REVISÃO INTEGRATIVA
MAIA, Janize Silva [1],SOUZA, Cibele Pires de [2], MENEZES, Gabriela de Oliveira [3], MOTA, Thayrine Alves de Oliveira [4]
MAIA, Janize Silva. Et al. O câncer de mama e a gestação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 07, pp. 110-127 Maio de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/gestacao
O câncer de mama, caracterizado com um tumor maligno que se desenvolve nas células das mamas em decorrência do crescimento desorganizado das células mamárias, quando associado à gravidez passa a ser definido como aquele diagnosticado durante a gestação, a lactação ou no primeiro ano após o parto. É considerado o mais incidente em mulheres e é a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres. Objetivo: descrever os impactos do tratamento do câncer de mama nas gestantes. Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura de estudos científicos, a partir da questão norteadora da revisão “Como os tratamentos existentes sobre o câncer da mama impactam a vida da gestante?”, nas bases de dados SciELO, Lilacs, MedLine e Latindex, tendo como critérios de inclusão, pesquisas originais, revisões de literatura (sistemática, integrativa ou narrativa) e relatos de experiência publicados entre 2010 e 2018, em língua portuguesa e inglesa, disponíveis na íntegra. Foram selecionados 53 inicialmente e, após análise dos critérios de inclusão, selecionados 42 referências, das quais 11 responderam efetivamente ao objetivo. Resultado: dificuldades no tratamento, angústia e medo são os impactos predominantes que o tratamento para o câncer de mama gera nas mulheres grávidas devido à dificuldade de aceitação por parte da paciente diante à enfermidade e a falta de apoio familiar. Considerações finais: mulheres acometidas pelo câncer de mama são vítimas de profundo sofrimento psicológico advindo das inseguranças que permeiam o processo de tratamento e a suas perspectivas de futuro. É necessário que o Enfermeiro seja capacitado para realizar uma assistência integral, atuando em ações de prevenção e promoção em saúde e agindo ativamente durante todo o tratamento, garantindo o respeito e a dignidade e o suporte necessário para a mitigação dos danos provenientes deste sofrimento.
Palavras-chave: neoplasias da mama, complicações na gravidez, tratamento farmacológico.
O câncer é o nome genérico dado a um grupo formado por mais de 100 doenças, caracterizado pelo crescimento anormal e desenfreado de células que invadem um órgão ou tecido, podendo gerar metástase para outras regiões do organismo (RODRIGUES, CRUZ e PAIXÃO, 2015).
Os cânceres são causados por diferentes fatores, sendo eles externos como fatores ambientais, culturais e socioeconômicos e fatores internos como condições genéticas e o próprio processo de envelhecimento (OLIVEIRA et al, 2015).
O câncer de mama, caracterizado com um tumor maligno que se desenvolve nas células das mamas em decorrência do crescimento desorganizado das células mamárias, quando associado à gravidez passa a ser definido como aquele diagnosticado durante a gestação, a lactação ou no primeiro ano após o parto (MONTEIRO, 2013).
O mesmo é considerado o mais incidente em mulheres e é a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres (SEBOLD et al, 2016).
O Instituto Nacional do Câncer, afirma que a doença é considerada um problema de saúde pública, que atinge tanto países desenvolvidos quanto subdesenvolvidos com maior incidência em países desenvolvidos, assim como seu diagnóstico e tratamento são mais precisos nestes países do que em países em desenvolvimento (INCA, 2014).
Apesar do câncer de mama ser a neoplasia maligna feminina mais frequente, sua incidência durante a gestação é pequena e quando identificado neste período o mesmo encontra-se comumente em estágios avançados, sendo fator gerador de dúvidas, tanto da equipe médica quanto da paciente, em relação ao tratamento mais adequado para a gestante e para o feto (MELO e SOUZA, 2012).
Durante a gestação, a mulher elabora um conjunto de expectativas relativas ao puerpério e, neste cenário, a descoberta de um câncer pode inviabilizar a amamentação, o que provoca uma série de frustrações relacionadas ao cuidado materno. Torna-se fundamental ajudar a mulher ao longo da gestação a lidar com esta questão e a adaptar-se a uma fase da vida repleta de desafios e mudanças já que o tratamento altera de maneira drástica sua imagem (BRASIL, 2014).
