A colaboração das startups de materiais avançados no processo de inovação nacional

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ARTIGO ORIGINAL

BERNARDO, Majorie Anacleto[1], SILVA, Maria Joseneide da[2], ARAÚJO, Charles Pereira de[3], NETO, Augusto Venâncio[4], BINFARE, Paula Wabner[5]

BERNARDO, Majorie Anacleto. Et al. A colaboração das startups de materiais avançados no processo de inovação nacional. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 10, Vol. 03, pp. 05-23. Outubro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/tecnologia/inovacao-nacional

RESUMO

O objetivo geral desta pesquisa é analisar as perspectivas nacionais em relação ao aporte das Startups voltadas a Materiais Avançados e evidenciar a colaboração destas no incremento e desenvolvimento de produtos e serviços inovadores. Diante da potencialidade da área de Materiais Avançados, considerou-se relevante a realização de um estudo sistematizado no intuito de responder fundamentalmente à seguinte questão norteadora: De que forma as Startups contribuem com a pesquisa, desenvolvimento tecnológico e com o empreendedorismo na cadeia de valor de materiais avançados no Brasil?  Esta pesquisa é relevante, pois analisa dados que apontam as contribuições das Startups voltadas à área de Materiais Avançados no cenário de inovação brasileiro, assim como sua ação no crescimento econômico de forma duradoura e com baixos riscos, pelo uso do conhecimento científico para o desenvolvimento de produtos e serviços. Este artigo trata-se de uma revisão bibliográfica realizada em periódicos nacionais e internacionais, sites, livros e revistas especializadas no assunto, e análise na base de dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartup). Por meio do contexto do estudo e da Análise SWOT conclui-se que a área de Materiais Avançados pode ser considerada como uma das principais áreas habilitadoras da promoção da inovação de base tecnológica, possuindo um grande potencial de agregação de valor e diferencial competitivo, principalmente pelo fato do Brasil ter um potencial único em biodiversidade. No entanto, existem algumas Políticas Públicas que precisam ser formuladas em prol da evolução de novas Startups e do desenvolvimento da área de Materiais avançados, são elas: (I) fomento que apoie a criação e capacitação de Startups voltadas a Materiais Avançados; (II) interação entre universidade e empresas que favoreçam o surgimento de novas Startups; (III) intercâmbio de conhecimento e práticas inovadoras para que as Startups acessem novos mercados com a possibilidade de expansão para o mercado internacional; (IV) ênfase na resolução dos problemas sociais do país.

Palavras-Chave: Startups, Inovação, Materiais Avançados.

1. INTRODUÇÃO

Os materiais desempenham papel de protagonista diante da evolução, de modo que o uso dos mesmos sempre esteve presente na determinação de períodos históricos como a era da pedra, ferro, bronze e outros. Segundo Han (2005) a qualidade de vida, segurança, saúde e desenvolvimento da economia dependem cada vez mais da capacidade de descoberta de novos métodos de obtenção e processamento de materiais e por fim integrá-los em tecnologias de manufatura economicamente viáveis, eficientes e sustentáveis. Provando que os materiais atuam no âmago para o desenvolvimento de tecnologias que transitam no tempo.

Sendo assim, as Startups se tornaram uma opção atrativa pois utilizam a inovação para resolver problemas antigos do mercado, e pode ser classificada como uma organização onde os participantes compartilham da crença de que o surgimento de novos produtos, serviços e valores são importantes para a evolução da cadeia produtiva.

Nesse contexto, o presente artigo parte do reconhecimento do potencial das Startups na promoção e descoberta de materiais avançados, assim como a importância da relação da inovação, ciência e a engenharia de materiais e suas aplicações para a criação de negócios rentáveis e promissores. Mediante isso, a pesquisa tem como objetivo geral analisar as perspectivas nacionais em relação a evolução de Startups voltadas a área de Materiais Avançados, evidenciando a importância desta no incremento e desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Os objetivos específicos do estudo consistem em identificar a relação entre o fomento a Startups voltadas à materiais avançados e os impactos causados no crescimento econômico nacional, assim como também pretende contribuir para pesquisas futuras.

