Relato de casos de infecções por Aspergillus relacionado à contaminação ambiental devido à reforma

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/relato-de-casos
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

BROTTO, Jakeline Marie Servilha [1], CARMO, Thalita Gomes do [2]

BROTTO, Jakeline Marie Servilha. CARMO, Thalita Gomes do. Relato de casos de infecções por Aspergillus relacionado à contaminação ambiental devido à reforma. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 03, Vol. 04, pp. 161-168. Março de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/relato-de-casos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/relato-de-casos

RESUMO

Objetivo: Relacionar a qualidade do ar com o número de infecções ocorridas pelo fungo Aspergillus, no período de outubro de 2015 a janeiro de 2016, e as medidas de contenção empregadas. Método: Foi realizado relato de casos de Infecções fúngicas causadas por Aspergillus relacionada à contaminação do ambiente hospitalar causado por reformas do período de outubro a dezembro de 2015. Foram utilizados dados de infecções do serviço de controle de Infecção Hospitalar e laudos do monitoramento da qualidade do ar interior/exterior referente ao mês de novembro e dezembro de 2015. Entretanto, será descrito sobre a demolição que ocorreu neste período e sobre as medidas de barreiras (contenções) que foram realizadas para diminuir a contaminação ambiental. Considerações finais: Após a análise, foi observado que as possíveis medidas de contenção no local da obra/reforma foram realizadas pela Instituição, porém a questão do tráfego de pessoas próximas ao local da obra requer mais monitoramento, pois o mesmo pode facilitar a disseminação de poeira. Mas é importante ressaltar que no mês que ocorreu a obra/reforma não ocorreu infecção por Aspergillus sp, no entanto, percebemos alteração da qualidade do ar que proporcionou risco de infecção fúngica. As medidas de contenção indispensáveis para a realização das obras e das reformas foram aplicadas, porém percebemos a necessidade de melhoria.

Palavras-chave: Infecção por Aspergillus, contaminação ambiental, reformas.

INTRODUÇÃO

Infecções fúngicas invasivas têm emergido como causa de alta morbimortalidade entre pacientes com neoplasia hematológicas, principalmente os submetidos a transplante de células tronco-hematopoéticas (BRUN, 2011). Fungos estão unipresentes na natureza podendo ser localizados em vários habitats, como: ar, água, terra, animais, alimentos, logo, medidas com objetivo de reduzir a carga fúngica em ambientes hospitalares têm sido preconizadas (SOARES et al., 2007).

Apesar dos microrganismos existentes no ar, encontrados nas áreas hospitalares, serem aparentemente inofensivos para as pessoas saudáveis, eles podem causar efeitos adversos na saúde das pessoas imunocomprometidos (LEE MEEN et al., 2013).

Pacientes Imunocomprometidos são aqueles pacientes cujos mecanismos de imunidade estão deficientes devido a disfunções imunológicas (ex.: infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), doenças crônicas (ex.câncer) ou terapia imunossupressora (ex.: radiação, quimioterapia). Os pacientes imunocomprometidos que são identificados como pacientes de alto risco têm maior probabilidade de adquirir infecções causadas por microorganismos transmitidos pelo ar (SEHULSTER; CHINN, 2003).

Tem um estudo que foi realizado no ano de 2011, em Porto Alegre, que relata a efetividade nesse monitoramento. Neste, foram realizadas coletas de fungos no ar em dois centros de referência em TCTH (transplante de células tronco-hematopoéticas),com diferentes formas de controle de ar. Verificou-se que todos os quartos de um dos hospitais (Hospital 1) analisados estavam equipados com filtro de partículas de ar de alta prevalência (HEPA), enquanto o outro (Hospital 2) não tinha sistema específico para filtragem do ar. Em comparação a ambos os hospitais, não foi observado diferença entre a quantidade de fungos isolados nos corredores. Contudo, nos quartos, observou-se uma redução significativa na quantidade de fungos filamentosos potencialmente patogênicos.

