Dor no ombro: O que o acrômio tem a ver com isso?

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/dor-no-ombro
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ARTIGO DE REVISÃO

CARDINOT, Themis Moura [1], ALMEIDA, Jamille Santos de [2]

CARDINOT, Themis Moura. ALMEIDA, Jamille Santos de. Dor no ombro: O que o acrômio tem a ver com isso? Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 14, pp. 05-20. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/dor-no-ombro, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/dor-no-ombro

RESUMO

O ombro é a articulação com maior amplitude de movimento do corpo, ao mesmo tempo em que é a articulação mais instável e, por esta razão, tem maior predisposição a lesões de suas estruturas. Como consequência, a dor no ombro se apresenta como uma queixa comum no consultório do ortopedista e nas clínicas de fisioterapia. A causa mais comum do ombro doloroso são as lesões das estruturas periarticulares em função do seu impacto sucessivo contra o acrômio, devido ao estreitamento do espaço subacromial. A morfologia do acrômio (curvo e gancho) tem sido implicada na redução desse espaço. O objetivo dessa revisão foi fazer uma breve descrição anatômica do acrômio e de seu envolvimento na fisiopatogenia da dor no ombro e abordar os principais métodos de imagem para avaliação do ombro.

Palavras chaves: Ombro, acrômio, morfologia, dor, radiografia.

INTRODUÇÃO

A dor no ombro é uma queixa comum no consultório de ortopedistas e nas clínicas de fisioterapia, podendo conduzir a considerável incapacidade esportiva e laboral. Existem muitas causas para o ombro doloroso. As lesões das estruturas periarticulares, bolsas e músculos do manguito rotador, são as mais comuns (LUIME et al., 2004; ANDRADE; CORREA FILHO; QUEIROZ, 2004).

As lesões dessas estruturas periarticulares resultam de sua compressão devido ao seu sucessivo atrito e/ou impacto contra o acrômio (acidente ósseo da escápula), ocasionado pelo estreitamento do espaço subacromial, região entre o arco coracoacromial e o tubérculo maior do úmero, onde se localizam essas estruturas periarticulares. Uma das causas desse estreitamento do espaço subacromial é o formato do próprio acrômio (BIGLIANI; LEVINE, 1997; MICHENER; McCLURE; KARDUNA, 2003).

A radiografia simples é considerada o primeiro e principal exame para a avaliação do ombro doloroso. A realização adequada das radiografias permite obter informações valiosas quanto às possíveis causas de dor e/ou disfunção do ombro. As técnicas de tomografia e ressonância magnética são métodos mais meticulosos de avaliação do que as radiografias, mas estas continuam sendo utilizadas devido ao seu baixo custo (EPSTEIN et al., 1993; YAMAGUCHI et al., 1998; TURTELLI, 2001; MAYERHOEFER et al., 2005).

O objetivo desta revisão foi fazer uma breve descrição anatômica do acrômio e de seu envolvimento na fisiopatogenia da dor no ombro e abordar os principais métodos de imagem para avaliação do ombro doloroso.

TIPO ACROMIAL

O acrômio é um acidente ósseo da escápula, forma a porção mais alta do ombro e posiciona-se sobre a cavidade glenoidal. A espinha da escápula termina lateralmente no acrômio (Figura 1) (GRAY, 1988).

Figura 1 – a. Vista anterior da escápula esquerda; b. Vista posterior.

Fonte: Sobotta, 2000.

A face cranial do acrômio é convexa, áspera e dá inserção a algumas fibras do músculo deltoide. Sua face caudal é lisa e côncava e a borda lateral espessa e irregular, apresentando três ou quatro origens tendíneas do deltoide. Tem a borda medial mais curta que a lateral, côncava, dando inserção a uma porção do músculo trapézio e apresentando, próximo ao seu centro, uma pequena superfície de articulação para a extremidade acromial da clavícula. Seu ápice, que corresponde ao ponto de encontro dessas duas bordas, é fino e tem nele inserido o ligamento coracoacromial (Figura 2) (GRAY, 1988).

Figura 2 – Vista anterior das estruturas periarticulares do ombro direito. Os músculos peitoral maior, peitoral menor e serrátil anterior foram removidos. A localização das bolsas e ligamentos pode ser vista através do m. deltoide que foi tornado transparente.

Fonte: Schünke; Schulte; Schumacher, 2006.

