ARTIGO ORIGINAL
GONÇALVES, Tainá de Carvalho [1], LEITÃO, Elouyse Fernandes [2], ZORZO, Thaís Pithan [3], ASSIS, Tereza Angélica Lopes de [4], SANTANA, Viviane Vanessa Rodrigues da Silva [5]
ARAÚJO, Mayle Gomes Ferreira. A saúde mental do estudante de medicina: uma análise durante a graduação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 11, Vol. 05, pp. 97-106 Novembro de 2018. ISSN:2448-095
A depressão figura como um transtorno de humor composto por humor triste, vazio ou irritável, com alterações somáticas e cognitivas de grande impacto psíquico/social/familiar. Entre os universitários, os alunos de medicina possuem a própria graduação como fator estressor para desenvolvimento desse distúrbio. Trata-se de um estudo do tipo quantitativo, descritivo, com a aplicação do Questionário de Beck para Depressão, sendo a população composta pelos acadêmicos do 1º e 12º períodos do curso de graduação em Medicina da Universidade Federal de Alagoas, matriculados no ano letivo de 2016.2. Objetivou-se verificar a ocorrência de depressão nesta amostra, bem como correlacioná-la com variáveis a exemplo de Religião e Estado Civil, além das categorias de Beck, a exemplo: Insônia e Tristeza. Com um N=52, 31 do primeiro período e 21 do 12° período, observou-se maioria de religião católica, sendo o estado civil solteiro predominante. Os sintomas mínimos (pontuação < 10) foram encontrados em 21 estudantes, os leves em 21, moderados em 8 e grave em 2. A categoria do questionário de Beck mais presente foi Insônia para o 1º período e Suscetibilidade à fadiga para o 12º. A ideação suicida foi presente em 7 estudantes do 1º e 3 do 12º. A existência de um núcleo especializado dentro da própria faculdade no sentido de acolher o aluno na perspectiva da saúde mental faz-se necessária a fim de reduzir o sofrimento psíquico desses estudantes e torna-los profissionais mais capazes, no sentido integral, do ato de cuidar.
Palavra-chave: Depressão, Estudantes de Medicina, Assistência Integral à Saúde.
A depressão, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) configura um transtorno de humor, em que as principais características envolvem o humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetem significativamente a capacidade funcional do indivíduo. Seu diagnóstico requer uma atenção especial quanto às características intrínsecas de cada indivíduo e aos fatores ambientais, os quais influenciam na construção psíquica.
Entre os universitários, os alunos do curso de medicina tem sido alvo constante de pesquisas relacionadas a este tema, visto que a formação médica compõe um fator ambiental estressor para o estudante, tornando o mesmo vulnerável a conflitos emocionais. Entre esses fatores pode-se citar: cobrança familiar, medo do fracasso e imposições do mercado de trabalho. Somado a isso, a grande carga horária, volume de material a ser estudado e a forma de reagir de cada um influem nesse processo (1). A medicina aparece como o terceiro curso de saúde na prevalência de Depressão, precedida pela Psicologia e Enfermagem (2).
Outros aspectos que contribuem para que a faculdade de medicina seja considerada como uma fonte de estresse para os estudantes são a perda da liberdade pessoal, excesso de pressões acadêmicas e sentimentos de desumanização, aliados à falta de tempo para o lazer e da forte competição existente entre os colegas da área. (3)
Sabe-se ainda que estudantes de medicina estão em contato estreito com pacientes portadores de patologias com prognósticos ruins, impactando na saúde mental desses estudantes. Em estudo realizado usando o modelo epidemiológico individualizado-observacional seccional em estudantes de medicina de Maringá, a prevalência de depressão cresce na passagem do primeiro para o segundo ano (de 20% para 61,8%) e no sexto ano de curso (61,12%) (4).
Se identificados precocemente, podem ser acompanhados com tratamentos adequados como: terapia comportamental, apoio emocional, a psicoterapia interpessoal e habilidade social, o que pode ajudar os jovens médicos a superarem suas dificuldades e levar a vida de forma mais saudável. Mas se houver preconceitos com a Psiquiatria, o futuro médico buscará outras opções, como a somatização, abuso de álcool e drogas e o suicídio. (5)
Assim, tal trabalho se propõe a verificar a ocorrência de depressão nos estudantes de Medicina da Universidade Federal de Alagoas, além de identificar e comparar essa ocorrência.
