Possessividade infantil: uma leitura das teorias do desenvolvimento infantil

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CONTEÚDO

Brandão, Adilma Lopes [1]

BRANDÃO, Adilma Lopes. Possessividade Infantil: Uma Leitura Das Teorias Do Desenvolvimento Infantil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 05, pp. 103-115, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

A relação de posse da criança com objetos é entendida como problemática por adultos que estigmatizam a criança como possessiva, egocêntrica e egoísta. O trabalho teve como objetivo investigar como se elabora a possessividade infantil até a maturidade, através da (re) leituras das teorias do desenvolvimento. Para isso foi necessário: elencar características das fases de desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, selecionar dentre as características de cada fase o desenvolvimento da criança aspecto relacionados à possessividade infantil; e demonstrar dialogicamente a mudança de aspectos da possessividade da criança durante a fase de desenvolvimento. Pode ser dito que o vinculo de posse nas teorias do desenvolvimento depende das perspectivas de homem e mundo adotadas nelas. Se a relação de posse for entendida como reflexo dos amadurecimentos cognitivo e físico pouco pode ser feito para mediar esse vínculo. Se a relação de posse for entendida como maturidades cognitiva e afetiva, em interação com a aprendizagem do meio, mediada nas malhas sociais muito pode ser feito para modificar essa relação. Já se a relação indivíduo/objeto é entendida como algo intrínseco e subjacente, muito pouco ou quase nada pode der feito para mediar a relação de posse entre a pessoa e os objetos.

Palavras-chave: Desenvolvimento, Infância, Possessividade

INTRODUÇÃO

A possessividade é um tema muito pouco discutido no meio acadêmico, inclusive pela Psicologia. O artigo tem como objetivo tratar a possessividade infantil a guisa das teorias do desenvolvimento infantil. Quanto a metodologia o trabalho de natureza bibliografia.

Dentro do contexto de uma sociedade capitalista ser possessivo é uma condição tornada necessária, por outro lado, antagonicamente, a moral da ideologia preponderantemente judaico-cristã prega o desapego. Pais, professores, líderes religiosos, entre outros, entendem a possessividade infantil como falta de educação doméstica ou má índole da criança.

O que levou a escolher trabalhar com a posse infantil foi o fato da possessividade em crianças, ser entendida por pais e educadores, como problemática e não típica da criança.

O trabalho tem como objetivo geral, investigar como se elabora a possessividade infantil até a maturidade, através da (re) leitura das teorias do desenvolvimento. Para isso foi necessário: elencar características das fases de desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, selecionar dentre as características de cada fase, do desenvolvimento da criança aspecto relacionados à possessividade infantil e evidenciar, dialogicamente, a mudança de aspectos da possessividade da criança durante a fase de desenvolvimento.

Neste trabalho, o conceito de posse está sendo ampliado para além de sua conotação econômica. Está sendo entendida como o vínculo de pertencimento da pessoa com o objeto, mesmo que esse objeto seja outra pessoa, ou o apego/desapego de si mesmo.

O trabalho é uma pesquisa de natureza puramente bibliográfica, consta de uma (re) leitura de teóricos do desenvolvimento humano (Piaget, Wallon, Vigotsky, Freud e klein, entre outros), sobre como se elabora o processo de psicogênese da possessividade humana, através do amadurecimento e da aprendizagem, mediado pelo vínculo afetivo.

2- PANORAMA TEÓRICO DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL E SUA RELAÇÃO COM A POSSESSIVIDADE

Os estudos da psicogênese do desenvolvimento infantil focaram aspectos relevantes, tais como os fatores relacionados à maturidade e à aprendizagem, mediados pelo vínculo, como promotores do desenvolvimento da criança. A relação entre estes dois aspectos, (maturidade e aprendizagem) e uma relação intencional e simultânea.

Nesta relação se sobressaem dois aspectos no que diz respeito à formação da personalidade infantil: os elementos afetivos e os elementos cognitivos.

Antunes (2004), apresentando Piaget, diz que este estuda o desenvolvimento infantil do ponto de vista cognitivo. A criança passa necessariamente por quatro estágios, a saber: período sensório motor, período pré-operatório, período operatório e período operatório.

