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Táticas e estratégias em experiência de construção da sustentabilidade rural no Nordeste brasileiro

RC: 131420
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

RODRIGUES, Maria da Conceição Alves [1]

RODRIGUES, Maria da Conceição Alves. Táticas e estratégias em experiência de construção da sustentabilidade rural no Nordeste brasileiro. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 11, Vol. 02, pp. 58-75. Novembro de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/sociologia/sustentabilidade-rural

RESUMO

Este artigo propõe uma abordagem sobre os mecanismos de articulação de saberes em projetos de construção da sustentabilidade em ambientes vulneráveis à seca, centrando a atenção nas práticas cotidianas dos agricultores e sua relação com as práticas tecnológicas difundidas por Organizações Não Governamentais – ONGs com programas locais de inovações sustentáveis. Para tanto, tomou-se como lócus empírico a comunidade rural de Lajedo de Timbaúba, Município de Soledade-PB, por tratar-se de uma localidade onde se registra um dos primeiros casos de planejamento do desenvolvimento local sustentável para o semiárido paraibano. Em termos teóricos considerou-se factível situar a interação de saberes posicionando a análise segundo a perspectiva de “táticas” e “estratégias” de Michel de Certeau (2008) para responder à questão norteadora da pesquisa: como os agricultores se apropriam de saberes externos e quando se apropriam utilizam algum mecanismo para aceitação/rejeição/modificação? Assim, com o objetivo principal de analisar como se estabelece a interação de saberes entre agricultores e agentes de ONGs, a pesquisa se desenvolveu em duas vertentes: estudos de dados secundários (pesquisa bibliográfica) e pesquisa de campo, utilizando-se métodos de abordagem qualitativa através da observação participante, entrevistas semidirigidas (individuais e coletivas), entre outros recursos disponíveis. O estudo revelou que os saberes externos quando postos na relação cotidiana dos agricultores são ajuizados a partir de critérios avaliativos e serão julgados como vantajosos ou desvantajosos para os modos de organização, preservação da terra e reprodução econômica e social da unidade de produção da agricultura familiar. 

Palavras-chave: Relações de Saberes, Sustentabilidade Rural, Extensão Rural, Práticas Cotidianas.

1. INTRODUÇÃO

Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 o que trata da temática da Sustentabilidade rural é o Objetivo 2: Fome Zero e Agricultura Sustentável – visando acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. Logo, para alcançar este objetivo é necessário promover práticas agrícolas sustentáveis por meio do apoio à agricultura familiar, do acesso equitativo à terra, à água, à tecnologia e ao mercado.  (CARVALHO, 2019).

Em vista disso, o conceito de sustentabilidade rural que se defende neste artigo se inscreve dentro do enfoque do objetivo 2 da Agenda 2030 quando considera a necessidade   de ações e políticas concretas para garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos, com a implementação de práticas agrícolas alternativas que aumentem a produtividade e a renda dos agricultores familiares; que  fortaleçam a capacidade de convivência com as secas; que melhorem progressivamente a qualidade da terra e do solo por meio de acesso à práticas tecnológicas, recursos produtivos e novos conhecimentos. Mais do que nunca, os processos de produção, relação e articulação com saberes externos passam a ser indispensáveis (RODRIGUES, 2018).

Destarte, este artigo, resultante de pesquisas realizadas durante Estágio de Pós- Doutoramento (2016/ 2017), tem como objetivo principal analisar as vivências dos agricultores paraibanos em experiências de construção do desenvolvimento rural sustentável, abordando a questão das relações de saberes no meio rural, situando o estudo das práticas cotidianas dos agricultores e sua relação com as práticas tecnológicas propostas por Organizações Não Governamentais – ONGs, com programas locais de geração e difusão de inovações sustentáveis dentro da perspectiva de sustentabilidade rural para a região semiárida nordestina.

Escolhe-se como objeto empírico de estudo a comunidade rural de Lajedo de Timbaúba, Município de Soledade, localizado na microrregião do Curimataú Paraibano. Trata-se de uma comunidade rural onde se registra um dos primeiros casos de planejamento do desenvolvimento local sustentável para o semiárido paraibano tornando-se, portanto, cenário adequado para se analisar relações de saberes no meio rural sob a perspectiva de sustentabilidade.

Uma das hipóteses que verificamos na nossa pesquisa é que há uma homologia entre o que Michel de Certeau em “A Invenção do Cotidiano, Artes de fazer” (2008) descreve em relação ao sistema social: “As pessoas comuns (ordinárias) fazem dos saberes ou das ações que lhes são impostos outra coisa que não aquela que quem apresenta julga obter”, e a transmissão hierárquica de saberes nas propostas de sustentabilidade rural para o semiárido nordestino. O que significava verificar se as práticas tecnológicas difundidas por Organizações Não Governamentais (ONGs), na comunidade rural de Lajedo de Timbaúba, não pareciam estar na exclusiva transmissão do conhecimento dos técnicos aos agricultores, transformando-os em mero depósito desses conhecimentos, “numa via descendente e hierárquica aos assujeitados”.  O que não significa dizer que tais conhecimentos serão absorvidos tais quais foram transmitidos ou que os agricultores não se utilizem de determinados mecanismos para sua aceitação ou rejeição.

