Perfil clínico e epidemiológico de gestantes internadas em uma maternidade pública do Estado do Amapá

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TESE

ARAÚJO, Bergson Matos de [1], RÊGO, Aljerry Dias do [2]

ARAÚJO, Bergson Matos de. RÊGO, Aljerry Dias do. Perfil clínico e epidemiológico de gestantes internadas em uma maternidade pública do Estado do Amapá. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 03, Vol. 10, pp. 123-137. Março de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/clinico-e-epidemiologico ‎

RESUMO

Tendo em vista os elevados índices de Razão de Mortalidade Materna e Mortalidade Neonatal no Brasil, sobretudo nas regiões norte e nordeste do país, pesquisa-se sobre perfil clínico e epidemiológico de gestantes de alto risco internadas em uma maternidade pública do Estado do Amapá. O objetivo é criar base de dados para posteriormente haver construção de interversões governamentais e civis. Realiza-se, então, um estudo epidemiológico transversal e retrospectivo referente ao período de janeiro de 2018 a janeiro de 2019 no Hospital da Mulher Mãe Luzia (HMML) localizado na cidade de Macapá, capital do Estado do Amapá. Diante disso, verifica-se que cerca de 76,6% das pacientes são oriundas da Região Metropolitana do Amapá, constituída por Macapá, Mazagão e Santana. 10,7% são oriundas da zona rural, 12,7% são de regiões desassistidas do Estado do Pará, dada a carência de recursos e as peculiaridades geográficas, sobretudo ilhas que formam o Arquipélago de Marajó. Isto demostra a elevada centralização do sistema de saúde do Estado do Amapá, que presta serviço a um grande número de pacientes locais e de outros e Estados. No que concerne a idade destas clientes, foi observado que a faixa etária é mais elevada em comparação a outros estudos anteriores, em torno de 85,3% tinham idade igual ou superior a 20 anos, enquanto 14,7% idade menor que 20 anos. Trata-se de uma tendência atual, dada sobretudo pela inserção da mulher no mercado de trabalho. As patologias mais prevalentes observadas durante o período circunscrito anteriormente foram: síndromes hipertensivas (45%), diabetes gestacional (6%), infecções de trato urinário (8%), amniorrexe prematura (27%), prematuridade (6%), outras (6%).

Palavras-Chave: Perfil de saúde, Gestação de alto risco, Epidemiologia.

1. INTRODUÇÃO

A gestação é um período natural e significativo na vida da mulher, que geralmente evolui para bons desfechos. (BRASIL, 2012). Durante este processo, verifica-se que o comportamento físico, psíquico e social da gestante se encontra submetido a condições especiais e normais ao estado gravídico, contudo uma parte da população de gestantes evolui com eventos patológicos que colocam em risco tanta a vida da paciente quanto a vida do feto, constituindo um grupo designado como “gestantes de alto risco”. (SAMPAIO, 2018)

A gravidez de alto risco, conforme alguns autores, pode ser conceituada como qualquer gestação onde existam fatores que submetam a mãe, o feto ou o recém-nascido, a maiores possibilidades de danos à saúde, ou seja, onde haja evidência de ameaça potencial contra a vida materna, fetal ou neonatal comparativamente com a média da população considerada. (SANTOS, 2014)

Pacientes que cursam com gestações de alto risco geralmente precisam de cuidados complexos e multidisciplinares que abrangem desde modificações no estilo de vida até suporte farmacológico aliado frequentemente a internações hospitalares. (SAMPAIO, 2018). Há diversos eventos patológicos e não patológicos que causam estas complicações, que podem colocar em risco tanto a vida da mãe quanto da criança ou do feto. Podemos destacar dentre eles, por exemplo: baixa estatura, extremos de idade, condições sociodemográficas desfavoráveis, exposição indevida ou acidental a fatores teratogênicos, síndromes hipertensivas, síndromes hemorrágicas, diabetes mellitus gestacional, infecções puerperais, abortos provocados e espontâneos, desvios de crescimento fetal, alterações na duração do parto, amniorrexe prematura e corioamnionite, alterações do volume de líquido amniótico. Estes fatores se estabelecem antes do período gestacional, simultaneamente ao período gravídico ou até mesmo no decorrer do trabalho de parto, contribuindo para o aumento do índice de morbimortalidade materno-fetal, aumentando a Razão de Mortalidade Materna (RMM) e de Mortalidade perinatal. (BRASIL, 2012)