Galvão (1996), estudando Wallon, percebe que este considera tanto os aspectos cognitivos quando afetivos na formação do desenvolvimento da criança. Ele entende que em uma fase a criança é prioritariamente afetiva, enquanto, em outra fase preferencialmente cognitiva. Fases como egocentrismo, personalismo, operacional e adolescência são encontradas em Wallon. Em uma fase mais afetiva, a criança gasta energia, enquanto em outra mais cognitiva a criança poupa energia.

Nas fases Walloniana, dos 06 aos 12 anos, a criança está na fase categorial que é uma fase de investimento cognitivo e aprendizagem, inclusive axiológica e depois a criança volta a investir nas relações sociais.

Já Jones (1979), trabalhando Freud, diz que este classifica as fases do desenvolvimento infantil do ponto de vista da afetividade. A criança passa pelas etapas de afetividade ligada à oralidade, fase anal, fase fálica, fase edípica, fase de latência e fase genital. Para ele, a criança de 06 a 12 anos está no que corresponderia à fase da latência, onde a criança adormece “temporariamente seus conflitos sexuais, volta sua energia para a aprendizagem enquanto processa o desenvolvimento para uma sexualidade adulto”, (JONES, 1979: s/p)

A relação de posse da criança passa também por aspectos cognitivos e afetivos, portanto de aprendizagem e de vínculo relacional. No que diz respeito à posse, as relações da criança pequena são de natureza, primeiro egocêntricas, segundo familiares principalmente maternais (até por volta dos três anos). A criança de 06 a 12 anos tem suas relações marcadas pelas conotações sociais, primeiro escolares, segundo relacionadas a outras instituições. Nesta fase a criança torna-se afetuosa e sedutora em suas relações e o principal aspecto formado de sua personalidade é a autoestima. Neste período também a criança começa a formar seu eu e o conceito acerca de se próprio, e este conceito é formado com base na etapa de estruturação da personalidade em (3 anos) e dos 06 aos 12 anos ensaia o que seria um conceito a respeito desses núcleos anteriores, isto é, o conceito a respeito do próprio eu, a auto imagem.

De modo geral, podemos inferir que nesta fase (dos 6 aos 12 anos) é a fase mais propícia para a criança aprender, inclusive na escola, que ela tem alguma competência para se relacionar fora do ambiente familiar, já é capaz de trabalhar em grupos, formá-los, participar, criar identidade de grupo de modo a verificar a adequação de outros membros ao grupo. Desenvolve senso crítico e acima de tudo tem um conceito de si próprio, a partir de se e a partir dos outros. Nessa fase também entra em jogo o aprendizado moral e axiológico o que pode alterar um pouco a relação da criança com a posse.

Um aspecto que tem se mostrado problemático na criança nas fases de desenvolvimento cognitivo e afetivo é com relação à posse, tanto considerando aspectos afetivos quanto cognitivos, a criança é entendida primeiro como narcisista, segundo egocêntrica, depois como egoísta e em seguida possessiva. Não obstante, acreditamos que o vínculo afetivo da criança, na família ou fora dela, favorece não só aspectos como a aprendizagem, mas também media a relação da criança com os objetos, de modo que a relação afetiva torna a criança menos possessiva e mais generosa.

Considerando a questão enquanto problemática, pode ser dito que a literatura em psicologia bem como em psicanálise descreve a criança primeiro como egocêntrica, com sentimentos de autossuficiência e seguida de outra fase, em que a criança é egoísta. A generosidade é compreendida como aspecto da maturidade, não sendo muito típica em criança.

A criança e sua relação com o objeto é uma relação de posse, justamente porque a criança pouco difere entre o objeto e seu próprio corpo. Os objetos como figuras humanas por sua vez é representação das figuras parentais como demonstrado com o brincar infantil, (RAPPAPORT, 1986:s/p).

Apesar de parecer típico o comportamento possessivo da criança é possível que o vínculo afetivo venha interferir na maneira que a criança se relaciona com o objeto com relação à posse. Mesmo sendo típico da criança ser possessiva aspectos de observação preliminar e alguma leitura sobre o assunto indicam que o vínculo afetivo da criança com o outro interfira na relação da criança com o objeto no que diz respeito à posse.