Dessa forma, o estudo foi norteado pela seguinte pergunta norteadora: De que forma as Startups contribuem com a pesquisa, desenvolvimento tecnológico e com o empreendedorismo na cadeia de valor de materiais avançados no Brasil?

O estudo justifica-se pela necessidade de atenção para esse empreendimento, visto que os mesmos utilizam a ciência como alicerce para descoberta de oportunidades de negócios com riscos de investimentos reduzidos, em diversos setores industriais e naturalmente auxiliam na criação de empregos, formação de profissionais qualificados e no desenvolvimento tecnológico.

2. STARTUPS

O termo Startup está relacionado aos empreendimentos que surgem a partir de uma ideia inovadora, sendo definido como um novo negócio em estágio inicial de desenvolvimento. No entanto, a partir da década de 80, com as mudanças ocorridas na área tecnológica e dos investimentos, o termo Startup passa a estar relacionado a um novo negócio com elevado potencial inovador.

De acordo com o autor Ries (2012), Startup é uma instituição formada por pessoas e projetada para criar um novo produto e/ou serviço, em condições incertas de obtenção de sucesso. Essas novas empresas com base tecnológica são consideradas uma força motriz de mudança, inovação e crescimento econômico.

O elevado número de Startups criadas no mundo inteiro tem levado à popularização do fenômeno. Por seu porte e estrutura enxutos, as Startups são o cenário adequado para a experimentação de novas tecnologias e criação de novos mercados para romper com a tradição em produtos e serviços.

A existência de um ecossistema de Startups dinâmico contribui fortemente para sustentar a inovação, traz dinamismo e eficiência à produtividade dos setores industriais, facilita a difusão de conhecimento e gera maiores oportunidades de emprego.

No Brasil, o ecossistema de Startups tem se fortalecido muito nos últimos anos. Dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) (2021) apontam o Brasil com uma média de 13.718 Startups registradas, até o mês de janeiro de 2021. A figura 1 destaca a distribuição de Startups pelo país.

Figura 1 – Distribuição de Startups pelo Brasil

Fonte: Adaptado de Distrito Dataminer, 2021.

Os dados coletados na plataforma de inovação Distrito (2021), evidenciam que a região sudeste concentra o maior percentual de Startups, totalizando 61,30%. A região sul desponta em segundo lugar com 31,54%, destacando-se com uma força industrial notória e um número expressivo de soluções empreendedoras. Enquanto isso, as região norte, centro-oeste e nordeste apresentam percentuais menos expressivos, e demonstram que no tocante ao empreendedorismo de inovação, as desigualdades regionais são bastante significativas.

Segundo Dequech (2021), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro apresentou um desempenho pífio entre 2015 e 2019, e os anos de 2019 e 2020 foram de recessão, com um crescimento de 1,1%, em contrapartida o número de Startups obteve um avanço de 207%, sendo que no ano de 2020 a economia nacional teve uma queda de 4,1%, porém foi o melhor ano de captação de recursos para as Startups, atingindo a marca de US$3,5 bilhões, uma quantia 17% maior comparado aos 2,97 bilhões levantados em 2019. Isso mostra que o mercado se abriu para as Startups e atualmente temos um cenário promissor. A Figura 2, destaca a colaboração das Startups com o PIB industrial nacional.

Figura 2 – Colaboração das Startups com o PIB industrial nacional.

Fonte: Confederação Nacional da Indústria, 2021.

Com base nessa análise, apesar dos índices ainda “tímidos”, é notório que o Brasil está reconhecendo a importância das Startups como propulsora na tecnologia, inovação e consequentemente com ação elementar para o desenvolvimento econômico do país.

2.1 A NOTORIEDADE DO PROCESSO DE INOVAÇÃO

O processo de inovação não é unicamente destinado para o desenvolvimento de novos negócios, também auxilia na promoção de novos modelos de negócios e torna os processos existentes mais eficientes e simples para assim facilitar a vida das pessoas (ESCOBAR, 2021).

Para Paula e Almeida (2015) o processo de inovação é importante, pois impulsiona a criação de novos negócios e assim acelera o crescimento econômico, dentro do conceito de novos negócios, há as Startups. O autor Santilli (2017) prevê que as Startups se beneficiam destas inovações aumentando as receitas e os lucros, tendo efeito líquido no associado crescimento econômico nacional e mundial.

