Marcia Costa da Silva [1]
Flávio Henrique Soares Barros [2]
Rosilda Silva Dias [3]
Vitória Coutinho dos Santos [4]
Adalgisa de Souza Paiva Ferreira [5]
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3279
A infecção crônica pelo vírus da hepatite C (VHC) é uma importante causa de morte e representa um dos principais desafios à saúde pública globalmente, com prevalência de forma desigual entre os países, considerando as regiões da Europa e do Mediterrâneo oriental as mais afetadas (HEDAYATI-MOGHADDAM et al., 2022; ABU-FREHA et al., 2022).
Em 2015, com dados estimados de 100 países revelou-se aproximadamente cerca de 71 milhões de pacientes infectados pelo vírus, uma média de 400 mil mortes por ano devido complicações por cirrose hepática e carcinoma hepatocelular (CHC) (SILVA et al., 2020; ABU-FREHA et al., 2022; DI MARCO; LA MANTIA e DI MARCO, 2022; WHO, 2017).
Para pacientes sob Terapia Renal Substitutiva (TRS), por diversas condições de sua realidade, como a exposição parenteral constante, o uso frequente de drogas intravenosas e a possível quebra de normas de biossegurança nos serviços de hemodiálise, torna-se comum a hepatite C em doentes renais crônicos (NETO; SILVA e NEVES, 2021; WHO, 2017).
A hepatite C possui uma taxa de infecção de 10% – 16% de forma global, nos Estados Unidos da América (EUA) a prevalência do Vírus da hepatite C (VHC) em pacientes em TRS foi estimada cinco vezes superior à da população em geral (COTTONE e BHAMIDIMARRI, 2019).
Somete no Brasil, 144.779 pacientes estão em hemodiálise (HD), desses 2,8% possuem sorologia reagente para hepatite C segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), conforme a mesma fonte esses dados podem estar subdimensionados, o que poderá ser ou não um cenário potencialmente mais grave (NERBASS et al., 2022; MOURA-NETO et al., 2021).
Em 2016 a Organização Mundial de Saúde (OMS) atribuiu aos países a responsabilidade em eliminar a hepatite C como problema de saúde pública, para isso sugeriu a criação de estratégias para seguimento da proposta em atingir uma redução de 90% da prevalência do VHC e reduzir 65% na mortalidade até 2030 (ABU-FREHA et al., 2022).
Entre as tantas estratégias para implementação das ações de prevenção, controle e eliminação da doença, a OMS defendeu o engajamento do enfermeiro(a) no processo, com o intuito em ampliar o acesso ao diagnóstico, reduzir o tempo entre a confirmação do VHC e o início do tratamento, considerando a enfermagem estratégica, devido sua atuação direta na elaboração, implementação, ampliação e gestão de políticas públicas, bem como em seu potencial multiplicador e articulador junto à comunidade em todos os níveis de atenção (WHO, 2016).
Enfatiza-se que o cuidado de enfermagem no enfrentamento das hepatites virais já vem sendo desenvolvido com bastante êxito em muitos países. Assim, alcançar a meta global de eliminar a hepatite C exigirá que a enfermagem brasileira exerça o papel de primeiro ponto de contato com o sistema de saúde (RICHMOND et al., 2020).
O Processo de Enfermagem (PE) ou Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é uma atividade privativa do enfermeiro que norteia as atividades de toda a equipe de enfermagem, já que técnicos e auxiliares desempenham suas funções a partir da prescrição do(a) enfermeiro(a) (SILVA et al., 2017).
A presença do(a) enfermeiro(a) nas Unidades de Diálise (UDs) é fundamental para o gerenciamento da equipe de enfermagem e na análise das necessidades individuais de cada paciente e na orientação de planos de cuidados (FERREIRA et al., 2017).
A relevância de nossa pesquisa baseia-se na assertiva de que há possibilidade de erradicar a infecção pelo VHC nas UDs, já que o diagnóstico é simples e predominantemente laboratorial, com Testes Rápidos(TR) ou sorológicos (anti-VHC) e posteriormente confirmados por exames de carga viral (RNA-VHC).
Considerando o Brasil, que dispõe de medicações seguras, eficazes e gratuitas, em que os pacientes em TRS podem ter acesso ao tratamento em serviços de hemodiálise, já que os nefrologistas possuem a oportunidade de prescrever o tratamento para a hepatite C (VHC), não necessitando encaminhar os pacientes para atendimentos especializados, supõe-se assim que diagnosticar e tratar os portadores de VHC é perfeitamente exequível, facilitando sobremaneira a eliminação da infecção nessa população de risco.