Um estudo sobre a possessividade infantil pode contribuir, tanto junto aos pais, quanto para os educadores, no sentido de esclarecer que a possessividade “típica” da criança, não é algo a ser visto como problemática, mas sim, como um aspecto a ser compreendido e inserido no contexto educacional geral. Como parece provável que a relação afetiva com da criança com o outro pode alterar o vinculo da criança consigo mesma e com os objetos, é necessário investigar a posse, com o intuito de mediar a relação da criança consigo mesma, com os outros e com os objetos.

O trabalho parte da hipótese de que mesmo sendo comum a possessividade da criança é possível que o vínculo afetivo da criança, parental ou fora dele possa favorecer a relação da criança com o objeto de modo que a criança seja menos possessiva com relação com os objetos.

Em se tratando de desenvolvimento humano, conforme já apresentado, Piaget, Wallon e Freud, consideram que o desenvolvimento se da nas fases inicial da vida humana onde existe primazia do processo de aprendizagem. Para efeito didático, esse processo de desenvolvimento está compreendido em três períodos da vida: infância, adolescência e juventude.

O Estatuto da criança e do adolescente (ECA), delimita a categoria infância e adolescência nos seguintes termos:

Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade, (CEDCA, 2001:11).

Em termos sociais, psicológicos e psicanalíticos, essas categorias perdem correlação com idade e passam a ser configuradas pelo comportamento.

“[…] podemos definir juventude como uma categoria social. Tal definição faz da juventude algo mais do que uma faixa etária ou uma classe de idade”, no sentido de limites etários restritos […], (GROPPO, 2000:308).

Já em termos psicanalíticos temos que:

A adolescência no enfoque da psicanálise, não se refere a uma faixa etária que se transita pela mera passagem do tempo, […],

O que interessa são as mudanças subjetivas que o individuo terá de operar para da conta da metamorfose que levam a maturidade genital,[…]…e das mudanças na relação com o Outro delas decorrentes, (RAPPAPORT,1993:07)

O desenvolvimento do ser humano é um complexo de vários aspectos e dimensões que ocorrem simultaneamente. Considerando a psicogênese do desenvolvimento infantil, “Wallon vê o desenvolvimento da pessoa como uma construção progressiva em que se sucedem fases de predominância alternadamente afetiva e cognitiva”, (GALVÃO, 1996:43).

Com isso ele queria dizer que nessas fases de predominância afetiva a pessoa estava voltada e motivada para interações do tipo social (familiar, escolares), porém no nível das pessoas, já na fase cognitiva a pessoa estava preponderantemente voltada para o objeto de conhecimento, portanto mais motivada para aprender pelo aprender. Isso implica em dizer que a fase em que naturalmente a pessoa tende à aprendizagem, o eu pode inclusive ser aprendizagem de conhecimentos axiológicos, dentre eles a relação de posse da criança com o objeto, desde que mediada afetivamente.

Nas fases de predominância afetiva a criança naturalmente tende a tratar, mais conteúdos como o apego, a posse e a transferência e a construção de vínculos. Wallon indica a fase de 3 a 6 anos como sendo a fase do “personalismo” e a criança está mais voltada para o seu “eu” e, portanto apegada e possessiva.

No que diz respeito à psicogênese do desenvolvimento infantil, no que se refere às teorias dos desenvolvimentos cognitivo e afetivo (principalmente de cunho psicanalítico), pode ser dito que a posse é uma mobilização de energia interna, que pode ser investida em alguns objetos, na relação de representatividade, substituição, extensão ou complementaridade, tendo essa relação afetiva associada ou não.

Nas principais teorias da psicogênese do desenvolvimento humano a criança é apresentada como naturalmente egoísta e egocêntrica, tendo a característica da possessividade como um traço típico de personalidade infantil, principalmente em determinadas fases da infância.

Não obstante, a caracterização típica do comportamento da criança em determinadas fases da vida, incluindo os aspectos de possessividade, pode ser uma tendência natural, porém não determinante do comportamento, visto que a interação e o meio pode influenciar no comportamento da criança, como faz entender Rego (1997). Sendo assim, e possível suspeitar que o vínculo afetivo da criança com outros, pode interferir na forma da criança se relacionar afetivamente com os objetos, principalmente, os objetos de sua pertença.