No Brasil, apesar de mobilizações civis e governamentais para diminuir as taxas de Razão de Mortalidade Materna e de Mortalidade Neonatal, os índices de óbitos de mulheres e de crianças após complicações obstétricas tratáveis e evitáveis continuam acima do recomendado por comunidades científicas. A Organização Mundial de Saúde (OMS), por exemplo, considera aceitável a taxa de RMM entre 6 a 20 óbitos por 100 mil nascidos vivos. A maioria das cidades brasileiras, apesar ainda da elevada subnotificação, apresentam números que giram em torno de 70,5 óbitos por 100 mil nascidos vivos: Em Mato Grosso do Sul e no Ceará, as taxas foram de 80,13 e de 75,3 óbitos respectivamente no ano de 2019. (CONASS, 2020). Segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, a Razão de Mortalidade Materna do Estado do Amapá, região Norte, é a seguinte descrita na figura A: 2015 (82,54), 2016 (108,53), 2017 (45,46), 2018 (88,25) (BOZATSKI, 2019). (Gráfico 1)

Gráfico 1 – Razão de mortalidade materna. Amapá e Brasil, 2009 – 2018

Fonte: SIM/SINACSC/CIASS/SVS,2020.

O objetivo deste estudo é descrever o perfil clínico-epidemiológico de gestantes internadas no período de janeiro de 2018 a janeiro de 2019 na enfermaria de gestação de alto risco do Hospital da Mulher Mãe Luzia, na cidade de Macapá (Amapá).

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo epidemiológico transversal e retrospectivo referente ao período de janeiro de 2018 a janeiro de 2019 no Hospital da Mulher Mãe Luzia (CNES: 2020068) localizado na cidade de Macapá, capital do Estado do Amapá. Estabelecimento de saúde especializado em gestações de alto risco que oferece atendimento ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade, pertencente a rede pública de saúde do Estado do Amapá. Figura-se ainda como unidade auxiliar de ensino e pesquisa.

No processo de levantamento documental foram inclusos dados de prontuários de gestantes de alto risco internadas na maternidade no período estudado, tendo sido excluídos da pesquisa os prontuários não preenchidos corretamente ou incompletos.

Um formulário de coletas de dados foi criado com campos a serem preenchidos pelo pesquisador, para listagem das condições fisiológicas e patológicas, da história obstétrica atual e pregressa e campos para condições fisiológicas e patológicas do neonato ou do feto. Dados epidemiológicos como idade, procedência, idade gestacional no parto, paridade, via de parto e o número de abortamentos também foram coletados e descritos. Elementos referentes a vitalidade do neonato como Escore de Apgar no primeiro e no quinto minuto após o parto, indicação ou contraindicação de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após o nascimento também foram aspectos explorados nesta pesquisa.

Um número de 30 (trinta) prontuários de cada uma das 5 (cinco) patologias mais prevalentes no período de tempo analisado, totalizando 150 (cento e cinquenta) prontuários, foi selecionado para análise clínica e epidemiológica. Estes prontuários foram escolhidos de maneira aleatória, de forma que todos tiveram a mesma probabilidade de serem selecionados. Os dados colhidos foram analisados dentro do contexto clínico-epidemiológico geral e individual do panorama das cinco patologias mais prevalentes no setor de alto risco do Hospital da Mulher Mãe Luzia.

Todas as informações transcritas dos documentos foram submetidas à crítica e os dados obtidos foram verificados em sua consistência. Os dados foram submetidos ao processo de tabulação e organização através do programa Microsoft Excel, versão 2016. O processamento para a análise estatística foi efetuado através de testes estatísticos de Kruskal Wallis e de Ducan utilizando-se o Statistical Package for the Social Sciences – SPSS versão 22. Esta pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal do Amapá, CAAE: 27845919.1.0000.0003, Número do Parecer: 4.557.845. Não constou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) das pacientes cujas fichas foram analisadas, procedimento este de acordo com as Diretrizes Éticas e Internacionais – CIOMS/OMS, publicadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

