Candida, Hannaella e Gibberella estavam super-representados nos pacientes com OSCC (Oral Squamous Cell Carcinoma), enquanto os gêneros Alternaria e Trametes foram mais abundantes em pacientes com FEP (Fibroepithelioma of Pinkus). Dentre as espécies, Candida albicans, Candida etchellsii e Hannaella luteola estavam enriquecidas em OSCC, enquanto Hanseniaspora uvarum, Malassezia restricta e Aspergillus tamarii foram as mais abundantes em FEP. Os autores destacam que o gênero Malassezia, sabidamente encontrado na pele humana, foi identificado recentemente como membro dominante do micobioma salivar12.

Outro estudo analisado neste trabalho diz respeito ao efeito do vírus HIV (vírus da imunodeficiência humana, do inglês, Human Immunodeficiency Vírus) sobre o microbioma e o micobioma. As amostras orais frequentemente apontam predominância de uma das quatro espécies principais, a saber, Candida albicans, Candida dubliniensis, Malassezia restricta ou Saccharomyces cerevisiae. Os dados sugerem que o micobioma oral, embora diverso, é frequentemente dominado por um número limitado de espécies por indivíduo e é afetado por variáveis clínicas que incluem positividade para HIV e HAART (HIV sob Terapia Anti-Retroviral Altamente a=Ativa)11.

Kragelund e Keller13 (2018) realizam estudo envolvendo pacientes acometidos por Líquen Plano Oral (LPO) ao longo de um período de 1 ano para avaliar o impacto do tratamento tópico em estudo duplo-cego. Amostras de 22 pacientes com LPO sintomáticos foram investigadas. Durante o estudo, a espécie M. restricta foi a mais abundante nos pacientes com líquen plano tratados com esteróides13.

4.2 MALASSEZIA RESTRICTA ASSOCIADA AO MICROBIOMA CUTÂNEO

Como o gênero Malassezia é comum na microbiota da pele, diversos estudos relacionando o gênero a doenças dermatológicas foram realizados. Kim e colaboradores14 (2021) investigaram microbiomas e micobiomas de pacientes com acne. Os microorganismos dominantes foram Cutibacterium, Staphylococcus, Malassezia globosa e Malassezia stricta14.

Xu e colaboradores 15 (2021), também usando a acne vulgar como modelo de estudo, estudaram a microbiota da pele em lesões não inflamatórias e inflamatórias. Durante o desenvolvimento do trabalho, pode-se perceber que participantes do sexo masculino, pacientes com Índice De Massa Corporal (IMC) mais alto do que o normal e participantes com menos de 20 anos apresentaram uma proporção maior de Malassezia em suas lesões não inflamatórias do que em lesões inflamatórias. Houve um aumento de M. restricta e Cutibacteruim acnes no grupo não inflamatório. Portanto, o estudo aponta que provavelmente a espécie M. restricta está envolvida no equilíbrio microbiológico dentro da unidade pilossebácea15.

Ainda visando apresentar os dados referentes aos resultados obtidos em nosso trabalho, Tao e colaboradores16 (2021) estudaram a alteração do micobioma cutâneo na Dermatite Seborréica (DS) e caspa (DF – DandrufF) e Suzuki e colaboradores17 (2021) caracterizaram o micobioma do couro cabeludo e a composição do sebo em indivíduos japoneses do sexo masculino com e sem alopecia androgenética. Ambos os trabalhos obtiveram, como espécie predominante, a M. restricta16,17. No estudo de Suzuki e colaboradores6 (2021), o envolvimento da microbiota e micobiota na hipersensibilidade do couro cabeludo e alopecia foi investigado e, como resultado, verificaram que o aumento da colonização por Malassezia e Staphylococcus exacerbou a produção de caspa17.

Para finalizar, o último estudo obtido usado para elaborar este trabalho, com relação ao microbioma cutâneo, foi o de Stehlikova e colaboradores 18 (2019) no qual tratam da disbiose da microbiota cutânea em pacientes psoriáticos. Esse estudo consistiu em investigar como diferentes locais de amostragem e métodos refletem a composição da microbiota da pele. Os autores notaram que as lesões psoriáticas no dorso são predominantemente colonizadas por M. restricta, seguido por M. globosa e M. sympodialis. Além disso, foi possível observar que a proporção de M. globosa para M. restricta é menor nas lesões psoriáticas nas costas em comparação com a pele saudável18.

4.3 MALASSEZIA RESTRICTA ASSOCIADA AO MICROBIOMA INTESTINAL

A pesquisa sobre a relação entre as mudanças na micobiota intestinal associadas às doenças humanas é um campo em crescimento. Alguns fungos, como a espécie M. restricta, comum na pele de humanos e animais, nos últimos anos, vem sendo encontrada no micobioma intestinal em estado de disbiose19.