Rego (1997), diz que Vigotsky em sua teoria interacionista considera o organismo ativo, onde o pensamento é constituído paulatinamente pelo ambiente que é histórico e essencialmente social.

“Vigotsky defende a ideia de contínua interação entre as mutáveis condições sociais e a base biológica do comportamento humano”, (DAVIS, 1990:49).

No que diz respeito à posse na criança, possivelmente, tanto os aspectos cognitivos quanto afetivos estejam presentes. Nesse sentido, considerando que segundo Wallon, existe uma fase em que naturalmente a criança tenda, mas a possessividade, é possível que o vínculo afetivo da criança com seus pares, possa influenciar na qualidade da possessividade da criança com relação aos objetos.

A Psicanálise também caracteriza algumas das fases do desenvolvimento afetivo a questão do apego. Em Jones (1979), fica claro que para Freud, a criança na fase de desenvolvimento oral é narcísica, no anal é naturalmente mais apegada porque é egocêntrica, e a partir de então evolui para fases de menos possessivas.

Rappaport (1986) mostra que apesar de Klein, divergir de Freud em alguns aspectos, não nega o narcisismo nas fases iniciais da criança, e trata também de aspectos trais como a agressividade, o ciúme e a inveja infantil.

Como já referido anteriormente, quem mais tem se ocupado do estudo da relação da criança em seu desenvolvimento, tanto em aspectos afetivos quanto cognitivos são os teóricos da aprendizagem. Dentre as teorias do desenvolvimento, podemos destacar três delas que consideram a psicogênese do desenvolvimento infantil, e o interesse natural do indivíduo em cada fase de desenvolvimento, numa perspectiva interacionista, são elas: as teorias do desenvolvimento de Piaget, Wallon e Vigotsky.

3- POSSESSIVIDADE INFANTIL

Posse é a condição de possuir ou poder dispor de algo, ou ainda desejar possuir alguma coisa para si de forma exclusiva, com detenção dos direitos de uso e guarda do objeto de posse, se for o caso de um bem tangível. É, portanto, uma relação de poder.

A possessividade é a característica ou qualidade da pessoa possessiva, com sentimento exagerado de posse tendente a querer determinada parte ou o todo para si. A etimologia da palavra: o termo possessividade deriva do Latim, possessivus- “que significa possessão, possessivo”.

O termo possessivo surgiu no século XVI, tendo como sinônimos, egoísmo, obcecação pela posse, egocentrismo adulto, apego, reação irrepartível, cobiça, cupidez, fome, sofreguidão, dominação, interesse, monopólio, subjugação, inveja, paixão e ciúmes.

O antônimo da palavra possessividade é: desapegamento; desapego; desprendimento, despojamento, despretensão, desinteresse, generosidade prodigalidade, cessão, altruísmo, modéstia, renúncia, renunciação, renunciamento, abnegação.

É atípico em adultos, porém próprio da criança o comportamento possessivo. A qualidade da possessividade infantil, no entanto, varia conforme o estágio de desenvolvimento infantil de modo que, ao se tornar adulta, a pessoa já não seja mais possessiva.

Vários fatores como educação, sentimento de segurança, proteção, incentivo a autonomia e abertura para desapego das figuras parentais, podem levar a mudança na qualidade da posse infantil. A estima e o amor da criança também são elemento que alteram significativamente a qualidade da possessividade infantil, principalmente em crianças maiores, próximo à fase da adolescência, quando elas já se encontram capazes de estabelecer novos vínculos significativos para além das relações parentais e ou familiares. A posse exagerada no adulto é considerada patológica.

A possessividade infantil diretamente relaciona com a dependência que a criança tem de terceiros, ou seja, está diretamente relacionada ao vínculo afetivo. À medida que a criança vai se desenvolvendo, ela vai adquirindo autonomia, ou condições de desenvolver algumas atividades básicas por si mesmo, o que naturalmente vai diminuindo sua dependência de terceiros e consequentemente a possessividade. Quanto mais autônoma a criança, menos possessiva será. A relação de superproteção dos pais pode causar dependência nos filhos e aumentar a possessividade de ambas as partes. A possessividade é um traço típico do comportamento infantil, considerado regressivo quando presente em adultos.

