A Importância do Pré-Natal Odontológico para Gestantes: Revisão Bibliográfica

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OLIVEIRA, Luiz Fernando Azevedo Soares [1]

ROCHA, Rafael de Almeida [2]

FRANÇA, Mayra Maria Coury de [3]

OLIVEIRA, Luiz Fernando Azevedo Soares; et.al. A Importância do Pré-Natal Odontológico para Gestantes: Revisão Bibliográfica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 07. Ano 02, Vol. 01. pp 05-17, Outubro de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Durante a gravidez ocorrem diversas transformações fisiológicas, físicas e psicológicas no organismo da mulher. Por essa razão, retrata-se a relevância do acompanhamento qualificado por uma equipe multidisciplinar de saúde em conjunto com o cirurgião-dentista durante o pré-natal. Nesse sentido evidencia-se que as complicações durante a gravidez podem repercutir, inclusive, na cavidade bucal. Deste modo, vale ressaltar que as orientações durante o pré-natal acerca dos cuidados preventivos e educativos, controle da placa bacteriana, alimentação saudável e higiene bucal, devem ser abordados durante todo o tratamento odontológico da gestante. Diante disso, este trabalho teve por objetivo realizar uma revisão bibliográfica enfatizando a importância do pré-natal odontológico para gestantes.

Palavras-chave: Cuidado Pré-Natal, Odontologia Preventiva, Gestantes, Assistência Odontológica.

1. INTRODUÇÃO

A gestação é uma fase de transição no ciclo de vida da mulher, na qual faz parte do processo natural do desenvolvimento humano. Durante a gravidez ocorrem diversas transformações fisiológicas, físicas e psicológicas no seu organismo. Por essa razão, a busca por informações em relação a sua saúde e a do bebê são de grande valia (MOIMAZ et al., 2007; FALCONE et al., 2005; POLETTO et al., 2008; SILVA, et al., 2017).

Neste contexto, retrata-se a relevância do acompanhamento qualificado por uma equipe multidisciplinar de saúde durante o pré-natal. Os profissionais como, assistente social, agente de saúde, fisioterapeuta, farmacêutico, enfermeiro, nutricionista, médico, dentista e psicólogo, devem ser capazes de prevenir, detectar e tratar as complicações durante a gravidez, preparando a gestante para o parto e aleitamento (FALCONE et al., 2005; OLIVEIRA; MADEIRA, 2011; DIAS, 2014).

Numerosas são as complicações que podem ocorrer durante a gravidez, e estas podem repercutir, inclusive, na cavidade bucal. Os cirurgiões dentistas consideram as gestantes como grupo de risco para doenças bucais por manifestarem alterações fisiológicas e psicológicas em seu organismo durante a gestação (MOIMAZ et al., 2007; MAMELUQUE et al., 2005; SILVA, et al., 2017).

O profissional cirurgião-dentista deve ser responsável pelo atendimento qualificado e seguro à gestante, além de se preocupar com a saúde do feto, transmitindo harmonia durante todo o tratamento. Além disso, o pré-natal odontológico deverá abordar vários temas por meio de uma anamnese detalhada, orientações sobre as alterações hormonais e bucais, e principalmente sobre hábitos de higiene (MARTINS, 2013).

Isso deverá ser realizado especialmente pela resistência das gestantes em relação ao tratamento odontológico, visto que se observa a insegurança das mesmas, principalmente pelo medo de causar anormalidades congênitas, aborto, ou até mesmo trazer outros riscos para o seu bebê (OLIVEIRA et al., 2014; SILVEIRA; ABRAHAM; FERNANDE, 2016).

Diante disso, há a necessidade das orientações do cirurgião-dentista, sobre os cuidados em saúde bucal para a gestante durante o pré-natal. Por essa razão este trabalho teve por objetivo realizar uma revisão bibliográfica enfatizando a importância do pré-natal odontológico para gestantes.

