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Emergências psiquiátricas com idosos, reflexão sobre criação de um protocolo específico para atendimento público

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Karina Lino Anadão [1]

Leandro Alves da Cunha [2]

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3282

INTRODUÇÃO

A proporção mundial de indivíduos com 60 anos ou mais está aumentando mais rápido do que qualquer outro grupo etário (Baldaçara et al, 2012). A população idosa, em sua maioria, tem vida independente e autônoma, porém uma parcela dela torna-se vulnerável a eventos adversos, pois o aumento da expectativa de vida vem acompanhado de alterações fisiológicas e comorbidades que podem comprometer sua capacidade funcional. A prevalência de doenças crônicas não transmissíveis acompanha o aumento da expectativa de vida e muitos indivíduos apresentam mais de uma afecção, o que pode comprometer a capacidade funcional do idoso e acelerar o processo da síndrome da fragilidade (Lopes et al, 2015).

O envelhecimento traz várias consequências cardiovasculares, reumatológicas, visuais, auditivas, neoplásicas, diabetes e transtornos psiquiátricos. Condições médicas com capacidade de camuflar sintomas psiquiátricos é uma complicação inerente de apresentação em saúde mental de pacientes geriátricos (Baldaçara et al, 2012). Comorbidades em idosos com transtornos psiquiátricos representam séria preocupação para os serviços de emergência (Baldaçara et al, 2012). Por exemplo, pode ser difícil avaliar a depressão em pacientes devido as comuns comorbidades físicas do paciente e médicos da emergência frequentemente não percebem a depressão nesses pacientes (Baldaçara et al, 2012) A população idosa apresenta grande demanda por atendimento de emergência psiquiátrica da mesma maneira que os adultos jovens.  Assim sendo, todos os serviços de emergência devem estar preparados para atender a população idosa portadora de transtornos psiquiátricos. Uma das discussões relevantes no campo da epidemiologia é a área de envelhecimento e da saúde mental.  É sabido que a síndrome cerebral orgânica e a depressão são dois dos mais importantes distúrbios na comunidade entre aqueles indivíduos da terceira idade. Agitação, agressividade, perda do autocuidado ou comportamento suicida são as principais causas pelas quais os serviços de urgência em psiquiatria ainda são essencialmente necessários (Baldaçara et al, 2012). A análise de pacientes idosos em emergência psiquiátrica oferece a oportunidade de observar o quão representativo é esse grupo nos serviços de emergência, variáveis relacionadas a cada caso e se há um melhor modo para atender esses pacientes. Embora haja escassos dados epidemiológicos sobre o perfil dos idosos atendidos em emergências psiquiátricas. O atendimento a um caso psiquiátrico agudo pode acontecer em casa, no ambulatório, em clínicas de internação, em unidades de emergência psiquiátrica, na unidade de emergência geral e em outros locais ou situações. Depende dos pacientes, políticas e características de cada país. Além disso, a heterogenia e falta de padronização nos modelos de atendimento em emergências psiquiátricas, criação de protocolos e fluxogramas é maior para a população idosa (Baldaçara et al, 2012).

Uma melhor qualidade da atenção ao idoso nos serviços de urgência e emergência é possível com delineamentos criteriosos desses serviços, otimização de recursos e maior acesso a recursos de diagnóstico e tratamento. As doenças físicas estão associadas a aumento risco de suicídio em idosos, condição de emergência psiquiátrica. Um grande número de idosos que cometem suicídio procura profissionais de saúde do setor primário, incluindo departamentos de emergência. Na maioria dos casos a consulta foi focada em complicações físicas sem considerar o diagnóstico psiquiátrico do idoso. Transtornos afetivos em pacientes geriátricos comumente são subnotificados. Uma das maiores causas de tentativa de suicídio são doenças crônicas e degenerativas, dependência física e distúrbios mentais como depressão severa. Há particularidades em emergências psiquiátricas em idosos, delirium, questões relacionadas aos efeitos de medicações, nutricionais e demência inicial, sendo que severo efeito adverso para drogas psicotrópicas são uma das importantes razões para procura em emergência psiquiátrica por pessoas da terceira idade (Thienhaus, 2004).