Assim, buscamos investigar as práticas cotidianas dos agricultores de Lajedo de Timbaúba a partir do seu modo de sentir, pensar e agir no cotidiano do seu fazer, buscando responder: como esses agricultores se apropriam de saberes externos? Ao se apropriarem, se utilizam de algum mecanismo para sua aceitação/rejeição/modificação? Para responder tais questionamentos, abordamos o processo de construção das estratégias e resistências, engendrado individual e coletivamente, no âmbito da relação entre as propostas de sustentabilidade rural e a adequação de tal ou qual prática tecnológica nesse processo, entendidas como práticas orientadoras do fazer cotidiano desses agricultores, articulando aquilo que Michel de Certeau (2008) denominou como “táticas” (práticas cotidianas) e “estratégias” (ações que elaboram lugares teóricos).

2. METODOLOGIA

A pesquisa operacionalizou-se através de dados secundários e primários. Assim, iniciou-se a pesquisa bibliográfica que deu subsídios sobre questões teóricas e de conteúdo sobre o objeto de estudo. A seguir, realizou-se a pesquisa de campo no período de abril a agosto de 2016, tomando como amostra vinte e cinco (25) famílias moradoras da comunidade em foco, quando foram aplicados vinte e cinco (25) questionários e feitas quinze (15) entrevistas.

Utilizando-se métodos de abordagem qualitativa fez-se necessário o constante questionamento mútuo entre teoria e dados de campo. Assim, a pesquisa de campo se realizou através do uso sistemático e articulado de um conjunto de instrumentos de discussão e de coleta de informações, que se traduziu na prática, em diversas estadas de duração variada, utilizando-se a observação participante e diversos tipos de entrevistas (individuais e coletivas), especialmente histórias de vida e entrevistas semidirigidas e semiestruturadas as quais consistiram de perguntas definidas, mas abertas, que ao mesmo tempo permitia a introdução de novas questões visando a acompanhar o desenvolvimento ou o aprofundamento do “discurso” do informante (CHIZZOTTI, 2001). O que favorecia a participação do informante na elaboração do conteúdo da pesquisa.

Para observar as ações das ONGs, analisamos suas propostas através dos programas e suas ações através de relatórios, atas etc. Recorremos a entrevistas tanto com os agentes destas, como também com os agricultores locais, tentando resgatar o que as ONGs fizeram, como é que foi feito, etc. De maneira que pudéssemos  perceber também, o que essas entidades pensam sobre Sustentabilidade Rural, para então, conseguir os elementos necessários para as observações na comunidade. Essa perspectiva se efetivou, de fato, ao decidirmos entender, primeiro, como as ONGs trabalham ou conceituam o Desenvolvimento Sustentável para, a partir daí, entendermos como esse conceito é trabalhado ou entendido pelos agricultores de Lajedo de Timbaúba.

Assim, pudemos perceber os mecanismos que os agricultores usam para explicar a realidade em que vivem; entender como é que eles lidam com as ações e compreender como se apropriam dos conhecimentos que vêm de fora. Então, pudemos identificar, naquilo que os agricultores estão pensando, o que é elemento que veio das ONGs e o que não é; o que eles absorveram; o que eles reconstruíram; a que eles deram novos sentidos ou significados e quais as práticas que foram incorporadas, negadas ou recriadas pelos agricultores em experiência de construção de sustentabilidade rural.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Analisar a relação de saberes (técnico, científico, tradicional), no meio rural, não é algo tão simples como pode às vezes parecer. Principalmente quando se pretende inserir o saber do agricultor nessa relação, já que poucas são as referências existentes e as abordagens que poderiam dar suporte teórico a esta discussão. Por muito tempo, o rural foi erroneamente associado ao atraso, e a extensão rural surgia com a missão civilizatória de “levar” ou “transmitir” o conhecimento, via difusão de pacotes tecnológicos, para as pessoas residentes no campo, essas consideradas desprovidas de quaisquer conhecimentos.

Tal perspectiva verticalizada e autoritária foi motivo de grandes discussões nos meios acadêmicos ao tempo em que surgiam questionamentos sobre como esses conhecimentos eram transmitidos e de que modo se relacionavam com os saberes locais. Na busca de embasamento teórico para subsidiar nossa análise de como os agricultores de lajedo de Timbaúba se apropriam dos conhecimentos que vêm de fora e se utilizam alguns mecanismos para  aceitação/rejeição/modificação/subversão, encontramos em Michel de Certeau (2008) – ao analisar o papel das práticas cotidianas das pessoas comuns (ordinárias) na organização do tecido social e discernir um movimento de microrresistências, de inversão e subversão pelos mais fracos em relação aos saberes difundidos e impostos pelas elites produtoras de linguagem a base conceitual  para analisarmos como se estabelecem as relações de saberes entre os agricultores e os técnicos de Organizações Não Governamentais (ONGs) em experiências de construção de sustentabilidade rural.

Por que Michel de Certeau, em uma discussão sobre sustentabilidade rural e relação de saberes? A literatura mais recente, que procura sintetizar as discussões sobre essas questões, como faz Enrique Leff (2012), as caracterizam como:

A sustentabilidade é um propósito que está além das capacidades de ciência e tecnologia para reverter a degradação ecológica e gerar crescimento sustentável. A racionalidade ambiental se enraíza no campo da ecologia política, em que os novos atores sociais são mobilizados por diferentes visões e interesses, guiados por valores e conhecimentos incorporados nas suas identidades culturais (LEFF, 2012, p. 62).

