REVISÃO BIBLIOMÉTRICA
SILVA, Danila Andrade e [1], FEITOSA, Juscélia Maria de Moura [2]
SILVA, Danila Andrade e. FEITOSA, Juscélia Maria de Moura. Ferramentas digitais utilizadas pelos pais de crianças com Síndrome de Down para o desenvolvimento da linguagem e da memória. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 03, Vol. 01, pp. 58-76. Março de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/ferramentas-digitais, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/ferramentas-digitais
Objetivo: analisar as evidências científicas acerca do uso de ferramentas digitais no desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com Síndrome de Down, considerando a participação dos pais como mediadores desse processo educativo e terapêutico. Método: trata-se de uma revisão integrativa de natureza qualitativa e descritiva. As buscas foram realizadas nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e US National Library of Medicine (PubMed), incluindo estudos empíricos publicados entre 2020 e 2024, que investigaram intervenções com ferramentas digitais para o desenvolvimento da linguagem e/ou da memória em crianças com Síndrome de Down, com participação familiar. Resultado: os estudos analisados indicam que ferramentas digitais visualmente acessíveis e adaptáveis — como recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa, jogos digitais e sistemas baseados em inteligência artificial — podem favorecer a atenção, a comunicação funcional e o desenvolvimento de habilidades linguísticas e de memória. Observou-se que a mediação parental desempenha papel central na eficácia dessas intervenções, especialmente quando as tecnologias são integradas às rotinas familiares. Considerações finais: as evidências apontam que as ferramentas digitais constituem recursos promissores para o desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com Síndrome de Down, desde que utilizadas de forma planejada e mediada por adultos, destacando-se a importância de abordagens interdisciplinares e de políticas públicas que ampliem o acesso a tecnologias educacionais e assistivas, bem como de estratégias de formação e apoio às famílias.
Palavras-chave: Ferramentas digitais, Intervenção parental, Linguagem, Memória, Síndrome de Down.
A Síndrome de Down (SD) é uma condição genética decorrente da trissomia do cromossomo 21, caracterizada por particularidades no desenvolvimento físico, cognitivo e comunicacional. Indivíduos com SD tendem a apresentar atrasos na aquisição da linguagem, dificuldades no processamento auditivo e limitações na memória de trabalho, fatores que impactam diretamente os processos de aprendizagem e a interação social (Cruz et al., 2023). No Brasil, estima-se que a população com Síndrome de Down seja de aproximadamente 300 mil pessoas (Cruz et al., 2023), dado que ressalta a relevância social do tema e a necessidade de políticas públicas e estratégias de estimulação adequadas desde a primeira infância.
O reconhecimento dos direitos das pessoas com deficiência foi consolidado por marcos legais como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006), ratificada no Brasil com equivalência constitucional, e a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – LBI (Lei nº 13.146/2015).Tais normativas asseguram o direito à participação social e educacional, reforçando que a educação deve garantir não apenas o acesso, mas também os recursos necessários ao pleno desenvolvimento das potencialidades individuais. Nessa perspectiva, a literatura aponta que crianças com SD possuem um perfil de aprendizagem distinto, com notável aptidão para o processamento de estímulos visuais e para a execução de atividades práticas mediadas por esses recursos (Ceccon; Porto, 2020).
Paralelamente, os avanços nos estudos sobre a neuroplasticidade cerebral ampliaram a compreensão sobre o potencial de desenvolvimento de crianças com SD, evidenciando a importância de intervenções precoces e sistemáticas. Desde a Declaração de Salamanca (1994), reforça-se a necessidade de estratégias educacionais inclusivas que favoreçam o desenvolvimento cognitivo, comunicacional e social, incluindo o uso de tecnologias assistivas e educacionais como ferramentas de apoio.
Nesse contexto, as ferramentas digitais, como jogos educativos, aplicativos de estimulação cognitiva e ambientes virtuais de aprendizagem, assumem papel de destaque ao oferecerem experiências lúdicas, interativas e personalizáveis. Estudos indicam que tais recursos podem favorecer o desenvolvimento da linguagem e da memória em crianças com Síndrome de Down, especialmente quando seu uso é planejado e acompanhado por mediação qualificada (Ceccon; Porto, 2020; Pelosi et al., 2018; Cruz et al., 2023). Nesse processo, destaca-se o papel dos pais, que atuam como mediadores fundamentais na estimulação cotidiana e no reforço das aprendizagens no ambiente familiar.