Mas comparando o Hospital 1 com o Hospital 2, foi observado que o hospital 2 apresentou menor quantidade de fungos ambientais, contudo, para fungos filamentosos potencialmente patogênicos não se observou diferença. Sendo que esses fungos patogênicos investigados foram os: Aspergillus, Rhizopus,Fusarium (BRUN, 2011).

A filtração do ar é o primeiro passo para se atingir uma qualidade de ar interno aceitável. É um meio principal de limpeza do ar.

Um filtro conhecido é o filtro HEPA que pode ser indicado para tratamentos especiais em Hospitais.

As pneumonias fúngicas têm o Aspergillus como seu maior agressor, apresentando-se tanto na forma localizada como na forma disseminada (SILVA, 2010).

Aspergillus são fungos que sobrevivem bem no ar, poeira e umidade presentes nos estabelecimentos assistenciais de saúde. A reforma do local e a construção podem perturbar a poeira contaminada com Aspergillus e gerar a reprodução de esporos fúngicos de transmissão aérea. Níveis mais altos de poeira atmosférica e esporos fúngicos têm sido relacionados a infecções contraídas no tratamento médico de pacientes imunocomprometidos.

As perturbações ambientais acarretadas pelas construções e/ou reformas e atividades de reparo (ex.: reparos estruturais) dentro e próximas a estabelecimentos assistenciais de saúde acrescem acentuadamente a contagem de esporos Aspergillus aéreos no ar interno de tais instalações, aumentando, portanto, o risco de aspergilose associada ao tratamento médico entre pacientes de alto risco.

As construções, as reformas, os reparos e as demolições em estabelecimentos de saúde demandam um adequado planejamento para minimizar o risco de infecções de transmissão aérea, tanto ao longo dos projetos quanto depois do seu término (CAMACHO, 2010).

Projetos que também são capazes de Interferir na qualidade do ar interno incluem construções e reparos que permitem que quantidades consideráveis de ar externo não filtrado entrem no ambiente (ex.: tetos, armários de pia necessitando reparo, pisos paredes e prateleiras).

Medidas de contenções para o controle de sujeira são formadas de acordo com o local da construção. As construções e demolições externas exigem ações para manter a poeira fora das instalações (ex.: vedar janelas e aberturas e manter portas fechadas ou vedadas (SEHULSTER; CHINN, 2003).

1. METODOLOGIA

Trata-se de uma abordagem quantitativa, retrospectivamente (GIL, 2002). Será realizado relato de casos de Infecções fúngicas causadas por aspergillus relacionada à contaminação do ambiente hospitalar causado por reformas do período de outubro a dezembro de 2015

Foram utilizados dados de infecções do serviço de controle de Infecção Hospitalar e laudos do monitoramento da qualidade do ar interior/exterior referente ao mês de novembro e dezembro de 2015. Entretanto, será descrito sobre a demolição que ocorreu neste período e sobre as medidas de barreiras (contenções) que foram realizadas para diminuir a contaminação ambiental.

Os parâmetros referenciais utilizados das Análises do monitoramento da qualidade do ar se dividem em duas fases, sendo elas:

  • Contagem total de fungos: pode ter até 750 UFC/m3(Unidade formadora de colônia). Os gêneros utilizados nas amostra são: Histoplasma capsulatum Cryptococcus neoformans, Paracoccidiodes brasiliensis ,Aspergillus fumigatus, Aspergillus parasiticus, Aspegillus flavus Stachybotrys astra e Fusarium moniliforme;
  • Avaliação do ar ambiente: relação de normalidade que consiste em comparar a contagem de fungos do ar interno com a contagem de fungos do ar externo, ou seja, comparar a contaminação do ar ambiente com a contaminação “normal” a qual estaríamos expostos, caso estivéssemos fora do estabelecimento avaliado. Sendo realizado o seguinte parâmetro para avaliação deste: Ar ambiente interior (I) ÷ ar ambiente exterior (E). O valor para estar no padrão de normalidade é: < 1,5. Caso esteja acima deste valor será considerada condição regular, ou seja, não está em condições adequadas (BRASIL, 2003).