Portanto, aborda sobre um futuro sustentável fundado em uma racionalidade ambiental e no diálogo de saberes. A transcendência da racionalidade ambiental é impulsionada pelo encontro dos interesses antagônicos e pelo diálogo do conhecimento, implicando uma resignificação cultural do mundo diante dos desafios da sustentabilidade.

Michel de Certeau dedicou grande parte de seu trabalho à participação efetiva das práticas cotidianas na organização do tecido social. Sua dedicação a essas práticas não resultou de uma compreensão ingênua das relações de poder. Seu argumento, ao contrário, é desenvolvido a partir do reconhecimento de que as autoridades (pessoas ou instituições simbólicas ou reais) que organizam a sociedade estão perdendo ou perderam sua legitimidade, devido a um tecnicismo excessivo do poder e a uma pluralização de pontos de referências. O autor, então, investe seus esforços na sugestão de caminhos para se começar a compreender o efervescente movimento de uma sociedade tentando se organizar sem uma regra universal.

Vejamos os casos dos camponeses brasileiros à luz dos conceitos propostos por Certeau (2008). Resistência, nesse sentido, é definida como fazendo/desfazendo o jogo do outro, usando referências derivadas de um poder externo. Certeau, então, descreve uma situação, onde sertanejos são oprimidos por meios econômicos e físicos e subjugados aos discursos da camada mais rica desta sociedade. A situação, entretanto, não impede a existência de um espaço polêmico, alimentado em parte pela religiosidade local.

O espaço é distribuído de maneira a estratificá-lo em dois níveis. De um lado, um espaço socioeconômico, organizado por uma luta imemorial entre poderosos e pobres, apresenta-se como o campo das perpétuas vitórias dos ricos e da polícia, mas também como o reinado da mentira (ali nunca se diz uma verdade, a não ser em voz baixa e na roda dos lavradores: “agora a gente sabe, mas não pode dizer alto”). Ali, sempre, os fortes ganham e as palavras enganam.

Pode-se argumentar que esse tipo de resistência não desafia o poder estabelecido. É fato. Contudo, há que se perceber uma fissura entre o discurso hegemônico e a produção de sentido pelos sertanejos, entre o discurso dos coronéis do sertão e o discurso místico circulando entre os camponeses, o discurso dado pela religião – é importante lembrar que as táticas não têm lugar próprio, elas partem de um lugar organizado. Se não for o discurso dos coronéis, será o da religião. Se for o da religião, será outro. Pode-se argumentar que a resistência dos agricultores não desafia o poder estabelecido. Contudo, há que se perceber uma fissura entre o discurso hegemônico e a produção de sentido pelos sertanejos.

A partir da linguagem que receberam da religião, dos coronéis do sertão e outros, os camponeses foram capazes de abrir novas possibilidades significativas e novos relatos, o que não significa que uma situação melhor chegaria mais cedo ou mais tarde. Há um movimento dinâmico do sentido em um espaço aparentemente controlado. O que estão em jogo são as “comunidades discursivas dinâmicas” que permitem a reutilização de uma linguagem recebida, o jogo com o que foi ou não dito, isto é, o uso irônico da linguagem. Um jogo que Certeau resume através da frase reproduzida entre os sertanejos: “agora a gente sabe, mas não pode dizer alto”. A possibilidade de uma nova organização de poder é criada, mas está sob uma ameaça material:

Os “crentes” rurais desfazem assim a fatalidade da ordem estabelecida. E o fazem utilizando um quadro de referência que, também ele, vem de um poder externo [a religião imposta pelos missionários]. Reempregam um sistema que, muito longe de lhes ser próprio, foi construído e propagado por outros, e marcam esse reemprego por “super-ações”. […] um uso [“popular”] da religião modifica-lhe o funcionamento. Uma maneira de falar essa linguagem recebida a transforma em um canto de resistência, sem que essa metamorfose interna comprometa a sinceridade com a qual pode ser acreditada, nem a lucidez com a qual, aliás, se veem as lutas e as desigualdades que se ocultam sob a ordem estabelecida (CERTEAU, 2008, p. 78).

O que significa dizer que uma maneira de utilizar sistemas impostos constitui a resistência à lei histórica de um estado de fato e às suas legitimações dogmáticas. Uma prática da ordem construída por outros lhe redistribui o espaço. Ali ela cria ao menos um jogo, por manobras entre forças desiguais e por referências utópicas. Mil maneiras de jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja, o espaço instituído por outros, caracterizam a atividade sutil, resistente, de grupos que, por não terem um próprio, devem desembaraçar-se em uma rede de forças e de representações estabelecidas. Nesses estratagemas de combatentes, existe uma arte dos golpes, dos lances, um prazer em alterar as regras de espaço opressor.

Em “A Invenção do Cotidiano, Artes de fazer” (2008), edição traduzida por Ephraim Ferreira Alves, estabelecida e apresentada por Luce Giard, Michel de Certeau esboça uma teoria das práticas (táticas) cotidianas para extrair dessas as maneiras de fazer. Conforme a leitura proposta aqui, espaços e lugares, táticas e estratégias fazem parte de um mesmo problema: a tentativa de organização social devido à ausência de referentes universais.

Para Certeau, a uma produção (estratégia) racionalizada (que aplicamos no nosso estudo em referência à proposta de sustentabilidade) corresponde outra produção (tática) qualificada de consumo (que utilizamos em referência aos agricultores). Esta produção é astuciosa nas maneiras de empregar os saberes impostos por aquela:

A uma produção racionalizada, expansionista além de centralizada (…) corresponde outra produção qualificada de “consumo”: esta é astuciosa e dispersa, mas ao mesmo tempo se insinua ubiquamente, silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante (CERTEAU, 2008, p. 39).