A crescente difusão dessas tecnologias impulsionou a produção de pesquisas que investigam sua aplicabilidade e eficácia, sobretudo na primeira infância. No âmbito da saúde e da educação, as revisões de literatura, como as integrativas e sistemáticas, são essenciais para sintetizar as evidências científicas disponíveis, contribuindo para a orientação de práticas baseadas em conhecimento atualizado e validado.
Diante do exposto, justifica-se a necessidade de compreender o estado da arte sobre o uso de ferramentas digitais mediadas pelos pais para o desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com Síndrome de Down. Tal compreensão é fundamental para subsidiar intervenções clínicas, educacionais e familiares mais eficazes. Assim, o objetivo geral deste estudo é analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as evidências científicas sobre o uso de ferramentas digitais no desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com SD, considerando a participação parental como fator de mediação nesse processo.
Para alcançar tal objetivo, foram delineados os seguintes objetivos específicos: 1) identificar, na literatura científica, as principais ferramentas digitais utilizadas em intervenções para o desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com Síndrome de Down; 2) descrever como os recursos digitais, incluindo os musicais, são empregados nessas intervenções e quais efeitos são relatados; e 3) analisar o papel dos pais como mediadores no uso de tecnologias digitais voltadas ao desenvolvimento cognitivo e linguístico de seus filhos.
Este trabalho está estruturado em cinco seções, além desta introdução. A segunda seção apresenta o referencial teórico, que aborda os fundamentos sobre a Síndrome de Down, o desenvolvimento da linguagem e da memória e o uso de tecnologias digitais. A terceira descreve os procedimentos metodológicos da revisão integrativa. A quarta seção expõe e sintetiza os resultados encontrados, enquanto a quinta os discute em articulação com a literatura. Por fim, as considerações finais apresentam as contribuições do estudo, suas limitações e implicações para futuras pesquisas e práticas profissionais.
A Síndrome de Down (SD), ou trissomia do cromossomo 21, é uma condição genética decorrente da presença de um cromossomo extra no par 21, o que acarreta alterações no desenvolvimento global. Tais manifestações ocorrem de forma heterogênea, incidindo especialmente nos domínios da linguagem, da memória e das funções cognitivas superiores, sem que isso represente ausência de potencial de aprendizagem ou limitação para a participação social (Cruz; Sousa; Farias, 2021).
No que tange à comunicação, crianças com SD costumam apresentar um desempenho mais robusto na linguagem receptiva em comparação à expressiva. As principais dificuldades residem na articulação da fala, na organização sintática e na expansão do vocabulário (Regis et al., 2018). Frequentemente, esses desafios estão associados a limitações na memória de trabalho fonológica e na memória sequencial auditiva, competências basilares para a aquisição e a automatização da linguagem (Pelosi et al., 2018).
Contudo, a literatura ressalta que esse público possui habilidades visual e visuoespacial relativamente preservadas. Tal característica favorece o uso de abordagens pedagógicas e terapêuticas fundamentadas em estímulos visuais, recursos multimodais e estratégias lúdicas (Silva et al., 2021). Essa perspectiva desloca o olhar do déficit para as potencialidades, enfatizando o papel das mediações adequadas no desenvolvimento cognitivo e comunicativo.
Nesse panorama, a Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA) destaca-se como um campo da tecnologia assistiva essencial para indivíduos com necessidades complexas de comunicação. O Picture Exchange Communication System (PECS) é um dos sistemas mais difundidos, estruturando a comunicação por meio da troca de figuras para promover a iniciativa comunicativa e a construção de sentenças (Bondy; Frost, 1994).
Rodrigues, Campos e Almeida (2015) investigaram os efeitos do PECS associado ao Video Modeling no desenvolvimento comunicativo de uma criança com SD. Os resultados apontaram um incremento nas iniciações comunicativas e maior independência no uso do sistema, com generalização para diferentes contextos. As autoras sublinham que o Video Modeling facilitou a aprendizagem ao oferecer modelos visuais claros, otimizando o tempo de aquisição de habilidades e promovendo a autonomia.