2. METODOLOGIA

Na elaboração desse estudo foi realizada uma revisão bibliográfica acerca da importância do pré-natal odontológico para gestantes, a partir de artigos científicos obtidos através de pesquisa em bases de dados. A pesquisa foi executada nas seguintes bases de dados: Scielo, Biblioteca Virtual em Saúde e PubMed. Os seguintes descritores foram utilizados: Cuidado Pré-Natal. Odontologia Preventiva. Gestantes. Assistência Odontológica.

Foi efetuada a leitura de toda a bibliografia selecionada, em seguida, foi executada uma análise para compressão e amplificação do conhecimento sobre o tema proposto e pesquisado para desenvolvimento do estudo. Foram selecionados e utilizados 29 artigos que relatavam o tema abordado,  26 na língua portuguesa e 3 na língua estrangeira, no período de 1998 a 2017.

3. REVISÃO DA LITERATURA

Durante o período gestacional o organismo materno passa por um conjunto de alterações fisiológicas. Pode-se citar: ganho de peso, aumento dos níveis hormonais, diminuição dos batimentos cardíacos, restrição da função respiratória, aumento do débito cardíaco, variações das pressões sistólica e diastólica, alterações digestivas e dificuldade na higienização bucal. Alterações físicas, como alargamento dos quadris e aumento do volume dos seios e também alterações psicológicas, como depressão, estresse e ansiedade (POLETTO et al., 2008; SILVA et al., 2000; BURTI et al., 2006).

Diante de inúmeras alterações no organismo da mulher, torna-se importante o acompanhamento multiprofissional, principalmente com o intuito de repassar conhecimentos à gestante para tornar seguro o nascimento da criança. Nesse sentido, destaca-se a importância do pré-natal odontológico, vinculando aos maus hábitos de higiene pelas gestantes, na qual podem provocar parto prematuro e baixo peso ao nascimento (POLETTO et al., 2008; BASTIANI et al., 2010).

As alterações bucais que ocorrem durante a gestação estão provenientes do aumento da secreção das glândulas salivares, da hipervascularização do periodonto, da dificuldade na higienização bucal, da predisposição a náuseas e vômitos e do aumento da ingestão de alimentos. Tais alterações podem ser esclarecidas pelas mudanças hormonais nos níveis de estrógeno e progesterona que irão repercutir na fisiologia bucal, modificando o equilíbrio da boca (MOIMAZ et al., 2007; REIS et al., 2010).

Em vista disso, é importante ressaltar que essas alterações podem levar ao agravamento de cárie e também ao aparecimento de doenças gengivais, principalmente quando há descuido com a higiene bucal durante o período gestacional. Por essa razão vários autores afirmam que a gestação não é a responsável pela manifestação das alterações bucais como a cárie e a doença periodontal (OLIVEIRA et al., 2014; BASTIANI et al., 2010; REIS et al., 2010; NETO et al., 2012).

Consequentemente observa-se a importância de esclarecer a gestante as dúvidas, repassando conhecimentos necessários para o nascimento seguro da criança. Dessa maneira, torna-se necessário o pré-natal odontológico, em que pode ser realizado por meio de palestras em educação da saúde bucal ou até mesmo através de uma anamnese detalhada. O cirurgião-dentista deve realizar a anamnese antes de qualquer procedimento e através dela poderá questionar e orientar a paciente. Além disso, deverá ser realizado um trabalho conjunto com o ginecologista obstetra para obtenção de informações sobre a situação clínica da mesma (POLETTO et al., 2008; BASTIANI et al., 2010; REIS et al., 2010).

O profissional pode e deve argumentar durante todas as anamneses realizadas com pacientes de qualquer faixa etária sobre a possibilidade de estar grávida, uma vez que antes dos dois meses fica imperceptível fisicamente a gestação, correndo o risco de administrar procedimentos e medicamentos contraindicados (POLETTO et al., 2008).