A terapêutica de controle para o câncer de mama provoca alterações em diferentes dimensões: de ordem física, social e psicológica. Com a finalidade de reduzir a dor e sofrimento deste período tão complexo, existem várias iniciativas que visam valorizar a figura feminina, destacando a luta de mulheres que já passaram pelo tratamento e conseguiram resgatar sua autoestima para além do preconceito e de qualquer barreira que a doença possa lhe acarretar (SEBOLD et al, 2016).
O objetivo deste estudo é descrever os impactos do tratamento do câncer de mama nas gestantes.
Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura de estudos científicos, cujas etapas foram fundamentadas em protocolo previamente estabelecido, visando manter o rigor científico e metodológico, a saber: 1) elaboração da pergunta de pesquisa; 2) definição dos critérios de inclusão de estudos e seleção da amostra (busca ou amostragem na literatura); 3) representação dos estudos selecionados em formato de tabela, considerando todas as características em comum (coleta de dados, dispostas em capítulos); 4) análise crítica dos estudos incluídos, identificando diferenças e conflitos; 5) interpretação/discussão dos resultados; 6) apresentação da revisão integrativa de forma clara e objetiva das evidências/dados encontrados.
Para responder à questão norteadora da revisão “Como os tratamentos existentes sobre o câncer da mama impactam a vida da gestante?” realizou-se a busca bibliográfica das publicações indexadas na base de dados SciELO, Lilacs, MedLine e Latindex, a partir dos seguintes descritores: neoplasias da mama; complicações na gravidez; tratamento farmacológico.
Os critérios de inclusão dos estudos foram: pesquisas originais, revisões de literatura (sistemática, integrativa ou narrativa) e relatos de experiência publicados entre 2010 e 2018, em língua portuguesa e inglesa, disponíveis na íntegra. Os critérios de exclusão considerados foram duplicidade dos artigos, editoriais e estudos de caso. Foram selecionados 53 inicialmente e, após análise dos critérios de inclusão, selecionados 42 referências, das quais 11 responderam efetivamente ao objetivo.
Um instrumento foi elaborado para a coleta e análise dos dados dos estudos que respondem ao objetivo. Neste instrumento foram registradas as seguintes informações: autoria, ano de publicação, periódico, título do estudo, objetivo do estudo e impactos do tratamento sobre a gestante com câncer de mama.
As publicações selecionadas para identificação dos impactos do tratamento na gestante com câncer de mama estão disponíveis na tabela 1.
Tabela I – apresentação da síntese da literatura que demonstra os impactos do tratamento sobre a gestante com câncer de mama.
| Ano | Autores | Título | Periódico | Objetivo | Impactos do tratamento da gestante com câncer de mama |
| 2015 | Batista, Mattos e Silva. | Convivendo com o câncer: do diagnóstico ao tratamento. | Revista de Enfermagem da UFSM | Descrever as dificuldades enfrentadas pelo paciente oncológico, do diagnóstico ao tratamento. | *Dificuldades no tratamento *Dificuldades na descoberta da doença |
| 2011 | Fernandes et al | O prognóstico de câncer de mama na gravidez: evidências para o cuidado de enfermagem | Revista Latino-Americana de Enfermagem | Analisar as evidências disponíveis na literatura sobre o prognóstico de câncer de mama na gravidez. | *Saúde emocional debilitada *Inquietação *Incertezas *Morte |
| 2012 | Menezes; Perez; Schulz | Impacto psicológico do diagnóstico de câncer de mama: um estudo a partir dos relatos de pacientes em um grupo de apoio | Revista Estudos de Psicologia | Analisar o impacto psicológico do diagnóstico do câncer de mama a partir dos relatos apresentados espontaneamente por mulheres acometidas pela doença durante as sessões de um grupo de apoio. | *Surpresa *Tensão *Isolamento *Solidão *Transtornos de humor *Déficit no desempenho funcional *Culpabilidade |