O estudo teve como objetivo central utilizar um fluxograma de atendimento, até então não utilizado pelos serviços de diálise, este foi desenhado para identificar, diagnosticar e encaminhar para tratamento do VHC, utilizando o Processo de Enfermagem (PE) permitindo que os pacientes fossem diagnosticados e conduzidos para tratamento com o nefrologista de sua unidade de tratamento dialítico por meio dos cuidados do PE, favorecendo assim os pacientes a não serem encaminhados para serviços médicos especializados de infectologia ou hepatologia para tratamento.
MÉTODO UTILIZADO
O estudo foi em caráter descritivo, tipo relato de experiência construído a partir da realização de um fluxograma de identificação dos portadores do VHC em três UDs do município de São Luís (MA) que admitiam pacientes com vírus C (VHC) em sua rotina, que denominamos unidade A, B, C.
Seguiu-se com um fluxograma desenhado especificamente para o estudo (Figura 1) como roteiro de identificação de portadores do vírus da VHC para diagnóstico e tratamento da infecção utilizando o Processo de Enfermagem.
Utilizaram-se Prontuários, Planilhas de Monitoramento, Histórico de Enfermagem (HE), como instrumentos de coleta de dados.
Conforme o objetivo mencionado desenvolvemos o estudo que contém ações para o(a) enfermeiro(a) no enfrentamento da doença seguindo as orientações da OMS. Neste estudo utilizamos um fluxograma (Figura 1).
Nossa população foi composta por todos os pacientes com Doença Renal Crônica (DRC) em TRS encontrados em 3 unidades de diálise, no período de agosto de 2021 a junho de 2022, que totalizou 925 pacientes, nossa amostra foi por conveniência, foram todos aqueles que apresentaram anti -VHC reagente no período, os pacientes com anti-VHC reagente foram encaminhados para realizar o exame de carga viral para confirmação diagnóstica.
Tivemos como critérios de exclusão as gestantes e os usuários que não autorizaram a sua participação.
Os dados encontrados foram exportados para uma planilha em um programa Excel®, realizou-se a categorização das variáveis, a análise descritiva das variáveis categóricas com a frequência absoluta e relativa e as numéricas com cálculo da média.
Nas questões éticas, os participantes assinaram o Termo de consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), seguindo os preceitos da resolução nº 466/12 e afins, o estudo teve aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA).
Figura 1 – Fluxo de identificação, diagnóstico e tratamento para hepatite C utilizado em três UDs de São Luís – MA, 2022.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram detectados 25 DRC com anti-VHC reagentes correspondendo a uma prevalência de 2,7% da população estudada, 17 pacientes (68%) tinham RNA-VHC detectáveis. Destes, 15 (88%) foram tratados e receberam a medicações nas próprias UDs, 12% não concluíram o tratamento devido as condições de óbitos e transferências para outras unidades de diálise não participantes, veja tabela 1.
Tabela 1 – Número de pacientes em Terapia Renal Substitutiva (TRS) por unidade segundo resultado de exames anti – HCV em Unidades de Diálise (UDs) de São Luís -MA.
| UNIDADE | Nº de Pacientes por
Unidade |
Exame Anti-HCV | |
| Reagente N (%) | Não Reagente N(%) | ||
| A | 405 | 15 (3,7%) | 390 (96,3%) |
| B | 231 | 1 (0,4%) | 230 (99,6%) |
| C | 289 | 9 (3,1 %) | 280 (96,9%) |
| Total | 925 | 25 (2,7%) | 900 (97,3%) |
Fonte: Autores, 2022.
A prevalência encontrada de sorologia reagente para VHC, assemelha-se a outros estudos, como 2,8% do último censo da SBN e das regiões do mediterrâneo oriental que possui uma prevalência de 2,3%. (ABU-FREHA et al., 2022; HEDAYATI-MOGHADDAM et al., 2022).
Ressaltamos a evidência de um número elevado de pacientes infectados sem confirmação diagnóstica, isso nos induz repensar, no contexto brasileiro, o que poderia de fato estar favorecendo essa situação, já que as últimas diretrizes específicas estabelecidas para a Doença Renal Crônica no SUS em 2014 recomenda que os pacientes renais crônicos de estágio 5 em hemodiálise, com suspeita de hepatite C, tem sua complementação diagnóstica e terapêutica para hepatites virais assegurada por lei. (BRASIL, 2014).