Para que o processo de inovação tenha sucesso pleno, a mesma deve ser reconhecida e não mais vista como um gasto e sim como um investimento. No entendimento do autor Escobar (2021) o incentivo a novas competências científicas e aceitação de novas tecnologias requer compromisso por parte de governos, indústrias e universidades. Para uma economia forte e com condições favoráveis para futuros investidores, a permissão a inovação tecnológica é necessária, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento – P&D tem influência no nível de inovação. Os autores Feinberg e Majumdar (2001) afirmam que os investimentos em P&D concedem para as empresas a criação provimento científico, criando uma base de conhecimento de boa qualidade, que ajuda as empresas reduzirem custos na elaboração, produção de produtos e serviços, melhorando o desempenho corporativo.

2.1.1 PESQUISA E DESENVOLVIMENTO – P&D: COMPARATIVO ENTRE BRASIL, CHINA E ESTADOS UNIDOS

A interação entre tecnologia, ciência e desenvolvimento econômico, tem levado países a aumentarem suas investidas em pesquisas e desenvolvimento. Para o autor Santilli (2017) isso é facilmente mensurável quando é analisado os percentuais do produto interno bruto – PIB de um país que investe nestas atividades.

Segundo Hasenclever e Ferreira (2013), P&D possui três formas de pesquisa: a primeira é a pesquisa básica que tange à parte teórica e experimental, não tendo aplicação específica. A pesquisa aplicada, destina-se a realização das classificações dos resultados obtidos da pesquisa básica. E o desenvolvimento experimental atua na comprovação da possibilidade de uma real aplicação do produto desenvolvido.

Araújo e Cavalcante (2011) relataram que em 2011 no Brasil a meta era aumentar de 0,59% para 0,90% os investimentos em P&D, porém essa estimativa se tornou real no ano de 2014, quando o Brasil superou a marca estimada e registrou 1,5% do PIB, conforme relatório de indicador nacional de ciência, tecnologia e inovação, expedido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

O autor Sennes (2009) relata que o crescente investimento em P&D desse período  é uma resposta a diversas ações governamentais como o plano de aceleração do crescimento da ciência, tecnologia e inovação de 2007, que tem como objetivo conciliar políticas públicas já existentes como a lei do Bem – nº 11.196 e a lei da Inovação- nº-10.973  para auxiliar no crescimento econômico brasileiro, no ano de 2008 foi criada a política de desenvolvimento produtivo – PDP, que tem como foco o aumento nos investimentos produtivos.

Na China durante o mesmo período de tempo, investiu em desenvolvimento experimental 57%, pesquisa avançada 38,4% e em pesquisa básica 4,6% no ano de 2014, registrando 19% em pesquisa aplicada (CHINA STATISTIC YEARBOOK, 2014). Os Estados Unidos em 2014 priorizaram seus investimentos em pesquisa básica 24,6%, pesquisa aplicada 31,2% e 44,2% em desenvolvimento do total em investimento em pesquisa e desenvolvimento. (MAGAZINE R&D FUNDING FORECAST, 2014).

A Figura 3, demonstra os últimos índices obtidos em investimentos em P&D em escala mundial.

Figura 3 – Gráfico do PIB (%) investido em P&D em aspecto mundial.

Fonte: Magazine R&D Funding Forecast, 2019.

A interpretação do gráfico é norteada pela dimensão da área dos círculos, que representa o quanto de investimento foi realizado por cada país em P&D, diante disso é notória a diferença em investimentos dos países desenvolvimentos e os em desenvolvimento para as diferentes áreas da ciência, que incluem o desenvolvimento de materiais avançados, insumos básicos, nanomateriais e especialização de mão de obra.

Para Sagazio (2021) países mais desenvolvidos usam a inovação como um vetor do desenvolvimento. No Brasil, a maior média girava em torno de 1,3% em 2014, porém atualmente este percentual diminuiu para 0,5%, após sucessivos cortes e o contingenciamento dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (FNDCT). O autor supracitado menciona que o Brasil não acompanha os acontecimentos nos países desenvolvidos em vista de fortalecer a tecnologia e a inovação, pois nacionalmente ainda perdura o pensamento de que inovação, tecnologia e ciência são gastos de pouca importância, precisando uma mudança cultural acerca desses pontos.

