Empoderamento feminino: Desafios e conquistas das mulheres na agricultura familiar do Distrito de Águas Claras, no Município de Juara, Estado De Mato Grosso

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ARTIGO ORIGINAL

OLIVEIRA, Luciano Aparecido de [1], SILVA, Juliana dos Santos [2], BRITO, Luana Maritza de [3], SANTOS, Sandra Mara dos [4], OLIVEIRA, Vilma Eliane Machado de [5], ROSA, Elielda Ferreira [6]

OLIVEIRA, Luciano Aparecido de. Et al. Empoderamento feminino: Desafios e conquistas das mulheres na agricultura familiar do Distrito de Águas Claras, no Município de Juara, Estado De Mato Grosso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 10, Vol. 08, pp. 05-25. Outubro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Empoderamento feminino é uma temática amplamente discutida no cenário mundial e com uma infinidade de conceitos e interpretações. O presente trabalho aborda essa questão no âmbito da agricultura familiar, promovendo discussão e reflexão sobre o assunto. A proposta desse artigo é analisar a percepção das mulheres do distrito de Águas Claras-MT em relação ao sentimento de empoderamento no campo e compreender as principais dificuldades enfrentadas por elas em seu cotidiano. Para a realização deste trabalho foi efetuada uma revisão teórica sobre agricultura familiar, divisão do trabalho, evolução da participação das mulheres na agricultura familiar e empoderamento da mulher no campo. Em seguida foram realizadas entrevista com as mulheres da comunidade com o objetivo de identificar a percepção de cada entrevistada sobre o sentimento de empoderamento. Foi possível levantar que mesmo desenvolvendo múltiplas funções na estrutura social da comunidade as mulheres entrevistas não se sentem empoderadas.

Palavras-chave: Empoderamento feminino, mulheres no campo, agricultura familiar.

INTRODUÇÃO

Para a Organização Internacional do Trabalho (O.I.T.), (2012), países em desenvolvimento, como o caso do Brasil, devem adotar campanhas e métodos de empoderamento feminino para capacitar e qualificar mulheres e assim propor soluções aos problemas de segurança alimentar e pobreza no campo, tendo em vista que envolvendo as mulheres na economia tende a reduzir taxas de pobreza, ampliando os recursos na produção agrícola.

Para Velasquez-Melendez et al. (2011), quando nos propomos a discutir o empoderamento de gênero, não resolvermos problemas específicos das mulheres e sim da sociedade como um todo, contribuindo para a melhoria das condições de vida no campo, diminuição da insegurança alimentar em áreas de baixa renda e visibilidade social.

O objetivo desse artigo é analisar a percepção das mulheres do distrito de Águas Claras, localizado no município de Juara, região norte do Estado de Mato Grosso, em relação ao sentimento de empoderamento no campo, visando compreender as principais dificuldades enfrentadas em seus cotidianos.

As entrevistas apresentadas e discutidas nesse artigo foram realizadas durante uma ação de extensão denominada 4ª Excursão Rural, organizada pelo departamento do curso de Administração (Campus de Juara) da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) a comunidade de Águas Claras, onde foram realizadas entrevistas com mulheres que residem na localidade.

Esse estudo é de grande relevância pois levanta discussões sobre as diferentes perspectivas de empoderamento feminino a partir da lógica e do ponto de vista de mulheres que vivem a realidade do campo, proporcionando reflexões para toda a sociedade, qual pode propor a construção de políticas públicas que de fato, institucionalizem a maneira como o Estado lida com as questões de igualdade de gênero.

AGRICULTURA FAMILIAR

A importância do desenvolvimento da agricultura familiar vem sendo amplamente discutida impulsionada pelo debate sobre desenvolvimento sustentável, geração de emprego e renda, segurança alimentar e desenvolvimento local (FAO/INCRA, 2000). Para compreender a Agricultura Familiar e o papel desempenhado pelas mulheres agricultoras e o empoderamento delas, faz-se necessário conceituar a agricultura familiar no Brasil.