Sabe-se que qualquer intervenção odontológica pode ser realizada no decorrer da gestação e a mesma deverá ser executada durante o segundo trimestre. Todavia, é de responsabilidade do profissional explicar como será realizado o tratamento, selecionar o método mais seguro e evitar consultas prolongadas (OLIVEIRA et al., 2014; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006).

Apesar de alguns autores comprovarem que o tratamento odontológico deve ser realizado no segundo trimestre de gestação, evidencia-se que se caso houver alguma emergência o problema deverá ser resolvido imediatamente em qualquer época, removendo a causa via terapia endodôntica, extração e drenagem. Lembrando-se que antes de qualquer procedimento o cirurgião dentista deverá realizar uma anamnese detalhada e comunicar-se com o médico da gestante (POLETTO et al., 2008; MARTINS, 2013; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; KLOETZEL; HUEBNER; MILGROM, 2011; SILVEIRA; ABRAHAM; FERNANDE, 2016).

Não obstante há por parte dos cirurgiões-dentistas tendência em desconsiderar o tratamento odontológico durante a gestação, deixando-o para depois do nascimento da criança, devido à preocupação e receio na prescrição e administração de medicamentos e na realização do exame radiográfico. Consequentemente, modos como esse não devem ser aplicados como rotina, sendo indicado posteriormente ao parto apenas procedimentos invasivos, como as grandes reparações odontológicas (SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006).

Entretanto, poderão ser realizadas orientações quanto aos hábitos de higiene bucal, limpeza dentária e aplicação de flúor, em qualquer fase da gestação sem promover riscos ao feto e a gestante. Rotinas de higiene dental para controle da placa bacteriana devem ser intensificadas durante qualquer trimestre gestacional pelo risco de aparecimento de alterações relacionadas à gravidez, são elas: a gengivite gravídica, o granuloma piogênico e a cárie dentária (OLIVEIRA et al., 2014).

A gengivite gravídica é uma reposta inflamatória causada pela presença de placa bacteriana, devido aumento dos níveis hormonais, irritantes locais e bactérias orais. A gengiva irá apresentar coloração vermelha, com presença de edema e com pequeno sangramento ao toque ou ao escovar os dentes. Por essa razão deverá ser realizado profilaxia pelo cirurgião dentista, para que consiga realizar o controle e remoção da placa bacteriana (POLETTO et al., 2008; OLIVEIRA et al., 2014; FAGONI et al., 2014).

O granuloma piogênico é uma lesão benigna da gengiva, característico da gestação. É causado pelo excesso de estímulos locais, como aumento do biofilme dentário, excesso de restaurações e também negligencia da higiene bucal. Esse granuloma manifesta-se na gengiva entre os dentes anteriores da maxila, normalmente entre o terceiro e o oitavo mês de gestação. O tratamento deve ser realizado através de profilaxia profissional, e o principal tratamento se caso houver dificuldades na higienização e mastigação é a incisão cirúrgica (GAETTI-JARDIM et al., 2009).

A cárie dentária é uma doença infectocontagiosa e está relacionada com os maus hábitos de higiene e aumento da ingestão de alimentos. É importante ressaltar que a cárie dentária não está relacionada com as mudanças fisiológicas que acontecem durante a gestação. Está relacionada com a redução da capacidade estomacal, que faz com que a gestante diminua a ingestão de alimentos (BASTIANI et al., 2010; REIS et al., 2010).

Com isso, há a necessidade de aumentar a frequência da ingestão de alimentos, principalmente de carboidratos e nesse caso se houver negligencia da higiene bucal haverá risco de se desenvolver a cárie. Dessa maneira, como a cárie dentária é infectocontagiosa, deve se realizar maiores cuidados preventivos durante a gestação para evitar ocorrência de cárie na criança, por meio da relação mãe e feto (BASTIANI et al., 2010; REIS et al., 2010; SILVA et al., 2009).