Em 1986, Bigliani et col. apresentaram um esquema de classificação do acrômio de acordo com o formato de sua superfície inferior. Foram identificados três tipos de acrômio: plano (tipo I), curvo (tipo II) e gancho (tipo III) com base em observações diretas de acrômios de cadáveres e de radiografias de perfil de escápulas desarticuladas. Das 139 escápulas analisadas foram encontrados 24 acrômios (17%) do tipo I (plano), 60 (43%) do tipo II (curvo) e 55 (40%) do tipo III (gancho). Outro achado interessante deste estudo foi uma significante prevalência de rupturas do manguito rotador associadas à presença de acrômios do tipo III (BIGLIANI; MORRISON; APRIL, 1986). Um ano depois, Morrison e Bigliani (1987) fizeram observações similares em pacientes. Eles avaliaram 200 radiografias supraspinatus outlet view e descobriram que 66 (80%) dos 82 pacientes que apresentavam ruptura do manguito rotador possuíam acrômios do tipo III.

O método de classificação do acrômio por Bigliani et col., de observação a olho nu, obteve grande repercussão na época, mas não foi considerado confiável nem sujeito a fácil reprodução, especialmente para distinguir os acrômios tipo II e tipo III. Dois fatores explicam a grande variabilidade interobservador. O primeiro fator é a necessidade de uma clara definição na literatura das categorias utilizadas na classificação de Bigliani. O segundo fator é a ausência de fotografias ou diagramas no resumo publicado por Bigliani et col. para indicar os limites pretendidos de cada categoria. Sendo assim, a interpretação é guiada somente pelos sentidos usuais das palavras plano, curvo e gancho (BIGLIANI; MORRISON; APRIL, 1986).

Porém, em 1993, a classificação de Bigliani et col. foi refinada por Epstein et col. que para resolver essa dificuldade proporam um diagrama em que o acrômio do tipo II apresentaria um declive em seu terço médio, enquanto que no tipo III tal declive ocorreria no terço anterior da superfície inferior do acrômio (Figura 3) (EPSTEIN et al., 1993). Desde então, a classificação de Bigliani et al. (1986) refinada por Epstein et al. (1993) tem sido muito utilizada para a classificação do tipo acromial.

Figura 3 – Desenho esquemático representativo da classificação de Bigliani et al. (1986) para o tipo acromial (tipo I ou plano, tipo II ou curvo, tipo III ou gancho) refinada por Epstein et al. (1993) — tipo II: apresenta declive no terço médio da superfície inferior do acrômio; tipo III: apresenta declive no terço anterior.

Fonte: Adaptado de Bigliani; Morrison; April, 1986; Epstein et al., 1993.

Alguns estudos, no entanto, encontraram resultados diferentes de Morrison e Bigliani (1987). Por exemplo, Gohkle, Barthel e Lohr (1993) encontraram apenas acrômios do tipo I (plano) e tipo II (curvo) em uma dissecção realizada com 54 cadáveres. Estes autores consideraram o acrômio do tipo III (gancho) apenas como um processo degenerativo — formação de osteófitos na porção anteroinferior do acrômio devido à tração produzida pelo ligamento coracoacromial no local de sua inserção — que altera a curvatura do acrômio. Gagey, Ravaud e Lassau (1993), com base no sistema de Bigliani, distinguiram dois tipos diferentes de acrômio em gancho: um deles apresentaria uma protuberância arredondada próxima à articulação acromioclavicular, enquanto o outro tipo apresentaria uma curva bem marcada, localizada na extremidade lateral do acrômio.

Observou-se que em alguns pacientes com ombro doloroso, a proeminência anterior do acrômio se mostrou muito irregular quando comparado ao outro ombro assintomático; em outros pacientes, ela se apresentou suave e arredondada. Essas observações sugerem a presença de um processo degenerativo na face inferior do acrômio ou de uma variante anatômica, como por exemplo, o acrômio do tipo III (ROCKWOOD; LYONS, 1993; DONEUX, CHECCHIA, MIYAZAKI; 1998). A literatura ortopédica possui diversas denominações para caracterizar esse processo degenerativo: alteração hipertrófica, esporão do acrômio, osteófito de tração, entesopatia, calcificação do ligamento coracoacromial, ossificação do ligamento coracoacromial etc. (IKEMOTO et al., 2005). Desse modo, a questão que se fez pertinente — sobre o papel do acrômio na etiologia da dor no ombro — investigou a hipótese de o formato gancho do acrômio ser uma variação anatômica ou um processo degenerativo e se este se correlacionaria com a idade. Abordaremos, a seguir, os principais estudos que se debruçaram sobre essa hipótese.

