Projeto Gênesis de melhoria contínua: Redução de atividade que não agrega valor

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ARTIGO ORIGINAL

PESCALINI, Rodrigo [1], OLIVEIRA, Robson Gonçalves de [2]

PESCALINI, Rodrigo. OLIVEIRA, Robson Gonçalves de. Projeto Gênesis de melhoria contínua: Redução de atividade que não agrega valor. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 09, Vol. 05, pp. 79-84. Setembro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo compreender a atividade de transferência de peças entre quadros na área da Pintura em uma empresa do setor aeronáutico no Brasil na cidade de São José dos Campos – SP e apresentar a melhoria proposta no setor através dos conhecimentos adquiridos na formação prática de coordenadores KPO.

Palavras-chave: Melhoria contínua, produção, pintura.

1. INTRODUÇÃO

Sabe-se que com o aumento da competitividade bem como o surgimento da era digital as empresas se viram obrigadas a se modificarem e aperfeiçoar-se constantemente para manter-se no mercado, a melhoria contínua é essencial para continuidade de uma empresa. No livro ”A maquina que mudou o mundo” de James P. Womack, Daniel T. Jones e Daniel Roos publicado em 1990 que trata de estudos sobre o segmento industrial automobilístico realizado pelo instituto de tecnologia de Massachusetts, podemos ver as principais diferenças entre as industrias ocidentais e japonesas identificando o sucesso desta última em relação a primeira devido aos conceitos utilizados na filosofia Lean, introduzido no pós guerra pela empresa Toyota. É necessário analisar o fluxo com base nos indicadores como Lead Time, Qualidade, Produtividade, Estoque, Segurança e Área ocupada além de transformar pessoas fazendo com que elas participem das atividades práticas, entendam a importância da mudança, que estejam com o foco no trabalho e se comprometam com os objetivos e metas do projeto, rompendo paradigmas e superando desafios para construção de uma nova cultura no ambiente em que atuam.

Na edição de 2004 em Aristóteles vida e obra realizada por Fernanda Cardoso e Eliel Silveira Cunha, podemos observar o pensamento do filosofo grego Aristóteles sobre ”ser enquanto ser” em busca da compreensão do que tornavam as coisas o que elas são.

Aristóteles considera que não basta à ciência ser internamente coerente: ela deve também ser ciência sobre a realidade. Desse modo, não é suficiente que ela parta de axiomas e teses, desenvolvendo-se dedutivamente com rigor lógico. A definição nominal diz apenas o que uma coisa é, mas não afirma que la é, ou seja que realmente existe. Afirmar a existência seria, assim mais do que apresentar uma tese, explorar o significado de uma palavra: seria assumir uma hipótese. Através de hipóteses, cada ciência afirma a existência de certos objetos – que não pode ser feito por demonstrações, antes permanecendo na dependência de uma reflexão sobre o que existe enquanto apenas existe, sobre o ”ser enquanto ser“ (CARDOSO e CUNHA, p. 5, 2004)

Neste sentido as características das coisas apenas nos mostram como as coisas estão, mas não determinam o que elas são, é necessário investigar as condições que fazem as coisas existirem e aquilo que a determinam, partindo deste princípio, não é porque algo é conhecido por natureza que não significa que nunca tenha sido articulado ou descrito por seres humanos e que as vezes é necessário pensar do ”zero” esquecendo tudo que teoricamente determina algo para abrir alternativas de se fazer de forma diferente o que vem sendo feito da mesma forma há anos, isto implica em mudar o status das coisas como estão, aprender e desaprender é essencial para inovar como Tiago Mattos autor do Livro ”Vai lá e Faz” nos explica:

A sua escola ensinou você a aprender? Ensinou você a desaprender? Ensinou você a reaprender? Pois então temos um desafio. Porque, durante treze anos, fomos treinados para pensar de um jeito industrial. Por mais conectado que você se considere, por mais nativo digital que você seja, é muito possível que existam resquícios dessa forma Industrial de pensar. Alvin Toffler disse: os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não souberem ler e escrever. Mas todos que não souberem aprender a desaprender para, então, reaprender. Se você quer mudança, você também tem que estar preparado para mudar. (MATTOS, p. 54, 2017)