O ciúme exagerado e o comportamento possessivo infantil nos adultos são característica de transtorno de personalidade chamada de personalidade borderline. Já na criança pequena a possessividade e o apego são condição de subsistência já que ela não tem autonomia e depende da solidariedade e do cuidado dos outros para viver.

Considerando as fases de desenvolvimento quanto menor a criança maior a possessividade.

“O estado da possessividade infantil depende naturalmente a sobrevivência do ser humano. A possessividade adulta exibe transtorno grave e insofismável de regressão da personalidade.”

Já que a possessividade na criança é condição necessária para sobreviver, uma vez que ela não tem autonomia para subsistir sozinha, necessitando de forma indispensável da solidariedade dos adultos, principalmente dos elementos da relação parental, ao se tornar adulta e autônoma, a pessoa naturalmente perde a característica de possessividade. Não obstante, o ser humano é um ser relacional que depende em certa medida da interação com outros, visto que toda autonomia é autonomia relativa, isso explica um relativa possessividade adulta como normal, porém, a vivência da possessividade tipicamente infantil na fase adulta, consiste em característica própria de transtorno de personalidade regredida.

3.1- Qualidade da posse nas diferentes fases do desenvolvimento infantil

É possível relacionar, a qualidade da possessividade infantil e as fases de desenvolvimento, pois, à proporção que a criança vai se desenvolvendo, ela tende e ficar menos possessiva com o amadurecimento. Essa qualidade da possessividade, no entanto, não é linear. A criança tende em alternar fases mais possessivas com outra de menor possessividade. Fatores que restrinjam a autonomia e a segurança da criança podem funcionar como regressões e aumentar a possessividade por mais tempo.

3.1.1 – Qualidade da posse na fase de desenvolvimento de 0 aos 2 anos- Nesta fase a

criança internalizar o objeto de posse, principalmente o seio materno, e é onipotente com relação aos objetos de desejo. Entende como todo objeto de desejo e satisfação fossem intenções de seu próprio corpo. A mãe e o seus substitutos são os principais objetos de posse infantil. A criança tem pouco ou nenhuma autonomia, dependência quase que totalmente dos cuidados e atenção maternos ou substitutivos, exceto nas satisfações típicas de auto erotização e narcisismo. Nessa fase a criança é totalmente apegada à mãe. A possessividade é a própria expressão maior da afetividade, principalmente a possessividade em relação à mãe e seus substitutivos. Há caso, em que a criança pequena (a partir dos 6 meses), é tão possessiva da figura materna que sequer aceitar substitutivos da mãe sem protestar.

3.1.2- Qualidade da posse na fase de desenvolvimento dos 2 aos 4 anos

Nesta posição a criança já anda e já fala, bem como já tem adquirido um arsenal de substitutivos parciais da figura materna. Já é capaz de brincar, sozinho ou interagir com outra criança. Nesta fase a posse que era restrita a figura materna é estendida ao pai e progressivamente aos outros elementos da família, chegando até a ser estendida a outras crianças mais próximas.

A criança nesta fase brinca preferencialmente sozinha, visto justamente ser demasiadamente possessiva para dividir o brinquedo ou muito imperiosa para entender ou se adotar as regras de jogo. Nesta idade a criança ainda não tem internalizado a noção exata de regras o que dificulta o brincar coletivo, a interação. A criança, no entanto, adquire uma relativa autonomia com relação cuidados mínimos necessários , pois, além de andar e falar eles já estão livres das fraldas e com relativo controle sobre o aparelho excretor.

3.1.3- Qualidade da posse na fase de desenvolvimento dos 6 aos 11 anos

Esta etapa do desenvolvimento coincide com a fase em que a criança está mais voltada para a aprendizagem. Os vínculos são ampliados da casa para a escola e a criança naturalmente torna-se mais sedutora, como estratégia na busca de novos vínculos. Nesse sentido a criança começa a ensaiar a generosidade, principalmente do afeto, como elemento de barganha, preferencialmente entre os pares do mesmo sexo.