| 2013 | Monteiro et al | Câncer de mama na gravidez e quimioterapia: revisão sistemática | Revista da Associação Médica Brasileira | Estabelecer a segurança do uso da quimioterapia na gestante portadora de câncer de mama e verificar as possíveis intercorrências no feto. | *Interrupção gestacional *Angústia para a gestante, família e equipe de saúde envolvida |
| 2014 | Capelozza et al | A dinâmica emocional de mulheres com câncer e grávida | Academia Paulista de Psicologia | Investigar a dinâmica emocional das pacientes com diagnóstico simultâneo de câncer e gravidez. | *Medo *Angústia *Desamparo |
| 2015 | Silva; Venâncio; Figueiredo- Alves | Câncer ginecológico e gravidez: uma revisão sistemática direcionada para obstetras | Revista Femina | Apresentar as evidências disponíveis sobre a triagem, diagnóstico, acompanhamento do tratamento oncológico, bem como a possibilidade de preservação da fertilidade nessas mulheres. | *Morte fetal *Malformações *Abortamento *Problemas cognitivos a criança devido a prematuridade |
| 2017 | Fernandes, Surita | Câncer e gravidez: diagnóstico, conduta e resultados obtidos em serviços de referência | Revista Eletrônica UniCamp | Conhecer os resultados maternos e perinatais, o tratamento e seguimento propostos nas mulheres com neoplasia do CAISM. | *Menor sobrevida *Gestação de alto risco *Dúvidas na terapêutica indicada |
| 2016 | Rodrigues et al | Repercussão das neoplasias durante a gestação. | Rev. Ciênc. Saúde Nova Esperança | Os tipos mais comuns de cânceres detectados no período gestacional, assim como, as principais formas e tratamentos do câncer no período gestacional. | *Falta de preparo profissional, devido a falta de conhecimento de casos de câncer na gestação |
| 2012 | Godinho | Câncer de mama associado a gravidez: um olhar sociocultural. | Lume Repositório Digital | Conhecer o significado da gravidez para as mulheres que vivenciaram a gestação e o câncer de mama e, analisar os significados socioculturais da concomitância dos fenômenos câncer de mama e gravidez. | *Viabilidade fetal *Mutilação *Estigma e medo *Susto e surpresa |
| 2018 | Silva et al | Os impactos da terapia quimioterápica e as implicações para a manutenção do cuidado. Um estudo de representações sociais. | Revista Online de Pesquisa | Compreender os impactos da terapia quimioterápica, as implicações para a manutenção do cuidado e analisar as representações sociais desses pacientes. | *Culpabilidade *Impossibilidade de cura *Mudanças nos hábitos de vida *Perda na autonomia *Dificuldade na tomada de decisões *Culpa |
Fonte: Integração das literaturas utilizadas na revisão.
As publicações selecionadas para a identificação dos impactos do tratamento distribuídos por ano de publicação estão disponíveis na figura 1.
Figura 1 – Distribuição das publicações por ano.
Os resultados desta revisão apresentam-se em três categorias: o câncer e o período gestacional; a mama e seus significados para a mulher; e papel do enfermeiro frente ao tratamento e conflitos da gestante com câncer de mama.
O câncer de mama é uma patologia decorrente de alterações genéticas, que se caracteriza pela formação de um tumor resultante da proliferação anormal rápida e desordenada de células da mama(INCA, 2016).
Via de regra, o corpo substitui células antigas por células novas e saudáveis, porém devido a alterações genéticas, o organismo do indivíduo poderá produzir células em excesso, que poderão formar um tumor, benigno, onde as células tem aparência próxima do normal, sem tendência a invadir outros tecidos e órgãos do corpo, ou maligno, considerado canceroso, que exibe como característica fundamental o crescimento desordenado de células (SOCIEDADE BRASILEIRA DE MASTOLOGIA, 2018).
Segundo o INCA (2015), alguns fatores poderão aumentar a probabilidade de ocorrência do câncer de mama, tais fatores podem ser ambientais e comportamentais ou fatores da história reprodutiva e hormonal além de genéticos e hereditários.