Fez-se necessário, deste modo, buscar os determinantes das condições de saúde e de vida dos idosos e conhecer as múltiplas facetas da velhice e do processo de envelhecer (Soares et al, 2016) Uma melhor qualidade da atenção ao idoso nos serviços de urgência e emergência é possível com delineamentos criteriosos desses serviços, otimização de recursos e maior acesso a recursos de diagnóstico e tratamento (Soares et al,2016). Ainda conforme os autores citados, o transtorno bipolar, a depressão e o abuso de substâncias estiveram relacionados à conduta de observação, mas não com hospitalização. O delirium aparece como uma causa importante mesmo em um serviço de emergência psiquiátrica. Vê-se como é importante reconhecer o delirium, pois ainda é confundido com outros transtornos psiquiátricos pela comunidade. Há um aumento de taxa de suicídio entre a população idosa (Erlangsen,2003). O que marca o acréscimo do número de suicídio na população idosa é o declínio da mortalidade nesse grupo (Erlangsen et al, 2003).

Vários estudos mostram um alto índice de perdas que levam ao desenvolvimento de doenças físicas e depressão entre a população idosa. Miller (1979) identificou 8 tipos de perdas que estão associadas com aumento da probabilidade de suicídio entre idosos: doenças físicas e mentais, institucionalização, perda do parceiro, isolamento, decepções em amizades, alcoolismo ou uma combinação de todas essas perdas (Erlangsen et al, 2003). Em decorrência do aumento significativo de pessoas acima de 60 anos com transtornos mentais, é necessário conhecer as características destes sujeitos, com o intuito de promover uma melhor assistência em saúde, assim como identificar os possíveis fatores de risco associados à incidência destas doenças (Biasoli, 2015).

DESENVOLVIMENTO

É uma realidade que os idosos necessitam de uma abordagem e um tratamento diferenciado dos demais segmentos da sociedade no âmbito da saúde, respeitando seus direitos, sua autonomia, quando presente e sua liberdade de escolha (Soares et al, 2016). O processo de envelhecimento e sua consequência natural, a velhice, preocupam a humanidade desde o início da civilização. O aumento acentuado do número de idosos trouxe impactos para a sociedade.

Atualmente os serviços de emergência adotam um modelo curativo que visa tratamentos rápidos e estadias curtas. Na gestão do cuidado do idoso com condições crônicas e complexas, essa forma de tratamento não se mostra adequada, esse tipo de demanda necessita de cuidados de saúde que englobam suas necessidades biopsicossociais. Instrumentos de avaliação multidimensional do idoso são considerados, por outro lado, como elemento que pode contribuir para melhoria do cuidado no setor de emergência e no direcionamento das intervenções. Vemos um aumento da população idosa, a qual apresenta múltiplas comorbidades e doenças crônicas , e que recorre ao serviço de emergência, fato esse que corrobora com  a fundamental mudança de paradigma do cuidado (Andrade et al, 2017).

Em virtude de tudo o que foi exposto, a ideia do protocolo e fluxograma para atendimento em emergência psiquiátrica de idosos mostra-se extremamente necessária. Idosos têm necessidades especiais de saúde geral, fatores desencadeantes para desenvolvimento de quadros graves de transtorno mental, como depressão maior grave com ideação suicida. Em face dessas considerações, profissionais de saúde que atendem idosos com graves quadros psiquiátricos precisam além do conhecimento e experiência em saúde mental, ter também conhecimento em saúde global do idoso, avaliação multidimensional dessa população.

Os serviços precisam estar preparados para atender essa demanda, atendendo às suas necessidades de locomoção em geral limitadas, doenças crônicas e agravos inerentes à idade, e com olhar para apoio social e familiar quando existente como fator protetivo e coadjuvante ao bom prognóstico. Os sintomas psiquiátricos comuns também costumam ser camuflados em idosos com doenças crônicas e o próprio processo de envelhecimento com seus estigmas dificulta a identificação por exemplo da depressão no idoso, bem como das perdas de memória decorrentes do desenvolvimento de demências.

