Compreensão E Adesão Da Prescrição Médica Em Uma Policlínica Da Amazônia Brasileira

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Compreensão E Adesão Da Prescrição Médica Em Uma Policlínica Da Amazônia Brasileira
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ARTIGO ORIGINAL

AMARAL, Raquel Rodrigues [1], NAZIMA, Maira Tiyomi Sacata Tongu [2], ARRUDA, Lucas Giannini de Oliveira Conrado [3], CARVALHO, Pablo Stevan Barbosa [4], MAIA, Fernanda Sachia Chaves [5], ANDRADE, Luan Victor Leite [6], LIMA, Sandro Rodrigues [7]

AMARAL, Raquel Rodrigues. Et al. Compreensão E Adesão Da Prescrição Médica Em Uma Policlínica Da Amazônia Brasileira. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 12, Vol. 05, pp. 05-17 Dezembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Objetivou-se com esse estudo avaliar os diversos fatores que interferem direta ou indiretamente na compreensão e adesão da prescrição médica em uma Unidade Básica de Saúde (Policlínica da Universidade Federal do Amapá), localizada na Amazônia brasileira. Foram entrevistados 200 pacientes atendidos na policlínica da Universidade Federal do Amapá no período de outubro/2017 a dezembro/2017. Foi aplicado questionário que continha questões estruturadas que avaliaram sexo, idade, escolaridade, nível de compreensão e adesão da prescrição médica, fatores relacionados a caligrafia do médico e se o mesmo questionou sobre alergia medicamentosa ou alertou dos possíveis efeitos adversos dos medicamentos. Do total dos pacientes entrevistados, 57% encontravam-se na faixa etária dos 26-50 anos de idade; 74,5% eram do sexo feminino, 24,5% eram do sexo masculino e duas pessoas não quiseram responder a tal questionamento. Em relação à afirmação “considero que compreendi bem o tratamento receitado” 48,5% concordaram totalmente, 36,2% estiveram de acordo e 10,5% não concordaram com tal afirmação (discordaram totalmente ou apenas discordaram), outros 9 entrevistados (4,5%) se mantiveram em posição neutra (não concordam nem discordam). Conclui-se que em muitos aspectos relacionados ao atendimento, principalmente os fatores relacionados à prescrição, ocorrem falhas que prejudicam o sucesso terapêutico da população atendida na Policlínica. Assim, esse estudo é importante para alertar os médicos quanto aos pontos que devem ser aperfeiçoados em relação à prescrição medicamentosa a fim de proporcionar maior compreensão e adesão à terapêutica instituída, bem como a melhora da relação médico-paciente.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde, Prescrições de Medicamentos, Adesão à Medicação.

INTRODUÇÃO

A prescrição médica é uma ferramenta de suma importância para a indicação da terapêutica, devendo conter informações gerais do paciente (nome, idade, sexo e endereço) e do tratamento a ser utilizado, informando a posologia, frequência e duração do tratamento adequado de acordo com a realidade e condição de saúde de cada paciente escrito de forma legível. A falta de compreensão da prescrição é uma importante razão para a não adesão ao tratamento (GIMENES et al., 2009; GIMENES et al., 2010; CRUZETA et al., 2013).

Dificuldades em compreender de forma adequada as informações da prescrição são comuns nos serviços de saúde primária e suas causas podem ser devido a uma linguagem rebuscada – fora da realidade dos pacientes -, informações desorganizadas ou sem clareza e uma caligrafia de difícil compreensão, as quais tornam ilegível a informação escrita. Contudo, supõe-se que outros fatores como a quantidade de medicamentos, escolaridade dos pacientes, procedência, questões culturais, bem como também, o nível de atenção dos mesmos durante a consulta pode interferir na compreensão da prescrição, e consequentemente, na adesão a terapêutica (MENEZES, DOMINGUES, BAISCH, 2009).

Sabe-se que os fatores relacionados a adesão ao tratamento devem ser vistos como uma atividade integrada entre médico e paciente, na qual esse último não apenas segue às orientações médicas, mas entende, concorda e decide pôr em prática a conduta estabelecida. Significa que deve existir uma perfeita relação entre os dois, na qual são reconhecidas não apenas os deveres específicos de cada um no processo, mas de todos, simultaneamente, que estão envolvidos no tratamento (MARQUES, PETUCO, GONÇALVES, 2012). Assim, de acordo como foi proposto desde a Declaração de Alma-Ata em 1978, a promoção da saúde é dinâmica e envolve múltiplos participantes, desde o paciente até os órgãos do Governo Federal (GIL, 2006).