A criança anteriormente a está fase tende a demandar mais carinho e afeto e não necessariamente e muito recíproca, a não ser que seja ensinada a responder ao afeto recebido ou cobrada por isto.

Nessa etapa a criança faz uso tanto de demonstrações de carinho e afeto, bem como da doação de pequenos objetos para demonstrar generosidade e gratidão. É comum a criança desenhar, ou bricolar e tomar a iniciativa de presentear, pais, professores ou amigos, como forma de gratidão ou de conquista de um novo vínculo afetivo. À proporção que a criança vai obtendo êxito na criação de novos vínculos e se desapegam das dependências das figuras parentais vai se tornando menos possessiva.

3.1.4- Qualidade da posse na fase de desenvolvimento dos 11 aos 14 anos

Considerando Vigotsky, pode ser dentro que de certa forma, no que se refere à posse, a criança saudável faz a caminha “da solidariedade a autonomia”. Nesse sentido, a criança maior já tem maturidade para distinguir entre si e ou outros, o que culmina com a tomada de consciência da orientação sexual e a busca de relacionamento.

Teoricamente, já tem segurança para cuidar de si mesmo e projetar no futuro ser capaz de cuidar de alguém. Ser capaz de cuidar de alguém é um ato de maturidade e de abnegação de se mesmo, exercício de desapego de si em direção ao outro.

A possessividade infantil é minimizada quando a criança já tem maturidade de pensar no outro de forma solidaria. Neste sentido, as relações caminham em busca de pares, preferencialmente do sexo oposto, para construir uma família e desapegar-se dos elementos parentais primordiais de maneira mais pronunciada.

Geralmente, a partir fase, principalmente na fase adulta, a pessoa mantém um vínculo de generosidade com as figuras parentais, bem como os demais vínculos formados até então. Aumenta o interesse pelo trabalho e formas de construção e manutenção de uma prole, o que a priori, exige como condição necessária, porém, não suficiente, o desapego, dada a necessidade de ser solidária no sentido de proporcionar autonomia como condição de sobrevivência a futura prole.

3.2- Relação entre solidariedade/autonomia e possessividade

A qualidade da solidariedade prestada à criança, bem como da autonomia proporcionada se não determina, interfere significativamente na vivência saudável da posse tanto infantil bem como posteriormente na vida adulta.

Apesar de a possessividade ser um traço de imaturidade, portanto, típica das crianças, existe crianças capazes de atos de generosidade, dependendo da orientação educacional recebida, principalmente da parte dos pais. O comportamento e orientação de pais e educadores contribuem no desenvolvimento da criança em busca de uma maturidade, autonomia e consequente desapego, que passa inclusive, pelo desapego da criança com relação às figuras parentais.

Davis 1990, que “Vigotsky defende a ideia de continua interação entre as mutáveis condições sociais e a base biológica do comportamento humano”. (DAVIS, 1990:49).

A possessividade da criança é fruto da imaturidade infantil, tanto dos aspectos cognitivos quanto afetivos. E resultado de sua dependência do meio e dos outros, o que faz com que a criança se apegue aos objetos que atendam às suas necessidades e o permita obter alguma segurança, satisfação ou conforto.

Neste sentido, considerando que segundo Wallon, existe uma fase em que naturalmente a criança tende, mais a possessividade do que outros fatores que colaborem para a autonomia ou a dissidência da criança, por isso que o vínculo afetivo da criança com seus pares, possa influenciar na qualidade da possessividade da criança com relação aos objetos. Qualquer fator que leve a uma regressão no processo de desenvolvimento concorre para aumentar a possessividade.

A Psicanálise também caracteriza algumas das fases do desenvolvimento afetivo a questão do apego. Para Freud, a criança na fase de desenvolvimento anal é naturalmente mais apegada, e mais generosa em outras fases do desenvolvimento afetivo.

A orientação, no que diz respeito ao vínculo, como elemento de mediação de uma vivência saudável da posse, deveria ir da solidariedade dos pais visando à autonomia dos filhos, uma vez que, a criança se sentindo autônomo torna-se um adulto menos possessivo que busca ser solidário para com a prole. Então da solidariedade à autonomia bem como da autonomia a solidariedade.

