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A busca da autenticidade na natureza: uma jornada existencialista

RC: 150781
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/busca-da-autenticidade

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

NUNES, Josué Ribeiro da Silva [1],  BARBOSA, Fabiane Ruy [2], FIGUEIREDO, Maria Helena [3], CARVALHO, Ilza de Andrade [4]

NUNES, Josué Ribeiro da Silva et al. A busca da autenticidade na natureza: uma jornada existencialista. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 08, Ed. 12, Vol. 03, pp. 180-197. Dezembro de 2023. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/busca-da-autenticidade, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/busca-da-autenticidade

RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo analisar a partir do existencialismo o personagem Chris McCandless do livro e filme “Na natureza Selvagem” sua incursão pelos Estados Unidos especialmente no Alasca que culminou com sua morte. O método utilizado foi o da análise descritiva, com abordagem qualitativa e interpretativa para compreender sua busca pelo “eu autêntico”. Quando adentrou no Alasca já imaginava que enfrentaria muitos desafios e que até poderia não sobreviver a eles, ainda que estivesse otimista e animado. Chris tinha convicção de seu estilo de vida e o defendeu até a morte, quando de fato já sentia a necessidade de retornar à sociedade. Em crise com sua história de vida, buscou viver apartado de tudo, em meio a sua jornada de autoconhecimento perdeu a vida exatamente quando parecia viver aquilo que acreditava. Na Natureza Selvagem é uma obra que nos leva a refletir sobre a vida e a resistência humana, uma reflexão sobre a busca pela liberdade e a relação do homem com a natureza através do autoconhecimento.

Palavras-chave: Autoconhecimento, Liberdade, Psicologia, Sentido da vida.

1. INTRODUÇÃO

O filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e lançado em 2007, conta a história real de Christopher McCandless, um jovem americano que abandonou tudo em sua vida para viver na natureza selvagem do Alasca. O filme é uma obra de arte que explora temas profundos, como a busca da autenticidade, o confronto com o absurdo e a necessidade de encontrar sentido na vida.

O filme e livro homônimos são caracterizados pelo abandono de Chris McCandless de sua vida convencional, ele decide viver em contato com a natureza buscando a liberdade que não encontrava na sociedade e em seu lar, essa busca pela natureza é uma das principais questões existencialistas: a preocupação com a liberdade humana e a responsabilidade que ela implica, a filosofia existencialista defende que o homem é livre para escolher seu próprio caminho na vida, mas essa liberdade vem acompanhada da responsabilidade pelas escolhas feitas.

A perspectiva existencialista é uma abordagem filosófica que enfatiza a liberdade e a responsabilidade do indivíduo. Os existencialistas acreditam que cada pessoa é responsável por criar seu próprio significado na vida. Eles também acreditam que a vida é cheia de absurdo e que os indivíduos devem encontrar maneiras de lidar com esse absurdo.

A filosofia existencialista se preocupa com a relação do homem com o mundo e defende que o homem é um ser no mundo, no filme/livro o personagem busca viver em contato com a natureza buscando uma vida mais simples e autêntica nos convidando a refletir que o homem está sempre em relação com o mundo que o cerca e essa relação é fundamental para a compreensão da sua própria existência, pois é através dela que o homem se define e se constrói como um ser na natureza.

Kierkegaard (2006) é considerado o pai do existencialismo, e aborda em suas obras a questão da angústia e da dúvida, que são inerentes à condição humana. Nietzsche (2000) também na base do humanismo surge como um crítico da tradição e da moral. Em suas obras, ele defende a ideia de que o indivíduo deve criar os seus próprios valores. Sartre (1987) é um dos principais expoentes do existencialismo na França, ele explora a questão da liberdade e da responsabilidade. Heidegger (2012) filósofo alemão, influenciou o existencialismo explorando a questão da existência humana no mundo.

Esta pesquisa teve como objetivo analisar do ponto de vista do existencialismo o personagem Chris McCandless do livro e filme “Na natureza Selvagem” sua incursão pelos Estados Unidos especialmente no Alasca que culminou com sua morte.