Vale ressaltar ainda que nem sempre os fatores que interferem no processo da compreensão e adesão à conduta terapêutica devem-se diretamente ao médico ou serviço em que atuam. Existem diversos fatores que podem dificultar na escolha de uma terapêutica adequada. Dentre eles estão os diferentes conceitos médicos adquiridos durante a graduação sobre o processo saúde-doença; a qualidade da formação médica; as condições socioculturais e econômicas da população assistida e a disponibilidade de medicamentos no serviço em que atua (PORTELA et al., 2010).

Sendo assim, esse estudo teve por objetivo avaliar os diversos fatores que interferem direta ou indiretamente na compreensão e adesão da prescrição médica em uma Unidade Básica de Saúde (Policlínica da Universidade Federal do Amapá) num estado da Amazônia legal brasileira.

MATERIAIS E MÉTODO

Foram entrevistados por um grupo de cinco alunos da universidade Federal do Amapá que participam do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), sendo três alunos do curso de medicina e dois do curso de farmácia, duzentos (200) pacientes atendidos na Policlínica da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), no período de outubro/2017 a dezembro/2017.

O público alvo foi selecionado de forma aleatória dentre aqueles que durante o período de coleta de dados participaram de consulta médica dentre as diversas áreas e programas que a policlínica atende, tais como: Pediatria, Ginecologia, Clínica Geral, Programa HIPERDIA e consulta Pré-Natal. Assim, através da assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido, aceitaram participar da pesquisa, respondendo espontaneamente a um questionário.

O questionário aplicado foi construído em escala de Linkert com cinco possíveis respostas (totalmente de acordo, de acordo, não concordo nem discordo, discordo e discordo totalmente) e tinha como objetivo avaliar: o nível socioeconômico dos pacientes; escolaridade; sexo; idade; motivo da consulta dentro dos cinco eixos principais de atendimento da policlínica; se houve compreensão da prescrição na consulta; se houve empenho do médico em sanar todas as dúvidas do paciente sobre a terapêutica; se o mesmo foi questionado se o plano de tratamento era aceitável para ele; se o paciente se sentiu estimulado e confortável para realizar perguntas e sanar dúvidas; também se o médico questionou sobre possíveis alergias e se informou possíveis efeitos adversos; ainda procurou-se saber se os entrevistados consideravam ter entendido a finalidade de cada medicamento receitado, a duração do tratamento e a partir de quanto tempo resultaria em melhora clínica e, por fim, procurou-se saber se os entrevistados acreditavam na eficácia do tratamento e se a receita havia sido escrita de forma legível para o paciente.

Depois de terminado o período da coleta dos dados, estes foram tabulados em planilhas do Excel para facilitar a visualização dos mesmos e após isso serem analisados estatisticamente, bem como formulados gráficos relevantes ao entendimento do assunto.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Amapá em 16 de outubro de 2017 (Parecer número 2.331.652).

RESULTADOS

Do total dos pacientes entrevistados, 57% (114 entrevistados) encontravam-se na faixa etária dos 26-50 anos de idade, enquanto que 13% (26 entrevistados) tinham idade superior aos 50 anos, e por fim, 30% (60 entrevistados) encontravam-se na faixa etária dos 18-25 anos de idade. Em relação ao gênero, 74,5% (149 entrevistados) eram do sexo feminino, 24,5% (49 entrevistados) eram do sexo masculino e duas pessoas não quiseram responder a tal questionamento.

Quanto à escolaridade, 30% possuíam ensino médio completo, 15% ensino médio incompleto, 42,5% dos entrevistados (85 entrevistados) só estudaram até o ensino fundamental, sendo que desses últimos, apenas 34 (17% do total) o tinham concluído. Apenas 11,5% (23 entrevistados) estavam cursando ou já tinham concluído o ensino superior. No que se refere a alfabetização, 186 pacientes afirmaram ser alfabetizados, 13 pacientes não eram e apenas 1 não respondeu a esse questionamento.