Os dados estatísticos de infecções fúngicas causadas por Aspergillus serão abordados no trabalho, assim como o período de internamento do paciente infectado, o setor e o diagnóstico. O nome do paciente estará em sigilo absoluto. No projeto será identificado como caso 1, caso 2 e assim sucessivamente.

Em relação à demolição que ocorreu neste período, será descrito e avaliado o tempo aproximado do processo de demolição, além das medidas de barreiras que foram realizadas conforme citado acima. Todavia, serão abordadas na pesquisa revisões bibliográficas e estudos publicados sobre o assunto para embasamento do projeto.

Foram utilizados artigos científicos, guia do controle de infecções recomendado pelo CDC(Centro de Controle e Prevenção de Doenças) e livro de metodologia para apoio.

2. RESULTADOS E DISCUSSÃO

2.1 CASOS DE INFECÇÃO POR ASPERGILLUS SP.

Aspergillus é um fungo, cuja fonte de contágio mais comum é a via aérea, e que surgiu como causa de infecção grave com risco de vida em pacientes imunodeprimidos. Manifesta-se de três maneiras como formas invasiva, saprofítica e alérgica.

  • Alérgicas: constitui de hipersensibilidade pulmonar associada à destruição das vias aéreas em resposta ao aspergillus spp.
  • Invasiva: Doença infecciosa de alta morbidade e mortalidade em imunodeprimidos.
  • Saprofítica: Geralmente esses pacientes apresentam uma doença pulmonar subjacente, lesão pulmonar cavitária, histoplasmose, sarcoidose, bolha enfisematosa ou doença pulmonar fibrótica. As complicações com risco de morte são hemoptise, fibrose pulmonar e aspergilose invasiva (CHIMER et al., 2009).

No período de outubro a dezembro de 2015 a Instituição estudada apresentou dois casos de infecção invasiva por aspergillus spp. Sendo que, no caso 1, o paciente apresentou cultura positiva para aspergillus spp (aspirado traqueal), sendo esta infecção referente ao mês de novembro. O caso 2 apresentou  a galactomanana acima de 0,5, infecção referente ao mês de outubro. Ambos são pacientes com diagnóstico de Leucemia Mielocítica aguda.

Galactomanana, um polissacarídeo elemento da parede celular de fungos do gênero Aspergillus (CHIMER et al., 2009).

Foi fechado no mês de outubro e novembro de 2015, 6 pneumonias, ou seja, três em cada mês. E dentre elas 2 foram pneumonias fúngicas com agente patológico aspergillus spp.

2.2 OBRAS E REFORMAS

Uma das causas para o risco do aparecimento de Infecções em imunossuprimidos pelo fungo aspergillus spp são reformas e demolições no ambiente sem a realização adequada das medidas de contenção de poeira.

Por isso, numa obra/reforma devem conter uma avaliação de risco dos tipos necessários de construção de barreiras e o monitoramento (FERNANDES, 2000).

Neste período, foi realizada uma demolição importante na Instituição pesquisada (dezembro de 2015). Antes do início da demolição, o serviço de Engenharia avisou o setor de Controle de Infecção Hospitalar conforme protocolo Institucional e o mesmo avaliou as medidas de contenção necessárias e realizou o monitoramento no período de demolição.

Quanto aos cuidados, verificou-se que as janelas dos quartos foram vedadas com lonas, sendo as pessoas orientadas a manter as portas próximas ao local, sempre que possível, fechadas e cobertas com cobertores molhados.

As medidas indispensáveis para o controle de poeira numa obra ou reforma no Ambiente Hospitalar são: Isolamento da área, vedação de janelas com lonas, controle de tráfego de pessoas, utilização de tapetes úmidos no local da obra, limpeza contínua da área (COUTO; PEDROSA, 2012).

Dentro desse momento foi coletado amostras para análise da coleta de ar em vários ambientes próximos ao local para um monitoramento mais rigoroso.

