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Análise da saúde mental em acadêmicos de terapia ocupacional de uma instituição privada de Teresina-PI

RC: 135667
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

CAVALCANTE, Andreza Lima [1], CARVALHO, Gabriela Dantas [2], CARVALHO, Ana Flávia Machado de [3], CANTINHO, Klégea Maria Câncio Ramos [4], RIBEIRO, Letice Mendes [5]

CAVALCANTE, Andreza Lima. et al. Análise da saúde mental em acadêmicos de terapia ocupacional de uma instituição privada de Teresina-PI. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 12, Vol. 06, pp. 95-108. Dezembro de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/terapia-ocupacional

RESUMO

Introdução: Os acadêmicos da área da saúde, como os do curso de Terapia Ocupacional (TO), são submetidos a alto estresse psicológico relacionados ao ambiente educacional, impactando negativamente em sua saúde mental. De acordo com este cenário surge a questão norteadora: como se encontra a saúde mental dos acadêmicos de TO de uma Instituição Ensino Superior (IES) particular de Teresina-PI? Objetivo: Analisar a saúde mental dos acadêmicos do curso de TO de uma IES privada de Teresina-PI. Métodos: Trata-se de uma pesquisa de campo, descritiva, quantitativa, realizada através de formulário on-line, contendo questionário sociodemográfico e Questionário de Vivências Acadêmicas reduzido (QVA-r). Foram incluídos os acadêmicos matriculados no curso de TO e com idade maior ou igual a 18 anos. A pesquisa obteve aprovação do comitê de ética e pesquisa do Centro Universitário UNIFACID (4.276.466). Os dados foram organizados em planilha Excel e analisados através do programa Bioestat versão 5.3. Foram considerados significativos valores com p < 0,05. Os dados foram expressos em tabelas e figuras. Resultados: A amostra foi constituída por 38 estudantes, destes, 86,84% (n=33, p<0,0001) do gênero feminino, com idade entre 18 a 24 anos (63,15%, n=24, p<0,0395), com renda média-baixa (50%, n=19, p<0,0033) e que associavam o estudo com trabalho (89,47%, n=34, p<0,0001). O sexto (18,42%), sétimo (18,24%) e oitavo (23,68%) períodos foram considerados o de maior sobrecarga mental. Apenas 23,68% (n=9, p<0,0021) receberam apoio psicológico da IES. Das dimensões abordadas, apenas a pessoal apresentou significância (2,93; 0,71±0,11), com associação entre as dimensões: interpessoal e pessoal (p<0,0001), estudo e carreira ((p<0,0001), institucional e pessoal (p<0,0001), e institucional com interpessoal (p<0,0001) Conclusão: Os acadêmicos consideram a jornada acadêmica exaustiva, com ênfase nos últimos períodos, quando ocorre a associação do conteúdo teórico com os estágios obrigatórios. Contudo, dado ao período ao qual foi realizada a pesquisa, o fator pessoal se sobressaiu, visto que os entrevistados se encontravam em período de isolamento social, tornando o convívio pessoal e familiar o principal impacto sobre a saúde mental.

Palavras-chave: Ensino Superior, Saúde Mental, Terapia Ocupacional.

INTRODUÇÃO

Um marco importante para a carreira profissional é o ingresso no ensino superior, sendo avaliado como uma realização pessoal, um simbolismo de classe e uma conquista perante a sociedade. Concomitante ao grande feito, novas responsabilidades são empregadas e junto a elas, exigências que, quando não bem aderidas pelos acadêmicos, podem manifestar em conflitos expressos, muitas vezes, na forma de transtornos mentais (CARLOTTO; TEIXEIRA; DIAS, 2015; DIAS et al., 2019).

