Fábio Rodrigo Ferreira Gomes [1]
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3307
INTRODUÇÃO
As lutas ou artes marciais são utilizadas na escola de duas formas: A partir de projetos extracurriculares, em que há um especialista da área e que se assemelha às características de academias (com vestimenta, local de prática e com graduação dos alunos), que chamamos de “lutas na escola”; ou dentro do currículo de educação física escolar, em que o professor não tem formação específica de uma modalidade de luta. Neste segundo caso não há graduação de alunos e o objetivo é proporcionar a vivência da manifestação cultural com adaptações ao ambiente escolar. Para essa segunda forma chamamos de “lutas da escola”.
A primeira publicação direcionada a temática das lutas para a Educação Física Escolar entendendo que tal conteúdo deve tratado no arcabouço da linguagem e Cultura corporal foi no livro de Coletivo de Autores (1992) “Metodologia do ensino da Educação Física”. No entanto, com a publicação dos parâmetros curriculares nacionais (PCN) em 1998, foram criadas diretrizes para guiar os educadores por meio da normatização de determinados aspectos fundamentais relativas a cada disciplina. Os PCNs apresentavam a perspectiva da Cultura Corporal, apontando mudanças da abordagem das lutas nas aulas e Educação Física, como os jogos de lutas. Nesse sentido, podiam utilizar as modalidades como pano de fundo, que chamamos de “lutas formais”, ou sem a utilização das modalidades como pano de fundo, as “lutas não formais”, mas especificamente os jogos de lutas. Assim, o currículo do ensino superior começou a ser modificado de maneira mais massificada para aumentar utilização as lutas na Educação Física escolar (BRASIL, 1988).
Com sua criação em 2017 e entrando em vigor em 2018, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que norteia a construção do currículo escolar a partir das aprendizagens consideradas essenciais, trouxe as lutas como “lutas da escola”, a serem desenvolvidas pelo profissional de Educação Física.
Na BNCC segue-se a orientação para uma compreensão por competências e habilidades, a qual devem ser desenvolvidas pelos estudantes durante sua formação.
A Educação Física compõe a área da linguagem juntamente com Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Artes, entendendo que suas atividades acontecem por meio de práticas sociais, intercedidas por diferentes linguagens, como por exemplo: verbal; visual; corporal; sonora; contemporaneamente; e digital.
A Educação Física na BNCC é um é um componente curricular que trata as práticas corporais em seus diferentes signos e demonstrações sociais, sendo entendida na perspectiva expressiva do sujeito. As práticas corporais são tematizadas em suas seis unidades que são abordadas no decorrer do Ensino Fundamental, sendo: Brincadeiras e jogos; Esportes; Ginásticas; Danças; Lutas; Práticas corporais de aventura (BRASIL, 2017).
Em relação as lutas, apresenta seu conteúdo tematizado em duas unidades, nos anos iniciais do ensino fundamental aparecem na unidade “LUTAS”, já nos anos finais a temática “ESPORTE” em um tópico chamado de “Combate”.
Assim, Brasil (2017) pontua que em relação aos anos iniciais do Ensino Fundamental a Luta tem o foco nas disputas corporais, em que os participantes utilizam técnicas, táticas e estratégias para prender (imobilizar), desequilibrar, tocar (atingir) ou excluir o adversário de um determinado espaço, utilizando ações de ataque e defesa dirigidas ao corpo do adversário. Essas lutas podem ser abordadas também em um contexto regional, em que podem ser tratadas as lutas brasileiras (capoeira, huka-huka, luta marajoara etc.), e lutas de diversos lugares do mundo (judô, aikido, jiu-jítsu, muay thai, boxe, chinese boxing, esgrima, kendo etc.).
Esse texto versa sobre a Luta tendo como premissa os jogos e brincadeiras. Dessa forma, apontar os elementos que compõem as lutas, com o objetivo de deixá-las como um conteúdo de fácil organização didática, faz com que o professor de lutas especialista tenha ferramentas para melhorar seu repertório pedagógico, ou para professor de educação física, que deseja cumprir com sua tarefa de proporcionar esse conteúdo para os alunos da educação formal.