Os fatores ambientais e comportamentais são obesidade e sobrepeso, etilismo, tabagismo e exposição a radiações ionizantes. Já os da história reprodutiva e hormonal ou genéticos e hereditários são: primeira gravidez após 30 anos e menarca antes de 12 anos, não ter tido filhos ou amamentado, menopausa após 55 anos, uso de contraceptivos hormonais, reposição hormonal pós-menopausa (SILVA e RIUL, 2011).
Perceber sintomas do câncer de mama em fases iniciais é fundamental para a identificação precoce e o efetivo tratamento da doença, suas principais manifestações são: o surgimento de um nódulo fixo e geralmente indolor, alterações na pele da mama que se torna avermelhada, retraída ou parecida com casca de laranja, alterações no mamilo, surgimento de pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço e secreção de líquido anormal das mamas (INCA, 2018).
Apesar do câncer de mama ser a neoplasia mais incidente, suas taxas de sobrevivência aumentaram muito nos últimos anos, devido às novas técnicas cirúrgicas combinadas com radioterapia, terapia hormonal e quimioterapia (CASSI, 2018).
As principais técnicas de tratamento são a cirurgia conservadora da mama ou quadrantectomia que consiste na retirada parcial da mama e a ressecção do tumor, a dissecção dos nódulos linfáticos com ou sem a realização da radioterapia que causa menos impactos na qualidade de vida da mulher. E a mastectomia, que abrange excisão do tecido mamário, sendo realizada quando o risco de recorrência local é aumentado pelo tamanho do tumor (KAVIANI, 2013).
Ainda que o tratamento represente grandes benefícios para a gestante é também um período de mudanças, que gera mutilações de ordem física e acarreta alterações cognitivas como depressão, fadiga e ansiedade. Estas necessidades devem ser trabalhadas pela equipe multiprofissional que trará a mulher todo o suporte necessário para que a mesma possa vivenciar tranquilamente sua gestação (LIMA e PÓVOA, 2017).
A gravidez é uma condição para sobrevivência da vida humana e para renovação geracional, representando o período de formação de um novo ser; dura 40 semanas em média e termina com o parto, período em que ocorrem alterações profundas na vida conjugal e familiar da mulher e que se estendem ao longo da vida, caracterizando-a como uma fase de preparação física e psicológica para a parentalidade (COUTINHO et al, 2014).
Vivenciada como período marcado pelo crescimento de um ou mais embriões após a fecundação do óvulo pelo espermatozoide e seguida de diversas etapas de divisões mitóticas e diferenciação celular, até a formação do indivíduo, a gestação é conhecida pelos eventos da embriogênese e suas etapas: segmentação, gastrulação e organogênese (GUYTON e HALL, 2011).
A segmentação é uma etapa da embriogênese caracterizada pelas divisões mitóticas do embrião, dando origem a novas células, que em nova divisão originam a mórula (MONTANARI, 2013).
A gastrulação, também conhecida como morfogênese marca o início da formação do corpo do indivíduo, através da formação da linha primitiva na superfície do epiblasto do disco embrionário, que terá até o final da quarta semana a função produtora de mesoderma (CAVALCANTI et al, 2018).
A organogênese corresponde ao período entre a 4ª e 8ª semana onde ocorre a maior parte do desenvolvimento embrionário, desenvolvendo-se então a formação de vários sistemas de órgãos (MONTANARI, 2013).
Para muitas mulheres a gravidez é um momento de bem-estar e felicidade que proporciona união tanto do casal quanto da família, marcado por grandes mudanças físicas e psicológicas, capazes de influenciar diretamente os níveis de ansiedade e autoestima da protagonista (CAVACA, 2018).
O ciclo gravídico puerperal é caracterizado por alterações não apenas físicas como também emocionais, resultantes de fatores sociais e psicológicos, que influenciam o desenvolvimento da gestação, e o bem-estar e saúde tanto da mãe quanto da criança. Dentre os fatores psicológicos, que geralmente implicam em complicação durante gestação, parto e pós-parto, estão os estressores vivenciados na gravidez e no puerpério (RODRIGUES e SCHIAVO, 2011).
No quesito mudanças físicas, o corpo da mulher busca adaptar-se de forma equilibrada as alterações sofridas neste período. Náuseas e vômitos são os sintomas mais comuns no primeiro trimestre, devido a mudanças bioquímicas e hormonais, além de sonolência e mamas doloridas (MAIA, 2011).