A importância da intervenção precoce é corroborada por Cruz, Sousa e Farias (2021), cujos achados indicam que a estimulação fonoaudiológica iniciada nos primeiros meses de vida beneficia não apenas a linguagem, mas também o desenvolvimento motor e funcional. Todavia, a eficácia dessas intervenções depende intrinsecamente das condições familiares. Roos, Costa e Pissaia (2019) observam que o diagnóstico da SD muitas vezes é comunicado de forma tardia ou com orientações escassas, o que gera insegurança nos cuidadores. Nesse contexto, o papel dos profissionais de saúde, como o enfermeiro, é vital no acolhimento e na orientação inicial.
A participação ativa da família é determinante para o sucesso terapêutico. Silva e Aiello (2012) demonstraram que orientações específicas aos pais sobre estratégias de interação resultaram em comportamentos mais positivos na relação pai-bebê, impactando diretamente o engajamento da criança. Assim, a mediação parental configura-se como um elemento estruturante, e não apenas complementar, no desenvolvimento infantil.
Nessa dinâmica, o brincar assume papel central. Para crianças com SD, as atividades lúdicas são estratégias privilegiadas para estimular a linguagem, a memória e as funções executivas, favorecendo o vínculo e a motivação. Pelosi et al., (2018) evidenciaram que oficinas interdisciplinares focadas em consciência fonológica e memória de trabalho resultaram em avanços significativos na leitura e na compreensão do sistema alfabético, reforçando a eficácia da estimulação sistemática mediada pelo lúdico.
Com a evolução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), jogos digitais e ambientes virtuais tornaram-se aliados no processo terapêutico-educativo. Ceccon e Porto (2020) desenvolveram o jogo “Brincando com os Sons” (BcS), focado na estimulação da fala, observando alto engajamento das crianças. Paralelamente, Pelosi, Teixeira e Nascimento (2019) destacaram a plataforma Timocco por sua acessibilidade e capacidade de reduzir a frustração, evidenciando a importância do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).
No âmbito da alfabetização, Cruz et al. (2023) apontam que a realidade aumentada amplia o interesse lúdico, enquanto Cruz Netto et al. (2020) demonstraram que o ambiente virtual “Nossa Vida” auxiliou na memorização de rotinas diárias, com desempenho superior em relação a métodos tradicionais.
Dessa forma, o desenvolvimento da linguagem e da memória na Síndrome de Down é potencializado por intervenções que integrem estimulação precoce, mediação familiar e o uso estratégico de tecnologias. Recursos visuais, digitais e musicais não são fins em si mesmos, mas ferramentas mediadoras que, sob mediação adulta preparada, asseguram o direito da criança ao desenvolvimento pleno e à inclusão social.
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza qualitativa e descritiva. Este método permite a busca, a avaliação crítica e a síntese das evidências disponíveis sobre o tema investigado, possibilitando uma compreensão abrangente do fenômeno (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). O objetivo central foi reunir e analisar a produção científica acerca do uso de ferramentas digitais — com ênfase em recursos musicais mediados por software — no desenvolvimento da linguagem oral e da memória de crianças com Síndrome de Down (SD), considerando o papel dos pais como mediadores desse processo.
A condução da revisão foi norteada pela seguinte questão: “Como as ferramentas digitais têm sido utilizadas em intervenções voltadas ao desenvolvimento da linguagem e da memória de crianças com Síndrome de Down, e qual o papel atribuído aos pais como mediadores dessas práticas?”
O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), e na US National Library of Medicine (PubMed). As buscas ocorreram entre os meses de abril e maio de 2025, delimitando-se o período de publicação entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024, a fim de contemplar a produção científica mais recente.
A estratégia de busca empregou a combinação de descritores em português e inglês, utilizando os operadores booleanos AND e OR. Foram selecionados os seguintes termos e suas combinações: “Síndrome de Down” OR “Down syndrome”; “linguagem” OR “language”; “memória” OR “memory”; “ferramentas digitais” OR “digital tools” OR “educational software” OR “music-based software”; “pais” OR “parents” OR “family” OR “caregivers”. As chaves de busca foram estruturadas para recuperar registros que integrassem: condição (SD) + desfecho (linguagem/memória) + intervenção (ferramentas digitais) + mediação (participação parental).