Segundo Ariño e Bardagi (2018) os acadêmicos são mais vulneráveis a evolução de Transtornos Mentais Comuns (TMC) relacionados ao grande sofrimento mental, dificuldades nos relacionamentos e na perda da qualidade de vida (FIOROTTI et al., 2010; MAIA; GOMES, 2020), em especial, aqueles que, para o ingresso ao ensino superior, devem mudar de cidade/casa e ficar distante do apoio familiar (BRONDANI et al., 2019). Estudos apontam que, cerca de 15 a 25% dos acadêmicos irão apresentar algum transtorno mental ao longo da sua formação profissional (CASTRO, 2017; GRETHER, et al., 2019) manifestado em forma de depressão não psicótica, ansiedade e sintomas somatoformes, como: cansaço, esquecimento, irritação e diminuição da concentração (ARTIGAS; MOREIRA; CAMPOS, 2017; LUCCHESE et al., 2017; BARROSO; OLIVEIRA; ANDRADE, 2019).

Para Carleto et al. (2018) as altas taxas de estresse psicológico estão relacionados aos problemas no ambiente educacional, aos custos exigidos pela paramentação específica, às altas cargas-horárias impostas que contemplam atividades teórica e prática, exigindo o contato frequente com a problemática dos pacientes, bem como, às suas próprias questões pessoais e familiares (ALVES, 2014; CARLESSO, 2020).

Inúmeros estudos vêm abordando a saúde mental dos universitários, contudo, em sua maioria, são realizados com os acadêmicos do curso de medicina que, mesmo coexistindo pontos de intersecção com as demais áreas da saúde, se distingue dos mesmos, em especial, pela particularidade quanto a metodologia e grade curricular adotada (GRETHER et al., 2019; MACHADO; SANTANA, 2020).

Dentre os acadêmicos da área da saúde que necessitam de atenção à sua saúde mental destacam-se os do curso de Terapia Ocupacional (TO) que possuem um objeto de estudo amplo que contempla diferentes vertentes, abrangendo desde o campo social, físico, psicológico, sensorial e mental (SOUSA, 2019; CONSTANTINIDIS; MATSUKURA, 2021). A American Occupational Therapy Association (2015) foi pioneira na avaliação do impacto da formação sobre a saúde mental dos acadêmicos de TO, sendo este tema ainda pouco discutido pela baixa demanda do referido curso a nível nacional (FERREIRA; GONÇALVES, 2018).

Partindo do aumento do número de casos de TMC entre os universitários no Brasil, surge o interesse pelo tema. Castro (2017) afirma que a transição e a adaptação para o ensino superior tornam o público universitário suscetível ao desenvolvimento de sobrecarga e adoecimento psíquico, levando ao desenvolvimento de transtornos mentais. Dentro deste cenário surge a questão norteadora deste estudo: como se encontra a saúde mental dos acadêmicos de TO de uma Instituição Ensino Superior (IES) particular de Teresina-PI? Baseado nisso, o estudo busca analisar a saúde mental dos acadêmicos do curso de TO em uma IES de Teresina-PI. 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa de campo, descritiva, com abordagem quantitativa, realizada no período junho a agosto de 2020.

A população acessível deste estudo foi composta por acadêmicos do curso de TO de uma IES particular de Teresina-PI. A amostragem foi probabilística por conveniência, selecionada a partir da lista obtida junto à coordenação do respectivo curso e da disponibilidade dos acadêmicos. Até o presente período da realização da pesquisa, o curso de TO contemplava um total de 40 acadêmicos, distribuídos entre o primeiro e o oitavo período.

Foram adotados como critérios de inclusão: acadêmicos devidamente matriculados no curso de TO, com idade maior ou igual a 18 anos, assíduos às atividades, sendo excluídos os acadêmicos que trancaram o curso, que se negaram a participarem da pesquisa, que não responderam o questionário corretamente ou no prazo estipulado.

Os sujeitos foram contatados através de uma rede social de mensagens instantâneas, em que foi realizado o convite, seguido dos esclarecimentos quanto ao objetivo da pesquisa. Após, foi aplicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), seguido dos questionários sociodemográficos e de vivências acadêmicas reduzido (QVA-r) através da plataforma digital do Google Forms.