Trata-se de um estudo do tipo quantitativo, descritivo, com aplicação de questionário padronizado, sendo a população composta pelos acadêmicos do curso de graduação em Medicina da Universidade Federal de Alagoas que estejam cursando o primeiro e o último período (12º período), matriculados no ano letivo de 2016.2. Utilizou-se o banco de dados construído no programa Excel para tabulação e análise.
O instrumento aplicado foi a escala de depressão de Beck, que consiste de 21 itens, incluindo sintomas e atitudes, cuja intensidade varia de 0 a 3. Os itens referem-se à tristeza, pessimismo, sensação de fracasso, falta de satisfação, sensação de culpa, sensação de punição, autodepreciação, auto-acusações, idéias suicidas, crises de choro, irritabilidade, retração social, indecisão, distorção da imagem corporal, inibição para o trabalho, distúrbio do sono, fadiga, perda de apetite, perda de peso, preocupação somática, diminuição de libido. Os pontos de corte que foram utilizados nesta pesquisa basearam-se no Center for Cognitive Therapy: abaixo de 10 correspondem a pacientes sem sintomas de depressão ou sintomas mínimos; entre 10 e 18 pontos o paciente apresenta sintomas de depressão leve; os sintomas de depressão moderada equivalem à pontuação entre 19 e 29, e pacientes com sintomas de depressão grave apresentam pontuação igual ou superior a 30, podendo chegar a 63.
Com um N=52, sendo 31 do primeiro período e 21 do 12° período, observou-se maioria de religião católica, sendo mais frequente o estado civil solteiro. Os sintomas mínimos (pontuação < 10) foram encontrados em 21 estudantes, os leves em 21, moderados em 8 e grave em 2. Não foram encontrados neste estudo, pessoas com estado civil divorciado ou viúvo (Tabelas II e III).
| 1°período | 12º período | |||
| N (31) | (%) | N (21) | (%) | |
| Outra Graduação | 01 | 3,22 | 3 | 14,28 |
| Pós-graduação | 01 | 3,22 | 0 | 0 |
Tabela I. Perfil dos estudantes de medicina do 1º e 12º período de acordo com grau de formação.
Sobre as variáveis sociais, as correlações com a pontuação na escala de depressão encontradas foram: a maioria dos estudantes do primeiro período solteiros obtiveram sintomas de depressão leves (sendo 9 com sintomas mínimos, 7 com sintomas moderados e 1 com pontuação para depressão grave). Dentre os casados, observou-se sintomas leves e moderados (pontuação < 10 em 2, e 1 entre 19-29). Quanto à religião, os católicos e evangélicos oscilaram com pontuação semelhante, sendo as mais encontradas <10 e entre 10-18 (sintomas mínimos e leves), porém com 4 pontuações moderadas. Os declarados sem religião oscilaram, mas com uma pontuação grave e 3 moderadas (Tabela II).
| Pontuação < 10 10- 18 19-29 > 30 |
| ESTADO CIVIL |
| Solteiro 09 11 07 01 |
| Casado 02 – 01 – |
| RELIGIÃO |
| Católico 06 06 04 – |
| Evangélico 02 02 01 – |
| Outras – 01 – – |
| Não 03 02 03 01 |
| IDADE |
| 16-19 anos 06 06 02 01 |
| 20-23 anos 04 03 06 – |
| 24-27 anos 01 02 – – |
Tabela II. Correlações entre a pontuação da Escala de Beck para Depressão com as variáveis: estado civil, religião e idade dos participantes do 1° período.
Entre os estudantes do 12° período a pontuação conforme estado civil foi semelhante, com 8 respostas com sintomas mínimos e 9 leve, mas com 1 pontuando depressão grave. Dentre os casados prevaleceram os sintomas leves. Sobre o critério religião, observou-se mudança quanto ao primeiro período: os sintomas de depressão leve prevaleceram, sendo a religião católica com 6 representantes. Os sintomas graves foram obtidos em 1 estudante evangélico. Entre os declarados sem religião os sintomas mínimos prevaleceram. Em todas as faixas etárias, os sintomas mínimos e leves foram os mais frequentes.