Para o controle e prevenção da cárie deve se usar aplicações tópicas de flúor, bochechos fluoretados e também utilizar materiais que liberam flúor. O flúor tópico é um elemento utilizado na prevenção e controle de cárie dentária, e não é contraindicado na gravidez, pois sua ação será sobre os dentes da mãe e não sobre os dentes da criança. Entretanto, é dito na literatura que a suplementação de fluoretados durante o pré-natal é contraindicado, devido carência de informações científicas que comprovem seu efeito sobre os dentes do bebê (POLETTO et al., 2008; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; LOSSO; RAMALHO, 2001).

Além dessas alterações relacionadas à gravidez há também a erosão dentária que é caracterizada pela perda da estrutura dentária superficial ocasionada pela ação química de ácidos. A erosão dentária pode suceder pela alta prevalência de enjoos e vômitos frequentes, devido ao ácido gástrico, principalmente durante o primeiro trimestre de gestação (POLETTO et al., 2008; OLIVEIRA et al., 2014; SILVA et al., 2017).

Em vista disso, para que nenhuma dessas alterações ocorra é importante que a gestante vá periodicamente ao cirurgião-dentista para que este administre técnicas de higiene bucal, repasse orientações importantes pra sua saúde e para a saúde do bebê e tranquilize a gestante, devido a seu medo e insegurança (POLETTO et al., 2008; OLIVEIRA et al., 2014).

Nota-se que o receio mais comum por parte das gestantes é a utilização de anestésicos locais, e muitas vezes omitem o tratamento deixando-o para depois do parto. Os anestésicos locais apresentam ampla segurança e podem ser utilizados durante qualquer fase do pré-natal, não apresentando contraindicações. Possuem a capacidade de atravessar a barreira placentária por difusão passiva, mas não são teratogênicos (SILVA et al., 2000; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; CHAI; NGEOW, 1998; AMADEI et al., 2011).

Alguns anestésicos podem amplamente serem utilizados durante o pré-natal, como a lidocaína, a prilocaína e a etidocaína B, mas a solução mais administrada é a lidocaína 2% com epinefrina. O vasoconstritor juntamente com o anestésico local permite o aumento da concentração do anestésico, ação hemostática e prolonga o efeito farmacológico (SILVA et al., 2000; CHAI; NGEOW, 1998; AMADEI et al., 2011; VASCONCELOS et al., 2012).

Em relação à utilização dos vasoconstritores juntamente com o anestésico, a epinefrina e a noradrenalina são consideradas altamente seguras, podendo ser utilizadas sem contraindicações, pois não estão relacionadas com anormalidades congênitas. Já a felipressina quando administrada em altas doses diminui a circulação da placenta diminuindo a possibilidade de fixação do embrião no útero (SILVA et al., 2000; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006).

Contudo, a utilização do anestésico local prilocaína deve ser evitada, pois, se administrada em altas doses poderá dificultar a circulação da placenta podendo promover metemoglobinemia. Essa síndrome é causada pela amplificação da concentração de metemoglobina, que sucede tanto por anormalidades congênitas quanto em situações de redução e oxidação por desequilíbrio, e são induzidas principalmente pela exposição a agentes químicos (SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; NASCIMENTO et al., 2008).

A aplicação dos anestésicos locais deve ser realizada lentamente com aspiração prévia para impedir a injeção intravascular. Como segurança, devem ser utilizados somente dois tubetes de lidocaína 2% por atendimento e deve ser aplicado cuidadosamente para evitar a repetição de aplicações. Além dessas precauções com os anestésicos locais, deverá também ter cautela nas tomadas radiográficas, no manejo de medicamentos, no período do tratamento e na posição durante o atendimento (MOIMAZ et al., 2007; SILVA et al., 2000; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; CAMARGO et al., 2014).

É importante ressaltar que a utilização de tomadas radiográficas deve ser evitada durante o primeiro trimestre de gestação, visto que nesse período ocorre o desenvolvimento embrionário. Porém, o cirurgião-dentista deverá proteger a gestante da radiação, evitando realizar radiografias com frequência, protegendo o abdômen com avental de chumbo e evitando o direcionamento da ampola para o abdômen (POLETTO et al., 2008; SILVA et al., 2000; VASCONCELOS et al., 2012).