Todos os voluntários validaram a sua participação na pesquisa por meio da assinatura do TCLE, sendo-lhes assegurado o direito à privacidade, confidencialidade e de retirar seu consentimento sem que lhe ocasionasse algum prejuízo. A presente pesquisa encontra-se de acordo com as diretrizes para pesquisa envolvendo humanos preconizadas pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde 466/12, sendo a mesma submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Centro Universitário UNIFACID e aprovada sem restrições sob o parecer 4.276.466.

O questionário sociodemográfico contém 8 questões estruturadas, elaboradas pelos autores para o referido estudo, sendo norteadas pelas características pessoais e referente ao curso. Enquanto o questionário de QVA-r foi projetado em Portugal, por Almeida; Ferreira e Soares (1999), traduzido e adaptado para o contexto brasileiro por Villar (2003) (ALMEIDA; FERREIRA; SOARES, 1999). Trata-se de um instrumento de avaliação da adaptação acadêmica, composto por 55 itens, com 5 níveis de resposta (desde 1, “nada a ver comigo”, até 5, “tudo a ver comigo”) (MATTA; LEBRÃO; HELENO, 2017; SOUZA; DOMINGUES, 2019).

Os 55 itens são divididos em cinco proporções: pessoal (investiga o bem-estar físico e psicológico, equilíbrio emocional, estabilidade afetiva, otimismo e autoconfiança); interpessoal (identifica as relações com os colegas e competências de relacionamento em situações de maior intimidade); carreira (reflete sentimentos relacionados ao curso e as perspectivas de carreira); estudo (identifica hábitos de estudo, organização de tempo e aproveitamento de recursos de aprendizagem na universidade); institucional (relaciona a ideia dos alunos sobre a instituição de ensino que frequentam e a vontade de permanecer ou mudar de instituição) (BRUM; TEIXEIRA, 2020).

Os dados foram organizados em uma planilha digital da Microsoft Office Excelâ versão 2019 e realizada a análise estatística através do programa Bioestat versão 5.3., com aplicação do teste qui-quadrado (variáveis binomiais) para comparação de médias, teste t (variáveis polinomiais) para estudo das associações entre as dimensões do QVA-r. A correlação de Spearman foi a escolhida por se tratar de dados não-paramétricos. Foram considerados significativos valores com p < 0,05. Os dados foram expressos em tabelas e figuras.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A amostra foi constituída por 38 acadêmicos, destes, 86,84% (n=33, p<0,0001) são do gênero feminino, com idade entre 18 a 24 anos (63,15%, n=24, p<0,0395), com renda média-baixa (50%, n=19, p<0,0033), tendo que associar o estudo com o trabalho (89,47%, n=34, p<0,0001) (Tabela 1).

Tabela 1- Características sociodemográficas dos acadêmicos de Terapia Ocupacional, Teresina, Piauí, 2021 (n=38)

Variável Categoria n (%) Valor p
Gênero Feminino 33 86,84 0,0001
Masculino 5 13,15
Idade 18 a 24 24 63,15 0,0395
25 a 28 4 10,52
29 a 32 2 5,26
33 a 36 4 10,52
>36 4 10,52
Ocupação Estuda 4 10,52 0,0001
Trabalha 34 89,47
Renda Baixa 3 7,89 0,0033
Média-baixa 19 50
Média 16 42,1

Testes aplicados: binomiais – teste do qui-quadrado; polinomiais – teste t

Legenda: n= Número de participantes; % = percentual. Fonte: Autoria própria (2021).

Os resultados apresentados corroboram com os dados apresentados por Cerchiari; Caetano e Faccenda (2005) que, ao analisarem a prevalência dos transtornos mentais em universitários, apontam que 71% dos afetados é do gênero feminino, dado esse confirmado por Grether et al. (2019) e Carlesso (2020). Quanto a idade, o estudo de Cerchiari; Caetano e Faccenda (2005) mostra a prevalência para jovens entre 19 e 24 anos, no entanto, Brasil (2010) descreve que não existe uma faixa etária predominante, variando de acordo com o perfil do curso de ensino superior. A faixa etária encontrada está de acordo com o a realidade local que, em sua maioria, tendem a seguir do ensino médio direto para o ensino superior, bem como o tempo de 4 anos (8 semestres) para a realização do curso de TO.