Tabela III. Correlações entre a pontuação da Escala de Beck para Depressão com as variáveis: estado civil, religião e idade dos participantes do 12° período.
| Pontuação < 10 10- 18 19-29 > 30 |
| ESTADO CIVIL |
| Solteiro 08 09 – 01 |
| Casado 02 01 – – |
| Viúvo – – – – |
| Separado – – – – |
| RELIGIÃO |
| Católico 05 06 – – |
| Evangélico 01 – – 01 |
| Outras 01 03 – – |
| Não 03 01 – |
| IDADE |
| 16-19 anos — – – – |
| 20-23 anos 01 01 – – |
| 24-27 anos 06 06 – 01 |
| Mais de 28 anos 03 03 – – |
Em relação à pontuação da escala de Beck, a categoria mais assinalada entre os estudantes do 1º período foi a de Insônia, Suscetibilidade à fadiga, Culpa e Autoacusações, respectivamente. Importante ressaltar que a categoria de Insatisfação representou 19 dos estudantes (61,29%), com intensidade na pontuação de 23, ou seja, a categoria foi graduada com > 1 ponto.
Para o 12º período, as categorias mais assinaladas foram, nesta ordem, Suscetibilidade à fadiga, Irritabilidade, Insônia e Culpa. E, fazendo um paralelo entre os períodos, a categoria de Perda de Interesse Sexual teve seu percentual quase duplicado, sendo de 12,9% no primeiro período e 23,8% no 12º. Por outro lado, categorias como Senso de fracasso (SF) e Expectativa de punição (EP) tiveram uma redução considerável da porcentagem entre os períodos, indo de 29% para 5% para SF e de 29% para 9% em EP.
A ideação suicida figurou entre 7 (22,6%) estudantes do primeiro período e 3 (14,3%) estudantes do último. As categorias que menos pontuaram foram: Perda de Interesse sexual para o 1º período e o Senso de Fracasso para o 12º período.
Tabela IV. Pontuação total da Escala de Beck para Depressão por categoria de acordo com período do curso.
| CATEGORIA | 1º período (N=31) | 12º Período N=21 | ||||
| N | (%) | Pontuação | N | (%) | Pontuação | |
| Tristeza | 13 | 41,93 | 15 | 07 | 33,33 | 07 |
| Pessimismo | 10 | 32,25 | 11 | 03 | 14,28 | 03 |
| Senso de fracasso | 09 | 29,03 | 09 | 01 | 4,76 | 01 |
| Insatisfação | 19 | 61,29 | 23 | 07 | 33,33 | 07 |
| Culpa | 26 | 83,87 | 38 | 13 | 61,90 | 16 |
| Expectativa de Punição | 09 | 29,03 | 13 | 02 | 9,52 | 05 |
| Autodesgaste | 18 | 58,06 | 21 | 07 | 33,33 | 07 |
| Autoacusações | 26 | 83,97 | 38 | 11 | 52,38 | 14 |
| Ideias suicidas | 07 | 22,58 | 07 | 03 | 14,28 | 03 |
| Choro | 15 | 48,38 | 22 | 08 | 38,09 | 08 |
| Irritabilidade | 18 | 58,06 | 22 | 14 | 66,66 | 17 |
| Interação social | 12 | 38,70 | 14 | 10 | 47,62 | 11 |
| Indecisão | 16 | 51,61 | 22 | 12 | 57,14 | 15 |
| Mudança de imagem corporal | 18 | 58,06 | 31 | 08 | 38,09 | 10 |
| Retardo para o trabalho | 24 | 77,41 | 30 | 09 | 42,86 | 12 |
| Insônia | 30 | 96,77 | 41 | 13 | 61,90 | 12 |
| Suscetibilidade à fadiga | 28 | 90,32 | 43 | 15 | 71,42 | 18 |
| Anorexia | 13 | 41,93 | 16 | 05 | 23,81 | 05 |
| Perda de peso | 07 | 22,58 | 09 | 03 | 14,28 | 04 |
| Preocupação somática | 13 | 41,93 | 13 | 11 | 52,38 | 14 |
| Perda do interesse sexual | 04 | 12,90 | 06 | 05 | 23,81 | 07 |
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES:
Ao ingressar na faculdade de medicina, o estudante passa por uma grande transição, na qual deve se adaptar a um novo estilo de vida e experimentar um alto grau de exigência curricular que pode restringir bastante sua vida social e o contato com amigos (6). Esta adaptação é rápida, podendo trazer muitas alterações emocionais, incluindo sintomas depressivos como mecanismo de fuga do aluno.