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando os aspectos cognitivos no que diz respeito à criança em desenvolvimento e sua relação com a posse, cada teoria do desenvolvimento deixa uma contribuição no sentido de entender, ensinar e negociar os objetos de forma relacional.

Piaget apresenta habilidades e limitações para cada fase do desenvolvimento infantil. Para ele, na fase sensório-motora a principal característica da criança é a percepção e a motricidade e o comportamento da criança é lúdico.

A fase pré-operatória é simbólica, a criança já tem condições e interesses em aprender, porém, a criança é altamente possessiva nessa fase e o próprio brincar da criança com o outro é um exercício de posse. A criança brinca disputando e destruindo o brinquedo que não consegue conquistar, nesse caso usa a força. Na fase operatório-concreta a criança adquire a reversibilidade e concretude do pensamento lógico e brinca construindo ou (re) construindo o objeto danificado anteriormente, em exercício de aprender. Começa a criar vínculos além dos parentais e torna-se maleável e negocia para formar vínculos. Os objetos tornam-se elementos de barganha nessa negociação.

Quando o adolescente adquire formalidade ou abstração do pensamento., a racionalização torna-se o principal instrumento de relação com a posse. A pessoa entra em estágio de abertura para o mundo através do processo de aprendizagem e de experiência com relação aos objetos e relações de posse. Isso resultada da maturidade física e psicológica e aprendizagem de código moral e de conduta. A generosidade seria consequência, da maturidade (superação do estágio de contestação das regras social e afronta a estas regras) e aprendizagem de um componente axiológico social, muito mais que concessões feitas por apelo ou vinculação afetiva. Baseada apenas em Piaget a hipótese da mediação afetiva da criança com o objeto de posse seria refutada.

Para Wallon, no que diz respeito à posse, tanto o fator afetividade quanto o fator cognição contribuem igualmente e necessariamente para isso. A etapa do personalismo com predomínio da cognição é a etapa preponderantemente do exercício da posse na criança. É possível deduzir que o sentimento de posse não é algo meramente afetivo, mas passa também por uma relação de aprendizagem, com a finalidade de balizar a possessividade subjacente intrínseca e subjacente à criança.

Essa aprendizagem da posse é permeada de afeto devido ao fato desta não ser um processo linear e continuo, e que mesmo estando orientada em fases a ela é um processo descontinuo, onde o interesse da pessoa pode ser manipulado para a aprendizagem ou afetado para o interesse, visto ser um objeto conhecido.

Wallon ainda trabalhou a questão relacional vinculo/conhecimento e de como esse elemento interfere na aprendizagem da maneira de lidar com a posse. Com base nesse autor é possível dizer que, a criança alterna fases de maior possessividade com outras fases de maior generosidade, em busca de uma forma de relação, comum ao grupo. A relação com a posse teria um componente intrínseco a criança e outro componente resultante da interação social e que, portanto, pode ser mediado, já ele entende todas as relações como sendo afetivas e cognitivas ao mesmo tempo.

Vigotsky enfatiza a importância da linguagem para o desenvolvimento do pensamento. O meio é em grande parte quem influencia a postura da criança. Para ele, é recebendo que aprende a ser generoso. É necessário solidariedade para obtenção à autonomia. E relação é experiencial e mediada pelo adulto. A aprendizagem da generosidade em Vigotsky é diferente da aprendizagem da posse para Piaget.

Em Vigotsky a criança constrói a sua aprendizagem na interação com o meio mediado pela solidariedade e pela comunicação. Nesse caso, a relação da posse infantil não seria algo intrínseco e subjacente à criança, mas uma forma de relacionamento com o objeto, mediado pelo meio, isto é, uma aprendizagem da relação social do adulto com a posse internalizada e modificada pela criança. No entanto essa aprendizagem é ativa, resultando em algo novo, original, idiossincrático.

Já considerando os aspectos afetivos, Freud leva em conta a adequação das fases desenvolvimento, a área de erotização na criança. A fase anal a criança aprende pela manipulação, a posse então seria literalmente do que a criança possa manipular. Os valores abstratos, como poder, títulos e quaisquer bem simbólicos ou outro, que a criança não possa manipulação não caracteriza a posse. Na fase de latência da criança onde, quase sempre, todo interesse dela está voltada para a aprendizagem, à criança internaliza regras de lidar com os objetos mesmo que simbólicos, aprende o poder de conhecer e advindo do conhecimento.