Para Assis et al. (2015), às discussões acerca do termo agricultura familiar surgiram no Brasil na década de 1990, em um período de ascensão de movimentos sociais do campo associados ao pequenos produtores e ao Movimento do Trabalhadores Sem Terra, quando as classes sindicais rurais sofriam o impacto causado principalmente pela falta de crédito agrícola e a queda dos preços dos principais produtos agrícolas de exportação.

O autor descreve que na década 1990 a participação social, qualidade dos alimentos e o desenvolvimento regional também eram pautas das reuniões políticas de desenvolvimento rural, cenário importante para a agricultura familiar. Foi então que se iniciou as estratégias de desenvolvimento local visando a geração de novas oportunidades de trabalho reivindicadas pelos próprios agricultores.

A agricultura familiar possui um reconhecido potencial econômico, ambiental e social que nos últimos anos tem sido prestigiado e fortalecido por programas governamentais que incentivam a produção e o beneficiamento de seus produtos.

Nesse sentido, com o objetivo de fortalecer a agricultura familiar no Brasil, foram criados e implantados alguns programas na forma de políticas públicas, tais como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – (PRONAF), o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar – (PNAE), (PEREIRA e NASCIMENTO, 2014).

No entanto ressalta-se que as políticas públicas de custeio agrícola são essenciais para o desenvolvimento, não somente econômico, mas também social, no sentido de fortalecimento dos agricultores familiares.

A Lei 11.326 de 24 de julho de 2006, sancionada pelo então presidente por Luiz Inácio “Lula” da Silva, no Art. 3° incisos I a III traz a definição das características das atividades que configuram a Agricultura Familiar no território nacional Brasileiro:

Art. 3o Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:

I – Não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais;

II – Utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;

III – Tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo;

IV – Dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.

Com a aprovação da Lei 11.326/2006 foi possível desenvolver linhas de crédito específicas para promoção de políticas públicas de desenvolvimento econômico e social dos pequenos produtores rurais.

DIVISÃO DO TRABALHO

De acordo com Silva e Portela (2006), a agricultura familiar é talvez um dos campos que mais demonstram variadas manifestações das desigualdades existentes em nosso país, e entre elas estão as desigualdades de gênero, o que leva a uma reflexão em relação a abrangência desta questão na atualidade.

Segundo Brumer (2004), diversos estudos que examinaram a divisão do trabalho por sexo na agricultura concluíram que as mulheres ocupam na maioria das vezes uma posição subordinada e seu trabalho geralmente aparece como uma forma de “ajuda”, mesmo quando elas trabalham tanto quanto os homens ou desempenham as mesmas atividades que eles.

O autor ainda afirma que existem dois fatores que podem explicar essa divisão: O primeiro é a questão da unidade familiar de produção, onde se reúnem os esforços de todos os membros da família, com o objetivo de desenvolver uma necessária aproximação entre unidade de produção e unidade de consumo. O segundo fator que pode explicar essa divisão está relacionado ao contexto social em que o Brasil se encontra, uma sociedade de certo modo machista, em que se atribui única e exclusivamente ao homem o papel de suprir as necessidades básicas do núcleo familiar.

Em paralelo ao que foi descrito por Brumer (2004), os autores Araújo e Scalon (2005), comentam sobre uma hierarquização nas relações de gênero, onde homens assumem atribuições mais valorizadas enquanto as mulheres ficam responsáveis pelas tarefas menos valorizadas.

EVOLUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO E O EMPODERAMENTO DAS MULHERES NO CAMPO

Na década de 1980, o Movimento de Mulheres na Agricultura (MMA) gerou grande impacto em contexto nacional, valorizando as mulheres rurais em todas as suas atividades, como produtora agrícola, artesã, aquelas que produzem e comercializam para subsistência de suas famílias e diversas outras.

Foi neste cenário que surgiram as discussões sobre a importância e a relevância das lideranças femininas frente aos setores de produção. As mulheres desempenham um papel de extrema importância na agricultura familiar brasileira, elas não são responsáveis apenas pela execução das tarefas básicas do contexto doméstico, elas vão além, desempenham um papel fundamental também nas etapas de produção, como nas lavouras (CORREIA E SILVA, 2017).

De acordo com Duque-Arrazola (2008), empoderamento é o poder que uma pessoa tem de empoderar a si mesmo, no individual, gerando mudanças coletivas e sociais significativas. Para essa mesma autora, o empoderamento feminino pode ser compreendido quando se observa a participação delas nas ações coletivas relacionadas a autoimagem, autoconfiança, desenvolvimento da visão crítica e outros.