O processo de envelhecimento traz muitas perdas de ordem afetiva e social também. Fatores que corroboram com agravamento de quadros psiquiátricos e desenvolvimento dos mesmos. A polifarmácia e os efeitos adversos das medicações, em especial das psicotrópicas influem na procura por serviços de emergência psiquiátrica. Essa população frequenta comumente as emergências psiquiátricas, que de modo geral não são pensadas, preparadas para melhor recebê-la.

Temas tabus, principalmente para essa demanda, não sendo comumente levantados pelos profissionais de saúde, como: uso/abuso de substâncias, ideação suicida, relacionamento afetivo-sexual (que envolve doenças sexualmente transmissíveis – ist) precisam ser considerados pelos profissionais de saúde.  A pessoa na envelhecência é um ser biográfico, e adulto, que precisa ser respeitado na sua condição de cidadão com autonomia e história.

Pensar em um fluxograma de saúde mental com idosos faz-se necessário. Haja visto que o diagnóstico diferencial entre demência e depressão é bastante complexo, ambas apresentam sintomas psiquiátricos (sendo alucinações, delírios os mais comuns), o diagnóstico só pode ser fechado a partir de exames de imagem, que demandam tempo para sua realização e o quadro que se apresenta é de um idoso com sintomas psiquiátricos demandando, portanto, um atendimento emergencial. O estabelecimento de um protocolo e de um fluxograma para atendimento de emergências psiquiátricas com idosos é extremamente relevante para otimização, eficácia do tratamento, facilitando também um bom prognóstico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta desta criação colabora na identificação dessas demandas, ao mesmo tempo em que seria útil para avaliar os desdobramentos e encaminhamentos das mesmas. Um melhor atendimento para esses pacientes seria alcançado.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Luciana Aparecida Soares et al., Cuidados do idoso no setor de emergência: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, 21 (02) • Mar-Apr 2018 .

BALDAÇARA, Leonardo et al., Emergências psiquiátricas nos idosos. Estudo epidemiológico. Arquivos Médicos, São Paulo,v. 57, n.1 jan-abr, 2012..

BIASOLI,Tiago Rodrigo et al.,Perfil dos idosos com transtornos mentais assistidos em ambulatórios do hospital das clínicas da universidade estadual de Campinas. Universidade estadual de Campinas Faculdade de Ciências Médicas , Campinas, 2015.

ERLANGSEN, Annette et al., Differences in Suicide Between the Old and the Oldest Old. Denmark, Journal of Gerontology: SOCIAL SCIENCES ,The Gerontological Society of America, Vol. 58B, No. 5, S314–S32, 2003.

LOPES, Maria Carolina Barbosa Teixeira et al., Fatores associados ao comprometimento funcional de idosos internados no serviço de emergência. Einstein, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 209-214, jun. 2015.

SOARES, Flaviana Dávila de Souza et al ,Características dos atendimentos de idosos realizados em casos de urgência e emergência.Revista Interdisciplinar em Saúde, Cajazeiras, 3 (1): 129-147, jan./mar. 2016.

THIENHAUS, Ole J et al., Assessment of Geriatric Patients in the Psychiatric Emergency Service .Emergency Psychiatry. PSYCHIATRIC SERVICES June Vol.  55   No.  6, 2004.

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Psicóloga clínica, Especializada em saúde mental e atenção psicossocial, Mestranda em ciências da saúde pela Unoeste. ORCID: 0000-0002-6079-221X.

[2] Docente pela Unoeste licenciatura/bacharelado educação física, Mestre em educação, Mestre em fisiologia do exercício. ORCID: 0000-0001-8264-8983.

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Karina Lino Anadão

Psicóloga clínica, Especializada em saúde mental e atenção psicossocial, Mestranda em ciências da saúde pela Unoeste.

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