Pacientes que sofreram de Doença Cardíaca Coronária (CHD) complicada com Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA) apresentam piora na pior função cardíaca e desfechos clínicos do que pacientes apenas com CHD. Nesse sentido, o estudo de Xu e colaboradores20 (2020) propôs investigar as características da microbiota fúngica intestinal em pacientes com CHD complicados com Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (CHD-NAFLD). A abundância de Exophiala attenuata e Malassezia restricta em todos os pacientes com CHD-NAFLD e CHD foram significativamente reduzidas20.

Já Jayasudha e colaboradores21 (2019) investigaram o microbioma fúngico intestinal de pacientes com Uveíte (UVT) comparado com Controles Saudáveis (CS). A riqueza e diversidade de fungos intestinais diminuíram significativamente em pacientes com UVT em comparação com CS. No entanto, as análises mostraram o enriquecimento de vários fungos patogênicos, com destaque para a espécie Malassezia restricta em pacientes com UVT. Apesar da espécie ter ganhado destaque, este é o primeiro estudo demonstrando disbiose nas comunidades de fungos intestinais de pacientes com UVT, indicando a importância do microbioma fúngico na patologia da doença21.

Um importante estudo de Yalcin e colaboradores22 (2021) avaliou a composição da micobiota intestinal humana pré e Pós-Transplante Alogênico De Células Tronco Hematopoéticas (TCTH) em crianças com talassemia. A micobiota pré-transplante de crianças com talassemia mostrou se aproximar das diversas composições de micobiota de doadores adultos saudáveis, (apontando o gênero Saccharomyces como dominante, com 64,1%), mas torna-se alterada (com menor diversidade) após os procedimentos de transplante22. Três meses após o TCTH, as espécies predominantes foram Saccaharomyces_uc e Saccharomyces cerevisiae, Malassezia restricta e Malassezia globosa. No dia 90 após o TCTH, observa-se 65,3% de M. restrita e 18,4% de M. globosa, ou seja, a composição da micobiota de crianças com talassemia alterou-se após o transplante22.

Em um estudo visando avaliar a microbiota prevalente em amostras fecais de pacientes infectados com HIV, desenvolvida por Hamad e colaboradores23 (2018), também foi identificada a espécie Malassezia restricta como a mais prevalente. Destaque também foi dado para as espécies Candida albicans e Candida tropicalis, uma vez que se mostraram significativamente abundantes em amostras fecais de pacientes infectados pelo HIV em comparação com indivíduos sem a doença23.

Com relação a importância da microbiota em diferentes doenças intestinais, recentemente, nosso grupo de pesquisa vem desenvolvendo um projeto de caracterização da composição da microbiota fecal bacteriana, fúngica e viral de camundongos C57BL/6, associadas com o desenvolvimento de caquexia induzida por transplante de células de câncer pulmonar (LLC, Lewis Lung Carcinoma). Durante o estudo, curiosamente apenas duas espécies (Malassezia japonica e Malassezia dermatis) de Basidiomycota foram identificadas como super-representadas nas fezes de animais caquéticos. O estudo também concluiu que a disbiose intestinal fúngica associada à caquexia induzida por LLC apresenta características observadas tanto na obesidade (proporção reduzida de Mucoromycota) quanto em Câncer Colorretal (CRC), encefalomielite miálgica (ME) e Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) (proporção aumentada de Sordariomycetes, Saccharomycetaceae e Malassezia). No entanto, é importante ressaltar que a caquexia pode ser desencadeada por diversos fatores, que afetam o desenvolvimento e o desfecho dessa síndrome de diversas maneiras24.

4.4 MALASSEZIA RESTRICTA ASSOCIADA ÀS DOENÇAS INFLAMATÓRIAS INTESTINAIS (DII)

Dentre todas as patologias discutidas com relação aos estudos de microbioma, as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) vem ganhando destaque9. A DII é caracterizada por alterações na microbiota intestinal e respostas imunes alteradas à microbiota intestinal, incluindo a Doença de Crohn (DC) e Colite Ulcerativa (CU). Igualmente nas outras doenças discutidas neste trabalho, a espécie M. restricta está sendo encontrada em abundância em pacientes com DC. Evidência circunstancial de um papel para fungos comensais em doenças inflamatórias do intestino vem se acumulando há anos. Inclusive, evidências sorológicas sugerem que a DII está associada a mudanças na forma como o sistema imunológico interage com os fungos comensais. O desenvolvimento de anticorpos anti- Saccharomyces cerevisiae (ASCA) que reconhecem os mananos da parede celular de levedura é utilizado como biomarcador clínico que identifica uma grande parte dos pacientes com DC9.