No segundo trimestre de gestação ocorrem alterações físicas como: o aumento do desejo de micção devido à pressão exercida pelo útero sobre a bexiga; desconforto abdominal ocasionado pelo crescimento e movimentação do feto que resulta na distensão dos músculos abdominais; além da sensação de congestão nasal e de calor e alterações de humor devido a fatores hormonais (BARRETTO e OLIVEIRA, 2010).
No último trimestre de gestação, devido às mudanças fisiológicas sofridas em seu corpo, a mulher sofre com a poliúria, ocasionada pela pressão que o útero exerce sobre a bexiga e dores lombares e pélvicas, resultantes do crescimento e apresentação fetal, além do desconforto respiratório devido à pressão que o útero exerce sobre o diafragma (MAIA, 2011).
Findada a gestação, a parturiente experimenta uma gama de novas sensações, vale ressaltar que a maternidade não representa apenas a capacidade de parir, mas a possibilidade de desenvolver e aprimorar aspectos da personalidade da puérpera e diariamente aprender a amar (BARRETTO e OLIVEIRA, 2010).
O significado de beleza é algo singular para cada mulher, sendo uma complexa interação de fatores multidimensionais associados a características socioculturais, como um padrão de beleza imposto pela sociedade e ações advindas de experiências com o próprio corpo. Sabe-se que a mama é considerada símbolo de fertilidade, feminilidade, erotismo e sexualidade, além de exercer papel fundamental na maternidade (SEBOLD et al, 2016).
Na sociedade atual a mama simboliza sexualidade, feminilidade, diretamente relacionada à construção da identidade da mulher. A sexualidade, por sua vez, parte inerente à constituição da experiência humana, envolve os sentimentos mais íntimos de individualidade perpassando todas as interações e contextos, relacionando-se ao bem-estar e à experiência do ser humano como sujeito sexual, portanto, não deve ser abordado de forma isolada da saúde, quando considerados o bem-estar e formação do autoconceito das pessoas (HIRSCHLE, MACIEL e AMORIM, 2018).
Por representar à essência da identidade feminina, as mudanças decorrentes nas mamas durante a gestação geram novos significados para mulher, num momento repleto de mudanças físicas, que se liga a fatores sociais e psicológicos, contribuindo para a forma que a mulher vivencia o processo gravídico e o enfrentamento do câncer neste período (ARAÚJO et al, 2012).
O período gestacional é processo fisiológico natural que se caracteriza por uma sequência de alterações que acontecem no corpo da mulher, preparando – a para a lactação (MANN et al, 2010).
A progesterona e o estrógeno são hormônios essenciais para o desenvolvimento físico das mamas durante a gravidez, eles agem simultaneamente. O estrógeno é secretado pela placenta e estimula o crescimento dos ductos lactíferos e faz com que se ramifiquem. A progesterona causa crescimento de glândulas túbulo-alveolares (GUYTON e HALL, 2011).
Outros dois hormônios cruciais para a iniciação e manutenção da lactação, são a prolactina e a ocitocina. A prolactina desempenha papel importante na lactogênese, sendo secretada quando o mamilo é manipulado pelo neonato ou através de ordenha mecânica ou manual. Neste cenário, a ocitocina é considerada o hormônio da ejeção do leite, requisito básico para a lactogênese (ESTEVES et al, 2014).
O leite materno contém todos os nutrientes necessários ao lactente até os seis meses de vida, além de propriedades imunológicas que o protegem de doenças comuns da infância. O apoio familiar e da equipe multiprofissional é essencial para promoção e manutenção da amamentação nessa fase de descobertas e dificuldades (PRATES, SCHMALFUSS e LIPINSK, 2015).
O câncer de mama e a terapêutica para o mesmo alteram dimensões físicas, psicológicas, sociais e sexuais, as mutilações físicas que decorrem das mastectomias distorcem a autoimagem e autoestima feminina (JUNQUEIRA et al, 2013).