3. RESULTADOS

Na pesquisa foram analisados 2015 prontuários de pacientes internadas no setor de alto risco do Hospital da Mulher Mãe Luzia no período de janeiro de 2018 a janeiro de 2019. Sobre os diagnósticos mais prevalentes descritos nas Autorizações de Internação Hospitalar (AIH) e nos prontuários: 44,51% foram admitidas com diagnóstico de síndrome hipertensiva (hipertensão crônica, pré-eclâmpsia, eclâmpsia, pré-eclâmpsia sobreposta a hipertensão crônica, síndrome HELLP), 27,24% com amniorrexe prematura, 8,13% com infecções do trato urinário, 7,89% com diabetes mellitus gestacional, 6,20% com prematuridade e 6,03% com outras patologias. (Gráfico 2)

Gráfico 2 – Patologias mais prevalentes

Fonte: Próprio Autor

No que se refere às características sociodemográficas gerais, a média de idade de todas as mulheres analisadas foi de 27,71 anos com Desvio Padrão (DP) de 7,21. A idade mínima foi de 13 anos, enquanto a máxima foi de 44 anos; além disso, 14,7% gestantes tinham idade inferior a 20 anos e 85,3% tinham idade igual ou superior a 20 anos. (Gráfico 3)

Gráfico 3 – Faixa etária das gestantes.

Fonte: Próprio Autor

Sobre a procedência: 76,6% das pacientes eram oriundas da região metropolitana do Amapá, sendo 65,3% de Macapá, 9,3% de Santana e 2,0% de Mazagão. Outras 10,7% eram da zona rural, 8% das Ilhas de Marajó e 4,7% de outras regiões fora das imediações do Estado. (Gráfico 4)

Gráfico 4 – Distribuição geográfica das pacientes

Fonte: Próprio Autor

A média geral de idade gestacional na admissão foi de 33,13 semanas (DP=6,12), 78% apresentavam idade menor que 37 semanas, enquanto 22% maior ou igual a 37 semanas, ou seja, gestações a termo. Sobre as vias de parto: 59,8% dos partos foram realizados por via cirúrgica, enquanto 40,2% foram por via vaginal. Quanto a paridade: 32,7% destas gestantes primíparas e 67,3% multíparas.

Cerca de 50% dos neonatos nasceram com peso abaixo do normal, ou seja, menor que 2500g: (3,5% com extremo baixo peso, 1,8% com muito baixo peso, 44,7% com baixo peso), 40,4% com peso normal e 9,6% com macrossomia neonatal. A média do teste de Apgar foi de 7,86 (DP=2,36) e no 5º minuto foi de 9,11 (DP=2,37). Destes, 16,9% precisaram de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, enquanto 4,7% evoluíram ao óbito. (Tabela 1)

Tabela 01- Caracterização do perfil clínico-epidemiológico das gestantes internadas no setor de alto risco no Hospital Maternidade Mãe Luzia. Macapá – AP-2019. N:150.

N (%) Média ± Desvio padrão Mediana
Procedência
Macapá 98(65,3)
Zona rural 16(10,7)
Ilhas do Marajó 12(8,0)
Santana 14(9,3)
Mazagão 3(2,0)
Outras regiões 7(4,7)
Faixa Etária (Mãe) 27,71±7,21 27
Jovem (<20 anos) 22(14,7)
Adultos (20|-60 anos) 128(85,3)
Idade Gestacional 33,13±6,12 35
Prematuro muito extremo 17(11,3)
Prematuro extremo 9(6,0)
Prematuro moderado 27(18,0)
Prematuro leve 64(42,7)
Termo 33(22,0)
Peso Neonatal 2687,45±878,71 2492,5
Extremo Baixo Peso 4(3,5)
Muito baixo peso 2(1,8)
Baixo peso 51(44,7)
Normal 46(40,4)
Acima do normal (Macrossomia) 11(9,6)
Número de Gestações
Primigestas 49(32,7)
Multigestas 101(6,7)
Parto
Cesária 70(59,8)
Vaginal 47(40,2)
Termo
Termo 32(27,1)
Prematuro 86(72,9)
UTI
Sim 20(16,9)
Não 98(83,1)
Vivo
Sim 143(95,3)