Foram coletados em cinco setores. A identificação de fungos estava dentro dos padrões de normalidade, porém a classificação do ambiente não estava adequada no setor de TMO, setor B e cozinha. Desta forma, no setor TMO identificou-se -1,68 (condição regular). Enquanto, no quarto 2 – setor B, identificou-se 1,95 (condição regular) e na Cozinha: 1,6 (condição regular).

Conforme a Resolução RE nº. 9 de janeiro de 2003 – ANVISA, o monitoramento da qualidade do ar determina e avalia, através dos resultados de análises biológicas, físicas e químicas, o controle da qualidade do Ar interior nos ambientes climatizados, em atendimento a legislação vigente que dispõe sobre parâmetros e procedimentos para o monitoramento (BRASIL, 2003).

Tabela 1: Resultados da pesquisa

TMO 1,68
Quarto 2-setor B 1,95
Cozinha 1,6

Fonte: O autor.

Em novembro (mês anterior) foram realizadas amostras da qualidade do ar conforme protocolo Institucional e os mesmos não apresentaram alterações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após análise, foi observado que as medidas de contenção possíveis no local da obra/reforma foram realizadas pela Instituição, porém a questão do tráfego de pessoas próximas ao local da obra requer mais monitoramento, pois o mesmo pode facilitar a disseminação de poeira. Mas é importante ressaltar que no mês que ocorreu a obra/reforma não ocorreu infecção por aspergillus sp, no entanto, percebemos alteração da qualidade do ar que proporcionou risco de infecção fúngica.

As medidas de contenção indispensáveis para obras e reformas foram aplicadas, porém verificou-se a necessidade de melhoria.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde.  Relação Normativa RE- nº 09 de 16 de janeiro de 2003.

BRUN C. P. Monitoramento de Fungos no ar: Comparação da quantidade de elementos fúngicos viáveis em dois Centros de Transplante de Células, Tronco Hematopoiéticas (TCTH) em Porto Alegre.  Porto Alegre: 2011.

CAMACHO P. A. R. Detecção de Bactérias no ar em Ambiente Hospitalar com recursos e Técnicas Moleculares. Portugal, 2010

CHIMER et al. Qualidade do ar em ambientes internos Hospitalares: Estudo de caso e análise crítica nos padrões atuais. v.14, nº 3,  jul/set. 2009.

COUTO C. R.; PEDROSA G. M. T. Infecção Relacionada à Assistência (Infecção Hospitalar) e outras complicações não infecciosas. 3º ed. Rio de Janeiro, 2012.

FERNANDES T. A. Infecção Hospitalar e suas interfaces na área de saúde. São Paulo: Atheneu, 2000.

GIL C. A. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4ª edição, São Paulo: Atlas, 2002.

LEE MEEN et. al. The importance of dust Dike prevention of fungal infections in a hospital oncology. Int. J. Environ. Res. Saúde Pública 2013.

SEHULSTER L.; CHINN R. Y.  Guidelines for environmental infection control in health-care facilities. Recommendations of CDC and the Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee (HICPAC). MMWR Recomm Rep. 2003 Jun 6;52(RR-10):1-42. PMID: 12836624.

SILVA, R. F. Capítulo 8 – Infecções fúngicas em imunocomprometidos. J. bras. pneumol.,  São Paulo,  v. 36,  n. 1,  p. 142-147,  Feb.  2010. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-37132010000100019&lng=en&nrm=iso>.

SOARES et. al. Microbiota fúngica presente em diversos setores de um hospital público em Campina Grande – PB. pág. 213, Campina Grande: RBAC 2007.

[1] Enfermeira graduada em Enfermagem, Pós graduada em Gestão e controle de infecção Hospitalar.

[2] Orientadora. Doutorado em Programa de Pós-Graduação em Ciências do Cuidado da Saúde (PACCS/UFF).

Enviado: Setembro, 2020

Aprovado: Março, 2021

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