Os critérios de inclusão estabelecidos foram: a) estudos empíricos publicados entre 2020 e 2024; b) artigos disponíveis na íntegra; c) publicações nos idiomas português ou inglês; d) pesquisas envolvendo crianças com diagnóstico de Síndrome de Down; e e) estudos que investigassem o uso de ferramentas digitais para o desenvolvimento da linguagem e/ou memória. Foram admitidos delineamentos experimentais, quase-experimentais, estudos de intervenção, estudos de caso com descrição metodológica rigorosa, pesquisas qualitativas e de métodos mistos.
Foram excluídos: estudos sem foco específico na SD; pesquisas que não utilizassem recursos digitais; revisões de literatura, editoriais, protocolos, comunicações breves e resumos de eventos; além de trabalhos cujo texto completo estivesse inacessível.
Para a coleta e organização dos dados, utilizou-se um instrumento padronizado contendo: autoria e ano de publicação, objetivos, delineamento metodológico, características da amostra, ferramentas digitais empregadas, domínios investigados e contexto da aplicação. Os resultados foram sintetizados em um quadro sinóptico para subsidiar a análise crítica.
A análise dos dados seguiu uma abordagem qualitativa, fundamentada na leitura analítica e na categorização temática. O processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos foi sistematizado por meio de um fluxograma baseado nas recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), devidamente adaptado para a modalidade de revisão integrativa. Observado na Figura 1, apresentada a seguir.
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa
A seleção dos estudos que compõem esta revisão integrativa seguiu o processo de busca e triagem detalhado na seção metodológica. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e a leitura integral dos textos, foram selecionadas publicações que investigam o uso de ferramentas digitais no contexto da Síndrome de Down (SD), com ênfase no desenvolvimento da linguagem, da comunicação e na mediação tecnológica.
Os artigos incluídos apresentam diversidade em seus delineamentos metodológicos e abrangem diferentes contextos de aplicação, tais como ambientes clínicos, educacionais e domiciliares. De modo geral, as pesquisas concentram-se no emprego de recursos voltados à Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), no apoio tecnológico à aprendizagem, na organização do cuidado e na utilização de sistemas baseados em inteligência artificial.
Para fins de sistematização, as características gerais dos estudos selecionados — incluindo autoria, ano, título, periódico, temática central e amostra — estão sintetizadas no Quadro 1.
Quadro 1: Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa
| Autor/Ano | Título do artigo | Periódico | Temática | Amostra |
| Wilkinson, O’Neill Zimmerman e Light (2021) | Visual Attention to Cued Targets in Simulated Aided Augmentative and Alternative Communication Displays for Individuals With Intellectual and Developmental Disabilities | Journal of Speech, Language, and Hearing Research | Comunicação Aumentativa e Alternativa e atenção visual | 55 indivíduos com DI/DID, incluindo 13 com síndrome de Down |
| Ranzato, Tolmie e Van Herwegen (2021) | The Home Learning Environment of Primary School Children with Down Syndrome and those with Williams Syndrome | Brain Sciences | Uso de tecnologia digital no ambiente domiciliar | 35 famílias de crianças com síndrome de Down |
| Cosgrove, Knafl e Van Riper (2023) | A Mixed Methods Analysis of Care Coordination Needs and Desirable Features of an M-Health Application to Support Caregivers of Children With Down Syndrome | Journal of Pediatric Health Care | Tecnologia digital aplicada à coordenação do cuidado | 90 cuidadores de crianças com síndrome de Down |
| Costanzo et al.,(2023) | Talkitt: toward a new instrument based on artificial intelligence for augmentative and alternative communication in children with Down syndrome | Frontiers in Psychology | Inteligência artificial e Comunicação Aumentativa e Alternativa | 34 indivíduos com síndrome de Down |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
Os resultados desta revisão evidenciam que as ferramentas digitais atuam, primordialmente, como mediadoras da comunicação, do acesso à linguagem e da organização de informações pertinentes ao cuidado e à aprendizagem de crianças com SD. Observa-se uma prevalência de tecnologias associadas à CAA, aplicativos baseados em inteligência artificial e recursos para uso no contexto familiar.