2. METODOLOGIA

Esta pesquisa realizou uma análise descritiva, com abordagem qualitativa (Vieira 2002) sobre o caso do jovem Chris McCandless que abandona sua vida e parte para a natureza selvagem, assim sendo, foi realizada uma análise interpretativa com base no livro “Na Natureza Selvagem”, de onde foram retirados os fragmentos incluídos nos resultados e também o filme “Into the wild” do qual são feitos os comentários nos resultados, a história evidencia a busca pelo “eu autêntico” com base nos pressupostos existencialista.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

O filme “Na natureza selvagem” bem como o livro homônimo trazem a história real de um jovem que cansado da vida que vivia, ainda que uma vida abastada, decide abandonar tudo, após a conclusão dos estudos em Atlanta na universidade Emory, para aventurar-se no mundo até chegar ao Alasca onde decide isolar-se das pessoas e viver com muito pouco em um ambiente inóspito, mas que para Chris McCandless traria significado e integração com o estilo de vida que desejava.

[…] era um jovem veemente demais e possuía traços de idealismo obstinado que não combinavam facilmente com a existência moderna. Cativado havia muito tempo pela leitura de Tolstoi, admirava em particular como o grande romancista tinha abandonado uma vida de riqueza e privilégios para vagar entre os miseráveis (Krakauer 1995, p. 4).

Fica evidente em toda a história a identidade de Chris, com as leituras que fazia e com a crise de identidade que possuía com seus pais e o tipo de vida que levavam.

Para Krakauer (1995) Chris não estava enganado ou inocente quando adentrou o Alasca, sabia que seria difícil e era isso que procurava:

Para Soares et al. (2016) as leituras de Chris, seu espírito aventureiro e sua crise existencial relativa aos padrões capitalistas foram definitivamente influenciadas pelas histórias de Thoreau e Tolstoi defendendo a vida simples e pacífica como ideal.

Como a história é baseada em fatos reais que alcançaram a mídia nos Estado Unidos, muito foi dito sobre a história de Chris e sobre ele mesmo, sobre como foi irresponsável para uns e ousado para outros.

Para o homem que o deixou na entrada do Parque Nacional Denali, no Alasca ele levava comida e equipamento insuficiente para quem desejava tal empreitada, comenta ainda que outros já estiveram no local sem se dar conta do real perigo e das reais condições do local que pode ser fatal.

Tal aventura tornou-se fatal para Chris que foi encontrado morto seis semanas depois dentro do ônibus que encontrara e vivera durante essas semanas, no momento da autópsia o corpo dele pesava cerca de 30kg e a inanição foi a provável causa da morte relatada.

Mas quem era Chris, que tipo de pessoa era? Segundo o autor era alguém extremamente ético que se impunha padrões de exigência elevados, quando começava algo nunca deixava pela metade, sempre ia até o fim, buscava sempre a resposta adequada para cada circunstância antes de passar para outra (Into the wild, 2007).

Outra característica que Chris desenvolveu foi o desprezo pelas leis do estado, não se via representado e nem incluído nessas e deixa isso evidente no filme inúmeras vezes, quando destrói todos seus documentos, quando caça sem permissão, quando consegue emprego sem registrar seu nome correto e mesmo trocando de nome passando a denominar-se Alexander Supertramp, abandonando assim sua família e sua história é curioso perceber e traçar um paralelo dessa atitude de Chris de cunha árcade tornando esse jovem tão semelhante aos estilos literários a que estava submetido e influenciado (Feijoo; Protasio, 2011).

Tornou-se por opção um vagabundo, configurado inclusive pelo nome que adotara, depois de abandonar o carro e queimar o restante do dinheiro que possuía, passou a pegar carona e a perambular com outros vagabundos que encontrava pelo caminho. Passou a alimentar-se basicamente de plantas, que encontrava por onde andava identificando-as por meio de um livro que havia conseguido e por suas próprias anotações, da qual se orgulhava muito.