Acredita-se que houve maior predomínio para o gênero feminino dado ao curso ser formado predominantemente por mulheres, favorecendo que estas sejam as mais afetadas. Atrelado as demandas apresentadas na grade curricular do curso, o perfil socioeconômico favorece ao desenvolvimento de sobrecargas mentais já que a maioria dos acadêmicos são de classe média-baixa e que estes associam o trabalho ao estudo.  Silva e Neto (2014) ao analisarem a presença do TMC em universitários justificam que os altos índices de transtornos mentais estão associados a dupla ou até mesmo tripla jornada realizada pelos acadêmicos, onde devem realizar uma grande quantidade de atividades obrigatórias acadêmicas que aumentam com o avançar do curso, associado a carga-horária do trabalho, somado aos casos em que, em especial, as mulheres seguem com o papel materno e de donas de casa (VENTURA, 2018).

Partindo disso, buscou-se analisar qual o período com maior sobrecarga mental com base na vivência dos acadêmicos de TO. O Gráfico 1 mostra que os períodos com maior impacto são o sexto (18,42%), sétimo (18,24%) e oitavo (23,68%) período aos quais os acadêmicos encontram-se realizando atividades teóricas, atreladas à elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e ao estágio curricular obrigatório.

Segundo Sanches et al. (2018), os resultados sugerem que as atividades concentradas no último ano, com destaque para o estágio curricular, o desenvolvimento do TCC e as incertezas quanto ao futuro profissional, constituem um conjunto de fatores que favorecem o desenvolvimento do estresse e da ansiedade entre os acadêmicos (GOVENDER et al., 2015; SANCHES et al., 2018; WITT et al., 2019; MAIA; GOMES, 2020).

Gráfico 1 – Distribuição dos acadêmicos do curso de Terapia Ocupacional de acordo com o período acadêmico, Teresina, Piauí, 2021 (n=38)

Distribuição dos acadêmicos do curso de Terapia Ocupacional de acordo com o período acadêmico, Teresina, Piauí, 2021 (n=38).
Os valores não apresentaram diferença estatística significativa ao nível de 5% (p = 0,378). Fonte: Autoria própria (2020).

Partindo da realidade imposta pela grade curricular do curso, foi analisado como a IES atua no suporte junto aos universitários. A Tabela 2 mostra que, dos acadêmicos de TO que apresentaram impacto sobre a saúde mental, apenas 23,68% (n=9, p<0,0021) receberam apoio psicológico da IES.

Tabela 2- Caracterização do apoio ofertado pela Instituição de Ensino aos acadêmicos do curso de Terapia Ocupacional com Transtorno Mental Comum, Teresina, Piauí, n=38

Variável Categoria n (%) Valor p
Recebeu apoio psicológico da IES Sim 9 23,68 0,0021
Não 29 76,31
Apoio ofertado pela IES adequado Sim 21 55,26 0,6265
Não 17 44,73

Testes para comparação das médias do qui-quadrado

Fonte: Autoria própria (2020).

Dados do levantamento realizado pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE) e pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) apontam que 30,45% dos graduandos em Universidades Federais já buscaram atendimento psicológico uma vez na vida e que desses, 6,86% frequentaram o serviço nos últimos 12 meses, 4,73% estão sob acompanhamento e 8,9% já utilizaram algum medicamento psiquiátrico. A pesquisa foi realizada com 939,6 mil alunos de todo o país (FONAPRACE/ANDIFES, 2016).