Percebe-se, então, a recusa de Certeau frente à ideia de consumidores passivamente absorvendo produtos e sendo moldados por eles. Nesta concepção, ele acredita que, diante de um tipo específico de saber, aquele que sustenta e determina o poder (as estratégias) posta-se uma produção de tipo totalmente diverso, qualificada como consumo (as práticas cotidianas), que têm como característica suas astúcias, sua clandestinidade, uma quase invisibilidade, pois ela quase não se faz notar por produtos próprios (onde teria o seu lugar?), mas por uma arte de utilizar aqueles que lhe são impostos.

Portanto, para Certeau, “o espaço é um lugar praticado”. O título “o lugar praticado”, no entanto, enfatiza a ausência de um lugar próprio para as táticas e os movimentos cotidianos operarem. Dessa forma, o autor deixa claro que os movimentos táticos somente se articulam a partir de um lugar organizado. Uma ordem segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência.

Primeiro, há um dado lugar, o lugar controlado. Nesse espaço organizado, a memória dos sujeitos intervém no momento próprio. Essa intervenção produz um efeito na ordem estabelecida no lugar e produz uma nova acomodação do espaço. Portanto, a articulação de uma memória com uma oportunidade (ocasião) é a condição das intervenções táticas. Elas tiram proveito das articulações do lugar a partir de um saber e de uma memória que se articula no momento adequado.

As operações ligadas diretamente a um poder e que têm por objetivo organizar o espaço social são definidas por Certeau como estratégias. Um dos principais procedimentos estratégicos é a exclusão do outro. O processo de divisão que organiza o sentido pela separação, por outro lado, também produz um discurso sobre o outro. Contudo, a prática da divisão costuma esconder ou ignorar suas origens e relações de poder. Paradoxalmente, ao escrevermos sobre o outro, ao tomá-lo como objeto de estudo, o outro se faz ausente do discurso autorizado, mas é produzido como um outro diferente, domesticado pelas estratégias de poder que organizam o espaço social:

Chamo de “estratégia” o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, uma cidade, uma instituição científica) é isolável de um “ambiente”. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e portanto, capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta (os clientes ou os concorrentes, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa etc). A nacionalidade política, econômica ou científica foi construída segundo esse modelo estratégico (CERTEAU, 2008, p. 46).

Para se pensar a reflexão sobre as novas articulações dinâmicas, o movimento dentro do lugar organizado por estratégias, enfim, o espaço, Certeau propõe o uso do termo “tática”. Descreveu as táticas como sendo uma série de procedimentos que usam as referências de um lugar próprio, controlado pelas “estratégias, um cálculo que não conta com um próprio” Posto de outra forma, as táticas remetem a operações que não têm seu próprio lugar; elas fazem uso do lugar. Aproveitam as ocasiões e delas dependem, transformando o lugar próprio em espaços dinâmicos (lugar praticado). As táticas se beneficiam do tempo, ou como o autor explica, do fato do seu não-lugar.  Esse não-lugar força o movimento “dentro do campo da visão do inimigo” e no espaço por ele controlado:

Chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. Ela aí se insinua, fragmentariamente, sem aprendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância (…) tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar em “ocasiões”. É determinada pela ausência de poder assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder (…) sem cessar, o fraco deve tirar partido de forças que lhes são estranhas (CERTEAU, 2008, p. 47).

A distinção que Certeau faz entre táticas e estratégias tem um caráter operacional que busca compreender as relações de poder. Por exemplo, uma diferença principal é o status dessas relações e a capacidade de manter o que elas conquistam ou usam. As estratégias têm por objetivo a organização de um espaço que é estável, onde o tempo é controlado; elas apontam para a ficção de controle do objeto da história ou das práticas da vida cotidiana. As estratégias dependem de um poder para sustentar tais situações. As táticas abrem possibilidades ao usar a linguagem também. Contudo, sua relação com o tempo é radicalmente diferente. As táticas não supõem um controle do tempo e invocam um movimento contínuo.

A ordem efetiva das coisas é justamente aquilo que as táticas populares desviam para fins próprios sem a ilusão de que a situação mude proximamente. Enquanto é explorada por um poder dominante ou simplesmente negada por um discurso ideológico, aqui a ordem é representada por uma arte. A cultura popular seria isso e não um corpo considerado estranho, estraçalhado a fim de ser exposto, tratado e citado por um sistema que reproduz, com os objetos, “a situação que impõe aos vivos”.

Certeau se limita a propor algumas maneiras de pensar as práticas cotidianas dos consumidores, supondo, no ponto de partida, que elas estão na dependência de um grande conjunto, difícil de delimitar e que, a título provisório, pode ser designado como o dos procedimentos. São esquemas de operações e manipulações técnicas.

Trata-se de um saber sobre os quais os sujeitos não refletem. Não pertence a ninguém. Fica circulando entre a inconsciência dos praticantes e a reflexão dos não-praticantes, sem pertencer a nenhum. Trata-se de um saber anônimo e referencial, uma condição de possibilidade das práticas técnicas ou eruditas.