Fonte: Próprio Autor

As pacientes com síndrome hipertensiva apresentavam idade média de 29,83 anos (DP=8,70); A média de idade gestacional foi de 36,83 semanas (DP=3,74); Sobre a procedência: 33,70% eram de Macapá, 20% da zona rural, 13,3% das Ilhas de Marajó, 6,7% de Mazagão, 13,3% de Santana, 10% de outras regiões. Este grupo era constituído por 70% de multíparas e 30% de primíparas; 80% foram submetidas ao parto cesariana, enquanto 20% foram por via vaginal. Os neonatos nasceram com peso médio de 3309 gramas (DP=811); 63,4% termos, 36,6% prematuros. Destes, 10% precisaram de cuidados em UTIN, 3,3% do total evoluiu a óbito.

As admitidas com amniorrexe prematura tinham idade média de 24,50 anos (DP=6,03); A média de idade gestacional foi de 34,02 semanas (DP=2,05); 66,08% dessas gestantes eram de Macapá, 13,3% da zona rural, 13,3% das Ilhas de Marajó, 3,3% de Santana, 3,3% de outras regiões. O grupo de pacientes era formado por 43,3% de multíparas e 56,7% de primíparas; 40% foram submetidas ao parto por cesariana, enquanto 60% por via vaginal. Os neonatos nasceram com peso médio de 2370 gramas (DP=368). Todos nasceram prematuros: 3,3% nasceram prematuros extremos, 20% prematuros moderados e 76,7% prematuros leves. 10% necessitaram de cuidados em UTIN, 0,0% do total evoluiu a óbito.

O grupo amostral das pacientes com infecção do trato urinário teve média de idade de 25,48 anos (DP=6,29); A média de idade gestacional de 30,10 semanas (DP=7,53); 80,0% de eram de Macapá, 13,3% da zona rural e 6,7% de Santana. 56,7% multíparas, 43,3% primíparas. Os partos foram 54,5% via cesárea e 45,5% via vaginal. Os neonatos nasceram com peso médio de 2220 gramas (DP=863); 63,4% termos, 36,6% prematuros. Destes, 20% precisaram de cuidados em UTIN, 6,7% da totalidade foram a óbito.

As pacientes com diabetes gestacional tinham idade média de 33,4 anos (DP=4,85). A média gestacional foi de 32 semanas (DP=8,84); 76,7% eram procedentes de Macapá, 6,7% da zona rural, 3,3% das Ilhas de Marajó, 10% de Santana e 3,3% de Mazagão. Sendo 93,3% multíparas e 6,7% primíparas. Cerca de 62,50% das gestantes foram submetidas ao parto via cesárea, enquanto 27,5% ao parto via vaginal. 18,2% dos neonatos nasceram termo, enquanto 81,8% prematuros; o peso médio foi de 3,716 gramas (DP=667); 6,7% foram internados em UTIN, 3,3% do total evoluiu a óbito.

Já as internadas com diagnóstico de prematuridade tinham idade média de 25,6 anos (DP=5,51) com idade gestacional média de 32 semanas (DP=3,55). Sendo que 66,7% eram procedentes de Macapá, 10% das Ilhas de Marajó, 13,3% de Santana e 10% de outras regiões. Este grupo era constituído por 73,3% de multíparas e 26,7% de primíparas; 60% foram submetidas ao parto cesariana, enquanto 40% por via vaginal. Os neonatos nasceram com peso médio de 2058 gramas (DP=533); 6,7% prematuro muito extremo, 10% prematuro extremo, 30% prematuro moderado e 53,3% prematuro leve. Destes, 36,7% precisaram de cuidados em UTI e 10 % do total evoluiu a óbito. (Tabela 02)

Tabela 02 Caracterização do perfil clínico-epidemiológico estratificada pelas doenças existentes das gestantes internadas no setor de alto risco no Hospital Maternidade Mãe Luzia. Macapá – AP-2019. N:150.