Se caso todas essas seguranças forem tomadas, o raio-X poderá ser realizado mesmo no primeiro trimestre de gravidez. As radiografias mais usadas são a panorâmica e a periapical para que se tenha um diagnostico confiável, e a radiação emitida por elas não é capaz de acarretar malformações congênitas (POLETTO et al., 2008; MARTINS, 2013; SILVA et al., 2000; VASCONCELOS et al., 2012; BASTOS et al., 2014).

Por isso deverá ser levado em consideração que nenhuma radiografia deve ser postergada se colocado em prática as medidas de segurança, especialmente se o raio-X detectar alguma alteração. Visto que se a patologia não for tratada precocemente poderá provocar alterações bucais tanto para a mãe quanto pra o feto. Por essa razão os cirurgiões-dentistas devem estar aptos para a realização de qualquer tomada radiográfica (POLETTO et al., 2008; MARTINS, 2013; VASCONCELOS et al., 2012).

Com relação ao manejo de medicamentos, é importante considerar que qualquer fármaco ingerido pela gestante chegará ao feto atravessando a barreira placentária. Haverá principalmente riscos de ocorrer aborto ou teratogenia quando administrado durante os três primeiros meses de gestação. As implicações desfavoráveis dos fármacos sobre o bebê estão relacionados a diversos fatores, como o período de gestação, a dosagem e o intervalo de tempo que deverá ser administrado (VASCONCELOS et al., 2012; BASTOS et al., 2014).

Durante o primeiro trimestre de gestação a utlização de drogas deverá ser adiada, pois é quando ocorre a organogênese. Em vista disso, se caso a gestante apresente qualquer alteração bucal, como infecção ou dor, o tratamento medicamentoso não poderá ser postergado. Mas, os medicamentos utilizados preferencialmente pelos cirurgiões-dentistas são considerados seguros quando administrados depois dos três primeiros meses de gestação (POLETTO et al., 2008; BASTOS et al., 2014).

Dentre os medicamentos mais utilizados pelos cirurgiões-dentistas estão os antiflamatórios não esteroides (AINES), os analgésicos e os corticosteroides classsifcados na categoria C. Os AINES devem ser administrados com cuidado pela predisposição de causar hemorragias tanto na mãe quanto no feto. Outrossim, podem estender a duração do parto colocando a gestante risco pela insufiencia de contração durante ou em seguida ao parto (SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; CHAI; NGEOW, 1998; VASCONCELOS et al., 2012; AMADEI et al., 2011).

O analgésico mais indicado para gestantes é o paracetamol (categoria B), pois, quando administrado em casos de dores leves a moderadas, não causa efeitos teratogênicos. Sendo assim, pode ser administrado com segurança em qualquer período da gestação. Outro medicamento de segunda escolha é a dipirona monoidratada, mas tem como desvantagem o risco de granulocitopenia, induzindo a gestante a infecções (SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; CHAI; NGEOW, 1998; VASCONCELOS et al., 2012; AMADEI et al., 2011).

Os corticosteroides (categoria C), são utilizados para tratamento de inflamações bucais, e são considerados  mais invioláveis que os AINES quando administrados através de uso tópico. Os mais indicados são prednisona ou prednisolona por terem maior resistencia ao atravessar pela membrana placentária  e por não causar prejuizos como os outros corticosteroides. Durante o tratamento com qualquer corticosteroide deverá ser realizado uma anamnese completa, além de  monitoramento do feto, por possiveis sinais de infecção (POLETTO et al., 2008; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; AMADEI et al., 2011; OLIVEIRA; GONÇALVES, 2009).

Com relação à posição da gestante durante o atendimento odontológico alguns autores evidenciam que durante o terceiro trimestre gestacional a mulher passa a se sentir desconfortável na posição de decúbito dorsal. Uma vez que a permanência na posição supina causa a compressão da veia cava infeiror, levando a gestante ao risco de hipotensão ortostática. Por esse motivo, o posicionamento ideal para pacientes gestantes durante o tratamento odontológico é sentada ou semi-supina (POLETTO et al., 2008; SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006).

