O papel do professor na aprendizagem da criança: uma discussão a partir das compreensões de Vygotsky e Piaget

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REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

COSTA, Laís Renó Stábile [1], MARINELO, Camila Aparecida Silva Rosa [2], PACHECO, Márcia Maria Dias Reis [3], CUSTÓDIO, Simone Guimarães [4], SANTOS ,Giovanna Velloso dos [5]

COSTA, Laís Renó Stábile. Et al. O papel do professor na aprendizagem da criança: uma discussão a partir das compreensões de Vygotsky e Piaget. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 07, pp. 18-26 Janeiro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Neste artigo, procurou-se abordar os temas da escola contemporânea e o papel do professor a partir das concepções de Vygotsky e de Piaget sobre o desenvolvimento da criança. Assim, através de uma discussão bibliográfica, o principal objetivo foi apontar para as contribuições da psicologia sobre o conhecimento e sobre o desenvolvimento da aprendizagem, aliado às práticas pedagógicas mais adequadas sob este prisma. Conclui-se que somente uma prática que leve em consideração a inter-relação entre aluno, seus processos internos de desenvolvimento, o ambiente e a organização dele por parte do professor podem ser efetivos no processo de ensino-aprendizagem.

Palavras – Chave: Psicologia, Aprendizagem, Interacionismo.

INTRODUÇÃO

A figura do professor e seu papel no processo de formação educativa das crianças tem sido objeto de estudos e pesquisas, principalmente a partir da consolidação da escola enquanto instrumento estatal de instrução pública e universal. Esses estudos, ainda que tenham se concentrado nas disciplinas pedagógicas, também encontraram fecundo diálogo com a psicologia, enriquecendo as questões que envolvem o desenvolvimento intelectual e as capacidades sociais dos alunos. Entre os temas pesquisados, destacam-se a mediação entre o conhecimento oficial escolar e o desenvolvimento da aprendizagem das crianças, o ambiente escolar enquanto espaço de interação e o papel do professor nesse processo.

Neste artigo, iremos discutir o papel docente no desenvolvimento da aprendizagem da criança, utilizando-nos dos escritos de Vygotsky e de Piaget, tentando compreender como os autores enxergaram essa relação e, a partir disso, contribuir com o debate a respeito das possibilidades e limites da atuação pedagógica, em um prisma psicológico sobre a educação das crianças.

REVISÃO DE LITERATURA

Vygotsky (2003) concebe a função do professor como sendo de uma importância tremenda, pois seria ele que, a partir da organização dos espaços, do currículo, do conteúdo e da sala, proporcionaria as experiências adequadas para que o desenvolvimento do conhecimento do aluno ocorra, numa relação dialética entre aquilo que já tem sido acumulado e sedimentado e as novas situações de aprendizagem propostas na escola. Mesmo o professor não se encontra livre desse processo, pois as suas próprias experiências sedimentam suas ações educativas, dialogando com o conteúdo e com as experiências de cada aluno na sala.

Dessa forma, o psicólogo russo argumenta que a experiência do aluno deve ser considerada em todos os momentos do processo de ensino aprendizagem, pois é através delas que a criança consegue codificar e reelaborar o conhecimento proposto na situação de aprendizagem. Desprezar essa experiência é encarar a criança como um receptáculo vazio, ou uma folha em branco, que poderia ser preenchida somente através da vontade do professor em incutir determinados conhecimentos. Essa perspectiva, além de ignorar o processo psicológico de interação entre os conhecimentos prévios, traduzidos pelo autor como “atividades pessoais do aluno”, e as situações propostas pela escola, acaba também por ignorar a heterogeneidade presente em qualquer agrupamento de crianças, que possuem diferentes experiências e, portanto, interagem de forma diferente com as situações de aprendizagem propostas.