Segundo Neer (1972), o ligamento coracoacromial, o acrômio e a articulação acromioclavicular são responsáveis pelos fenômenos de compressão sobre as bolsas e os músculos do manguito rotador e da cabeça longa do bíceps, podendo gerar esse processo degenerativo. O acrômio e o processo coracoide não são fixos, eles se movem quando ocorre tração muscular. Portanto, estas duas estruturas produzem uma força de tração ao longo do ligamento coracoacromial, que passa a funcionar como verdadeira banda de tensão (NEER, 2005). Esta tensão mecânica pode determinar a formação de osteófito na inserção acromial do ligamento, segundo Harris e Blackney (1992). Quando ocorre sólida calcificação ao longo do ligamento coracoacromial, o acrômio se torna mais curvo, do tipo compatível com o acrômio gancho (tipo III), segundo estudos de Barthel et al. (1992).

Panni et al. (1996) avaliaram as mudanças do arco coracoacromial relacionadas com a idade e correlacionaram estas mudanças com a incidência de lesões do manguito rotador. Eles observaram que a idade está diretamente relacionada com a maior incidência e a gravidade destas lesões. Foi verificado também o espessamento da bolsa subacromial e um maior número de rupturas do manguito rotador quando o acrômio era curvo. Tais alterações estavam relacionadas com graves alterações degenerativas no acrômio em todos os casos. A associação entre a ruptura do manguito rotador e o esporão subacromial foi mais evidente na presença de acrômio tipo III.

Um ano depois, Altchek e Carson (1997) sugeriram que a formação do esporão acromial seria secundária à ascensão da cabeça do úmero em consequência de um desequilíbrio muscular do manguito rotador. O choque e atrito repetidos do tubérculo maior do úmero contra o arco coracoacromial levaria à formação secundária do esporão acromial.

Lech et al. (2000) analisaram histologicamente a possibilidade de ocorrência de calcificação do ligamento coracoacromial na sua inserção acromial e a sua relação com a curvatura do acrômio. Eles concluíram que a calcificação do ligamento coracoacromial não tem relação direta com a idade, mas que ao longo da vida, essa calcificação modificaria a curvatura do acrômio, apresentando os acrômios curvos, em média, maior quantidade de ossificação do que os ganchosos. A ossificação endocondral degenerativa provavelmente se desenvolve devido a forças de tensão transmitidas ao longo do ligamento coracoacromial, associada ao espessamento da camada fibrocartilaginosa e à ruptura das fibras que ancoram o ligamento coracoacromial ao acrômio. Os autores sugeriram que o processo de calcificação do ligamento coracoacromial acompanha o processo degenerativo do ombro no momento em que ocorrem os sintomas e que se constatam as lesões do manguito rotador.

Shah, Bayliss e Malcolm (2001) em um estudo histológico de 18 acrômios de cadáveres, notaram alterações degenerativas micro e macroscópicas nos acrômios dos tipos II e III, concluindo que as formas são adquiridas em resposta à força de tração aplicada pelo ligamento coracoacromial sobre o acrômio. Um achado interessante deste estudo mostra que as alterações são inicialmente na porção anterior e, a seguir, na inferior, devido à tração intermitente na inserção acromial do ligamento coracoacromial.

DOR NO OMBRO

O ombro possui dois grandes grupos de enfermidades: as instabilidades (luxações e subluxações glenoumerais) e as síndromes dolorosas (síndrome do impacto, lesões e roturas do manguito rotador, lesões bicipitais, tendinite calcária e capsulite adesiva). Destas síndromes dolorosas, as lesões dos tecidos periarticulares (tendões do manguito rotador, bolsa subacromial e cabeça longa do m. bíceps braquial) são as mais comuns e frequentemente associadas ao impacto crônico destas estruturas contra a margem anteroinferior do acrômio, por esta razão chamada de síndrome do impacto ou síndrome do impacto subacromial (Figura 4a) (LUIME et al., 2004; FRANCO, 2005).

Figura 4a – Ilustração da articulação do ombro com suas estruturas periarticulares (músculos, tendões e bursas) que circundam a articulação glenoumeral. 3b – Ilustração do mecanismo da síndrome do impacto no ombro pelo estreitamento do espaço subacromial (região entre o arco coracoacromial e o tubérculo maior do úmero).