Os debates a respeito do empoderamento da mulher do campo sensibilizaram à Organização das Nações Unidas – ONU, no ano de 2012 a promover um debate a respeito da disparidade entre as condições de homens e mulheres agricultores. O debate ganhou o título “Empoderar as mulheres rurais para acabar com a fome e a pobreza”, já que nos países em desenvolvimento a mulher responde por 43% da força de trabalho enquanto na América Latina esse percentual caia para 20%.

A publicação “O Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação”, elaborada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), apontou que se as mulheres tivessem os mesmos recursos de produção disponibilizados aos homens, elas poderiam aumentar a produtividade de suas lavouras de 20 a 30% (EMBRAPA, 2014).

A mulher de baixa renda e escolaridade que sobrevive do trabalho no campo sofre com a discriminação e dificuldades impostas em relação ao acesso a terra, créditos e insumos agrícolas, BOJANIC 2017, relata que as mulheres rurais são as que mais vivem em situação de desigualdade social, política e econômica, tendo em vista que apenas 30% das mulheres agricultoras são donas formais de suas terras, 10% delas conseguem ter acesso a créditos e somente 5%, recebem assistência técnica necessária ao desenvolvimento de sua produção agrícola.

Para Waltz (2016), um maior envolvimento da mulher nas atividades agrícolas reduz as taxas de pobreza e permite que a mulher agricultora tenha maior poder de compra, tornando-a mais ativa na sociedade e com mais autonomia financeira.

MATERIAIS E MÉTODOS

Essa pesquisa aborda o problema de forma qualitativa, já que analisa o tema de maneira não probabilística, o que segundo Malhotra (2006), oportuniza resultados que auxiliam na compreensão inicial do problema.

Os objetivos de pesquisa são de natureza exploratória (CHEMIM, 2012), pois investiga-se como um grupo específico de mulheres percebem o empoderamento ou ausência dele no campo.

O delineamento da pesquisa faz-se com base nos procedimentos técnicos de Pesquisa bibliográfica, tendo em vista o levantamento de referencial sobre os temas Agricultura Familiar e Empoderamento das Mulheres no Campo e estudo de campo pois trabalha especificamente com um grupo de Mulheres moradoras do Distrito de Águas Claras (CHEMIM, 2012).

A pesquisa foi realizada em uma comunidade denominada Águas Claras, distrito do município de Juara, localizado na região norte do Estado de Mato Grosso. A ocasião escolhida foi durante uma roda de conversa organizada durante a 4ª Excursão Rural, evento de extensão promovido pelo curso de administração do Campus Universitário de Juara da Universidade do Estado de Mato Grosso na data de 05/05/2019.Na ocasião participaram da roda de conversa 05 mulheres da comunidade, que aceitaram participar da entrevista.

Baseado nessa metodologia elaborou-se um roteiro de investigação, cumprindo um conjunto de etapas.

A 1ª etapa foi constituída através do fichamento de referencial teórico com as palavras-chave agricultura familiar e empoderamento da mulher do campo.

A 2ª etapa deu-se a partir da construção de um roteiro de entrevista semiestruturada com 10 perguntas abertas que visaram levantar a percepção sobre empoderamento das mulheres entrevistadas, fundamentados pelo artigo de Amber Waltz (2016) sobre empoderamento das mulheres no campo

A 3ª etapa foi a realização da entrevista com as entre mulheres durante uma roda de conversa realizada no dia 05/05/2019.

Após a realização das três etapas, os dados coletados foram transcritos, organizados e discutidos com autores que tratam do tema empoderamento feminino no campo.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS

É possível observar no Quadro 1 que todas as entrevistadas residem na comunidade há mais de 10 anos e que a maioria das mulheres da comunidade estão mais envolvidas com as atividades domésticas, sendo que a atividade agrícola mais recorrente é o manuseio de gado de leite.