Entretanto Chris estava feliz, acreditava saber o que fazia, segundo o próprio autor:

“Ele estava sozinho”… “Ele estava desligado de tudo, feliz, perto do coração selvagem da vida. Estava sozinho e era jovem, cheio de vontade e tinha um coração selvagem; estava sozinho no meio de um ermo de ar bravio, entre águas salobras, entre a colheita marítima de conchas, entre claridades cinzentas embaçadas” (Krakauer 1995, p. 20)

Chris, escrevia com frequência aos amigos que fazia em suas andanças, em muitas dessas cartas é possível identificar seu contentamento com o tempo que vivia e que compreendia que esse era apenas um tempo que não seria sempre assim:

O rapaz, foi sempre muito querido e fez muitos amigos por onde passou, mesmo quando estava apenas de passagem, nas caronas ou nos empregos temporários que conseguia, sempre deixava boa impressão nas pessoas com as quais se juntava.

Entretanto ainda que não fosse difícil para ele fazer amizades, criar vínculos era um suplício do qual ele fugia inevitavelmente, e ele deixa isso claro algumas vezes no diário que escrevia e mesmo em suas atitudes, considerava sua relação com seus pais como claustrofóbica e por isso tinha medo de qualquer relacionamento humano mais profundo.

É possível de fato vivenciar nas experiências de Chris características do mais autêntico arcadismo, como o Inutilia truncat (rejeite as coisas inúteis), quando rejeita o carro novo que seus pais queriam lhe dar, quando queima o dinheiro, o Fugere urbem (fuga da cidade), quando decide vagar pelo mundo evitando inclusive as cidades, o Locus amoenus (lugar ameno) que se torna sua grande busca e finalmente o Carpe diem (aproveite o dia) que o ligava ao simples mas completo para ele, entretanto como já dizia Jean Jacques Rousseau apenas o homem selvagem é capaz de viver plenamente na natureza, aqueles acostumados a urbe não terão essa capacidade, parece que de uma forma trágica a história de Chris confirma essa teoria (Feijoo; Protasio, 2011).

Chris se sentia tão bem com seu estilo de vida que aconselhava outras pessoas a viverem da mesma forma tal como revela a carta que escrevera a Ron:

[…] Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de início, vai parecer maluco para você (Krakauer 1995, p. 34).

Chris parecia de fato estar convicto de que seu estilo de vida valia a pena e queria que outras pessoas experimentassem, pois acreditava que seria libertador para essas pessoas que segundo ele viviam presas a um estilo de vida de segurança, mas sem alegria e realização.

Percebemos aqui Segundo Feijoo & Protasio (2011) que o ser humano quando alcança parte daquilo que almeja passa a seguir essa sensação com muito afinco pois é resultado daquilo que acredita ser uma decisão libertadora, dessa forma muda inclusive sua conduta pois pensa haver encontrado a tão sonhada liberdade que o fará viver intensamente, permitindo existir plenamente, criar livremente e expressar-se sendo que nesse ponto qualquer referencial anterior pode ser esquecido.

Ele acreditava de fato que se as pessoas não tomassem uma decisão repentina e seguissem adiante, jamais deixaria o estilo de vida aprisionador e frustrante que viviam, acreditava que essa era tendência natural das pessoas a de procrastinar e deixar para depois sem nunca realizar.

Temo que você seguirá essa mesma tendência no futuro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir. Não se acomode nem fique sentado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências (Krakauer 1995, p. 35).

Chris estava certo de que, a felicidade poderia ser encontrada em elementos que não guardavam relação com a vida consumista e capitalista que a maioria da população vive e que elementos simples da natureza por exemplo são suficientes para emanar toda a felicidade de que necessitamos ainda com a vantagem de que não cria relações que aprisionam.

Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional (Krakauer 1995, p. 35).

Para Soares et al. (2016) realizando a análise funcional do comportamento de Chris com relação a sua ida para o Alasca esse autor afirma que esta, teve um elemento reforçador que foi o fato de, desde pequeno Chris ter contato com a natureza e realizar com seu pai e avô, escaladas, caçadas e acampamentos em áreas naturais. O reforço nos comportamentos realizados em alguma fase da vida gera características intrínsecas que têm a tendência de se repetir futuramente quando situações semelhantes ou mesmo análogas ocorrem pois está intrínseco na pessoa (Andery; Sério 2004; Catania 1999).