Fonte: 4a. Adaptado de Nettter, 2004; 4b. Adaptado de Schünke; Schulte; Schumacher, 2006.

Foi Neer, em 1972, quem popularizou o termo “síndrome do impacto” quando a descreveu como uma entidade clínica distinta, atentando para a relação de causa e efeito entre a morfologia acromial e o impacto subacromial. Neer (1972) definiu a síndrome do impacto como sendo o impacto da porção tendinosa do manguito rotador contra o ligamento coracoacromial e a porção anteroinferior do acrômio (Figura 4b). Até então se acreditava que o impacto ocorria contra a margem lateral do acrômio (NEER, 2005).

Com base em suas próprias observações clínicas e de achados em dissecções de mais de 100 escápulas, Neer defendeu a hipótese de que a área crítica para a tendinite degenerativa e a ruptura tendinosa está localizada no tendão do músculo supraespinal, incluindo, algumas vezes, a porção anterior do músculo infraespinal e o tendão da cabeça longa do músculo bíceps braquial. Com o braço em posição anatômica, todas essas estruturas ficam em posição anterior ao acrômio. Em rotação interna, na posição em que o braço é frequentemente usado, elas são trazidas ainda mais anteriormente. Em rotação externa, a inserção do m. supraespinal se localiza lateralmente ao terço anterior do acrômio. Desta maneira, a elevação do braço em rotação interna ou na posição anatômica (rotação externa) faz com que a área crítica passe abaixo do ligamento coracoacromial ou da face anterior do acrômio, não tocando os dois terços posteriores do mesmo (NEER, 2005).

Um dos primeiros estudos a avaliar a relação entre o músculo supraespinal e o acrômio foi o de Neer e Poppen (1987). Eles criaram o termo supraspinatus outlet (túnel do supraespinoso) para denominar a incidência radiográfica lateral realizada no plano da escápula utilizada no estudo citado. Esta incidência radiográfica ficou conhecida como supraspinatus outlet view (em português, perfil de escápula ou incidência em Y) e tem sido amplamente utilizada para a vizualização do acrômio.

Os mecanismos responsáveis pela síndrome do impacto podem ser classificados em dois fatores: intrínsecos (intratendinosos) ou extrínsecos (extratendinosos). Os fatores desencadeantes intrínsecos mais comuns são: lesão traumática, uso excessivo da articulação, processo degenerativo relacionado ao envelhecimento natural dos tendões (entesopatia). O mecanismo desencadeante extrínseco se refere à cinemática articular, ao impacto interno e à morfologia acromial. É baseado no conceito do impacto das estruturas periarticulares situadas entre a cabeça do úmero e o arco coracoacromial contra a margem anteroinferior do acrômio. Dentre os fatores desencadeantes extrínsecos podemos citar: processos degenerativos do acrômio (osteófitos, esporões etc.), morfotipo acromial (acrômio tipo II e III), alteração congênita (Os acromiale), degeneração da articulação acromioclavicular e instabilidade capsuloligamentar da articulação glenoumeral (BIGLIANI; LEVINE, 1997; FRANCO, 2005).

Os fatores extrínsecos elucidam o mecanismo das lesões das estruturas periarticulares, que resultam da compressão dessas estruturas devido ao seu sucessivo impacto contra a margem anteroinferior do acrômio, ocasionada pelo estreitamento do espaço subacromial, levando à síndrome do impacto (Figura 4) (MICHENER; McCLURE; KARDUNA, 2003; CARVALHO et al., 2015; YADAV; ZHU, 2017).

Clinicamente a síndrome do impacto é observada em dois grupos populacionais baseados em critérios etários: i. pessoas com menos de 35 anos, que se refere à atividade profissional e/ou atividade física habitual envolvendo extensos movimentos acima da cabeça e de sobrecarga para o ombro; ii. indivíduos mais idosos, que têm uma maior probabilidade de sofrer os efeitos dos processos degenerativos levando à formação de esporões ósseos, adelgaçamento capsular, menor perfusão tecidual e atrofia muscular (BIGLIANI; LEVINE, 1997).