Em “A Cultura no Plural” (2008), Certeau já manifesta a recusa da uniformidade que um poder administrativo gostaria de impor em nome de um saber superior e do interesse comum. Atacou com vigor a celebração estabelecida de cultura no singular que ele criticava por ser sempre traduzida como o singular de um meio. Sendo assim, sua vontade de substituir essa cultura no singular, que impõe sempre a lei de um poder, por outra concepção centrada na cultura no plural, que conclama incessantemente pelo combate em uma língua que não seja estranha à maioria.

Tudo vem do centro. Tudo parte do alto. Do mesmo modo, a lei que quer que tudo dependa de uma ‘elite’ fixa igualmente para a transmissão da cultura uma via descendente e hierárquica, aos assujeitados (…) Uma linguagem da técnica ou da ciência, dotada do poder de transformar, é reservada à elite (CERTEAU, 2008, p. 202).

Neste artigo, buscamos uma analogia entre o que Certeau descreve em relação às pessoas comuns (ordinárias) que parecendo submetidas a saberes que lhes são impostos subvertem a situação, e a transmissão hierárquica de saberes nas propostas de sustentabilidade rural para o semiárido paraibano.

Assim, abordamos as diferentes “táticas” adotadas pelos agricultores de Lajedo de Timbaúba como práticas cotidianas de apropriação/interação/recriação de saberes, constituindo-se em maneiras de afirmação dos saberes internos que orientam suas práticas tecnológicas e o modo do seu fazer. Essa constatação nos remete à necessidade de discernir, dentro dessas práticas cotidianas de afirmação de saberes, a possibilidade de um movimento de microrresistências, de inversão/rejeição/modificação pelos agricultores em relação aos saberes externos das propostas de sustentabilidade rural. 

4. AGRICULTORES E TÉCNICOS: OS CONFRONTOS, AS RESISTÊNCIAS, AS TENSÕES E OS CONFLITOS DE UMA RELAÇÃO

Os primeiros casos de ação visando à sustentabilidade rural em Lajedo de Timbaúba surgiram das iniciativas da Igreja Católica, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Associação dos agricultores locais. Esses grupos buscaram o apoio de Organizações Não Governamentais (ONG’s) para a implementação de alternativas sustentáveis de convivência com às secas e desenvolvimento de metodologias participativas, tendo por base fundamental a participação efetiva dos agricultores em todas as fases do processo. Dentro desses propósitos, duas ONGs passaram a atuar na comunidade a partir da década de 90: PRACASA (Programa de Associativismo e Capacitação do Pequeno Produtor Rural no Semiárido) e PATAC (Programa de Aplicação de Tecnologias Aplicadas às Comunidade)

O PRACASA foi a primeira ONG a chegar à comunidade, porém, por falta de um corpo técnico, buscaram esse tipo de apoio e passaram a atuar em parceria com o PATAC, uma Organização Não Governamental criada no início da década de 70 com o objetivo de:

Trabalhar para a viabilidade da agricultura familiar no Nordeste brasileiro, especialmente na região do semiárido paraibano, difundindo tecnologias a partir de uma abordagem agroecológica e na perspectiva da construção de uma proposta de desenvolvimento sustentável (PATAC, 2004).

As primeiras ações do PRACASA e do PATAC na comunidade rural de Lajedo de Timbaúba foram direcionadas a um grande problema da região – não o único, mas aquele que chamava mais à atenção – a falta de água. Assim, as primeiras alternativas tecnológicas implementadas em Lajedo de Timbaúba foram as de captação e uso da água das chuvas para o consumo humano, facilitando a convivência dos agricultores com as estiagens prolongadas: as cisternas de placas (cisternas redondas feitas de placas de cimento,  mais resistentes e de menor custo que as tradicionais cisternas quadradas de tijolos),  construídas pelo sistema dos Fundos Solidários Rotativos (FSR). Implantadas na comunidade desde 1993, essas cisternas passaram a ser adotadas, no Estado da Paraíba,  no Programa Um Milhão de Cisternas (PIMC) que adotou as cisternas  de placas para todo o Semiárido brasileiro (PATAC, 2016).

A partir das cisternas de placas, as experiências foram se multiplicando na comunidade de Lajedo de Timbaúba, entre as principais podemos citar: banco comunitário de sementes; poços artesianos; barragens subterrâneas; silagem; apicultura; caprinocultura; tanques de pedra; beneficiamento de frutas nativas, etc. E mais recentemente, em 2012, o dessalinizador (processo físico-químico que retira o excesso de sais minerais presentes na água salgada ou salobra) que favorece não apenas aos agricultores locais, mas também às comunidades vizinhas.

Assim como Certeau, que descreve uma transmissão hierárquica de saberes difundidos e impostos pelas elites produtoras de linguagem em relação à organização do sistema social, buscamos fazer uma analogia em relação às propostas de sustentabilidade rural para o semiárido paraibano. O que significa dizer que para os agricultores de Lajedo de Timbaúba, a lógica do modo de viver e conceber o espaço rural como lócus de sua reprodução vai confrontar-se com a lógica das Organizações Não Governamentais (ONGs) com propostas de sustentabilidade rural que se reproduzem fora dos espaços organizados e estruturados das unidades de produção. Nesse confronto, os agricultores têm adotado táticas de resistência em relação às lógicas externas.

Nós tem um conhecimento… a gente sabe… e se coloca numa posição nas ações que não seja inviável, porque se tiver modelo de um tipo a gente aqui pode transformar ele num modelo que o agricultor entende e eles é obrigado a entender que é a opinião dos agricultores e não dos técnicos. Nós não aceita do jeito que eles traz não. Nós transforma, nós é que fazemos o conhecimento com as ações que nós tem recebido na comunidade; nós fazemos as ações do modo que nós pensa que tá certo. Não é dizer você vai ter que fazer isso desse jeito e nós ter que fazer (L.M.A., entrevista, abril de 2016). 