3. MATERIAIS AVANÇADOS

A história da tecnologia dos materiais é quase tão velha quanto a história da humanidade, e desenvolveu-se em várias fases, tendo início no momento em que os seres humanos começaram a usar ferramentas de caça e de proteção.

Nas últimas décadas a relevância dos materiais no desenvolvimento tecnológico tem aumentado significativamente, uma simples observação do nosso cotidiano revela a importância dos materiais em diversas áreas como saúde, energia, telecomunicações e meio ambiente, entre outras. Conforme ressalta Bell (2011), o avanço do conhecimento entre a sociedade moderna e contemporânea do século 20 permitiu a introdução dos materiais avançados, aqueles que são manipulados e controlados para aplicação em fins específicos

Materiais avançados são materiais que, em resultado de desenvolvimentos inovadores de projetos, técnicas de produção e/ou de processamento, apresentam novas estruturas com propriedades superiores. A intensa procura de materiais com melhor desempenho é determinada pelas necessidades da sociedade nas mais diferentes áreas, e levanta a questão de que investir e aprimorar o conhecimento em materiais é importante pois possibilita criar novos produtos e processos de inovação com elevado valor tecnológico e econômico (SOARES, 2010).

Para os autores Callister e Rethwisch (2016) o uso de materiais pertencentes a esta nova categoria parecia distante, porém já é possível citar sua aplicação em circuitos integrados e semicondutores, por exemplo. Porém há produtos complexos, que precisam de tecnologias e estudos mais avançados dentro dessa mesma área, como é o caso da nanoengenharia, em que tem seus átomos e moléculas manipulados para formar novas estruturas, assim como a biotecnologia que visa substituir partes do corpo provando que esse segmento é um desafio.

Como exemplos extras de materiais avançados podemos citar as nanofibras de celulose, que são fibras com dimensões muito reduzidas, presentes em fibras têxteis, revestimentos e embalagens. Com grande promessa de aplicabilidade há, os vidros metálicos, que contém uma união interessante de propriedades como a plasticidade e a alta resistência mecânica, esses vidros metálicos são usados em aeronaves, carcaças e tela de equipamentos eletrônicos de última geração. A investigação de novos materiais tem como primícias a criação de componentes, produtos menos tóxicos, com menor custo e propriedades superiores aos que já são conhecidos. Callister e Rethwisch (2016), ressaltam a notabilidade dos materiais compostos (também chamados de “compósitos”) que são materiais projetados de dois ou mais diferentes materiais com propriedades físicas ou químicas significativamente diferentes que permanecem separados em um nível macroscópico dentro da estrutura acabada.

Portanto, podemos destacar que os materiais avançados implicam a capacidade de construção ou substituição de novos materiais. Assim, surgem novas tecnologias que possibilitam a criação de materiais menos tóxicos, com menor custo, aprimorados e com boas propriedades.

4. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ÁREA DE MATERIAIS AVANÇADOS.

O ambiente tecnológico mudou drasticamente, fazendo com que o mercado e os investidores fiquem mais atentos a respeito dos potenciais serviços e produtos ofertados por Startups voltadas à área de materiais avançados, um grande indicador é o aumento de editais direcionados a projetos dessa área.

A Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no ano de 2020 destinou R$ 84,5 milhões em financiamento para pesquisa de novos produtos, processos e/ou serviços inovadores, além de um potencial de contrapartida por parte das empresas, de mais de R$ 34,7 milhões. Os recursos não reembolsáveis são disponibilizados por meio de editais, com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

A Chamada de Subvenção Econômica na área de Materiais Avançados faz parte de um grande esforço em fomentar o desenvolvimento tecnológico e a inovação no Brasil, transformando nosso conhecimento científico em lucratividade e renda. No caso específico dos Materiais Avançados, tais como o grafeno, têm-se uma excelente oportunidade de agregar novas funcionalidades aos produtos, ajudando a reduzir os custos de produção e aumentar a performance, tornando nossa cadeia produtiva mais viável e competitiva globalmente (FINEP, 2020).