Os sintomas da síndrome do impacto consistem em dor ocasionada por abdução (70º a 120º) e rotação externa (20º a 30º) ou elevação (70º a 120º) e rotação interna (maior que 30º). Inclui ainda hipersensibilidade nas regiões superior e anterior do ombro, ocasionando fraqueza associada da articulação, hipermobilidade da cápsula anterior do ombro, hipomobilidade da cápsula posterior, rotação externa excessiva associada com rotação interna do úmero limitada e frouxidão ligamentar generalizada da articulação glenoumeral. Bursite subacromial, tendinite bicipital e rupturas do manguito rotador são sequelas comuns. A maioria dos indivíduos se queixa de dor noturna e dificuldade ou incapacidade de deitar-se sobre o lado afetado. O músculo mais comumente acometido é o supraespinal (ANDRADE; CORREA FILHO; QUEIROZ, 2004; FRANCO, 2005).

O diagnóstico do ombro doloroso em pacientes sem história prévia de trauma não é simples em virtude da inespecificidade dos sintomas e de sinais clínicos, podendo ser muitas vezes mal diagnosticado como desconforto proveniente da coluna cervical ou de problemas sistêmicos. Até os anos 70 a 80, considerava-se que a dor e a impotência funcional do ombro fossem devidas a “bursite, reumatismo ou mau jeito” e que o tratamento, sem qualquer tentativa diagnóstica inicial, não passaria da tríade clássica: medicamento + infiltração + fisioterapia (FRANCO, 2005).

No Brasil, vários fatores contribuíram para o aumento do número de diagnósticos dessas síndromes dolorosas do ombro nos últimos 15 anos. Segundo Franco (2005) os principais fatores foram:

i. Aumento da expectativa média de vida e o conceito de que o adulto e o idoso também devem se exercitar e praticar esportes;

ii. Grande desenvolvimento dos esportes que utilizam o membro superior ostensivamente: vôlei, basquete, tênis, natação. Sabe-se que esses esportes predispõem à compressão do manguito rotador e ao aparecimento de sintomas dolorosos, mesmo em indivíduos com menos de 20 anos de idade;

iii. Desenvolvimento de métodos diagnósticos clínicos e de imagem modernos;

iv. Melhor entendimento dos métodos de reabilitação e de técnicas cirúrgicas.

MÉTODOS DE IMAGEM PARA AVALIAÇÃO DO OMBRO

Desde 1980, a literatura científica publica estudos que utilizam técnicas radiológicas que correlacionam anatomia e patologia osteomioarticular com o intuito de melhor compreender os sintomas clínicos apresentados pelos pacientes e/ou avaliar resultados cirúrgicos. Numerosos artigos têm sido publicados abrangendo os seguintes métodos por imagem: radiografia, artrografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e ultrassonografia (EPSTEIN et al., 1993; MAYERHOEFER et al., 2005). Todos os artigos tentam mostrar o valor dos vários métodos na avaliação do ombro doloroso, cada um com seu mérito. Claras diferenças aparecem quando os custos são examinados e estas discrepâncias cerceiam a prática médica. Contudo, a questão mais importante é a obtenção das informações necessárias às questões clínicas e terapêuticas com razoável exatidão e menor custo.

Muitas incidências radiográficas foram descritas para avaliar a articulação do ombro. Historicamente os radiologistas utilizavam incidências anteroposteriores do tórax com rotação interna e externa do úmero com vistas axilar e transcapular. Radiografias anteroposteriores podem mostrar cistos subcondrais ou esclerose da tuberosidade maior do úmero com correspondentes áreas de esclerose ou com esporão do acrômio. Podem ainda ajudar a identificar osteoartrose da articulação acromioclavicular, tendinite calcária, evidências de instabilidade glenoumeral e osteoartrose da articulação glenoumeral (YAMAGUCHI et al., 1998; TURTELLI, 2001).

O espaço subacromial e o formato do acrômio, no entanto, não são bem visualizados em radiografias anteroposteriores devido à sobreposição da espinha da escápula. Por isso, incidências adicionais são hoje preferidas por muitos radiologistas e cirurgiões ortopedistas, como a vista posterior oblíqua, a supraspinatus outlet view e a subacromial (NEER; POPPEN, 1987; ROCKWOOD; LYONS, 1993; YAMAGUCHI et al., 1998; TURTELLI, 2001).

A incidência radiográfica utilizada para visualizar o tipo acromial é a perfil de escápula, também chamada de incidência em Y ou, em inglês, supraspinatus outlet view. Essa incidência mostra somente a proeminência inferior do acrômio, não visualizando a extensão anterior do mesmo, e sua técnica é bem mais difícil do que a necessária à radiografia anteroposterior. A radiografia perfil de escápula é obtida com a ampola do raio-X posicionada na mesma direção da espinha da escápula e com uma inclinação caudal de 15º a 25º, variando de acordo com o grau de cifose torácica do paciente (ROCKWOOD; LYONS, 1993; DONEUX, CHECCHIA, MIYAZAKI; 1998).