No gráfico 1 pode-se observar que as áreas de atendimento dos entrevistados correspondeu a 40,5% de consultas de clínica geral, 17,5% de ginecologia e obstetrícia, 7,5% foram do Hiperdia, 19,5% de pediatria e 15,0% de pré-natal.

Fonte: autor

Gráfico 1: Quantitativo de pacientes entrevistados por área de atendimento da Policlínica da Universidade Federal do Amapá. CG (clinica geral); GO (ginecologia e obstetrícia); H (hiperdia); P (pediatria) e PN (pré-natal).

Em relação à afirmação “considero que compreendi bem o tratamento receitado” 48,5% (97 entrevistados) concordaram totalmente, 36,2% estiveram de acordo e 10,5% não concordaram com tal afirmação (discordaram totalmente ou apenas discordaram), outros 9 entrevistados (4,5%) se mantiveram em posição neutra (não concordam nem discordam).

No tocante a compreensão das dosagens dos medicamentos, quase metade – 98 (49%) pacientes afirmaram estar totalmente de acordo, 67 (33,5%) estavam de acordo, 11 (5,5%) não concordaram nem discordaram, 13 (6,5%) discordaram e 11 (5,5%) discordaram totalmente, ou seja, a grande maioria 82,5% referiram compreensão em relação a dose do medicamento prescrito. No que diz respeito ao entendimento da finalidade de cada medicamento que foi receitado 67,5% (totalmente de acordo e de acordo) entenderam o objetivo dos fármacos receitados, enquanto 20% (os que responderam discordar e discordar totalmente) disseram não saber a finalidade dos medicamentos receitados; 12% se mantiveram em posição neutra e ainda 0,5% (um paciente) não respondeu esse questionamento (abstenção).

O gráfico 2 mostra os resultados para a pergunta “compreendi quando iniciaria o efeito dos medicamentos receitados? ”. Assim conforme o gráfico 2, observa-se que 41,5% afirmam compreender quando os medicamentos resultarão em melhora clínica, 15% se mantiveram neutros, 43% saíram da consulta sem essa informação e 0,5% se absteve.

Fonte: autor

Gráfico 2: Compreensão dos pacientes entrevistados quanto ao inicio do efeito dos medicamentos receitados. TA (Totalmente de acordo); A (De acordo); NCND (Não concorda nem discorda); D (Discorda); DT (Discorda totalmente) e Ab (Abstenção).

Outro ponto abordado foi se os pacientes se sentiram estimulados a fazer perguntas aos médicos que os atenderam, na qual 57% afirmaram positivamente, 12,5% não concordaram nem discordaram, 30% responderam negativamente e 0,5% se abstiveram (gráfico 3). Ainda nesse eixo temático, os mesmos foram questionados se estiveram confortáveis em fazer tais perguntas, o resultado encontrado foi que 45% concordaram totalmente, 24,5% de acordo, 14,5% não concordaram nem discordam, 7,5% discordaram, 7,5% discordaram totalmente e 1% se absteve.

Fonte: autor

Gráfico 3: Distribuição dos pacientes em relação se sentiram estimulados para fazer perguntas aos médicos durante a consulta. TA (Totalmente de acordo); A (De acordo); NCND (Não concorda nem discorda); D (Discorda); DT (Discorda totalmente) e Ab (Abstenção).

Foi contemplado ainda se os profissionais que os atenderam os questionavam se o plano de tratamento era aceitável para eles, ou seja, se levavam em consideração vias de administração mais desejáveis ou fármacos similares conhecidos pelos pacientes e os dados encontrados foi que 20% (40 entrevistados) estavam totalmente de acordo, 23,5% (47 entrevistados) estavam de acordo, 9,5% não concordaram nem discordaram, 20% (40 entrevistados) discordaram, 26% (52 entrevistados) discordaram totalmente e ainda 1% (2 entrevistados) se abstiveram, ou seja, 46% dos entrevistados responderam não terem voz ativa na escolha da terapêutica.