Embora as pesquisas apresentem focos distintos, há um consenso implícito ou explícito sobre a centralidade dos pais e cuidadores na mediação tecnológica. Esse papel manifesta-se no suporte ao uso cotidiano das ferramentas, na personalização dos recursos conforme as demandas individuais da criança e na promoção da generalização das competências adquiridas para contextos além do ambiente clínico ou experimental.
Os estudos analisados apresentam expressiva diversidade metodológica, abrangendo delineamentos experimentais com uso de rastreamento ocular (Wilkinson; Zimmerman; Light, 2021), intervenções clínicas mediadas por inteligência artificial (Costanzo et al., 2023), pesquisas observacionais sobre o uso doméstico de tecnologias educacionais (Ranzato; Tolmie; Van Herwegen, 2021) e estudos de métodos mistos voltados à coordenação do cuidado em saúde (Cosgrove; Knafl; Van Riper, 2023). Apesar das disparidades nos objetivos e contextos, as evidências convergem ao reconhecer o potencial das tecnologias digitais como ferramentas mediadoras da comunicação e do desenvolvimento funcional na Síndrome de Down (SD).
Observa-se, de forma transversal, a centralidade da família como agente mediador do uso dessas tecnologias. Mesmo em pesquisas nas quais a participação parental não constitui o foco primário da intervenção, como no estudo de Wilkinson, Zimmerman e Light (2021), o ambiente familiar emerge implicitamente como o espaço de generalização das habilidades comunicativas e cognitivas estimuladas pelas interfaces digitais.
O trabalho de Wilkinson, Zimmerman e Light (2021) fornece subsídios fundamentais para compreender como indivíduos com SD processam visualmente interfaces de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Por meio da tecnologia de rastreamento ocular (eye-tracking), os autores demonstraram que os participantes foram capazes de direcionar a atenção visual a alvos específicos em telas complexas quando auxiliados por instruções verbais. Tal achado indica que, a despeito das dificuldades na memória de trabalho e no processamento sequencial auditivo, indivíduos com SD utilizam pistas multimodais para orientar a atenção.
Ademais, os autores ressaltam que a forte orientação social típica da SD pode interferir na exploração de elementos periféricos da interface, como barras de navegação. Essa constatação reforça a necessidade de um design de interface que considere os padrões atencionais específicos dessa população (Wilkinson et al., 2021), sustentando a ideia de que o sucesso das ferramentas digitais depende da adequação entre as demandas perceptuais do sistema e as características cognitivas do usuário.
A aplicação prática desses princípios é ilustrada por Costanzo et al., (2023) ao avaliarem o aplicativo Talkitt, uma ferramenta de CAA baseada em inteligência artificial. Diferentemente de sistemas tradicionais que substituem a fala, o Talkitt visa traduzi-la, convertendo produções orais ininteligíveis em palavras compreensíveis em tempo real. Os resultados indicaram altos níveis de usabilidade e melhorias significativas nas habilidades linguísticas e no comportamento adaptativo. A personalização do algoritmo, treinado com base na produção vocal individual, respeita as particularidades fonológicas da SD (Costanzo et al., 2023).
A dimensão ecológica da tecnologia é reforçada pelo papel dos cuidadores no treinamento e acompanhamento do uso do aplicativo. Essa importância do contexto familiar é o cerne do estudo de Ranzato, Tolmie e Van Herwegen (2021), que constatou que, embora o acesso a dispositivos digitais seja frequente no ambiente doméstico, o uso costuma ser voltado ao entretenimento, com pouca exploração de estratégias pedagógicas sistematizadas. Os pais atuam como curadores e mediadores, mas frequentemente carecem de orientações para utilizar tais recursos de forma intencional (Ranzato et al., 2021).
Cosgrove, Knafl e Van Riper (2023) ampliam o conceito de comunicação funcional para o campo da coordenação do cuidado. Os achados revelam que as famílias atuam como gestoras centrais de informações fragmentadas e demandam tecnologias móveis que auxiliem na organização e na comunicação com profissionais. A tecnologia atua como ferramenta de empoderamento parental e tomada de decisão compartilhada.