PATOLOGIAS
Amniorrexe prematura Prematuridade Síndromes hipertensivas Diabetes gestacional ITU
N(%) N(%) N(%) N(%) N(%)
Procedência
Macapá 20(66,8) 20(66,7) 11(36,70) 23(76,7) 24(80)
Zona rural 4(13,3) 0(0,0) 6(20,0) 2(6,7) 4(13,3)
Ilhas do Marajó 4(13,3) 3(10,0) 4(13,3) 1(3,3) 0(0,0)
Santana 1(3,3) 4(13,3) 4(13,3) 3(10,0) 2(6,7)
Mazagão 0(0,0) 0(0,0) 2(6,7) 1(3,3) 0(0,0)
Outras regiões 1(3,3) 3(10,0) 3(10,0) 0(0,0) 0(0,0)
Faixa Etária
Jovem (<20 anos) 8(26,7) 3(10,0) 5(16,7) 0(0,0) 6(20,0)
Adultos (20 a 60 anos) 22(73,3) 27(90,0) 25(83,3) 30(100,0) 24(80)
Idade Gestacional
Prematuro muito extremo 0(0,0) 2(6,7) 1(3,3) 3(11,8) 5(18,2)
Prematuro extremo 1(3,3) 3(10,0) 1(3,3) 0(0,0) 0(0,0)
Prematuro moderado 6(20,0) 9(30,0) 2(6,7) 0(0,0) 0(0,0)
Prematuro leve 23(76,7) 16(53,3) 7(23,3) 7(23,5) 20(63,6)
Termo 0(0,0) 0(0,0) 19(63,4) 20(64,7) 5(18,2)
Número de Gestações
Primigestas 17(56,7) 8(26,7) 9(30,0) 2(6,7) 13(43,3)
Multigestas 13(43,3) 22(73,3) 21(70,0) 28(93,3)  

17(56,7)

Parto
Cesária 12(40,0) 18(60,0) 24(80,0) 10(62,5) 6(54,5)
Vaginal 18(60,0) 12(40,0) 6(20,0) 6(37,5) 5(45,5)
UTIN
Sim  

3(10,0)

11(36,7) 3(10,0) 2(6,7) 6(20,0)
Não 27(90,0) 19(63,3) 27(90,0) 28(93,3)  

24(80,0)

Vivo
Sim 30(100,0) 27(90,0) 29(96,7) 29(96,7)  

28(93,3)

Não 0(0,0) 3(10,0) 1(3,3) 1(3,3) 2(6,7)

Fonte: Próprio Autor

4. DISCUSSÃO

Os resultados da pesquisa apresentam elementos proporcionalmente similares a de outros estudos realizados com gestantes atendidas em serviços públicos de saúde do Brasil. Há predomínio de mulheres adultas jovens: 85,3% com idade maior que 20 anos e 14,7% com idade menor que 20 anos. A idade média geral é de 27,71 anos, 18,3% com idade maior ou igual a 35 anos e 1,7% com idade menor ou igual a 15 anos, ou seja, 20% das gestantes encontravam-se nos extremos de idade do ponto de vista obstétrico. Outras pesquisas apontam que o maior número de gestações tardias em contraposição a quantidade de gestações precoces é resultante do incremento de mulheres no mercado de trabalho aliado ao maior nível de escolaridade, além de avanços científicos no que se refere a reprodução humana assistida nas últimas décadas. (VIELLAS, 2014). Estes extremos de idade se relacionam com maior risco contra a vida materna, fetal e neonatal, já que guardam relações com aumento da incidência de patologias prevalentes em gestações de alto risco, como diabetes gestacional e síndromes hipertensivas. (SAMPAIO, 2018) (BOZATSKI, 2019). Observa-se ainda complicações aos fetos e aos neonatos expressas por meio da diminuição da vitalidade observada através da diminuição dos escores de apagar após o parto, aumento do aporte de Unidades de Terapia Intensiva Neonatal e aumento do índice de mortalidade. (DOMINGUES, 2015)

A procedência da população do ponto de vista geográfico e cultural é extremamente variada, dada a elevada centralização da rede hospitalar do Amapá. Cerca de 22% das gestantes são de regiões fora da capital do Estado, sobretudo Santana, Mazagão e outras cidades da zona rural. 12,7% são das Ilhas do Marajó e de outras cidades mais afastadas que pertencem geopoliticamente ao Estado do Pará, contudo, devido a grande extensão territorial, escassez de estradas da região amazônica e outras particularidades do bioma, a população busca por atendimento médico em território amapaense, contribuindo para superlotação observada no Hospital da Mulher Mãe Luzia (SAMPAIO, 2018).