Lembremos que para Certeau (2008), a uma produção (estratégia) racionalizada corresponde outra produção (tática) qualificada de consumo que é astuciosa nas maneiras de empregar os saberes impostos por aquela. Astuciosas, as táticas dos agricultores de afirmação de saberes são práticas cotidianas de resistências, negação ou adesão às práticas tecnológicas difundidas pelos técnicos das ONGs. Há, portanto, um modo peculiar de troca e/ou confronto dos agricultores com os técnicos e outros agentes com os quais se relacionam nas referidas políticas. Para uns, o modo de se relacionar com os técnicos é através da dissimulação e do silêncio, como uma forma de não se expor ao técnico e manter, ao mesmo tempo, uma boa relação com ele, como podemos atestar em um relato:

Ele [o técnico] chega e me dá uma explicação, eu escuto, não digo que tá errado… Fico calado escutando, não vou dizer que tá errado não. Ele chegou deu explicação de muita coisa a gente… pra fazer o plantio, você planta assim, você planta assado… eu disse tá certo doutor. Eu vou dizer que ele tá errado? Eu posso dizer? Ele é formado… que é isso? [risos] (S.M.A., entrevista, abril de 2016).

Noutro relato, percebemos que, no caso da interação com técnicos, a relação é construída num processo gradual em que as orientações técnicas vão sendo observadas e testadas em seu processo produtivo. Para os agricultores entrevistados, o instrumento principal que lhe permite esse confronto permanente é a sua “experiência”:

Nós recebe a dica todinha. É uma dica boa, mais a gente não vai de uma vez não, vai devagarzinho, se a gente ver que a dica dá certo…  a gente sabe por que tem mais experiência que ele. Se vê que a dica é certa, aí a gente vai devagarzinho e depois solta aqui, ali… nós tem que ir atestando. Porque eles não têm a prática que nós temos, né? A prática deles é só do estudo, mas a gente tem a experiência (M.J.S., entrevista, maio de 2016).

Além da experiência, os agricultores de Lajedo de Timbaúba também reafirmam a importância do termo inteligência como uma capacidade estratégica de recriação de práticas. A tática de diversificação de culturas, por exemplo, tem se afirmado como uma prática econômica bem como uma alternativa concreta às adversidades enfrentadas pelos agricultores. Ao mesmo tempo, ela é simbolicamente assumida pelos que a praticam como uma prática cultural de afirmação de experiência e inteligência.

Se não tiver inteligência pra plantar, se você teimar em plantar uma coisa só, tá morto… Aí, quem não usa a inteligência e se envolve só com milho e feijão, tem prejuízo, não procura associar a outra coisa… maxixe, jerimum, melancia, batata doce…  Se for um plantio só, tá morto. (A.B.M., entrevista, maio de 2016).

De qualquer modo, a prática desses agricultores os tem colocado numa relação de enfrentamento com os técnicos. O julgamento de valor que os primeiros assumem sobre uma prática tecnológica e suas escolhas correspondentes são implementados a partir de suas experiências e as vantagens oferecidas frente às necessidades de suas unidades. Isso significa considerarmos os aspectos racionais que cada prática traz em sua própria constituição, devendo adequar-se à lógica interna das unidades de produção, caso contrário, ela será considerada em sua exterioridade e, consequentemente, rejeitada por sua inadequação ao processo produtivo imediato do agricultor.

Ao ajuizar se tal ou qual prática tecnológica é pertinente ao seu fazer, os agricultores familiares se posicionam diante de processos externos à unidade de produção, buscando redimensioná-los em seu favor. Não sem incertezas e ambiguidades, mas com cuidado em relação a um mundo que, se não lhe é estranho de todo e privilegia uma lógica que não é a sua, também acena com possibilidades de resolução de dilemas para os quais não se tem resposta imediata.

Nessas relações de confronto e tensão entre as duas práticas tecnológicas, os agricultores considerados não negam a importância do papel do técnico como mediação externa, expressando muitas vezes que o que eles ensinam está tudo certo. No entanto, destacam uma certa desconfiança, quando expressam com cuidado e reticências com expressões do tipo: “eu acho… às vezes… me perdoe a ausência deles…”. Mesmo considerando corretas as orientações técnicas, um agricultor entrevistado só incorpora aquelas que julga adequadas às suas condições, conforme relatou:

Eles [os técnicos] é muito instruído, eles sabe explicar a quem não sabe… Mas a gente questiona… não é chegar vai fazer assim, vai fazer assado… a gente  usa uma parte e outra não. A que eu me agradar (achar vantajosa) eu uso e a que não me agradar, eu não uso… eu faço assim (E.S.R., entrevista, junho de 2016). 

O sentido dessa desconfiança traduz-se nas incontáveis vezes que uma determinada orientação técnica recebida não é levada em conta pelos agricultores por não trazer consigo aspectos que possam ser considerados como adequados ao equilíbrio dos fatores internos da unidade de produção (demanda de maior ou menor dispêndio de tempo ou de trabalho; os custos, os riscos/garantias de uma prática tecnológica, etc.); neste ponto, ela é considerada sem fundamento, exagerada e sem futuro.