Esses achados reforçam a necessidade de abordagens interdisciplinares e ecológicas no desenvolvimento e na implementação de tecnologias digitais voltadas à população com SD, destacando o papel ativo dos cuidadores como mediadores, parceiros e usuários dessas ferramentas.
A presente revisão integrativa permitiu compreender que as ferramentas digitais constituem recursos promissores para potencializar o desenvolvimento da linguagem e da memória em crianças com Síndrome de Down. As evidências indicam que a eficácia dessas tecnologias está intrinsecamente ligada à acessibilidade cognitiva das interfaces, à personalização dos recursos e, fundamentalmente, à qualidade da mediação parental.
O estudo reafirma que a comunicação funcional na SD ultrapassa a dimensão linguística, englobando processos informacionais e organizacionais nos quais os cuidadores ocupam posição estratégica. Como implicação para a prática, destaca-se a necessidade de que profissionais de saúde e educação não apenas prescrevam o uso de tecnologias, mas capacitem as famílias para uma mediação intencional e contextualizada.
Como limitações, aponta-se a escassez de estudos longitudinais que avaliem o impacto dessas ferramentas a longo prazo. Sugere-se que futuras pesquisas investiguem o desenvolvimento de tecnologias baseadas no Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e estratégias de suporte remoto para orientação parental, visando democratizar o acesso a intervenções qualificadas.
BONDY, Andrew S.; FROST, Lori A. The picture exchange communication system. Focus on autistic behavior, v. 9, n. 3, p. 1-19, 1994. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/108835769400900301. Acesso em: 14 maio 2025.
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WILKINSON, K. M.; ZIMMERMAN, T. O.; LIGHT, J. Visual Attention to Cued Targets in Simulated Aided Augmentative and Alternative Communication Displays for Individuals With Intellectual and Developmental Disabilities. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, v. 64, n. 5, p. 1726-1738, 11 maio 2021. DOI: 10.1044/2021_JSLHR-20-00451. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8608184/. Acesso em: 20 maio 2025.
[1] Mestranda em Saúde da Família pelo Centro Universitário Uninovafapi Afya , Pós-graduação – Lato Sensu em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade Evangélica do Meio Norte, Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Piauí- UESPI. ORCID: 0000-0002-3585-4626. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9260513927422884.
[2] Orientadora. Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade Brasil (SP). Mestra em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Graduada em Bacharelado em Ressaltamos que seguindo a Lei LGPD 13.709/18 seus dados sensíveis não serão publicados. Esses dados são solicitados exclusivamente para controle de autoria e segurança do material, registro administrativo, não sendo divulgados publicamente. Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (1999). Especialista em Saúde da Família, Saúde Pública e em Formação Pedagógica em Educação Profissional na Área de Saúde: Enfermagem pela Universidade Federal de Piauí. ORCID: 0000-0001-9198-177X. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7087105606951799.
Contribuição dos autores:
Danila Andrade e Silva: Concepção do estudo, definição do problema de pesquisa e dos objetivos, planejamento metodológico da revisão integrativa, levantamento, seleção e análise crítica da literatura, interpretação e síntese dos resultados, redação e revisão final do manuscrito.
Juscélia Maria de Moura Feitosa: Refinamento da concepção do estudo, dos objetivos e do problema de pesquisa, participou da análise crítica da metodologia da revisão integrativa, revisou e validou os achados e a interpretação dos resultados, colaborou na redação, aprimoramento e revisão final do manuscrito.
Conflito de interesse:
Não possui.
Agradecimentos:
Não possui.
Financiamento:
Não possui.
Nota de presença de IA:
Os autores utilizaram a Inteligência Artificial ChatGPT (Edição não identificada na plataforma) para fins de correção gramatical, ajustes de organização textual, padronização de linguagem acadêmica e formatação/organização de tabelas, durante a etapa de finalização do manuscrito. No entanto, toda a escrita, buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos, pesquisa proposta, esclareço que não houve utilização de Inteligência Artificial para elaboração de conteúdo científico, desenvolvimento de ideias, construção argumentativa, análise de dados, interpretação de resultados ou qualquer etapa metodológica da pesquisa. foram realizadas de maneira autoral.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 27 de janeiro de 2026.
Material aprovado pelos pares: 03 de fevereiro de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 10 de março de 2026.
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