O gráfico 1 apresenta a quantidade de propostas recebidas para chamadas de fomento da FINEP, por regiões brasileiras.

Gráfico 1 – Quantidade de propostas recebidas, por regiões brasileiras

Fonte: Adaptado de FINEP, 2021.

O gráfico 2 destaca os valores destinados para subvenção de projetos de Materiais Avançados.

Gráfico 2 – Valores destinados para subvenção de projetos de materiais avançados.

Fonte: Adaptado de FINEP, 2021.

Sendo assim, pode-se perceber o despertar de iniciativas públicas e privadas destinadas ao desenvolvimento e utilização de Materiais Avançados com o propósito de criar e obter vantagens competitivas, tais como: menores custos, promoção da sustentabilidade, competitividade e diferencial de mercado.

5. METODOLOGIA

O presente estudo propõe realizar uma pesquisa bibliográfica, com intuito de caracterizar o conteúdo necessário para apropriação do tema e criação de base teórica para discussão futura dos resultados. Segundo os autores Lakatos e Marconi (2010) e Gil (2002), a finalidade da pesquisa bibliográfica é a de proporcionar ao pesquisador contato direto com tudo aquilo que já foi documentado sobre uma determinada temática ou assunto.

O material bibliográfico utilizado no estudo é composto de artigos científicos coletados em periódicos nacionais e internacionais, pesquisas em sites especializados no assunto debatido, estudos de órgãos governamentais, além de livros e revistas também especializadas no tema.

Além disso, através de dados fornecidos por sites de aceleradoras, instituições de investimentos denominadas Business Angel e de plataformas da Associação de Startups (ABStartup), obteve-se embasamento para abordar o problema proposto pela pesquisa.

Para análise dos dados obtidos na ABStartup utilizamos as seguintes ferramentas: excel e BI-Bussiness Intelligence, a última propicia a criação de dashboards, que facilitam a compreensão visual dos dados compilados. O objetivo é a quantificação de novos negócios (Startups), cuja especialidade é Materiais Avançados, além da proposta de apontar o potencial e a colaboração desse nicho no cenário de inovação brasileiro.

6. DISCUSSÃO DE RESULTADOS

Das 13.610 Startups associadas na ABStartup, 314 foram denominadas pelos seus fundadores como Startups relacionadas à engenharia de materiais. Considera-se um número pequeno, sendo aproximadamente 2,3% do total do ecossistema de Startups. Isso acontece como uma estratégia adotada pelos fundadores, que aderem a nomeação mais específica para atrair potenciais investidores e ter a habilitação necessária para participar de editais de captação de recursos.

Um exemplo do efeito dessa estratégia acontece quando usamos o filtro de especificidades da palavra-chave “nanotecnologia”, podendo ser observado um acréscimo de 2.589 Startups, representando 19,02% do total.

Com os dados coletados é possível prever a evolução dos últimos 4 (quatro) anos no registro de Startups relacionadas a engenharia de materiais, essa evolução está exibida no Gráfico 3, no qual os caminhos do empreendedorismo se apresentam de forma não-linear.

Gráfico 3 – Cadastro dos 314 Startups (vinculadas à engenharia dos materiais) em ordem cronológica.

Fonte: Os autores, 2021.

Nesse caso, é confirmada a sensibilidade das Startups perante as ameaças de recessão econômica, em especial nos anos de 2020 e 2021, o que podemos justificar devido a atual situação e as consequências da pandemia do Covid-19. A pandemia evidenciou a deficiência nacional de políticas públicas de amparo aos novos negócios, essa dificuldade pode ser comprovada em um estudo realizado pela Fundação Dom Cabral e a ABStartups (2021), que apontaram que 53% das empresas sofreram algum tipo de impacto negativo devido a pandemia, como perda de receita e clientes, e uso de espaços por não conseguirem pagar aluguel. Enquanto isso, 30,9% foram positivamente afetadas com o surgimento de novos clientes, produtos e consequentemente o crescimento da receita, como é o caso de Startups com nicho de mercado voltados à saúde. As Startups de nanotecnologias tiveram maior oferta de chamadas de fomento para desenvolverem máscaras de proteção viral, e outros produtos como partes de equipamentos hospitalares.