O diagnóstico de câncer de mama é permeado de inquietações relacionadas à morte, dor e mutilações físicas decorrentes do tratamento. A terapêutica deturpa a autoestima e autoimagem feminina e altera dimensões sociais, físicas, sexuais e psicológicas (FERNANDES et al, 2011).
Os impactos do tratamento em gestantes acometidas com câncer de mama são imensuráveis, desencadeiam sentimentos de tensão, tristeza, confusão e redefinem a percepção da mulher de seus valores, conceitos e importância do apoio e presença da família (MENEZES, PEREZ e SCHULZ, 2012).
A terapêutica disponível para mulheres grávidas acometidas pela enfermidade é razão de grande desconforto não apenas para a gestante devido ao seu estado de saúde e emocional debilitados, como também causam grande insegurança para a família, dada as possibilidades de prejuízos à saúde não apenas da mãe como também do feto (FERNANDES, 2011).
A família como suporte terapêutico é essencial, haja vista que representa a principal rede relações e influenciará diretamente na manutenção da saúde frente ao tratamento (SILVA et al, 2018).
A dificuldade de aceitação por parte da paciente diante à enfermidade e a falta de apoio familiar perante o estado gravídico são os principais fatores responsáveis pelos sentimentos de medo, angústia e desamparo que acometem a mulher, potencializando ainda mais o desgaste emocional diante do diagnóstico e tratamento unidos aos seus anseios sobre a gravidez, amamentação e a possibilidade da perda gestacional (CAPELOZZA et al, 2014). O apoio familiar encoraja a mulher, resgata a esperança e faz com que a doença seja encarada como uma nova oportunidade de vida (GODINHO, 2012).
O tratamento varia de acordo com a idade gestacional, preconizando garantir uma maior sobrevida ao binômio mãe-filho. Durante a gestação as mudanças fisiológicas nas mamas dificultam o diagnóstico clínico e a mamografia. A descoberta da neoplasia, durante o período gestacional é fator de grande conflito emocional e de conduta e prognóstico. A mastectomia e a dissecção axilar nível I e II são a terapêutica de escolha (RODRIGUES et al, 2016).
Outras opções de tratamento devem ser estudadas e decididas com a paciente e família, devido aos malefícios que traz ao feto e a gestante. O tratamento quimioterápico é uma opção no intervalo entre a oitava semana e antes da 35ª semana de gestação (SILVA, VENÂNCIO e FIGUEIREDO-ALVES, 2015).
O intervalo se faz necessário porque a quimioterapia afeta a qualidade de vida da paciente, provocando alterações físicas, psíquicas e sociais e gerando efeitos colaterais como: dor, náuseas, vômitos, fadiga, ansiedade e alopecia; que dificultam a adesão ao tratamento (BATISTA, MATTOS e SILVA, 2015), além de, aumentar o risco de malformações, abortamento, morte fetal e prematuridade (SILVA, VENÂNCIO e FIGUEIREDO-ALVES, 2015).
A terapêutica para o câncer de mama incide sobre o símbolo corpóreo de feminilidade, sexualidade, sensualidade e de maternidade a ponto de comprometer a saúde mental da pessoa em tratamento, pois a descoberta da doença gera um sofrimento psicológico acentuado na mulher o que afeta seu universo de relações, levando-a a aproximar ou se afastar dos que a cercam (MENEZES, PEREZ e SCHULZ, 2012).
A mulher diagnosticada com CA de mama na gestação é considerada uma gestante de alto risco, com pré-natal especializado e acompanhamento da equipe multidisciplinar. A equipe possui a complexa tarefa de definir o melhor momento para abordagem da doença ou interrupção da gravidez de modo que diminua os danos ao feto e a gestante, pois estudos mostram que houve menor sobrevida das mulheres que tiveram neoplasia de mama na gestação (FERNANDES e SURITA, 2017). A equipe deve possuir um olhar humanizado e comunicação simples e objetiva para que o paciente e família entendam a doença, a importância da adesão à terapêutica e os passos para o sucesso do tratamento em si (SILVA et al, 2018).