Parece que o fato de o pai dele não ter contado sobre ter tido duas famílias em um determinado momento de sua vida gerou em Chris um efeito terrível, fazendo-o considerar que o estilo de vida deles era profundamente negativo e errado, levando-o a deixar de desejar ter qualquer tipo de vínculo com eles. Para Sidman (2009) o reforço negativo gera fuga, explicando que quando em qualquer momento de nossa vida encontramos um reforço negativo, nos esforçamos por nos afastar dele, como o que observamos no comportamento de Chris, quando manda devolver as cartas dos pais, quando não aceita o carro que eles querem lhe dar, o dinheiro para a faculdade, queimar o dinheiro, rasgar os documentos, caçar sem licença, navegar de caiaque sem instrução e todos os outros comportamentos que realizou.

Sua relação degradante e tóxica com seus pais fica evidente no trecho do livro em que Chris expressa seu desejo e decisão de manter-se permanentemente distante deles, o que contrastava com a simpatia que ele apresentava por onde quer que passasse, uma marca forte de Chris por onde passou era seu poder de decisão, uma vez que colocasse algo na cabeça, era impossível fazê-lo mudar:

“Já que eles nunca me levam a sério, durante alguns meses depois da minha graduação vou fazê-los pensar que estão certos, vou deixá-los pensar que” estou vindo para ver o lado deles ‟e que nossa relação está se estabilizando. E então, quando chegar o momento certo, com uma ação rápida, abrupta, vou expulsá-los completamente da minha vida. Vou me divorciar deles de uma vez por todas e nunca mais falar de novo com um daqueles idiotas enquanto for vivo. Não vou querer mais nada com eles, para sempre” (Krakauer 1995, p. 38)

Chris foi profundamente criticado por um sem-número de pessoas quando seu corpo foi encontrado dentro do ônibus tão abandonado quanto ele, foi considerado imprudente, imaturo e despreparado para aquilo que havia projetado.

Nos últimos quinze anos, encontrei vários McCandless na região. Mesma história: jovens idealistas, cheios de energia, que se superestimaram, subestimaram a região e acabaram em dificuldade. Chris não era de forma alguma único: há um bocado desses tipos perambulando pelo estado, tão parecidos que são quase um clichê coletivo. A única diferença é que Chris acabou morto, com a história de sua estupidez escancarada na mídia. […] (Krakauer 1995, p. 42)

Walt pai de Chris relata que ele sempre foi destemido e era o tipo de pessoa que sempre precisava ser contido nas atividades que fazia, pois sempre enfrentava os riscos, nunca demonstrava medo de nada. Seu pai deixa claro que Chris tinha talento natural para muitas coisas, mas quando necessitava de polimento em suas habilidades para aperfeiçoar então erguia-se um muro e ele se fechava completamente.

Chris era extremamente metódico, tudo que fazia, fazia para vencer, desde pequeno refletia sobre questões sérias do mundo, sobre preconceito, racismo, a fome nos países subdesenvolvidos, estava sempre preocupado com o certo e o errado.

Seus pais constantemente estavam preocupados com Chris, muito por conta de sua personalidade, que descrevem como generoso e atencioso em demasia, mas também com um lado sombrio, caracterizado por monomania, impaciência e “ensimesmamento”, aspecto que se intensificaram durante sua vida universitária.

Muito do ressentimento que Chris nutria por seus pais tinha relação com uma descoberta que fizera em uma de suas viagens, quando retornou ao bairro onde havia crescido e descobriu sobre o fim do primeiro casamento do pai, que o deixaram profundamente entristecido e decepcionado, como pode ser visto no trecho a seguir:

A separação entre Walt e Marcia, sua primeira mulher, não fora limpa nem amigável. Havia muito que se apaixonara por Billie, havia muito que Chris nascera, e Walt continuava sua relação com Marcia em segredo, dividindo seu tempo entre dois lares, duas famílias. Mentiras foram contadas e depois reveladas, gerando mais mentiras para explicar as imposturas iniciais. Dois anos depois do nascimento de Chris, Walt teve outro filho – Quinn McCandless – com Marcia. Quando a vida dupla de Walt veio à luz, as revelações causaram ferimentos profundos. Todos os envolvidos sofreram terrivelmente (Krakauer 1995, p. 66-67).