JOGOS E BRINCADEIRAS DE LUTA
Esse texto destaca três classificações para criação de jogos e brincadeiras de lutas. Vale ressaltar que não são os únicos, mas foram selecionados pela fácil compreensão e possível implantação.
Sobre “lutas da escola”, conforme os fundamentos técnicos e táticos, de forma com que os jogos e brincadeiras possam ser aplicados com as devidas adaptações, tem-se, conforme Oliveira (2009), os seguintes conceitos:
- Traumatizantes – ato de tocar o oponente com chutes, socos, joelhadas, entre outros;
- Projeções – ato de derrubar o oponente, normalmente de costas no solo;
- Quedas: as diversas formas de se amortecer o impacto e proteger o corpo quando se sofre um desequilíbrio ou projeção de tal maneira que não haja trauma físico maior;
- Desequilibrantes: os ataques ou contra-ataques nos quais busca-se a quebra do desequilíbrio do oponente tirando seu apoio do solo (pernas ou mãos).
- Acrobáticos: os fundamentos aplicados com saltos ou quedas de difícil aplicação e com demonstração de audácia e perícia;
- Imobilização: os fundamentos de técnicas de domínio, normalmente de no solo prendendo o oponente;
- Finalizações: são fundamentos que vão além da imobilização, mas que sugerem desistência do oponente, normalmente com técnicas de restrição articular e estrangulamentos;
- Fintas: as simulações em que se tenta levar vantagem na aplicação das técnicas tentando ludibriar o oponente ameaçando um golpe ou deslocamento e em seguida realizando outro golpe com maior efetividade;
- Bloqueios: as defesas que são feitas com os braços, mãos e pernas contra os fundamentos traumatizantes, desequilibrantes ou de projeção;
- Esquivas: as mudanças de trajetória que se realiza com o corpo na tentativa de se desviar dos fundamentos traumatizantes, desequilibrantes ou de projeção;
- Posturas, Posicionamentos ou Bases: este fundamento se trata das diversas formas de se permanecer parado aguardando o ataque do colega, ou antes, de realizar o seu, bem como as formas de se deslocar em lutas;
GOMES (2008), se inspirando da pedagogia do esporte aplicada aos esportes coletivos e tendo como pano de fundo a busca de princípios condicionais da luta, sendo: contato proposital; fusão ataque e defesa (dual); imprevisibilidade; oponente como alvo; e regras, aponta 3 categorias, sendo:
1 – Elementos de curta distância: relacionadas as lutas com as lutas que mantém um contato contínuo (agarrado no oponente), a qual seu objetivo é dominar, excluir, projetar e, algumas vezes, finalizar (causar a desistência do oponente) que pode ser visualizada predominantemente nas modalidades jiu–jitsu, judô, aikido; sumô; luta olímpica entre outras.
2 – Elementos de média distância: relacionadas as lutas com característica de toque no oponente, em que pode ser atingido pontos específicos do corpo, com a meta de marcar pontos – como no taekwondo, alguns estilos de kung fu e no caratê tradicional – ou com toques contundentes com máxima força, buscando a finalização do oponente com um nocaute – como o boxe, muay thai e o caratê de contato.
3 – Elementos de longa distância: modalidades que aqueles que envolvem o uso algum material ou implemento, de modo geral, armas, como espadas, sabre, florete – na esgrima, shinai – no kendô, espadas, bastões ou outros materiais – no kung fu entre outras modalidades.
Vale reforçar que, uma única modalidade pode apresentar características nas 3 categorias.
Gomes (2008) ainda apresenta um item na classificação chamado FORMA, que são variantes de utilização técnica uma modalidade de combate que pode ser denominada: em japonês katas, em chinês katis e em coreano pounce, que são sequências técnicas pré-estabelecidas simulando um combate, que na maioria das vezes ocorre com um oponente imaginário ou com o oponente (parceiro) fazendo o papel de quem recebe as técnicas de forma combinada e pré-coreografada.
Pensando na aplicabilidade das lutas enquanto jogos, a classificação por distância, abarcam os princípios condicionais das modalidades e dos jogos de oposição de característica dual (atacante e defensor ao mesmo tempo), mas não apresenta de forma clara as outras condições de prática de luta (formas – por meio das sequências pré-coreografadas; autodefesa técnicas para utilização em situação de emergência – em que na aprendizagem essas práticas são de característica combinada ou cooperativa entre os oponentes).