Alguns diagnósticos de enfermagem podem ser estabelecidos a essas mulheres, relacionados aos desafios que a descoberta e tratamento do câncer de mama trazem a vida de cada uma. Estes diagnósticos caracterizam o impacto do tratamento do câncer nas mulheres em condição de gravidez. O objetivo do tratamento da gestante com câncer de mama é o mesmo da não grávida, o controle local da doença e a prevenção de metástases. Devido à gestação trata-se de uma situação delicada, cuja condução gera angústia para a gestante, família e para os profissionais de saúde envolvidos (MONTEIRO et al, 2013), onde se busca o equilíbrio entre o risco da progressão da doença e a viabilidade fetal (GODINHO, 2012).
Em função de suas dimensões capazes de gerar, impactos biopsicossociais, o câncer de mama demanda uma equipe polivalente capaz de reconhecer as singularidades no processo saúde-doença de cada paciente (COUTO et al, 2017).
É papel do enfermeiro que atua no cuidado da saúde da mulher instituir estratégias que intensifiquem as ações de prevenção e detecção precoce do câncer de mama associado à gravidez. Devendo o mesmo estar preparado para realizar o exame clínico das mamas tanto durante e o pré-natal quanto após o parto (FERNANDES et al, 2011).
Tanto o exame clínico das mamas (ECM) realizado por profissionais, quanto os exames de imagem como a mamografia e a ultrassonografia, possibilitam o diagnóstico precoce no intuito de diminuir a morbimortalidade (COUTO et al, 2017).
A assistência de enfermagem a gestantes, tanto em processo de tratamento, quanto em mulheres mastectomizadas é essencial diante do significativo aumento de neoplasias malignas da mama na atualidade. Sendo necessário que o cuidado profissional de enfermagem ocorra na atenção primária, secundária e terciária, tanto em instituições públicas quanto privadas (OLIVEIRA et al, 2010).
A possibilidade de um diagnóstico de câncer de mama traz uma carga simbólica e emocional com estigma de incapacidade, mutilação e morte que repercute no cotidiano do paciente e familiar, por isso, grupos de apoio com os saberes trazidos pelo paciente e familiar e o saber técnico-científico do profissional podem contribuir para a diminuição desta carga simbólica (COUTO et al, 2017).
Os grupos de apoio são uma técnica gratuita para dialogar, promovendo a troca de experiências e destacando a luta de mulheres que já passaram pelo tratamento e conseguiram resgatar sua autoestima e aperfeiçoar a visão sobre si mesma (SEBOLD et al, 2016).
Objetivando promover a melhoria do cuidado no contexto da atenção à saúde, o enfermeiro pode desempenhar ações de educação em saúde e estimular o autocuidado (FERNANDES et al, 2011).
O autocuidado corresponde à prática de atividades desenvolvidas pelas pessoas em benefício próprio, fundamentadas na manutenção da vida, do bem-estar e da saúde. Neste contexto, o cuidador tem como papel o estímulo e a capacitação do usuário à manutenção do bem-estar e da qualidade de vida (TRETTENE et al, 2016).
Este estímulo pode ser alcançado a partir da elaboração de um plano de autocuidado individualizado e pautado em metas e necessidades específicas dos indivíduos, que inclui avaliação, aconselhamento, acordo, assistência e acompanhamento (GIRÃO et al, 2015).
A enfermagem é, sobretudo, essencial no tratamento do câncer de mama de mulheres em estado gravídico, aproximando-as do serviço de saúde, minimizando suas angústias e oferecendo o suporte necessário por meio de uma assistência terapêutica eficaz.
A partir da análise da literatura, foi possível perceber as dificuldades da equipe multiprofissional na abordagem da gestante com câncer e, principalmente, referente à abordagem da mulher referente ao tratamento do câncer de mama durante a gestação, situação em que a mesma sente sua feminilidade violada pela possibilidade de mutilações físicas.
Embora o câncer de mama seja o mais incidente em mulheres na atualidade e a causa mais comum de morte por câncer em mulheres, sua incidência durante a gestação é pequena, sendo esse o fator gerador de despreparo da equipe, unido às mudanças fisiológicas decorrentes da gravidez que dificultam a percepção da mulher diante de alterações atípicas em seu próprio corpo e a precariedade na circulação de informações relacionadas à prevenção e promoção em saúde.