O autor ainda argumenta que o processo educativo não acaba nessa simples interação entre o aluno e o ambiente, pois isto não pode ser limitado a uma simples adaptação. Na verdade, o que se propõe como objetivo da educação é justamente a superação desse meio social, ou seja, quando a criança pode, de forma autônoma, compreender o ambiente e se posicionar frente a ele. Essa abordagem corrobora bastante com as investigações de Paulo Freire, que preconizou uma pedagogia baseada na autonomia da criança, através da palavra e da tomada de consciência sobre ela mesmo e sobre o Mundo. Para Vygotsky (2003), essa concepção do papel docente o empodera sobremaneira, muito mais do que a tradicional visão do professor único detentor do conhecimento, que o deposita em seus alunos unilateralmente. De fato, quando o docente se dá conta da sua capacidade de influenciar, através das situações de aprendizagem e da organização do ambiente social, ele é capaz de mobilizar e impulsionar processos internos de mediação em cada aluno, uma forma muito mais fecunda de desenvolver a aprendizagem.

Por fim, para o psicólogo, o processo de ensino e aprendizagem e o desenvolvimento da criança se dão em uma situação extremamente dinâmica, onde avanços e recuos são perfeitamente naturais. Professor, aluno e ambiente interagem de múltiplas formas, em uma complexidade de relações e heterogeneidade de cada processo. Assim, a psicologia contribui com a pedagogia ao mapear essa profunda dialética e colocar o docente num papel privilegiado de organizador dessa situação.

Em Piaget (apud GOMES & BELLINI, 2009), encontramos muitas aproximações com o pensamento de Vygotsky, nesse sentido. Em suas pesquisas, o suíço descobriu que o desenvolvimento da aprendizagem está intrinsecamente relacionado ao desenvolvimento biológico da criança, o que inclui seu sistema nervoso central e consequentemente suas funções mentais. Quando exposto a uma situação de aprendizagem, a criança mobiliza suas estruturas prévias em confronto com a estrutura pedagógica proposta, e isso não é um processo de soma, mas principalmente de troca. Piaget destaca que somente a exposição da criança a uma situação ou objeto de aprendizagem, por si só, não garante que o conhecimento seja gerado. É preciso que a criança exerça alguma ação (que ele chama de operação) sobre, de forma a promover sua aprendizagem.

Piaget considera que, ao longo do desenvolvimento do corpo e da aprendizagem, a criança vai construindo uma série de estruturas internas, progressivamente, de forma a conseguir lidar com objetos e situações ao longo de seu crescimento. Essas estruturas são classificadas em estágios, e assim tem-se o estágio sensório-motor, o estágio de representação pré-operacional, o estágio das operações concretas e o estágio das operações formais ou hipotético-dedutivas. Em sua pesquisa, o autor identifica essas estruturas e as relaciona com os conteúdos de aprendizagem, estabelecendo uma conexão direta entre os estágios das estruturas internas e os estímulos pedagógicos sobre as quais elas operam. Como exemplo, ele demonstra a contagem de objetos, que antecede a criação de uma lógica matemática e que, conforme seu desenvolvimento criará a noção de número e, a partir disso, as deduções lógicas que prescindirão dos objetos físicos. O aluno, portanto, é visto como um sujeito ativo na sua aprendizagem, e Piaget denomina o processo interno em que as estruturas da criança e as situações pedagógicas com as quais eles lidam de “equilibração”, processo ativo e interno que permite o desenvolvimento da aprendizagem. Somente o reforço externo do professor, para ele, não é suficiente para criar esse processo.

Portanto, para o autor, o papel do docente não pode se limitar a simplesmente exercer um reforço externo para provocar a aprendizagem. É preciso pensar em situações de assimilação de realidades experimentais, que possam se adequar aos esquemas e estruturas internas dos alunos, para que eles possam realizar a “equilibração”. A experiência e a operação sobre o objeto são, nesse sentido, fundamentais. Isso não quer dizer que o enfoque deva estar no empirismo, mas sim que a construção de experiências é apenas um elemento, e que a principal operação da aprendizagem será feita internamente pelo aluno, de acordo com o seu próprio desenvolvimento.