Com relação a possibilidade de que Chris tenha cometido suicídio ou que tenha planejado morrer, se revela improvável segundo o livro e filme:

No último postal que mandou para Wayne Westerberg, Chris escrevera: “Se esta aventura se revelar fatal e nunca mais tiver notícias de mim, quero que saiba que você é um grande homem. Caminho agora para dentro da natureza selvagem”. Quando a aventura de fato se revelou fatal, essa declaração melodramática alimentou intensa especulação de que o garoto estava inclinado ao suicídio desde o início, de que quando entrou no mato não tinha nenhuma intenção de voltar. Mas não estou tão certo disso. Minha suspeita de que a morte de Chris não foi planejada, que se tratou de um terrível acidente […] (Krakauer 1995, p. 73).

E a história termina assim,

Em 15 de abril de 1992, Chris McCandless partiu de Cartago, Dakota do Sul, na cabine de um caminhão que levava uma carga de sementes de girassol: sua “grande odisseia alasquiana” estava em andamento. Três dias depois, cruzou a fronteira do Canadá em Roosville, Colúmbia Britânica, e pegou carona para o Norte, passando por Skookumchuck e Radium Junction, Lago Louise e Jasper, Príncipe George e Dawson Creek – onde, no centro da cidade, tirou uma foto da placa que marca o início oficial da rodovia do Alasca: MILHA 0, diz o cartaz, FAIRBANKS 1523 MILHAS [2453 quilômetros] (Krakauer 1995; Into the wild, 2007).

Nessa viagem Chris pega carona com Stuckey com quem confidencia que desde pequeno existe algo que deseja fazer, dizia Que não queria ver uma única pessoa, nenhum avião, nenhum sinal de civilização. Queria provar para si mesmo que podia se virar sozinho, sem a ajuda de ninguém” este era Chris e nesse momento estava levando a cabo seu plano da infância.

A experiência de Chris no Alasca não foi fácil já desde o início, pelos registros que deixou no diário, entretanto sua alegria e realização eram marcantes, a despeito de toda dificuldade era como se aquele momento fosse exatamente o momento pelo qual sonhou e esperou por toda sua vida, só não sabia que seria fatal, ou sabia?

A partir de seu diário, sabemos que a 29 de abril Chris caiu através do gelo em algum lugar. Isso aconteceu provavelmente quando atravessava uma série de barragens de castores, logo adiante da margem esquerda do Teklanika, mas nada indica que tenha sofrido algum ferimento. Um dia depois, quando a trilha atinge uma crista, teve sua primeira visão dos altos bastiões brancos e ofuscantes do McKinley e, no dia seguinte, 1º de maio, a trinta e poucos quilômetros de onde fora deixado por Gallien, topou com o velho ônibus ao lado do rio Sushana.

Continha um beliche e um fogão feito de tonel e visitantes anteriores tinham deixado no abrigo improvisado um estoque de fósforos, veneno contra insetos e outros artigos essenciais. “Dia do Ônibus Mágico“, escreveu ele em seu diário. Decidiu ficar um tempo no veículo e aproveitar seus confortos rústicos.

Sentia-se eufórico por estar ali. Dentro do ônibus, numa folha de compensado que tapava uma janela quebrada, Chris rabiscou uma declaração exultante de independência:

Alexander Supertramp Maio de 1992 (Krakauer 1995, p. 87-88).

Alguns fatores precisam ser levados em consideração para a decisão de Chris, o primeiro deles é a decisão de fugir desse lugar de conflito com questões que ele considera degradante, entretanto podemos citar ainda que quando começa sua aventura, ele encontra reforçadores importantes tais como a vontade e possibilidade de conhecer lugares e pessoas novas em suas andanças. Mas é interessante relatar que quando finalmente chega ao Alasca, Chris se encontra novamente com contingências aversivas, quando não consegue caçar da forma que necessitava, então ter dificuldade para se alimentar, ficar isolado socialmente, não conseguir vencer obstáculos naturais em diferentes períodos sazonais, como já foi discutido anteriormente as contingências aversivas geram comportamento de fuga, entretanto agora Chris não tinha como fugir, não era possível vencer os obstáculos naturais como o rio Teklanika, ao que tudo indica esse foi um momento muito importante da vida de Chris porque ele passa a enxergar a vida de forma diferente admitindo que poderia e até desejaria voltar a viver em sociedade (Soares et al., 2016).