As autoras Brumer e Freire (1984), explicam que de modo geral a mulher agricultora se vê como do lar e ao mesmo tempo executa típicas tarefas agrícolas, tais como, trato dos animais, ordenha de vaca e cuidado com o quintal que inclui horta e pomares, e estas atividades são vistas pelos demais membros da família como atividades secundárias no que se refere à produção agrícola.

Ao serem questionadas a respeito da participação das mulheres da comunidade de Águas Claras nas tomadas de decisões da associação de produtores leiteiros lá existente, relatam em unanimidade responderam que as mulheres não participam das tomadas de decisões.

Quadro 1 – Conhecendo a mulheres do distrito de Águas Claras

Fonte: baseado em dados coletados durante entrevista de campo, os autores (2019).

No estudo realizado por Brumer (2004), a autora explica que o trabalho das mulheres agricultoras não é visto pela comunidade porque a tradicional hierarquia familiar aproxima o homem das relações exteriores à propriedade agrícola e é este quem contacta diretamente bancos, sindicatos, cooperativas e compradores dos produtos que são produzidos na propriedade familiar rural com o auxílio da força de trabalho da mulher.

A renda é elemento importância para as condições de bem-estar e saúde das mulheres. Então foi indagado se desenvolvem atividades para compensar a renda, tais como artesanato, participação em feiras para comercializar itens e participação em cursos para aperfeiçoamento. As entrevistadas responderam que:

Entrevista 1: “Muitas mulheres da comunidade fazem crochê, costura e pintura, mas vendem por conta própria”.

Entrevista 2: “Não existe projeto na comunidade, mas muitas mulheres fazem trabalhos manuais como crochê, pintura, costura e também revendem roupas e enxovais como autônomos.

Entrevistada 3: “Existe o artesanato, mas são bem poucas as mulheres que participam”.

Entrevistada 4: “Não. Começamos a mexer com artesanato, mas não tivemos apoio e não foi pra frente o negócio”.

Entrevistada 5: “Tem o artesanato, muitas mulheres trabalham com isso aqui na comunidade”.

Observa-se nos relatos das entrevistadas que muitas mulheres da comunidade buscam de alguma maneira conquistar sua própria renda, mesmo sem o apoio de terceiros. Nascimento (2002), destaca em seu estudo sobre as famílias rurais brasileiras, a predominância de mulheres que começaram a combinar atividades agrícolas com atividades não agrícolas e também daquelas que mesmo permanecendo na zona rural não desempenham nenhuma atividade relacionada.

Analisando o que foi relatado pela entrevistada 4, nota-se que algumas mulheres desistiram de seus projetos por falta de incentivos. Nesse ponto Amartya Sen (2004), contextualiza que quando concedidos, os incentivos a quem precisa, fortalecem a condição das mulheres como agente, promovendo, seu envolvimento em assuntos sociais e econômicos, possibilitando maior geração de recurso para o planejamento familiar.

Para compreender como as mulheres da comunidade Águas Claras se sentem em relação ao envolvimento com a agricultura, foram entrevistadas a respeito de quais atividades do campo às faziam se sentir envolvidas com a agricultura.

Entrevista 1: “Não tem nenhuma atividade que faz as mulheres se sentirem envolvidas com a agricultura”.

Entrevista 2: “Não tem nenhuma atividade desenvolvida por terceiros que integre as mulheres às atividades do campo. A maioria das mulheres na comunidade são do lar e algumas possuem horta para consumo da família”.

Entrevistada 3: “Tirar o leite”.

Entrevistada 4: “O plantio de tomates”.

Entrevistada 5: “Tirar leite, plantação e mexer com o gado”.

Observando o que foi dito pelas entrevistadas 3 e 5 e comparando com as respostas que as mesmas deram na segunda pergunta (quadro 1), observa-se que há uma contradição. Na segunda pergunta quando indagadas acerca da participação das mesmas nas atividades do campo, uma respondeu que não participava e outra que participava apenas quando necessário. Todavia quando indagadas a respeito das atividades que as faziam sentir-se mais envolvidas com agricultura elas listaram algumas.

Os autores Neves e Medeiros (2013), descrevem uma possível explicação para este fato, de acordo com os autores, as mulheres que vivem na comunidade rural, muitas vezes não são consideradas como agricultoras, pois realizam atividades nas lavouras e na produção de alimentos, que não são reconhecidas como parte produtiva da agricultura. Na maioria das vezes as mulheres rurais nem sequer são consideradas agricultoras, sendo conhecidas na maioria das vezes como a esposa ou filha de determinado agricultor.