Quando o PRACASA, por exemplo, orientou os agricultores a colocarem estrume em todo o roçado. Naquela ocasião, muitos agricultores alegaram “não ter tempo para um serviço tão demorado e tão trabalhoso”, o que modificaria a rotina de trabalho. Um dos agricultores entrevistados afirmou: “Fiz não… você vê que nenhum agricultor aceitou um negócio daquele… [risos]. Tem troço que a gente vê que não tem fundamento… eu acho sem futuro…” (A.G.M., entrevista, junho de 2016).

Outro exemplo citado por vários de nossos entrevistados sobre essa questão referiu-se à proposta de construção de barragem subterrânea. Tais procedimentos tecnológicos foram enfrentados por alguns de nossos entrevistados numa relação de confronto direto com os técnicos. A orientação técnica foi considerada também como sem fundamento, pois, como o que interessava aos agricultores era fazer o máximo de economia, a proposta da barragem subterrânea se apresentava como uma construção exagerada, cara e muito trabalhosa.

A construção de barragem subterrânea, por exemplo, quando a gente viu, a gente só fazia ela se fosse num sistema de economia, economia o máximo possível. Então eles (os técnicos), como já tinham visão de muitos setores, de como se fazia… Então o que nós mudemos… o nível de sangrador, a gente já tinha visto que aqui não dava pra fazer do jeito que tavam explicando, que eles não gostaram no começo, mais depois voltaram, entenderam e hoje eles apoia (I.T., entrevista, julho de 2016).

Nesse enfrentamento, o que pareceu entrar em confronto foram a lógica da proposta de construção e o modo como essa proposta foi veiculada ao processo de trabalho cotidiano desses agricultores. Na lógica dos agricultores, a proposta não condizia com a realidade local. A resistência se apresentou, portanto, tanto em relação ao projeto quanto em relação à localização e aos custos da construção. O modo mais eficaz dos agricultores de Lajedo de Timbaúba de fazer valer seus conhecimentos e experiências acumulados tem sido, pois, pelo desafio explícito entre eles e os técnicos das ONGs, como podemos observar no relato acima.

Nesse processo de confronto entre agricultores e técnicos, o elemento vantagem traduziu-se pelas variáveis tempo gasto versus tempo disponível. Assim, a prática tecnológica passa a ser aceita, num primeiro momento, quando os faz ganhar tempo, além de avançar o trabalho com os meios disponíveis da unidade de produção, constituindo-se nisto sua resistência de não assumir riscos ao desequilíbrio interno de sua unidade.

Quando Certeau (2008), deixa claro que os movimentos táticos somente se articulam a partir de um lugar organizado com uma ordem segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência, deduzimos que as práticas tecnológicas implementadas em Lajedo de Timbaúba são elementos fundamentais para se inferir, na prática, o sentido do equilíbrio interno e a noção do que possa vir a ser vantagem para cada unidade de produção. Se a incorporação de uma nova tecnologia exigir maior demanda de trabalho ou que possa vir alterar a composição e equilíbrio interno da organização do seu processo produtivo, ela será racionalizada segundo essa lógica interna.

São, portanto, esses aspectos considerados exagerados de uma prática tecnológica, os quais passam a ser rejeitados pelo pequeno produtor, embora, nessa mesma relação, outros aspectos possam ser legitimados. Neste último caso, observamos que são incorporados quando apresentam vantagens aos seus processos produtivos, como a adubação orgânica e outras orientações ligadas à preservação do solo. Tal procedimento não constitui nenhum paradoxo, mas sim um processo seletivo de tecnologias.

Outro aspecto do desafio explícito entre agricultores e técnicos que pudemos observar em Lajedo de Timbaúba foi o caso do beneficiamento de frutas nativas (os agricultores conheceram esse projeto em uma visita de intercâmbio na cidade de Remanso-BA). As máquinas para o beneficiamento foram adquiridas através da Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba – EMEPA. Neste caso, não houve rejeição ou transformação de uma técnica nem um processo seletivo de tecnologias. Mas o fato de que tanto o conhecimento quanto as máquinas para o beneficiamento de frutas na comunidade, através de outros órgãos, confrontou-se com a exclusividade requerida pelo PATAC:

Eles [os agentes do PATAC] não gostaram da gente ir atrás dessas coisas não. Acharam que a gente tava sendo terceirizado. Querendo tirar as atenções que eles tinham na comunidade pra dá a outro. E ficou nesse chove não molha. Mas deixemos claro que nós tem parte pra todo mundo e quem vem ajudar tem espaço. E comecei a dar umas injeção; vocês foram por aqui mais foram por aqui também. Nós deve a vocês isso, mas vocês também devem a nós isso aqui também. Porque, por conta da gente, foi a ligação do Nordeste inteiro até o vale do Jequitinhonha. Saímos espalhando experiência pro Rio Grande do Norte, Alagoas, Bahia, Pernambuco… Por conta disso, eles ficaram naquilo achando que a gente tava querendo tirar as atenções, né? (I.T., entrevista, agosto de 2016).

Pelo relato, podemos perceber que os agricultores de Lajedo de Timbaúba não estão limitados a projetos exclusivos de determinadas ONGs ou a propostas de desenvolvimento direcionadas exclusivamente para um local. O que facilita, aos agricultores, a busca de saberes em outras regiões e lhes permite cobrar das ONGs o reconhecimento da troca de saberes entre eles e os técnicos. Assim, a lógica fechada das alternativas tecnológicas foi revisada, pois ruiu frente às resistências encontradas no próprio campo quando posta em relação com os supostos beneficiários.