Estudos como o de Limon e colaboradores9 (2019) identificaram um polimorfismo comum no gene para CARD9, uma proteína adaptadora de sinalização que é essencial para a imunidade inata antifúngica em camundongos e humanos, entre os fatores de risco genético mais evidentes ligados à DC e colite ulcerativa. Usando uma abordagem de sequenciamento do gene ITS (Internal Transcribed Spacer) de fungos, foi examinada a micobiota intestinal associada à mucosa de pessoas saudáveis e pacientes com DC. Como resultado, os autores descobriram que M. restricta estava presente em pacientes portadores do alelo de risco para CARD9 e que o ASCA pode reconhecer essa levedura. Além disso, a levedura provoca forte produção de citocinas inflamatórias a partir de células inatas que abrigam o polimorfismo ligado à DII em CARD9 e exacerba a colite via CARD9 em modelos de doença em camundongos. Coletivamente, estes resultados sugerem que o direcionamento de fungos comensais específicos pode ser uma estratégia terapêutica para a DII9.

4.5 MALASSEZIA RESTRICTA ASSOCIADA A OUTROS MICROBIOMAS

Além da espécie M. restricta estar associada ao microbioma oral, cutâneo e intestinal, o estudo de Gelber e colaboradores25 (2016) avaliou a presença do gênero Malassezia e patógenos fúngicos comuns em subtipos de rinossinusites crônica. A hipersensibilidade fúngica e a disbiose do microbioma fúngico são possíveis etiologias da rinossinusite crônica. O micobioma sinusal não está bem caracterizado, entretanto novos fungos associados aos seios da face, incluindo Malassezia, foram descritos recentemente. Como resultado, espécies de Malassezia foram detectadas em 68% dos pacientes, sem variação entre os fenótipos clínicos, sendo que a M. restricta foi mais predominante do que M. globosa. Assim, o estudo confirmou a presença de Malassezia em seios da face saudáveis e doentes. Portanto, a presença de espécies desse gênero em todos os grupos analisados, doentes e saudáveis, sugere um papel comensal para o fungo25.

5. CONCLUSÃO

Neste trabalho de revisão bibliográfica, pode-se concluir que essa espécie é comum na micobiota da pele saudável. No entanto, recentemente, também tem sido associada a disbioses dermatológicas, como dermatites, psoríases e caspa. Além do microbioma cutâneo, nos últimos 10 anos, este fungo também vem sendo associado a outros nichos anatômicos como o micobioma oral, intestinal e aparelho respiratório, tanto na saúde, como em condições patológicas.  Porém, sua presença em quadros de doenças inflamatórias intestinais, em especial na doença de Crohn e colite, vem ganhando destaque na literatura devido a recente identificação de um polimorfismo comum no gene CARD9, uma proteína adaptadora de sinalização essencial para a imunidade antifúngica em camundongos e humanos. Adicionalmente, estudos apontam que a M. restricta é o único fungo presente no intestino que parece ser capaz de elicitar a resposta inflamatória via CARD9 na doença de Crohn, exacerbando a colite.

AGRADECIMENTOS

À FAEP-UMC (Fundação de Amparo ao Ensino e Pesquisa), ao CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) por conceder as bolsas de iniciação científica para A.C.O.R.S., A.C.S e M.C.N e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil CAPES por conceder bolsas de mestrado/doutorado para M.V.B.C; Y.N.L.F.M, P.S.T e R.C.O.

REFERÊNCIAS

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[1] Aluna de Mestrado em Biotecnologia; Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0009-0001-9949-0606. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5445116726256035.

[2] Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0009-0005-5557-5148. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2360358708785426.

[3] Aluna de Doutorado em Biotecnologia; Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0000-0001-5249-1882. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0747490330138742.

[4] Aluna de Mestrado em Engenharia Biomédica; Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0000-0002-4805-6615. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8266535045820394.

[5] Aluno de Mestrado em Engenharia Biomédica; Graduação em Medicina Veterinária. ORCID: 0009-0005-4654-5094. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5997095895813370.

[6] Graduação em Biomedicina. ORCID: 0009-0001-6867-6184. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/0987639115840791.

[7] Graduação em Biomedicina. ORCID: 0009-0001-3045-6493. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/0141012561653560.

[8] Doutorado em Biotecnologia (UMC); Mestrado em Biotecnologia (UMC); Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0000-0002-4705-8352. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5445116726256035.

[9] Orientadora. Doutorado em Ciências (UNIFESP); Mestrado em Biotecnologia (UMC); Graduação em Ciências Biológicas (UMC). ORCID: 0000-0001-7297-0784. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6372524826406229.

Material recebido: 10 de janeiro de 2024.

Material aprovado pelos pares: 20 de fevereiro de 2024.

Material editado aprovado pelos autores: 26 de julho de 2024.

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Maria Vitória Cavalheiro Berlofa

Aluna de Mestrado em Biotecnologia; Graduação em Ciências Biológicas. ORCID: 0009-0001-9949-0606. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5445116726256035.

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