Mulheres acometidas pelo câncer de mama são vítimas de profundo sofrimento psicológico advindo das inseguranças que permeiam o processo de tratamento e a suas perspectivas de futuro, por isso, diante de tal cenário é necessário que o Enfermeiro seja capacitado para realizar uma assistência integral, atuando em ações de prevenção e promoção em saúde e agindo ativamente durante todo o tratamento, garantindo o respeito e a dignidade e o suporte necessário para a mitigação dos danos provenientes deste sofrimento.
ARAUJO, Natalúcia et al. Corpo e sexualidade na gravidez. Revista da Escola de Enfermagem da USP: São Paulo, vol. 46, n. 3, pp. 1-9, 2012.
BARRETTO, Ana Paula Valasques; OLIVEIRA, Zulmerinda Meira. O ser mãe: expectativas de primigestas. Revista Saúde: Jequié, vol. 6, n. 1, pp. 9-23, 2013.
BATISTA, Delma Riane Rebouças; MATTOS, Magda de; SILVA, Samara Frizzeira da. Convivendo com o câncer: do diagnóstico ao tratamento. Revista de Enfermagem da UFSM: Rio Grande do Sul, vol. 5, n. 3, pp. 499-510, 2015.
BRASIL, Ministério da Saúde. A mulher e o câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro, 2014, pp. 1-49. Disponível em: <http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/prova_catalogo_mama.pdf >. Acesso em outubro de 2018.
CAPELOZZA, Maria; et al. A dinâmica emocional de mulheres com câncer e grávidas. Boletim – Academia Paulista de Psicologia: São Paulo, vol. 34, n. 86, 2014.
CASSI, Cali L, et al. Comparative study of oncoplastic versus non-oncoplastic breast conserving surgery in a group of 211 breast cancer patients. EUA: Rev. Med. Pharmacol Sci, vol. 20, n. 14, pp. 2950-2954, 2016.
CAVACA, Andreia. Gravidez – mudanças físicas e psicológicas na mulher. Lisboa, Edição do autor, 2018.
CAVALCANTI, Eliete et al. Gastrulação. Pernambuco: Edição do autor, 2018.
COUTINHO, Emilia de Carvalho et al. Gravidez e o parto. O que muda no estilo de vida das mulheres que se tornam mães? Revista Escola de Enfermagem USP: São Paulo: vol. 48, n. 2, pp. 17-24, 2014.
COUTO, Vanessa Brito Miguel et al. Além da mama: O cenário do Outubro Rosa no Aprendizado da Formação Médica. Revista Brasileira de Educação Médica: Bahia, vol. 41, n. 1, pp. 30-37, 2017.
ESTEVES, Tania Maria Brasil et al. Fatores Associados a Amamentação na Primeira Hora de Vida: revisão sistemática. Revista de Saúde Pública: São Paulo, vol. 48, n. 4, pp.1-5, 2014.
FERNANDES, Ana Fátima Carvalho et al. O prognóstico de câncer de mama na gravidez: evidências para o cuidado de enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem: São Paulo, vol. 19, n. 6, pp. 1-10, 2011.
FERNANDES, Carolina Puzzi; SURITA, Fernanda Garanhani de Castro. Câncer e gravidez: diagnóstico, conduta e resultados obtidos em serviços de referência. Revista Eletrônica UniCamp: Campinas, 2017.
GIRÃO Ana Lívia Araújo et al. A interação no ensino clínico de enfermagem: reflexos no cuidado à pessoa com hipertensão arterial. Rev. Salud Pública: Colômbia, vol. 17, n. 1, pp. 47-60, 2015.
GODINHO, Anne Allyucha. Câncer de mama associado à gravidez: um olhar sociocultural. Trabalho de Conclusão de Curso: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2012.
GUYTON, Arthur C; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. Rio de Janeiro: Elsevier, 12ª ed, 2011.
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[1] Doutoranda em Gestão e Informática em Saúde, Mestre em Educação, Bacharel em Enfermagem.
[2] Acadêmica de Enfermagem.
[3] Acadêmica de Enfermagem.
[4] Acadêmica de Enfermagem.
Enviado: Novembro, 2018.
Aprovado: Maio, 2019.
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