Essa realidade vem reforçar iniciativas como o seguimento do fluxograma em estudo, que vem facilitar o acesso dos pacientes ao diagnóstico e tratamento da hepatite C e consequentemente sanar ou minimizar a atual problemática da infecção (ABU-FREHA et al., 2022; HEDAYATI-MOGHADDAM et al., 2022).
Com o Processo de Enfermagem (PE) desenvolvido no fluxograma foi possível implementar a confirmação diagnóstica da infecção e encaminhamento dos pacientes para o tratamento dentro das UDs, de forma efetiva sem que os mesmos precisassem ser deslocados para os serviços de diagnóstico e tratamento especializados. Além disso, foram realizadas as notificações compulsórias dos casos identificados, que frequentemente são relegadas, fortalecendo a vigilância epidemiológica do agravo e otimizando as notificações do VHC (BRASIL, 2014; BRASIL, 2018)
As organizações de saúde internacionais e o MS buscam resultados de uma proposta ambiciosa, eliminar a hepatite C nos próximos anos como problema de saúde pública, conforme agenda da OMS até 2030 (BRASIL, 2020; WHO, 2017). Para isso, deve-se perseguir com ações públicas estratégicas e empenho dos profissionais envolvidos que possam diagnosticar e tratar os casos, pois o tratamento disponibilizado pelo SUS aos infectados evidencia altas taxas de cura (BRASIL, 2022; CARNAUBA-JUNIOR, 2022).
Esta proposta de cuidados com portadores do VHC para o público em TRS, envolvendo os profissionais de enfermagem está em linha com o MS, que em 2020 estabeleceu para o enfermeiro ações estratégicas para melhorar a prevenção, o diagnóstico e tratamento da hepatite C (BRASIL, 2018; BRASIL, 2020).
Com a Nota Técnica (NT) nº369/2020 há o fortalecimento das ações do enfermeiro na identificação do portador de VHC na APS (Atenção Primária em Saúde). Fundamentado na NT nº 369/2020 esse estudo também trouxe para os serviços de hemodiálise as ações sugeridas pela OMS na prevenção, diagnóstico e tratamento da hepatite C (BRASIL, 2020), com um diferencial importante “os pacientes serem tratados dentro da própria unidade sem a necessidade de direcionamento para outros especialistas”. Reforçamos mais uma vez que essa estratégia não só beneficia os pacientes com o tratamento simplificado, como facilita o diagnóstico precoce e diminui a frequente dificuldade de acesso ao tratamento, o que acabava desestimulando o paciente na busca do tratamento da infecção (BRASIL, 2018; BRASIL, 2020).
CONCLUSÃO
Neste fluxograma há uma sugestão de conduta até então não realizada pelas UDs, mas que pode ser perfeitamente seguida com novos pacientes admitidos sendo portadores do VHC.
Para a enfermagem evidenciou-se a sua importância para essa linha de cuidados em fazer esse diferencial devido o(a) enfermeiro(a) ser um profissional da equipe próximo ao paciente e da família, favorecendo de maneira efetiva a estratégia de identificação, diagnóstico e tratamento da hepatite C nas unidades de diálise de forma organizada, sistematizada e individualizada.
Concluímos dessa forma que o fluxograma desenhado e utilizado nesse estudo para identificação, diagnóstico e tratamento da hepatite C em TRS poderá contribuir para eliminação da infecção dentro das unidades de diálise do município de São Luís – Maranhão bem como em todo o Estado, acreditamos também que poderá ser replicado em demais unidades dentro ou fora do país.
REFERÊNCIAS
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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Enfermagem pela Universidade Federal do maranhão (UFMA), Especialidade em Estratégia em Saúde da Família (Atenção Primária em Saúde) pela UFMA, Mestrado em Ciências da Saúde pela UFMA. ORCID: 0000-0001-6713-0211. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3453918476884729.
[2] Graduado em Medicina pelo Instituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos, Especialidade em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). ORCID: ORCID:0000-0001-6427-4156. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1172301980238067.
[3] Enfermagem pela Universidade Federal do Maranhão, Mestrado em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Maranhão, Doutorado em Fisiopatologia Clínica e Experimental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. ORCID: 0000-0002-7969-9613. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6699170604660310.
[4] Discente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Maranhão. ORCID: 0000-0002-6481-9416. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7583542382856044.
[5] Orientadora. Docente de Medicina pela Universidade Federal do Maranhão, Doutorado pela Universidade Federal de São Paulo. ORCID: 0000-0002-8003-3333. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1644652704747566.