Do total da amostra, 31 entrevistados obtiveram pontuação significativa para sintomas de depressão a partir do questionário de Beck, correspondendo a 59,61% da amostra, sendo que 10 dos estudantes (32,2%) apresentaram sintomas moderados a severos. Este achado ressalta o que já vem sendo encontrado na literatura científica: é muito alta a prevalência de transtornos depressivos na população de estudantes de medicina, sendo maior que na população geral, fato indicado na American Psychiatric Association (2013), que gira em torno de 7% a 12,6% ao longo da vida.
Essa prevalência está possivelmente relacionada a fatores inerentes à formação acadêmica, como a pressão excessiva, o alto nível de demanda imposto sobre si e sobre a sociedade, sobrecarga de assuntos, pouco tempo de lazer, competitividade entre colegas, contato com o paciente e com a morte, a imagem idealizada do médico e do estudante de medicina que são identificados como fatores prejudiciais para a saúde física e mental (7).
Houve predomínio de sintomas de depressão leve à moderada/severa entre os estudantes de medicina, com 67,7% dos estudantes que apresentaram sintomas de depressão (pontuação maior que 10 do Questionário de Beck). Esse fato é importante, pois a detecção de sintomas ainda leves possui papel relevante na prevenção de depressão maior, que incapacita indivíduos para a realização de suas atividades diárias e tem maior risco de suicídio (8).
Quanto à idade, observou-se maior prevalência entre as faixas etárias mais jovens (até 27 anos), correspondendo aos dados da DSM V (2014) em que o transtorno depressivo maior pode aparecer pela primeira vez em qualquer idade, mas a probabilidade de início aumenta sensivelmente com a puberdade e tende a ser menor a prevalência em pessoas a partir dos 29 anos.
Entre os períodos, aquele que teve maior prevalência de sintomas depressivos moderados e graves foi o 1°, sendo representado por 29% (9 alunos) da amostra da turma, em conformidade com o encontrado no estudo de Paula et al (2015) e convergindo com o encontrado no estudo de Bassols (2014) em que não houve diferença significativa entre os períodos. Houve divergência ainda com o estudo de Serra, Dinato e Caseiro (2015) em que os escores mais baixos do questionário de Beck foram encontrados no primeiro ano de curso e os maiores no decorrer da graduação.
A maior ocorrência de depressão no ciclo básico pode estar relacionada à mudança da rotina dos estudantes que ingressam no curso médico e que passam a receber uma grande quantidade de informações, aumento da carga horária exigida de estudos e mudança abrupta no método de estudo. (9)
De modo geral, os estudantes universitários, principalmente aqueles que precisam se afastar do núcleo familiar em decorrência da localização da universidade, tornam-se ainda mais expostos a distúrbios psicológicos neste período. (10)
Dessa forma, a existência de um núcleo especializado dentro da própria faculdade no sentido de acolher o aluno na perspectiva da saúde mental faz-se necessária. Tal iniciativa foi pioneira no Brasil pelo professor Gaudino Loreto, da Universidade Federal de Pernambuco, que passou a dar assistência psiquiátrica aos estudantes de medicina a partir de 1957.
Em uma pesquisa subjetiva com alunos sobre os atributos do médico, as respostas mais citadas (92%) foram características de personalidade, como ser altruísta, humano, esforçado e sensível. Entretanto, os mesmos afirmaram que tais características não são ensinadas (11). Por isso, há de se fazer o questionamento: Em que espaço da faculdade permeia a formação integral do estudante de medicina? Onde são acolhidos seus sentimentos, inseguranças e incertezas?
Na amostra desta pesquisa, a porcentagem de senso de fracasso reduziu consideravelmente do primeiro para o segundo período, demonstrando a confiança quanto ao conteúdo médico eficiente. Entretanto, o custo parece advir da continuidade de distúrbios do sono como insônia e fadiga excessiva. A desconstrução da imagem de herói e a percepção da sua humanidade e impotência diante de certas situações poderia aliviar essa carga sobre o graduando (12).
Portanto, incentivar o campo da pesquisa em saúde mental do estudante de medicina, bem como ampliar a perspectiva sobre locais de apoio devem ser atitudes constantes no ambiente acadêmico. Assim, poderemos contar com profissionais de saúde que são capazes de tornar harmônica a saúde psíquica.
[1] Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas.
[2] Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas.
[3] Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas
[4] Mestranda Ensino em Saúde- FAMED – UFAL
[5] Mestre em Ciências da Saúde
Enviado: Outubro, 2018
Aprovado: Novembro, 2018
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