Em relação à alergia medicamentosa, 138 (69%) (Totalmente de acordo e De acordo) afirmaram que foram questionados durante as consultas pelo médico se possuíam alergia a algum fármaco. Por outro lado 48 (24%) afirmaram não terem sido questionados quanto a isso e 13 (6,5%) se mantiveram neutros em sua resposta; apenas 1 se absteve. Ainda outro aspecto da pesquisa objetivou saber se os pacientes foram informados quanto a possibilidade de alteração dos medicamentos receitados em caso de não resolução ou qualquer outro motivo e 75 (37,5%) (36 totalmente de acordo e 39 de acordo) afirmaram que sim, 26 (13%) não concordaram nem discordaram, 41 (20,5%) discordaram, 57 (28,5%) estavam em total desacordo, ou seja, 98 (49%) afirmaram não terem sido orientados quanto a possível alteração da terapêutica; 1 pesquisado se absteve de responder.

A pesquisa teve ainda por finalidade saber se os pacientes saiam das consultas sabendo por quanto tempo fariam uso das medicações a eles receitadas. Nesse sentido 147 (73,5%) afirmaram saber por quanto tempo fariam uso das medicações prescritas (72 concordavam e 75 concordavam totalmente) em contrapartida 31 (15,5%) saiam da consulta ainda sem entender por quanto tempo fariam uso do que lhes havia sido prescrito. 10% responderam de forma neutra e 1% (dois pacientes) não respondeu.

Outra afirmativa buscava saber se o entrevistado acreditava ou não na eficácia do tratamento que lhe fora receitado, sendo que 75,5%, ou seja, a maioria disse confiar no tratamento prescrito contra 14% que desacreditam na terapêutica instituída. 10% dos pacientes se mantiveram neutros e 0,5% se abstiveram de responder essa questão.

Por fim, os dados referentes ao fato se os médicos explicaram sobre os efeitos adversos dos medicamentos, bem como sobre se a letra com que o receituário foi escrito era legível encontra-se, respectivamente, nos gráficos 4 e 5. No quarto gráfico o encontrado foi que 43,5% afirmaram positivamente, 16,5% se mantiveram neutros, 42% responderam negativamente e 0,5% se abstiveram. Já no quinto, 22,5% foram totalmente de acordo, 19,5% de acordo, 23% não concordaram nem discordaram, 12% discordaram, 22,5% discordaram totalmente e 0,5% se abstiveram.

Fonte: autor

Gráfico 4: Quantitativo de pacientes que afirmam ter sido orientado pelo médico em relação aos efeitos adversos dos medicamentos prescritos. TA (Totalmente de acordo); A (De acordo); NCND (Não concorda nem discorda); D (Discorda); DT (Discorda totalmente) e Ab (Abstenção).

DISCUSSÃO

De acordo com os dados obtidos, verificou-se que a maioria eram do sexo feminino (74,5%) e 57% encontravam-se na faixa etária dos 26-50 anos de idade. Resultado esse concordante com Pimentel et al., que pode ser justificado pelo fato da população feminina buscar mais os serviços de atenção básica, pré-natal e em consultas ginecológicas de rotina. Além disso, a maior expectativa de vida da mulher também pode estar relacionada à maior proporção feminina encontrada em serviços de atenção primária (PIMENTEL et al.,2011).

Em relação à escolaridade, a maioria (57,5%) dos entrevistados não havia concluído o ensino médio e ensino fundamental, inclusive 13 (6,5%) entrevistados eram analfabetos, constituindo fator crucial que pode ter influenciado nos dados da pesquisa, mas ainda assim é papel do médico se adequar ao nível sociocultural do paciente, a fim de atendê-lo da forma mais satisfatória possível. A baixa escolaridade está relacionada a má compreensão da prescrição, apesar disso, 87,5% entrevistados afirmaram compreender e compreender totalmente a prescrição feita pelo médico, mas como esperado houve uma menor compreensão quando pontos mais específicos foram postos em pauta (SANO et al., 2002).

Exemplo disso, a baixa escolaridade encontrada na pesquisa e enfaticamente notada pelos entrevistadores pode também estar relacionado a outros resultados encontrados como a considerável parcela dos entrevistados que não compreendeu a finalidade de cada fármaco (20% afirmou não saber), o início de ação (43% afirmou desconhecer quando se iniciaria os efeitos) e o tempo de uso (15,5% saiu da consulta sem saber o tempo de tratamento), o que se assemelha em parte ao encontrado por Menezes, Domingues e Baisch (2009) que ressalta ainda que grande parte dos que afirmam compreender essas informações na verdade desconhece quando questionados em relação a doses e posologia.