Na análise das pacientes com diabetes mellitus gestacional (DMG) e síndromes hipertensivas gestacional (SHG) foi observado faixa etária mais elevada em comparação as outras pacientes. 40% das clientes com diabetes gestacional tinham idade maior ou igual a 35 anos, nas síndromes hipertensivas esta proporção alcançou 36,70%. Os neonatos nascidos de mães internadas por diabetes gestacional ainda apresentaram maior número com peso maior ou igual a 4000g, ou seja, acima do peso (macrossomia). Outros estudos científicos relatam aumento do número de complicações fetais, neonatais e infantis destas populações, elevando necessidade de UTIN, além do aumento de mortalidade fetal e neonatal. De fato, 6,6% dos fetos e neonatos evoluíram ao óbito, enquanto 16,7% necessitaram de cuidados especiais em unidades de terapia intensiva neonatal. Há ainda prevalência de partos cesarianas nestes grupos, aumentando risco de infecções e hemorragias puerperais. 80% das gestantes com SHG foram submetidas ao parto cesariana contra 62,5% das grávidas com diabetes, proporções acima das relatas em estudos nacionais e internacionais. (MIRANDA, 2017)

Infecções do trato urinário foram intercorrências menos frequentes em comparação aos dados encontrados em outras cidades brasileiras. O Ministério da Saúde aponta frequência de 17% a 20%. No Estado no Amapá a taxa gira em torno de 8,13%. (BRASIL, 2012). O índice de mortalidade neonatal neste grupo foi o maior experimentado dentre todas patologias, em torno de 6,7%. Em consonância a esta constatação, a necessidade de leitos em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal foi a segunda mais alta, 20%, enquanto em neonatos de mães com síndromes hipertensivas, a proporção foi de 36,7%. Este panorama tem provável relação com as elevadas taxas de partos prematuros, 81,8%. As infecções do trato urinário guardam relações frequentes com complicações como roturas de membranas ovulares, prematuridade, infecção neonatais. (SILVA JUNIOR, 2014)

As pacientes internadas por amniorrexe prematura mantiveram características relacionadas a faixa etária observadas em outros estudos. Uma parcela relevante destas gestantes apresentou idade menor que 20 anos, cerca de 26,7%, a maior porcentagem de adolescentes dentre todos os grupos analisados. Gravidez na adolescência é fator de risco para amniorrexe prematura. Os neonatos em sua totalidade nasceram prematuros com peso abaixo do adequando, 2500g, necessitando frequentemente de internações em UTIN, contudo não houveram óbitos. (CRIZOSTOMO, 2016)

Houveram algumas limitações verificadas no processo de desenvolvimento do estudo. A primeira relacionada a elevada burocracia para ter acesso aos prontuários das pacientes. Recomendo que estas preliminares sejam resolvidas com antecedência redobrada para evitar mudanças em cronograma. Além disso haviam diversos prontuários e Autorizações de Internação Hospitalar com grafias ilegíveis, o que dificultou bastante a coleta de dados destas pacientes.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Objetivo do estudo foi alcançado, visto que se avaliou algumas facetas do perfil clínico e epidemiológico das gestantes do alto risco atendidas no Hospital da Mulher Mãe Luzia sitiado no período de janeiro de 2018 a janeiro de 2019. As patologias mais prevalentes no HMML durante o período circunscrito anteriormente foram: síndromes hipertensivas, diabetes gestacional, infecções de trato urinário, amniorrexe prematura e prematuridade. Durante a pesquisa ficou clara a elevada centralização do sistema de saúde do Estado do Amapá, que presta serviços a pacientes de outras cidades e Estados, dada a deficiência logística e estrutural dos serviços de saúde das adjacências para dar assistência a estas usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS).

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[1] Discente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá.

[2] Orientador. Mestrado em Medicina pela Universidade de São Paulo. Pós-graduação em Ginecologia e Obstetrícia/Hospital do Mandaqui, São Paulo, Brasil. Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Pará. Docente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá.

Enviado: Março, 2021.

Aprovado: Março, 2021.

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