A referida IES possui sistema de atendimento psicológico aos acadêmicos por meio de atendimento realizado com o pré-agendamento. Os acadêmicos que buscam ajuda psicológica ou aos que já ingressam no ensino superior com diagnóstico prévio, passam pela triagem, que conforme a demanda, são assistidos. O sistema de suporte psicológico ofertado conta com apenas uma psicóloga que assiste todos os cursos da IES, acredita-se que a extensa demanda favoreça o percentual de acadêmicos não assistidos (n=29, 76,31%), ou ainda, insatisfeitos com o atendimento (n=17, 44,73%).

Quando analisadas as dimensões responsáveis pelo impacto na saúde mental, apenas o pessoal apresentou valor de média inferior (2,93; 0,71±0,11), como mostra a Tabela 3, sugerindo que os acadêmicos se consideram satisfeitos e sem impacto negativo com as dimensões que envolvem a sua formação profissional, instituição, estudo e relações interpessoais e que as possíveis sobrecargas mentais seriam de cunho pessoal.

Tabela 3 – Análise descritiva das cinco dimensões do QVA-r dos acadêmicos do curso de Terapia Ocupacional. Teresina, Piauí, n=38

Dimensão Mediana Média Desvio Padrão
Pessoal 2,93 0,71 0,11
Carreira 4,42 4,24 0,44
Interpessoal 3,50 3,52 0,50
Estudo 3,62 3,55 0,63
Institucional 3,50 3,55 0,58

Fonte: Autoria própria (2020).

Os dados apresentados na Tabela 3 diferem do perfil apresentado na literatura que afirma que os universitários que apresentam TMC tem associação com todos ou mais de um dos fatores apresentados (OMS, 2021). Contudo, vale ressaltar que os dados do presente estudo foram coletados no período em que os alunos encontravam-se afastados das atividades acadêmicas presenciais em virtude da pandemia do COVID-19, ou seja, toda a demanda imposta pelas atividades do estágio, contato com pacientes, deslocamento à IES, relações interpessoais, estavam impossibilitadas, estando os mesmos restritos as atividades viáveis ao desenvolvimento por via remota (on-line), passando assim, a evidenciar o domínio pessoal como fator promotor de sobrecargas mentais, inclusive, fazendo com que muitos acadêmicos trancassem o curso em virtude de não conseguirem acompanhar as atividades acadêmicas, pois as mesmas estavam sendo realizadas dento do convívio familiar.

Em período não pandêmico, o curso de TO da referida IES torna-se integral a partir do sexto período com o desenvolvimento de disciplinas teóricas (60 horas/aulas), estágio curricular obrigatório (220 horas/aulas) e a elaboração do TCC (60 horas/aulas), conferindo uma rotina exaustiva. De forma similar, Paro e Bittencourt (2013) e Langame et al. (2016) sugerem que o TMC em acadêmicos está relacionado a área do curso que, por ser da área de saúde, exige uma sobrecarga diária de atividades, atrelada ao pouco tempo para realizá-las; distúrbios do sono; distância entre casa e a IES e condições de transporte; esgotamento emocional; problemas de saúde ou financeiros, alimentação inadequada, esforço físico, falta de atividade física e sono em excesso; falta de lazer e descanso; atividades extracurriculares ou atividades não relacionadas à formação profissional; problemas familiares ou conflitos nas relações interpessoais; e mudança de rotina.

Os cursos da área da saúde, incluindo o de TO, em razão destes serem cursos de ciências biológicas, com o avançar dos períodos exige que o acadêmico coloque em prática seus conhecimentos através dos estágios obrigatórios que, indiretamente, obriga o abandono do trabalho em detrimento da incompatibilidade de horário, gerando uma sobrecarga na renda familiar. O estudo realizado por Viana e Sampaio (2019), onde analisaram a qualidade de vida dos universitários do curso de ciências biológicas, economicamente autônomos e com perfil de renda média baixa, em período de conclusão de curso, apresentavam TMC associado as atividades acadêmicas e agravado às condições financeiras.

Quando realizada a associação entre a cinco dimensões do QVA-r, houve associação entre as dimensões: interpessoal e pessoal (p<0,0001), estudo e carreira ((p<0,0001), institucional e pessoal (p<0,0001), e institucional com interpessoal (p<0,0001), como mostra a Tabela 4.