Dessa forma, percebe-se que os dois autores aproximam-se bastante em suas considerações sobre o papel do professor. Piaget, no entanto, aprofunda seu olhar sobre os processos internos de desenvolvimento da aprendizagem da criança, enquanto Vygotsky enfoca na relação entre esses processos internos e o meio social, nomeadamente a figura do professor e os objetivos da escola, e como eles interagem com as experiências próprias dos alunos.

METODOLOGIA

A metodologia empregada para este trabalho é a revisão bibliográfica. Além dos escritos disponibilizados, procurou-se relacionar os pensamentos dos autores com as práticas pedagógicas mais comuns utilizadas hoje pela escola brasileira. Para isso, foram realizadas pesquisas junto às bases eletrônicas Scielo e Google Acadêmico, a fim de permitir uma aproximação com a realidade escolar brasileira contemporânea e compreender o papel do professor nesse contexto.

DESENVOLVIMENTO

Para Vygotsky (1998) o funcionamento mental no ser humano é oriundo de processos sociais, pois não se pode estudar o comportamento do indivíduo em contexto isolado, mas em interação com outros indivíduos. Afirma também que esse processo de interação social é responsável por transformações no comportamento, pois os processos sociais e psicológicos são moldados por formas de mediação e se dão a partir da transformação de objetos em signos culturais.

Essa visão enseja que o processo de ensinar e aprender estão intimamente relacionados, no sentido que a interação permite que eles aconteçam ao mesmo tempo, como num evento dialógico (PAVIANI, 2011). Muitos estudiosos prospectaram campos de pesquisa nos quais a perspectiva interacionista se desenvolveu, sempre procurando entender as formas de comunicação através de um ponto de vista relacional, ou seja, onde dois sujeitos dialogam e se influenciam mutuamente.

A própria leitura, o ato de ler e compreender um texto, é uma atividade de interação. Kleiman (1989) explica que a leitura envolve tanto os conhecimentos prévios do leitor quanto os sentidos por ele construídos por meio do texto, em uma atividade cognitiva fundamentalmente construtiva. Daí a concepção segundo a qual ler é interagir com o texto. Neste processo de construção do sentido textual, cabe ao leitor relacionar os dados textuais com o conhecimento já construído. Assim, os leitores acionariam o conhecimento prévio a partir de pistas fornecidas pelo texto escrito, as quais permitiriam fazer predições sobre um evento, sem que todas as suas variáveis fossem conhecidas.

Nesse sentido, iremos a seguir enfocar no espaço escolar como uma dimensão importantíssima, e muitas vezes sonegada ou subestimada na perspectiva interacionista da aprendizagem. Nosso objetivo é ressaltar como a simples organização do espaço, disposição dos ambientes e dos objetos pode contribuir para a interatividade produtiva das crianças na escola, tentando dessa forma incorporar os estudos de Vygotsky e de Piaget na atividade docente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A organização do espaço escolar é fundamental para o trabalho pedagógico, e se relaciona diretamente com a aprendizagem dos alunos e com a proposta pedagógica do professor e da instituição escolar, conforme estudado por Vygotsky. Um ambiente físico adequado e planejado propicia à criança uma ecologia cultural de aprendizagem adequada à construção de metas.

Para exemplificar essa afirmativa, uma sala de aula organizada simetricamente, com as fileiras dispostas uma atrás da outra, é inadequada caso o objetivo da atividade pedagógica seja promover a interação entre os alunos. Seria mais adequada para situações de aprendizagem que priorizam o silêncio, a individualidade e os métodos de ensino mais tradicionais, onde o professor é o único detentor do conhecimento. Isso não quer dizer que um espaço bagunçado promova necessariamente a interação, pois a criança precisa ter acesso às ferramentas de aprendizagem dispostas no espaço, criando seu próprio espaço e, conforme Piaget explicita, operando com os objetos. A interação precisa ser mediada pelo professor, com objetos de aprendizagem organizados em temas e a formação de grupos de estudantes.