Em decorrência dos valores observados, os anos com maior número de cadastramento de Startups dedicadas a promover serviços e materiais avançados, foram em 2020 e 2021, mesmo diante da situação de pandemia. A denominação “falha” apresentada no gráfico, se deu por um problema no servidor da ABStartups, nesse caso decidimos estipular uma média, para tal período.

Para o autor Spina (2020) as negociações nos estágios iniciais de investimento, conhecidos como Rounds Seed, são importantes e se caracterizam como um dos primeiros suportes recebidos pelas startups em fase crescimento inicial. Os Rounds Seed são destinados a acelerar o crescimento de empresas que ainda não atingiram seus objetivos ou não obtiveram sucesso no seu lançamento, porém possuem produtos e serviços com certo faturamento.

Em uma escala de investimentos, o Seed é considerado um nível acima do investidor anjo. Os investimentos nesse nível são estimados valores entre 500 mil a 2 milhões, a ABStartups (2021) considera o modelo de investimento Seed como sendo de maior risco pois quando surge um cenário de recessão econômica, este tipo de investimento fica suspenso.

Na percepção dos autores Backx e Filho (2019) o Brasil tem boas possibilidade em se destacar na área de nanotecnologia, mas para isso é preciso reavaliar as políticas públicas vigentes para estimular o setor com a oferta de melhores linhas de créditos e subvenção econômica com valores que superem as demandas reais das micros e pequenas empresas para que assim consigam trabalhar.

Os recursos para desenvolver a tecnologia e trabalhar com nanotecnologia é árduo, pois são muitos os desafios encontrados para sair da condição de projeto e produzir um produto em escala comercial. O gráfico 4, destaca de forma visual a distribuição por especificidade das predominâncias de Startups, com serviços em alta no mercado atual, destacando-se: materiais avançados, impressão 3D, nanotecnologia e materiais biomédicos.

Gráfico 4 – Distribuição dos segmentos de Startups.

Fonte: Os autores, 2021.

Os Materiais Avançados despontam com 47,3% como indicativo de grande potencial de investimento, confirmando que a oferta ao mercado de produtos com qualidade superior é convertida em competitividade econômica e domínio tecnológico.

Esses produtos com diferenciais tecnológicos e inovadores estão inseridos em áreas tidas como tradicionais, exemplo disso é o ramo biomédico que apresentou 14,10% das aberturas de novas empresas, seguido de 13,10% do segmento destinado a serviços e/ou produtos feitos com impressão 3D.

Além disso, esse demonstrativo de distribuição de Startups por segmentos, também mostra a relação de dois pontos distintos, o primeiro é a abertura de novas empresas entusiastas, preocupadas em se estabelecer no mercado intitulado como sendo de baixa concorrência e o segundo são as grandes empresas com aporte financeiro, em busca de novas demandas tecnológicas, para assim desenvolverem produtos e/ou serviços eficiente e com alta lucratividade.

É inteligível que as grandes empresas possuam melhores formas de promoção e desenvolvimento de materiais com alta complexidade, sejam elas por processo produtivo, insumos ou contratação de mão de obra especializada, e o modo com que estas grandes empresas fazem pesquisa e desenvolvimento e se integralizam ao processo de inovação, servirá de reflexo de como os novos empreendimentos serão constituídos, isso se justifica com o controle de investimento de alto risco, pois os investidores terão mais confiabilidade no investimento e consequentemente no retorno.

Sendo assim, é visível a boa aceitação do mercado para os materiais avançados, pois propiciam riscos ou incerteza menores de investimento após comprovações técnicas de suas aplicabilidades, e essa gama de materiais passaram a ser presentes em diversos produtos como: revestimento térmicos, fibras têxteis, reforço de materiais compósitos, usados posteriormente em materiais de consumo.

Para auxiliar na leitura dos resultados, foi elaborada uma Matriz SWOT com a finalidade de compreender de maneira simples e objetiva a posição estratégica do negócio de materiais avançados no cenário de inovação brasileiro.