Nesta mesma perspectiva Silva (2012), descreve o trabalho da mulher na agricultura, como quase invisível, o que de acordo com Sales (2007), as mulheres da zona rural geralmente são responsáveis pelo “quintal”, onde realizam diversas atividades agrícolas, porém sem reconhecimento da família e da sociedade.

Para melhor entender como a mulher agricultora se sente em relação à comunidade, perguntou-se às cinco mulheres entrevistadas se já sofreram alguma discriminação, tendo elas respondido da seguinte maneira:

Entrevistada 1: “Sim, já sofri discriminação por morar na Comunidade. Quando falo que moro em Águas Claras as pessoas me olham diferente”.

Entrevistada 2: “Sim. Quando vou à cidade (Juara), e entro em alguma loja e falo que sou de Águas Claras as pessoas se afastam com certo receio. É como se achassem que por morar na comunidade a gente não vai pagar”.

Entrevistada 3: “Não”.

Entrevistada 4: “Não”.

Entrevistada 5: “Sim. Uma vez eu estava participando de um curso onde a maioria era homem e duvidaram da minha capacidade em realizar uma das tarefas que era tirar leite”.

De acordo com Itaboraí (2003), quando se fala em empoderamento feminino, o que mais fica evidente é a grande dedicação das mulheres ao trabalho. Analisando as respostas das mulheres entrevistadas, onde a maioria relata já terem sofrido algum tipo de discriminação, duas delas indiretamente relatam que a discriminação sofrida tem relação com o trabalho no campo e uma delas relata uma discriminação única e exclusivamente pelo simples fato de ser mulher e estar praticando uma atividade que na maioria das vezes é exercida por homens.

Esse episódio retrata o que Cortez e Souza (2008), afirmam que as conquistas com relação à inserção da mulher em espaços considerados “masculinos”, permitiram à mulher, adquirir ferramentas para lutarem por seus direitos.

Com o objetivo de entender o empoderamento da mulher do campo, as entrevistadas foram questionadas se enquanto mulheres agricultoras sentiram-se valorizadas e empoderadas:

Entrevistada 1: “Não tenho propriedade rural, moro no distrito com dois filhos e sou contratada pela prefeitura municipal para trabalhar na escola Dom Aquino”.

Entrevistada 2: “Não sou agricultura. Sou funcionária pública municipal e trabalho na Escola Dom Aquino”.

Entrevistada 3: “Eu não sou agricultora, mas não sinto que as mulheres são valorizadas e que gostam da atividade no campo, elas só vão porque tem que ajudar os maridos”.

Entrevistada 4: “Eu não me sinto valorizada”.

Entrevistada 5: “Sim. Mas só pela minha família, não me sinto valorizada pela comunidade em geral”.

Analisando os depoimentos supracitados, observa-se que duas mulheres se abstiveram de responder à questão feita sobre valorização e empoderamento por não serem agricultoras (entrevistadas 1 e 2). Outra (entrevistada 3), apesar de também não ser agricultora relatou a sua percepção em relação às demais mulheres da comunidade, dizendo que não sente que as mulheres da comunidade são valorizadas ou gostam da atividade do campo, apenas fazem, pois, precisam ajudar seus maridos. Apesar de ser uma afirmativa sobre terceiros, ela é proveniente de uma moradora que reside na comunidade há 18 anos (quadro 1), o que deve ser considerado.

A discussão da valorização da mulher é importante para que as mulheres possam expressar seus sentimentos em relação à comunidade, família e a condição de mulher, portanto, através do questionamento as entrevistadas foram indagadas se à comunidade de modo geral promove eventos com o objetivo de debater a valorização da mulher no campo, tendo as entrevistadas relatadas que:

Entrevistada 1: “Não. A comunidade não faz nenhum evento voltado para mulheres”.

Entrevistada 2: “O único evento que existe na Comunidade que envolve diretamente as mulheres é a Excursão Rural promovida pela UNEMAT”.