Ao que tudo indica, depois de dois meses de vida solitária, Chris decide retornar à civilização munido das lições que havia aprendido, estava decidido a encerrar a sua última e maior aventura satisfeito com o que aprendera durante seus dois meses de vida solitária na natureza, Chris decidiu retornar à civilização. Chegando a reconhecer que a “a felicidade só é verdadeira quando é compartilhada”.

No dia 3 de julho Chris inicia sua jornada de retorno à civilização pelos trinta quilômetros até a estrada, dois dias depois chega ao rio Teklanika que antes pequeno e raso agora era largo e de correntes fortes, não permitindo sua passagem, então ele escreve em seu diário, desastre! Detido pela chuva, pelo rio impossível!

Com relação a sua morte, muito tem sido analisado e dito sobre Chris:

Tentando explicar o comportamento heterodoxo de Chris algumas pessoas deram ênfase ao fato de que, tal como John Waterman, era de estatura baixa e talvez tivesse “complexo de baixinho”, uma insegurança fundamental que o levou a provar sua masculinidade por meio de desafios físicos extremos. Outros afirmaram que um conflito edípico não resolvido estava na raiz de sua odisséia fatal. Embora possa haver alguma verdade em ambas as hipóteses, esse tipo de psicanálise póstuma de almanaque é uma iniciativa duvidosa e altamente especulativa que degrada e banaliza inevitavelmente o analisando ausente. Não está claro o que se ganha reduzindo a estranha busca espiritual de Chris a uma lista de distúrbios psicopatológicos (Krakauer 1995, p. 98).

Depois de não conseguir transpor o rio Chris retorna para ônibus e volta sua rotina de caçar a alimentar-se, aparentemente aguardando a chegada do outono, retomou também suas leituras, entretanto o consumo de proteína animal que ingeria era insuficiente para seu gasto calórico e então ele comete seu segundo erro que o matou, a baixa ingestão calórica o leva a condição de inanição e já sem forças para tentar deixar o lugar só podia esperar que fosse encontrado por alguém, como ele mesmo registrou, “extremamente fraco. Culpa da panela. Muita dificuldade até para ficar de pé. Morrendo de fome. Grande perigo”. Uma hipótese para o rápido declínio de sua saúde pode ter sido o fato de ter ingerido uma espécie de batata silvestre tóxica de nome científico Hedysarum mackenzii, que confundiu com a espécie Hedysarum alpinum, sendo que parece que a ingestão desta planta foi a responsável pelo rápido declínio da saúde do rapaz o levando a morte. Ainda que essa hipótese possa ser refutada pois parece difícil que Chris pudesse confundir as duas espécies já que ambas estavam descritas em seu livreto de campo e ele sabia bem identificá-las.

Entendendo sua condição precária, ele deixa um bilhete gravado no ônibus: “S.O.S. Preciso de sua ajuda. Estou ferido, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou sozinho, isto não é piada. Em nome de deus, por favor fique para me salvar. Estou catando frutas por perto e devo voltar esta tarde. Obrigado” (Into the wild, 2007).

Ao que tudo indica ele já estava ciente de sua condição e que de fato morreria naquele local, então escreveu: “tive uma vida feliz e agradeço a Deus. Adeus e que Deus abençoe a todos!” (Into the wild, 2007). É interessante como esse momento aponta para a descrição feita por Feijoo & Protasio (2011) a partir de Kierkegaard que diz que a angústia diante das situações vividas permite a conscientização e esta por sua vez conduz a mudança e a possibilidade de novas vivências podendo fortalecer essa nova atitude.

Pode-se aferir que Chris McCandless estava e crise com sua história de vida, com sua condição social “favorável”, com o padrão da sociedade e buscou viver apartado disso, não sabendo de fato quais seriam as consequências, em meio a sua jornada de autoconhecimento perdeu a vida exatamente quando parecia viver aquilo que acreditava e buscava.