Para o diagnóstico de ruptura do manguito rotador, por causas extrínsecas, a ressonância magnética é padrão ouro por produzir excelentes imagens das estruturas periarticulares, porém, este método é de alto custo. Embora as radiografias simples do ombro sejam insuficientes para demonstrar a lesão do manguito rotador, existem determinados aspectos radiográficos que auxiliam no diagnóstico desta laceração crônica. Os achados mais importantes são: i. presença de crescimento ósseo na parte anteroinferior do acrômio; e ii.  achatamento do tubérculo maior do úmero. Estes são importantes sinais radiográficos da síndrome do impacto subacromial, que devem ser considerados, quando não se puder realizar a ressonânica magnética (CONE; RESNICK; DANZIG, 1984; BIGLIANI; LEVINE, 1997).

A artrorressonância magnética se apresenta útil nos casos de instabilidade glenoumeral e a tomografia computadorizada tem sido utilizada na pesquisa de fraturas ocultas, quando a ressonância magnética não puder ser realizada. O método da artrografia é simples, exato e não é tão caro. Entretanto, é invasivo, embora os riscos sejam mínimos. Mostra-se útil nos casos de pacientes operados do manguito rotador em que fragmentos metálicos prejudicam o estudo por ressonância magnética e tomografia computadorizada. Nos casos de capsulite adesiva pode ser utilizada, mas tende a ser substituída pela ressonância magnética e artrorressonância magnética (STILES; OTTE, 1993; TURTELLI, 2001).

A ultrassonografia é muito dependente do equipamento e do examinador e tem pouca sensibilidade para alterações ósseas, sendo útil, porém, para avaliar lesões tendíneas agudas em idosos e em pacientes sem condições de se submeter a uma ressonância magnética (TURTELLI, 2001).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde 1972, com Neer, o acrômio tem sido alvo de estudo por seu envolvimento nos quadros de dor no ombro. Em 1986, Bigliani et col. classificaram anatomicamente, de acordo com a curvatura inferior, três tipos de acrômio: tipo I (plano), tipo II (curvo) e tipo III (gancho). Os tipos acromiais II e III têm sido implicados na gênese da dor no ombro por diminuir o espaço subacromial e levar à compressão e ao impacto das estruturas periarticulares contra o próprio acrômio, principalmente bolsa subacromial e tendões dos músculos supraespinal e cabeça longa do bíceps braquial, provocando a síndrome do impacto no ombro. Vários autores investigaram a hipótese de o acrômio tipo III ser um processo degenerativo e não uma variação anatômica, porém, mais estudos padronizados e com uma amostra maior de pacientes se fazem necessários para elucidar essa questão.

Nos últimos anos, o ombro vem sendo submetido a todas as técnicas de imagem disponíveis. A escolha dependerá da eficácia do método para a visualização de determinada estrutura, dos custos do exame, da situação clínica do paciente e dos riscos relativos à realização do exame. Todos esses fatores devem ser considerados conjuntamente. Porém, a radiografia simples continua sendo muito importante na avaliação do ombro doloroso e costuma ser o primeiro exame de imagem realizado em pacientes com dor e disfunção no ombro pelo baixo custo e pela disponibilidade na maioria dos hospitais e centros médicos.

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[1] Professora Associada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Seropédica/RJ (2010-atual). Pesquisadora do Serviço de Ortopedia do Hospital Universitário Pedro Ernesto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (HUPE/UERJ), Rio de Janeiro/RJ (2010-atual). Docente de Anatomia Humana da ABEU Centro Universitário, Belford Roxo/RJ (2007-2010). Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2009). Sócia da Sociedade Brasileira de Anatomia (SBA).

[2] Graduação em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/2008). Especialização em Fisiologia do Exercício – Avaliação Morfofuncional pela Universidade Gama Filho (2011). Bacharelado em Fisioterapia pelo Centro Universitário IBMR (2019).

Enviado: Agosto, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

Docente de Anatomia Humana da ABEU Centro Universitário, Belford Roxo, RJ (2007-2010); Docente de Anatomia Humana da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ (2010-atual); Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Sócia da Sociedade Brasileira de Anatomia.

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