A Análise SWOT é uma ferramenta utilizada para fazer análises de cenário (ou análises de ambiente), sendo usada como base para a gestão e o planejamento estratégico de uma organização. É um sistema simples para posicionar ou verificar a posição estratégica no ambiente em questão (DAYCHOUW, 2007).

Segundo Chiavenato e Sapiro (2003), sua função é cruzar as oportunidades e as ameaças externas à organização com seus pontos fortes e fracos. A avaliação estratégica realizada a partir da matriz SWOT é uma das ferramentas mais utilizadas na gestão estratégica competitiva.

Figura 4- Análise SWOT do mercado de materiais avançados

Fonte: Os autores, 2021.

Nesse sentido, a análise SWOT ajudou na compreensão do ambiente em que o nicho de mercado de materiais avançados está inserido e forneceu informações necessárias para auxiliar no planejamento e adoção de estratégias mais assertivas ao empreendedor e estudos futuros.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O crescimento das Startups em todo o mundo demonstra uma nova forma de empreender, de reinventar modelos de negócios e de gerar inovação. Além disso, com a alta competitividade dos mercados, os avanços tecnológicos, bem como a massificação das tecnologias da informação e comunicação, as empresas contam cada vez mais com Startups para inovar. Portanto, a necessidade de empresas e Startups atuarem em conjunto já não é mais uma tendência e sim um fato.

Respondendo à questão norteadora da pesquisa: De que forma as Startups contribuem com a pesquisa, desenvolvimento tecnológico e com o empreendedorismo na cadeia de valor de materiais avançados no Brasil? Por meio do contexto do estudo e da Análise SWOT conclui-se que a área de Materiais Avançados pode ser considerada como uma das principais áreas habilitadoras da promoção da inovação de base tecnológica, possuindo um grande potencial de agregação de valor e diferencial competitivo. A colaboração de Startups de Materiais Avançados, bem como suas aplicações é de extrema importância para o cenário de inovação nacional, pois é uma área capaz de revolucionar a forma como empresas fazem negócios, visto que os Materiais Avançados representam algumas das formas mais diretas de agregação de valor em tecnologias já estabelecidas. Nesse sentido, a utilização de Materiais Avançados já é capaz de reduzir custos, agregar novas funcionalidades, gerar processos ambientalmente mais sustentáveis entre outras diversas aplicações.

Um ponto importante do Brasil é sua biodiversidade que abriga 20% do número total de espécies da Terra, e por isso o país passa a ter uma grande vantagem competitiva, visto que exibe potencial único para a descoberta de novos materiais e suas propriedades. Além disso, no Brasil, a promoção e o incentivo ao desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação são premissas previstas no art. 218 da Constituição Federal. E mesmo diante desses pontos positivos, apesar da evolução dos investimentos públicos em P&D, o país dispõe de poucas Políticas ou Programa Nacional para Materiais Avançados, principalmente para explorar a biodiversidade nacional.

Tendo em vista a aderência à realidade do Brasil consideramos como pontos importantes para a formulação de Políticas Públicas na área de Materiais Avançados e consequentemente na  Inovação Nacional: a promoção de fomento com ênfase em apoiar a criação e capacitação de empreendedorismo de base tecnológica (Startups); uma melhor interação entre universidade e empresas que favoreçam o surgimento de novas Startups; o estímulo à cooperação internacional, como forma de promover o intercâmbio de conhecimento e práticas inovadoras para que as Startups acessem novos mercados com a possibilidade de expansão para o mercado internacional e a ênfase na superação de desigualdade social do Brasil, visto que a  área de Materiais Avançados é multidisciplinar e transversal com potencial de massificar soluções tecnológicas para resolução de problemas sociais.

REFERÊNCIAS

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[1] Bacharel em Engenharia Mecânica. ORCID:  0000-0002- 6086-5060.

[2] Bacharel em Administração. ORCID: 0000-0002-6205-8430.

[3] Bacharel em Engenharia Elétrica. ORCID: 0000-0002-7116-2694.

[4] Orientador. ORCID: 0000-0002-9936-3770.

[5] Coorientadora. ORCID: 0000-0002-8409-0159.

Enviado: Agosto, 2021.

Aprovado: Outubro, 2021.

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