O interessante é que essa parece ser de fato a crise de Chris, que tanto lutou contra o que não acreditava e por viver aquilo que sua alma pedia e que nesse caminho encontrou a morte que por tudo retratado no filme e no livro era exatamente o que não buscava, ainda que conhecesse o risco.

Sobre a perspectiva existencialista a obra nos convida a refletir sobre as questões filosóficas que permeiam a história buscando compreender a existência humana e o nosso lugar no mundo, nos lembra da importância de equilibrar a busca por autenticidade com a compreensão da complexidade da vida e das relações humanas através da jornada de autodescoberta somos confrontados com questões universais sobre liberdade, pertencimento e o verdadeiro significado da vida individual e conjunta.

Pode-se observar como as ideias existencialistas de Kierkegaard, como a autenticidade, a individualidade e a busca pelo significado da vida, podem ser aplicadas à narrativa de Chris. Como a busca de Chris por uma vida mais autêntica e sua recusa em seguir o caminho convencional refletem a noção kierkegaardiana de que a verdadeira existência envolve a escolha individual e a responsabilidade pessoal.

Além disso, como a jornada de Chris revela os desafios e dilemas do existencialismo, incluindo a solidão, a alienação e a tensão entre a liberdade e a responsabilidade. Sua busca por significado na natureza selvagem e sua busca por uma conexão mais profunda com a natureza também ecoam as preocupações existenciais de Kierkegaard sobre a relação entre o indivíduo e o mundo ao seu redor.

Em última análise, a história de Christopher McCandless lembra da relevância contínua das preocupações existencialistas em um mundo cada vez mais complexo e tecnológico. Através da lente de Kierkegaard, podemos compreender melhor a luta de Chris por autenticidade e significado, e como essas questões continuam a ressoar na sociedade contemporânea.

4. CONCLUSÃO

O livro/filme intitulados “Na Natureza Selvagem” é uma obra que provoca reflexão sobre a vida e a existência, sobre busca por liberdade e ainda da relação homem x natureza nos fazendo compreender que estamos em uma jornada rumo ao autoconhecimento e a mudança de comportamento.

Chris McCandless vive essa jornada e nela alcança o sentido de liberdade e a suposta autenticidade que tanto buscava, mas como consequência vive isolado e só, essa experiência faz com que compreenda que ser livre é apenas um meio de alcançar sentido e viver o propósito de vida.

O Existencialismo dá ênfase para a liberdade seguida da responsabilidade, afirma ainda que a vida em si não tem sentido e nem propósito, mas que cada pessoa tem liberdade para significar sua vida, sua história e seus valores, nosso personagem assim fez vivendo intensamente o existencialismo, entretanto pagou um alto preço perdendo sua própria vida.

“Na Natureza Selvagem” no instiga a explorar e compreender de forma fascinante as questões do existencialismo, nos convida a viajar juntos nas jornadas do caminho pelos lugares da natureza selvagem e da psique não menos selvagem de Chris em busca da vida autêntica e mais ainda da existência autêntica, combina a história do protagonista com as ideias de Kierkegaard provocando a reflexão sobre o significado da vida e a individualidade. Este estudo demonstra que, mesmo em um mundo cada vez mais globalizado e tecnológico, as preocupações existenciais continuam a ser relevantes e essenciais para a compreensão da experiência humana.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Elisangela Alves Sobrinho Arbex, Maria Helena Figueiredo e a e Ilza de Andrade Carvalho pelas orientações e conversas preciosas durante a execução da pesquisa, nosso muito obrigado.

REFERÊNCIAS

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[1] Orientador. Doutorado em Ecologia e Recursos Naturais (UFSCar), Mestrado em Ecologia e Conservação da Biodiversidade (UFMT), Pós-graduação – lato sensu (Avaliação Ambiental Estratégica), graduação (Biologia (UFMT) e Psicologia (UNIFACC), técnico em Turismo (IFMT). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3927-5063. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3292016056510295.

[2] Graduação em Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5481-2165.

[3] Graduação em Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-2832-1168. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1574450596192349.

[4] Graduação em Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-1166-5889. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2169450146284325.

Enviado: 11 de outubro de 2023.

Aprovado: 22 de novembro de 2023.

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Josué Ribeiro da Silva Nunes

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