Portanto, podemos inferir que as práticas cotidianas dos agricultores, observadas na comunidade de Lajedo de Timbaúba, indicam variadas formas de resistências que os agricultores têm adotado para assegurar não só a sobrevivência, mas também a manutenção e o modo de organização da agricultura familiar nas unidades de produção.

Essa constatação nos remete à concepção certeauniana de que as pessoas comuns (ordinárias) fazem dos saberes ou das ações que lhes são impostos outra coisa que não aquela que quem apresenta julga obter. Elas subvertem, não as rejeitam diretamente ou modificam-nas, mas impõem sua maneira de usá-las para fins e em função de referências estranhas ao sistema do qual não podem fugir: A esse poder escapam sem deixá-lo (JOSGRILBERG, 2005).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo principal da pesquisa que ensejou este artigo foi analisar as relações de saberes que se articulam em projetos de construção da sustentabilidade rural, focalizando as práticas cotidianas dos agricultores e sua relação com as práticas tecnológicas difundidas por Organizações Não Governamentais (ONGs), para compreender como os agricultores se apropriam dos saberes externos e se eles se utilizam de algum mecanismo para sua aceitação/rejeição/modificação, articulando essa interação de saberes aos conceitos de “táticas e estratégias” de Michel de Certeau (2008).

A pesquisa revelou que, embora haja um discurso de reconhecimento do saber tradicional por parte das ONGs (produtoras) que atuam em Lajedo de Timbaúba, estas trazem para a comunidade um conhecimento pronto, geralmente construído fora do espaço onde será implementado. O que não significa dizer que tais conhecimentos serão absorvidos tais quais foram transmitidos ou que os agricultores (consumidores) não utilizem determinados mecanismos para sua aceitação ou rejeição.

Elementos como a experiência são reveladores de estratégias de enfrentamentos entre os agricultores e os agentes das Organizações Não Governamentais. O fato de o conhecimento vir do técnico não é uma coisa de validação, a experiência pessoal dos agricultores sim é um fator de validação. Nessa perspectiva, enfrentamentos diretos, silêncios e dissimulações fazem parte do modo de esses agricultores se relacionarem com essas mediações externas.

As resistências dos agricultores de Lajedo de Timbaúba a determinadas práticas tecnológicas não se explicam pela oposição ao que vem de fora ou rejeição absoluta a estas. A não aceitação de uma determinada prática, num primeiro momento, não significa que essa mesma prática não venha a ser aceita num momento posterior. A incorporação ou a negação de práticas tecnológicas se submetem a critérios valorativos por eles julgados adequados ou inadequados o que determinará sua adoção ou rejeição.

Quando falamos de resistência/adoção/rejeição/modificação dos agricultores de Lajedo de Timbaúba à determinadas práticas tecnológicas, não estamos afirmando que esses fatores apareçam constantemente ou de maneira definitiva que não possam ser diferentes em outro momento e nem que as ONGs não tenham a intenção de reconhecimento do saber local. Estamos inferindo que (pelo menos durante o período da realização da pesquisa) os agricultores, ao se apropriarem das propostas de desenvolvimento sustentável implementadas pelas ONGs, as quais atuam com a pretensão de interação de saberes (mesmo trazendo conhecimentos prontos), com a finalidade de solucionar seus principais dilemas, buscam redimensioná-las em seu favor.

REFERÊNCIAS 

CARVALHO, Francisco Toniolo de. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU e seus Atores: o impacto do desenvolvimento sustentável nas relações internacionais. Confluências – Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito – PPGSD-UFF, 21 (3), p. 5-19, 2019.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. 14 ed. Tradução de Ephraim Ferreira Alves “Nova edição, estabelecida e apresentada por Luce Giard. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, 371 p.

_____________ A Cultura no Plural. 5 ed. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Campinas, SP: Papirus (Coleção Travessia do Século), 2008, 253 p.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2001, 76 p.

JOSGRILBERG, Fábio. Cotidiano e Invenção: os espaços de Michel de Certeau. São Paulo: Escrituras, 2005, 152 p.

LEFF, Enrique. Aventuras da Epistemologia ambiental: da articulação das ciências ao diálogo dos saberes. São Paulo, Cortez, 2012, 132 p.

PATAC – PROGRAMA DE APLICAÇÃO DE TECNOLOGIAS APROPRIADAS ÀS COMUNIDADES. Relatórios de Atividades anos 2004- 2016. Puxinanã-PB (mimeo).

RODRIGUES, Maria da Conceição Alves. Saberes e Práticas em Experiência de Construção da Sustentabilidade Rural no Nordeste Brasileiro: extensão ou comunicação? Revista Educação Unisinos, São Leopoldo – RS, v. 22, p. 224–232, 2018. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/edunisinos/v22n2/2177-6210-edunisinos-22-02-224.pdf. Acesso em: 12/01/2022.

[1] Doutorado e Pós-Doutorado em Educação (UFRN); Pós-Doutoranda em Desenvolvimento Regional e Sustentabilidade Rural (Centro de Estudos Sociais – CES, Universidade de Coimbra – Portugal; Mestrado em Sociologia Rural (UFPB); Graduação em História (UFPB). ORCID: 0000-0002-2527-8549.

Enviado: Fevereiro, 2022.

Aprovado: Novembro, 2022.

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Maria da Conceição Alves Rodrigues

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