Outros fatores envolvidos na incompreensão ou baixa compreensão da prescrição são a relação médico-paciente deficitário é o fato de muitas dúvidas não serem sanadas durante as consultas. Acrescentam-se ainda fatores relacionados ao próprio atendimento médico que por muitas vezes tem um caráter de formalidade e não permite os pacientes tirarem suas dúvidas (gráfico 3). Nesse contexto, mesmo com 14% respondendo não acreditar na eficácia do tratamento receitado, 12,5% afirmando não considerar que houve empenho do médico durante a consulta e 15% dizendo não ter se sentido à vontade para tirar as suas dúvidas durante a consulta, ainda assim, apenas 7,5% afirmaram que não iriam aderir a terapêutica instituída, concordando com o encontrado por DOURADO et al. (2011).

Contudo, de acordo com os resultados, acredita-se que o real número dos não aderentes após o início do tratamento seria muito maior considerando outras variáveis encontradas. Dentre essas variáveis destaca-se a falta de informação sobre os efeitos adversos (gráfico 4), em que 24% dos entrevistados relataram não serem informados pelo médico sobre possíveis reações indesejáveis que poderiam surgir após o início da terapia, o que justificaria a desistência de parte dos pacientes conforme DOURADO et al. (2011) destaca em sua pesquisa. SILVA et al. (2015) ainda expande esse raciocínio defendendo que os riscos e benefícios devem ser discutidos com os pacientes vistos que eles é que terão que lidar com esses sintomas desagradáveis e antecipar a eles essas informações pode ser aspecto chave para a aceitação do processo. Sabe-se que a adesão ao tratamento por parte dos pacientes que não acreditam que os medicamentos melhorem os sintomas clínicos é menor quando comparado aos que crêem que o medicamento resultará em melhora/cura (SOUZA e KOPITTKE, 2016).

Na mesma temática, outro aspecto primordial para a aderência terapêutica destacado por SOUZA e KOPITTKE (2016) é a participação ativa do paciente nas decisões concernentes a sua saúde. Para isso o médico deve levar em consideração a opinião, crenças e preferências do paciente na hora de instituir um tratamento farmacológico, chegando a um consenso com ele. E, nesse sentido, observou-se que em apenas 43,5% dos casos, o médico perguntou se o paciente concordava ou não com o tratamento instituído e em praticamente metade das consultas não falou da possibilidade de alterar o tratamento caso a melhora esperada não ocorresse ou se o paciente apresentasse alguma reação adversa ou alergia medicamentosa o que diminui o empoderamento do paciente em seu processo saúde-doença e aumenta a chance de abandono da terapêutica que fora prescrita como discutido por outros autores (FARIA, 2008; LEITE e VASCONCELLOS, 2003).

Vale destacar que 34,5% dos entrevistados consideraram a letra da receita como ilegível (gráfico 5), o que prejudica a aderência como conclui o estudo supracitado feito com acompanhantes em consultas pediátricas. Ainda nesse estudo de PIMENTEL et al. (2011), os autores atribuem à baixa escolaridade e ao analfabetismo como prováveis causas dos dados por eles encontrados, o que em grande parte pode justificar também os dados encontrados. Sabe-se ainda que a legibilidade da caligrafia nas receitas tende a ser dificultada com o avançar da idade conforme encontrado em um estudo com idosos, mas não observado nesse trabalho (BATOS-BARBOSA et al., 2012).

Fonte: autor

Gráfico 5: quantitativo de pacientes que conseguiram compreender a letra a qual foi escrita no receituário. TA (Totalmente de acordo); A (De acordo); NCND (Não concorda nem discorda); D (Discorda); DT (Discorda totalmente) e Ab (Abstenção).

CONCLUSÃO

Com os dados do presente estudo entende-se que o atendimento feito pelos médicos da Policlínica da Universidade Federal do Amapá tem-se mostrado falho em alguns aspectos relacionados à adequada compressão do tratamento farmacológico pelos pacientes. Em particular, destacam-se como pontos negativos o fato de quase metade dos pacientes referir sair da consulta sem saber quando o medicamento prescrito começará a fazer efeito, ao médico na maioria das vezes tomar decisões sem previamente consultar a opinião do paciente e ao fato de em um quarto das consultas o paciente não ser informado sobre possíveis efeitos adversos. Sendo esses aspectos determinantes para melhor adesão e sucesso terapêutico como provado por diversos estudos atuais.