A escola, quando não se constitui de um espaço de vida infantil, mas sim em um ambiente institucional no qual não existem momentos lúdicos, prazerosos e significativos, nem com oportunidades de interação e colaboração das crianças em grupos com relativa autonomia, está em desacordo com as teorias do desenvolvimento infantil expostas nesse artigo. A disposição das fileiras de carteiras ou berços de forma a evitar os contatos visuais, a exigência do silêncio e da “disciplina” a todo o momento, sem nenhum espaço ou atividades planejadas com jogos e brincadeiras, que envolvam crianças das mais variadas idades, são exemplos cotidianos de uma escola que não leva em consideração as teorias construtivistas, nas quais a interação é fundamental para a construção cognitiva da criança.

Em termos de desenvolvimento infantil, a organização do espaço escolar deve propiciar possibilidades de exploração das atividades físicas que auxiliam no desenvolvimento da criança, que por sua vez, segundo Piaget, está relacionado às competências do educando para fazer atividades mais complexas, como andar, correr, pular, pegar as coisas, falar, etc. A escola precisa estimular essas atividades e criar situações adequadas para que elas aconteçam.

Tendo em vista que a aprendizagem é um processo individual, e que é preciso garantir os alunos a suas próprias maneiras de interpretar situações e informações, operando sobre elas e realizando o que Piaget chamou de “equilibração”, e que o ambiente social no qual ela está inserida contribui decisivamente, através da interação, para o processo de aprendizagem, o papel do professor é garantir esses espaços de interação entre os alunos, bem como de zelar pelas características e ritmos individuais de aprendizagem. Quanto mais diversificado e heterogêneo for um ambiente ou espaço de aprendizagem, mais possibilidades de interação produtiva para o processo de ensino.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das conclusões de Vygotsky e de Piaget, percebemos que o papel do professor deve superar a visão tradicional e os modelos em que ele possui o conhecimento e apenas se encarrega de transmiti-lo aos seus alunos. Essa concepção acaba por ignorar os princípios do desenvolvimento da aprendizagem das crianças que expusemos neste artigo, e que mostram que a criança aprende ao se deparar com o ambiente ou situação de aprendizagem, e que mobiliza processos internos de equilibração para efetivamente lidar com esse conhecimento, construindo sua própria experiência sobre ele.

Nesse sentido, a teoria interacionista da aprendizagem tentou estipular certos métodos e concepções de escola e de pedagogia, que pudessem priorizar justamente o estabelecimento de relações significativas entre as crianças, de acordo com as situações de aprendizagem propostas pelos professores. Até mesmo o espaço escolar deve ser pensado, de forma a contribuir com o que Vygotsky preconizou sobre a capacidade de influência externa do ambiente no desenvolvimento. A teoria interacionista também se preocupou com os processos internos de equilibração, ao colocar o estudante como centro da aprendizagem e valorizar suas operações e experiências com a aprendizagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo. Martins Fontes, 2003.

DONGO-MONTOYA, Adrian Oscar. Resposta de Piaget a Vygotsky: convergências e divergências teóricas. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 38, n. 1, p. 271-292, jan./mar. 2013.

GOMES, Luciano Carvalhais, BELLINI, Luzia Marta. Uma revisão sobre aspectos fundamentais da teoria de Piaget: possíveis implicacões para o ensino de física. Revista Brasileira de Ensino de Fisica, v. 31, n. 2, 2301 (2009)

KLEIMAN, A. Texto e leitor: Aspectos cognitivos da leitura. São Paulo: Pontes Editores, 2013.

PAVIANI, Neires Maria Soldatelli. Aprendizagem na perspectiva da teoria do interacionismo sociodiscursivo de Bronckart. REP – Revista Espaço Pedagógico, v. 18, n. 1, Passo Fundo, p. 58-73, jan./jun. 2011.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

VYGOTSKY, Liev Semionovich. Psicologia Pedagógica. ARTMED, Porto Alegre: 2003.

[1] Mestranda em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais.

[2] Mestranda em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais.

[3] Doutora em Educação.

[4] Mestranda em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais.

[5] Mestranda em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Janeiro, 2019

 

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