Vale ressaltar também que as orientações durante o pré-natal acerca dos cuidados preventivos e educativos, controle da placa bacteriana, alimentação saudável e higiene bucal, devem ser abordados durante todo o tratamento clínico da gestante. As atividades preventivas e educativas proporcionarão a prevenção e também o controle das doenças bucais nas gestantes durante seu pré-natal (BASTIANI et al., 2010).

Não obstante, nos dias atuais tem surgido  algumas substâncias utilizadas para tratamento de placa de bacteriana. Entretanto, o método mais eficiente e prático adotado pelos cirurgiões-dentistas no controle mecânico é a escovação dentária e o uso frequente de fio dental, para a preservação da saúde bucal tanto da mãe, quanto do feto (SILVA; STUANI; QUEIROZ, 2006; SILVA, 2013).

A alimentação saudável da gestante irá proporcionar saúde e progresso no desenvolvimento normal da criança. É importante considerar que se houver carência na dieta da mãe, a criança não terá desenvolvimento adequado e possuirá problemas durante a odontogênese. Além disso, a deficiência de vitaminas e sais minerais na dieta precária poderá intervir na composição química, na morfologia, na maturação e também no período de erupção dentária. A alimentação saudável irá proporcionar para a mãe aumento na capacidade de produção do leite, bem como eficácia na amamentação (SILVA, 2013).

Outro aspecto que deve ser ponderado é a higiene bucal, deve-se informar a gestante sobre como realizar o processo de higienização. Principalmente pelo motivo de que as mães atuam no processo de higienização bucal dos seus filhos, e quando orientadas são capazes de transmitir os padrões de higenização corretos. Dessa forma, os conselhos do cirurgião-dentista são capazem de reduzir o índice de doenças bucais tanto nas mães , quanto nas crianças (SILVA et al., 2009; SILVA, 2013).

Dessa forma, é importante que os cirurgiões-dentistas estabeleçam protocolos de atendimento. Os protocolos devem ser integrados de uma anamnese detalhada, exame clínico, preenchimento completo do odontograma, orientações sobre higienização, alimentação saúdavel, lendas e verdades sobre o atendimento odontológico, amamentação, cuidados com a criança, escovação dentária e retorno ao cirurgião-dentista (CAMARGO et al., 2014).

Primeiramente, o cirurgião-dentista deverá produzir uma carteira com a data, horário de atendimento e trimestre gestacional na qual está sendo realizado o tratamento. Além disso, deverá conter na carteira quais procedimentos estão sendo utilizados e administrados. Em seguida, poderá dar inicio ao tratamento no primeiro trimestre gestacional objetivando a realização de técnicas de caráter coletivo e individual (CAMARGO et al., 2014; BASTOS et al., 2014; SILVA, 2013).

Durante este período deve ser realizados grupos com as gestantes em tratamento, oferecendo-lhes orientações acerca das alterações fisiológicas durante a gravidez, da alimentação saudável, da higiene bucal a fim de prevenir as doenças periodontais e cárie. Em relação ao caráter individual, o cirurgião-dentista deverá realizar a avaliação detalhada da cavidade bucal e tratar as alterações preventivamente através de profilaxia profissional (CAMARGO et al., 2014; SILVA, 2013).

Após o primeiro trimestre gestacional, dando se inicio ao segundo trimestre, o cirurgião-dentista deverá efetuar a tomada dos exames clínicos necessários para detecção precoce das doenças bucais. Além de continuar o tratamento preventivo através da profilaxia profissional e implantar os procedimentos para realização do tratamento curativo (restaurações, retirada de infecções e raspagens de cálculos) (CAMARGO et al., 2014; BASTOS et al., 2014).