Conclui-se então que o estudo terá o potencial para despertar os médicos que atuam em atenção básica, em especial aos que trabalham nos Estados da região norte do Brasil, bem como contribuir para a construção de políticas educacionais que reformulem a graduação médica e farmacêutica, possibilitando maior interação entre as duas áreas.

REFERÊNCIAS

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CRUZETA, A. P. S. et al. Factors associated with the understanding of medical prescriptions in the Unified Health System in a city in southern Brazil. Ciencia & saude coletiva, 18(12):3731-3737,2013.

DOURADO, C. S. et al. Adesão ao tratamento de idosos com hipertensão em uma unidade básica de saúde de João Pessoa, Estado da Paraíba. Acta Sci, 33(1):9-17, 2011.

FARIA, H. T. G. Fatores associados à adesão do paciente diabético à terapêutica medicamentosa [Dissertação de Mestrado]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 146 p, 2008.

GIL, C. R. R. Atenção primária, atenção básica e saúde da família: sinergias e singularidades do contexto brasileiro Primary health care, basic health care, and family health program: synergies and singularities. Cad. Saúde pública, 22(6):1171-1181, 2006.

GIMENES, F. R. E. et al. Influência da redação da prescrição médica na administração de medicamentos em horários diferentes do prescrito. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, 22(4):380-384, 2009.

GIMENES, F. R. E. et al. Segurança do paciente na terapêutica medicamentosa e a influência da prescrição médica nos erros de dose. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 18(6): 1055-1061, 2010.

LEITE, S. N.; VASCONCELLOS, M. P. C. Adesão a terapêutica medicamentosa: elementos para a discussão de conceitos e pressupostos adotados na literatura. Ciênc Saúde Colet, 8 (3): 775-82, 2003.

MARQUES, E. I. W.; PETUCO, V. M.; GONÇALVES, C. B. C. Motivos da não adesão ao tratamento médico prescrito entre os idosos de uma unidade de saúde da família do município de Passo Fundo-RS. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, 7(2):267-279, 2012.

MENEZES, A. P. S.; DOMINGUES, M. R.; BAISCH, A. L. M. Compreensão das prescrições pediátricas de antimicrobianos em Unidades de Saúde em um município do sul do Brasil. Rev bras epidemiol, 12(3):478-89, 2009.

PIMENTEL, I.R. S. et al. Caracterização da demanda em uma Unidade de Saúde da Família. Rev Bras Med Fam Comunidade, 6(20):175-81, 2011.

PORTELA, A. S. et al. Prescrição médica: orientações adequadas para o uso de medicamentos?. Ciência & Saúde Coletiva, 15(3):3523-3528, 2010.

SANO, P. Y. et al. Avaliação do nível de compreensão da prescrição pediátrica. J Pediatr; 78:140-5, 2002.

SILVA, J. A. G. et al. Fatores associados à não adesão aos antirretrovirais em adultos com AIDS nos seis primeiros meses da terapia em Salvador, Bahia, Brasil. Cad Saúde Pública, 31(6):1188-98, 2015.

[1] Farmacêutica Industrial formada pela Universidade Federal Fluminense (2002). Com habilitação em Homeopatia (UFF-2003). Mestre em Ciências Biológicas (Biotecnologia Vegetal) com ênfase na área de fitoquímica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). Doutora em Ciências (Biotecnologia Vegetal), com pesquisa na área de fitoquímica e atividade inseticida de óleo essencial da espécie vegetal Neomitranthes obscura (DC.) N. Silveira, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014). Professora Adjunta do Curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), ministrando as disciplinas de Bioquímica e Farmacologia. Professora Colaboradora do Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde – Unifap.

[2] Dra. em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Especialidade em educação para áreas da saúde pelo programa FAIMER Brasil. Médica formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Oftalmologista/ Perita Médica.

[3] Acadêmico do 10º período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[4] Acadêmico do 10º período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[5] Acadêmica do 8º período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[6] Acadêmica do 8º período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[7] Acadêmica do 8º período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

Enviado: Novembro, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

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