Tabela 4 – Associação entre as cinco dimensões do QVA-r dos acadêmicos do curso de Terapia Ocupacional. Teresina, Piauí, n=38

Dimensão* Pessoal Carreira Interpessoal Estudo Institucional
Pessoal
Carreira 0.80 (0.19)
Interpessoal 1 (<0.0001) 0.80 (0.19)
Estudo 0.80 (0.19) 1 (<0.0001) 0.80 (0.19)
Institucional 1 (<0.0001) 0.80 (0.19) 1 (<0.0001) 0.80 (0.19)  –

*Valores referentes ao teste de correlação de Spearman – r (p)

Fonte: Autoria própria (2020).

Os dados obtidos apresentam semelhança aos resultados apresentados por Da Silva et al. (2020), onde sugerem que os universitários estão satisfeitos com a escolha do curso e com o futuro que este representa. Por outro lado, uma média inferior em relação a dimensão pessoal é um indicativo de que os responsáveis pela gestão acadêmica devem se atentar ao bem-estar físico e psicológico dos graduandos. Acredita-se que esta satisfação esteja associada à alta procura por profissionais da TO no estado do Piauí, onde cerca de 98% dos egressos da referida IES encontram-se inseridos no mercado, levando assim, a satisfação da escolha profissional.

Apesar da relevância apresentada nos dados coletados, os resultados foram limitados pelo quantitativo de acadêmicos participantes da pesquisa. A TO no Brasil é limitada, com poucas IES ofertando o curso. Na referida IES, o curso é pequeno, com um aporte de acadêmicos limitado, o que dificultou na ampliação do número de participantes, concomitante a isso, dado ao tempo de coleta, inviabilizou que a mesma fosse expandida para outras IES com oferta do curso de TO como estratégia de ampliação do quantitativo de resposta. Contudo, a pesquisa trouxe relevância científica, trazendo alusão a uma população pouco visada, porém, com grande arsenal de dificuldades geradas pelas limitações do próprio curso.

CONCLUSÃO

O objetivo deste trabalho foi alcançado, visto que ampliou a discussão das perspectivas acadêmica, social e humana dos acadêmicos de TO.

Observa-se que os acadêmicos consideram a jornada acadêmica exaustiva, com ênfase nos últimos períodos, quando ocorre a associação do conteúdo teórico com as atividades dos estágios obrigatórios. Contudo, dado ao período ao qual a pesquisa foi realizada, o fator pessoal se sobressaiu aos demais associados às atividades acadêmicas, interpessoais e laborais, visto que os entrevistados se encontravam em período de isolamento social pela período pandêmico do COVID-19, tornando o convívio pessoal e familiar o principal impacto sobre a saúde de mental.

Certamente ainda há muito para discutir a respeito do tema, e é impossível esgotá-lo neste artigo. Contudo, podem-se sugerir ações para prevenir os TMC, com a intenção de evitar as causas ou amenizar a sobrecarga nas vivências pessoais de cada graduando, como exemplificado neste trabalho.

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[1] Graduada em Terapia Ocupacional pelo Centro Universitário UNIFACID. ORCID: 0000-0002-1965-4405.

[2] Doutora em Biotecnologia (UFPI); Mestrado em Farmacologia (UFPI); Graduação em Fisioterapia (UFPI). ORCID: 0000-0002-9571-3323.

[3] Doutora em Engenharia Biomédica (UNIVAP); Especialização em saúde pública (UFPI); Graduação em Fisioterapia (UEPB). ORCID: 0000-0001-8573-7906.

[4] Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFRN); Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPI); Especialização em andamento em Neurociência e Comportamento (PUC-RJ); Graduação em Bacharelado em Ciências Biológicas (UFPI). ORCID: 0000-0002-1685-5658.

[5] Orientadora. ORCID: 0000-0003-0378-8051.

Enviado: Fevereiro, 2022.

Aprovado: Dezembro, 2022.

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Gabriela Dantas Carvalho

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