As duas formas acima citadas podem agregar nas variabilidades de atividades dentro das aulas de lutas, em que os alunos exploram outras valências complementares em relação as lutas.
Dessa forma, vale trazer uma classificação de FERREIRA (2008) que classifica os jogos de lutas caracterizando de maneira diferente ao se referir as modalidades ou não, sendo: grandes lutas para as modalidades; pequenas lutas para os jogos e brincadeiras de luta.
Especificamente para as pequenas lutas, o autor criou uma classificação combinando as características de ocorrência de contato e confronto (brincadeiras de lutas diretas; brincadeiras de lutas indiretas; brincadeiras de lutas livres).
- Brincadeiras de Lutas Diretas: brincadeiras de luta em que o contato corporal e o confronto com o outro permanecem durante toda a atividade. Exemplos: jogos de exclusão (como um sumo adaptado), empurrar e puxar para domínio de espaço, ou mesmo, projeções e quedas a partir de jogos de desequilíbrio.
- Brincadeiras de Lutas Indiretas: brincadeiras de luta em que o contato corporal com o outro é breve ou inexistente, porém, ainda ocorre o confronto. Exemplos: roubar o rabo ou o pregador do oponente, cabo de guerra.
- Brincadeiras de Lutas Livres: brincadeiras de luta em que os movimentos são realizados sem característica de confronto, porém pode ou não existir o contato com um parceiro. Exemplos: realizar golpes traumatizantes (socos e chutes) em aparadores bexigas, realização das formas ou kata (podendo ser livres e elaborados pelos próprios alunos), ou mesmo as brincadeiras com o princípio de cooperação em que os parceiros aprendem, ou seja, a realização de técnicas ou princípios de projeção e o parceiro realiza a queda em diferentes intensidades de resistência as ações.
CONSIDERAÇÕES
Observando essas classificações, é necessário destacar que não existe uma verdade absoluta no que se refere ao enquadramento da classificação, mas vale a reflexão entre as similaridades e diferença dessas 3 classificações apontadas, e se pode perceber que de alguma forma elas se complementam. A primeira de FERREIRA (2008) foca nos fundamentos técnicos e táticos, que por si só podem direcionar os jogos e o ensino para o desdobramento das modalidades de luta. Já para GOMES (2008), em que se evidencia os princípios condicionais de um combate, tendo grande aplicabilidade nas modalidades esportivas de combate, percebe-se também que vários dos fundamentos que aparecem na primeira classificação explicada são unificados na condição de contato e imposição de implementos em um combate. E por fim, a terceira classificação de FERREIRA (2008) foca nas brincadeiras e elucida situações estratégicas além do contato entre os lutadores, mas na utilização de situações de confronto ou não, de maneira a diversificar o processo pedagógico de ensino transitando entre jogos competitivos e cooperativos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: Secretaria de Educação Fundamental, MEC/SEF, 1998
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a Base. Brasília, MEC/CONSED/UNDIME, 2017.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da educação física. São Paulo: Cortez Editora. 1992.
FERREIRA E.E.R. Apostila didática de lutas. Piracicaba: Unimep, 2008.
GOMES, Mariana Simões Pimentel. Procedimentos pedagógicos para o ensino das lutas: contextos e possibilidades. Education. Universidade Estadual de Campinas, 2008.
OLIVEIRA, A.L. Jogos/ brincadeiras de lutas: as culturas corporais na formação de professores de educação física. In: COLÓQUIO DE PESQUISA QUALITATIVA EM MOTRICIDADE HUMANA: as lutas no contexto da motricidade, 4.; SIMPÓSIO SOBRE O ENSINO DE GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA: 15 anos do Curso de Educação Física da UFSCar, 3.; SHOTO WORKSHOP, 5., 2009, São Carlos. Anais… São Carlos: UFSCar, 2009. p.148-171. CD ROM.
INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR
[1] Doutorado em Biodinâmica do Movimento Humano pela Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (EEFE-USP). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8414-3209. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/6162015721163492.
Uma resposta
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