A aprendizagem consiste em unir a pulsão e desejos da criança bem como os elementos da fase em que ela se encontra aos objetivos da posse. Neste caso, a relação de posse da criança com o objeto seria uma representação do que interiormente se passa na criança. Da relação dela com seus próprios conteúdos e significados.

O vínculo seria dado por representação da criança consigo, com as figuras parentais e com os outros, isso determina a relação da criança com o mundo. Neste caso, pouco pode ser feito no sentido de mudar a relação de posse da criança com os objetos, o que pode se fazer é entender e significar essa relação.

Na teoria de Melanie klein, no que se refere a relação de posse da criança, reflete processos internos de individuação origina nas relações parentais. Trata ainda do papel da criança na dinâmica familiar, bem como da reprodução dessa dinâmica relacional de ambivalência parental, nas relações futuras. Em um momento, a criança ver o objeto como mal digno de ser destruído, noutro momento ver o objeto bom digno de ser reparado. Essa relação também é intrínseca e subjacente numa forma dinâmica para toda vida. A relação de posse pode ser equalizada entre amar ou odiar o objeto de possuído. A posse é algo relacional e, portanto, intrínseco, mas mediável.

Considerando a teoria das múltiplas inteligências e inteligência emocional, é possível estabelecer relações entre as múltiplas inteligências com múltiplas habilidades. Para estes, a posse diz tanto da condição da pessoa se relacionar consigo mesma, com os outros e com os objetos, inclusive do ponto de vista emocional ou afetivo.

Por fim, pode ser dito que o vínculo de posse nas teorias do desenvolvimento depende da perspectiva de homem e mundo adotados nelas. Se a relação de posse for entendida como reflexo do amadurecimento cognitivo e físico pouco pode ser feito para mediar esse vínculo.

Se a relação de posse for entendida como maturidade cognitiva e afetiva em interação com a aprendizagem do meio mediada nas malhas sociais muito pode ser feito para modificar essa relação. Porém, se a relação do indivíduo com o objeto é entendida como contendo algo intrínseco e subjacente ao indivíduo, muito pouco ou quase nada pode ser feito para mediar à relação de posse entre a pessoa e os objetos.

A título de conclusão, entendemos que a relação de posse é complexa, transcende a aprendizagem, bem como as condições que a influência. Vai além do aspecto maturacional do organismo e da aprendizagem de valores, ou de sua relação com o meio. A relação pode ser consigo mesmo e/ou com os outros que a influência, mas não determina a relação de possessividade. E cognição e a afetividade estão presentes, mas também não determinam a relação de posse, que vai além da relação de solidariedade e autonomia apesar de ser por ela perpassada. Podemos influenciar, mas não determinar a qualidade da possessividade infantil.

A posse diz respeito ainda ao empoderamento e a condição da pessoa nas relações de poder.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, C. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências, 4. ed. Petrópolis, RJ : 2006.

CEDACA– Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069 de 13 de junho de 1990. CEDACA –PE, Recife, 2001

DAVIS, C. Psicologia da educação. São Paulo: Cortez, 1990.

GALVÃO, I. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: RJ: Vozes, 1996.

GROPPO, L. A. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas: Rio de janeiro: DIFEL, 2000.

JONES, E. Vida e obra de Sigmund Freud. 3. Ed. Rio de Janeiro. Psyche-zahar, 1979.

RAPPAPORT, C .L. (et. al.)Adolescência: Abordagem psicanalítica. São Paulo: EPU,1993.

RAPPAPORT, C .L. (Coord.) Introdução à Psicanálise: Melanie Klein. S. Paulo: EPU, 1986.

REGO, T. C. Vygotsky: Uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes, 1997.

[1] Graduação em Normal Superior pelo Instituto Superior de Educação de Pesqueira, graduação em Administração pela Faculdade de Ciências da Administração de Garanhuns, graduação em Pedagogia pelo Instituto Superior de Educação de Pesqueira e graduação em Psicologia pela Universidade de Pernambuco. Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente – Universidade Federal de Pernambuco, UFPE

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