Entrevistada 3: “Não. Só quando a Universidade vem na comunidade”.

Entrevistada 4: “Não, nenhum”.

Entrevistada 5: “Não. Nenhum tipo de atividade”.

As falas das entrevistadas remetem a reflexões acerca da importância do debate acerca da temática de empoderamento, pois analisando o que foi relatado pelas moradoras como um todo, percebe-se que não é promovido nenhum tipo de evento com o intuito de trazer para a comunidade discussões em relação a valorização da mulher. O que mostra também uma falta de atenção nesta questão, pois utilizando do conceito formulado por (BATLIWALA, 1994, p.132) “A sociedade só é forçada a mudar quando um grande número de mulheres está mobilizado e pressionando para a mudança”.

Para Yannoulas (2001), a troca de ideias, experiências pessoais e grupos de formação dentre outros métodos, ampliam o acesso à informação e melhoria da percepção das mulheres a respeito do desenvolvimento de suas potencialidades e em complementação. Já Prá (2001), relaciona o empoderamento feminino ao debate democrático de controle cidadão, quando o empoderamento passa a ser percebido como uma ferramenta de geração de capital social e exercício da cidadania, ou seja, o sentimento de valorização e empoderamento passa a impulsionar as mulheres a buscarem crescimento pessoal e profissional, promovendo a visibilidade social e condições de igualdade de gênero.

CONCLUSÕES

Após a apresentação e análise de dados coletados é possível concluir que:

1 – Embora as cinco entrevistadas residam há mais de uma década na comunidade rural do distrito de Águas Claras, não se envolvem com as atividades relacionadas à associação de produtores local, portanto não participam das tomadas de decisões das atividades agrícolas que geram renda para os moradores da Comunidade através da associação.

2 – A atividade rural relacionada pelas entrevistadas como mais recorrente entre as mulheres é o manejo com o gado de leite.

3 – Percebe-se que as mulheres entrevistadas reconhecem a necessidade de implementação de programas que apoiem projetos de capacitação e incentivo de geração de renda para mulheres que vivem no campo e que não possuem renda fixa.

4 – As maiores dificuldades apontadas pelas entrevistadas são: falta de valorização do trabalho da mulher, dificuldades de conciliar o trabalho do campo com afazeres domésticos e filhos e inexperiência técnica para manuseio de culturas. Os autores  Suess-Reyes e Fuetsch (2016), relatam que as famílias agrícolas o conhecimento a respeito da produção e técnicas de manuseio dos cultivares agrícolas geralmente são passadas de geração para geração e que as mulheres, por serem na maioria das vezes responsáveis pelas atividades domésticas e educação dos filhos estão mais afastadas da atividade agrícola, o que as torna menos dispostas a assumirem o comando das propriedades rurais.

5 – As entrevistadas relataram que as moradoras da comunidade recorrem ao artesanato como meio de obter renda e que as mesmas pessoas que produzem o artesanato as vendem por falta de uma associação ou projeto que as auxilie na venda dos produtos.

6 – Durante as entrevistas, verificou-se que as mulheres da comunidade se sentem em algumas ocasiões discriminadas por pessoas da comunidade urbana e uma delas relatou ter se sentido discriminada durante um evento de participação majoritária masculina quando duvidaram de suas habilidades exclusivamente por ser mulher.

7 – Através da entrevista realizada observou-se que as mulheres da comunidade não se sentem empoderadas, mesmo desempenhado diversas funções indispensáveis ao processo de trabalho e renda das famílias, exercendo múltiplas funções na estrutura social. Azevedo (2012), relata que o empoderamento está diretamente associado à busca pela emancipação social, inclusão social e ao reconhecimento social.

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[1] Mestre em Ambiente e Desenvolvimento – Doutorando em Ambiente e Desenvolvimento.

[2] Graduada em Gestão Ambiental e acadêmica do Curso de bacharelado em Administração.

[3] Acadêmica do Curso de bacharelado em Administração.

[4] Mestre em Ambiente e desenvolvimento.

[5] Mestre em Administração e Doutoranda em Ambiente e desenvolvimento.

[6] Acadêmica do Curso de bacharelado em Administração.

Enviado: Agosto, 2019.

Aprovado: Outubro, 2019.

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