Em seguida ao tratamento do segundo trimestre, iniciando a intervenção odontológica do terceiro trimestre gestacional, deverá se realizar mais uma vez procedimentos de caráter coletivo e individual. Durante este período devem-se organizar grupos com gestantes para o fornecimento de orientações a respeito da importância da amamentação pra o desenvolvimento da criança, alimentação saudável, higiene bucal e hábitos de sucção (bico, mamadeira). Já de acordo com o caráter individual, este deverá ser aplicado somente no caso de urgências e emergências (CAMARGO et al., 2014; SILVA, 2013; SILVA, et al., 2017).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No organismo materno ocorrem diversas alterações fisiológicas, físicas e psicológicas durante o período gestacional. Por essa razão, é importante o acompanhamento multiprofissional juntamente com os cirurgiões-dentistas, a fim de  repassar conhecimentos a gestante para tornar seguro o nascimento da criança, evitando desconfortos e complicações.

Diante do exposto, as orientações são necessárias especialmente pela resistência e insegurança das gestantes na realização do tratamento odontológico, devido controvérsias de que o tratamento poderá causar anormalidades congênitas, aborto, ou até mesmo trazer outros riscos para o seu bebê.

Porém, sabe-se que qualquer intervenção odontológica pode ser realizada no decorrer da gestação, desde que seja feita uma anamnese detalhada em conjunto com orientações sobre as alterações hormonais e bucais, e principalmente sobre os hábitos de higiene.

Outro fator que deve ser ressaltado é o conhecimento dos cirurgiões-dentistas com relação ao trimestre ideal para inicio ao tratamento odontológico. Isso é importante principalmente pela prevenção de alterações bucais, possibilitando ao profissional maior segurança na administração medicamentosa e também nas tomadas radiográficas.

Por essa razão compreende-se por meio da bibliografia selecionada que qualquer intervenção odontológica pode ser realizada no decorrer da gestação e a mesma deverá ser executada durante o segundo trimestre gestacional. Entretanto, nos casos emergenciais qualquer problema detectado deve ser resolvido imediatamente em qualquer período da gravidez.

Além disso, foi possível concluir que as tomadas radiográficas devem ser evitadas durante o primeiro trimestre de gestação, devido ao desenvolvimento embrionário nesse período. Porém, se realizado as medidas de segurança as radiografias dentárias não apresentam nenhum risco ao feto e podem ser realizadas em qualquer época.

Os anestésicos locais apresentam ampla segurança e podem ser utilizados durante qualquer fase do pré-natal, não apresentando contraindicações. Sendo que a lidocaína 2% com epinefrina ou noradrenalina é o método mais seguro. A administração medicamentosa no primeiro trimestre de gestação deverá ser adiada, pois é quando ocorre a organogênese.

Com isso, a utilização de qualquer droga deverá ser utilizada somente quando necessário. Dentre os medicamentos mais seguros estão o paracetamol como análgesico e os corticosteroides prednisona ou prednisolona por serem considerados mais invioláveis que os AINES.

As alterações relacionadas à gravidez são causadas na maioria dos casos pelo aumento do biofilme dentário, aumento dos níveis hormonais, mudanças fisiológicas e também pelo aumento da ingestão de alimentos. Por essa razão, torna-se necessário as aplicações tópicas de flúor, bochechos fluoretados e também utilização de materiais que liberam flúor.

O flúor deve ser utilizado na prevenção e controle da cárie dentária, e não é contraindicado na gravidez. Entretanto, é dito na literatura que a suplementação de fluoretados durante o pré-natal é contraindicado.

Assim, vale ressaltar que as orientações durante o pré-natal acerca dos cuidados preventivos e educativos, controle da placa bacteriana, alimentação saudável e higiene bucal, devem ser abordados durante todo o tratamento clínico da gestante.

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[1] Discentes do curso de Odontologia da Faculdade Patos de Minas (FPM).

[2] Discentes do curso de Odontologia da Faculdade Patos de Minas (FPM).

[3] Docente do curso de Odontologia da Faculdade Patos de Minas (FPM). Mestre em Estomatologia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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