2. PROJETO GÊNESIS NA PRÁTICA

Para o desenvolvimento deste trabalho foi utilizado como fonte principal à apostila de Formação Prática de Coordenadores KPO ITMSENSE elaborada pelo instrutor José Augusto Benedito Santos e fontes bibliográficas relevantes ao tema. A atividade de transferência de peças entre quadros na área da Pintura ocorre após o tratamento de superfície das peças produzidas e que necessitam ser pintadas dentro do tempo técnico de acordo com cada tratamento submetido, por exemplo, o máximo de 16 horas entre tratamento de anodização sulfúrico bórica e pintura. Reduzir o lead time entre os processos é fundamental para garantir o atendimento aos requisitos de tempo técnico entre processos determinado por cada cliente. Ambos os processos utilizam a metodologia de preparação das peças na vertical utilizando quadros como suporte na fixação das peças, a primeira etapa de fixação das peças antes do tratamento de superfície e outra após o tratamento de superfície, denominada “transferência de peças entre quadros” onde as peças são transferidas para quadros específicos da Pintura, para que não haja contaminação de tinta nos quadros do Tratamento de Superfície e respectivamente os banhos químicos utilizados para o tratamento superficial das peças. Estas etapas de preparações das peças não agregam valor, mas são necessárias para realização das atividades que agregam valor, no caso o tratamento superficial e pintura das peças. A partir desta observação podemos destacar que uma vez preparadas as peças antes do tratamento de superfície poderíamos ter seguido até o final do processo de pintura sem ter que repetir a etapa de preparação das peças antes da pintura transferindo-as para outros quadros, isto só poderia ocorrer se utilizássemos os mesmos quadros nos dois processos, eliminando a repetição da etapa de preparação das peças.

Como a atividade de transferência de peças entre quadros é praticada há mais de uma década, foi necessário deixar as ideias preconcebidas que determinavam o processo e pensar a partir do zero, tentando entender o porquê não ser possível a utilização dos mesmos quadros nos dois processos, assim nasceu o projeto Gênesis, o que em grego significa Origem.

Em busca da realização de uma melhoria do método de preparação das peças. A partir de uma análise do mapa de valores, foram utilizados os conceitos adquiridos no curso de formação prática de coordenadores KPO da ITMSENSE para introdução de alternativas diversas para planejar, realizar, checar e agir positivamente na construção do projeto idealizado. A proposta foi desenvolver uma moldura de proteção para os quadros utilizados no tratamento de superfície para que os mesmos quadros pudessem ser utilizados durante a pintura com o objetivo eliminar a transferência de peças entre quadros do tratamento de superfície e pintura. Para isso planejamos a realização do mapeamento de fluxo valor (VSM- Value Stream Mapping) da área da Pintura e cronograma para as ações necessárias na execução da proposta.

Foram realizadas coletas de dados de tempos de ciclos de cada um dos 18 elementos identificados nas atividades da Pintura para crono análise. Seguindo o cronograma para implementação do projeto foram testados inúmeros protótipos de proteção para os quadros com as peças tratadas, diversos tipos de materiais e design, até a escolha do protótipo adequado, que possibilitou a reutilização normalmente para novo ciclo tratamento-pintura. Após definição do design e material da proteção foi possível verificar aspectos como durabilidade, custo e praticidade.

O custo é relativamente baixo comparado ao custo do processo atual e com possibilidade de melhorias na confecção das molduras. O material é feito de papelão e altamente resistente no processo, chegando a 20 ciclos sem qualquer tipo de deterioração das molduras. As molduras atendem a utilização mínima diária, que correspondem a cem quadros. A colocação é rápida e prática sendo testados com vários operadores e tipos de peças, permitindo a padronização do processo.

A produção das molduras é realizada por dois fornecedores, um responsável pela fabricação dos moldes e cortes do papelão de acordo com o desenho dos quadros e outro responsável pela costura dos velcros nas extremidades para realizar o fechamento correto impedindo a penetração de tinta nos quadros.

Assim como Sun Tzu nos enumera os cinco elementos da arte da guerra, fizemos inúmeras comparações entre os métodos de transferência de peças entre quadros e proteção dos quadros com as molduras e após vários testes com um modelo definido para constatar a eficiência de proteção contra a contaminação foi implementado em escala industrial as molduras de proteções eliminando a repetitividade da preparação das peças antes de iniciar o processo de pintura.

Agora, eis os cinco elementos da arte da guerra;

I. A medida do espaço;

II. A avaliação das quantidades;

III. As comparações

IV. As chances de vitória.

As medidas do espaço derivam do terreno; as quantidades derivam da medida; as comparações decorrem dos números, e a vitória é o fruto das comparações. (TZU, p. 47, 2007)

Realizamos a medida pelo tempo de saída das peças por quadro do tratamento de superfície até a entrada na cabine de pintura, assim a comparação diária de cinquenta quadros com método de transferência de peças entre quadros e cinquenta quadros com proteção das molduras demonstrou a maior rapidez deste último e redução de horas empregadas nesta atividade necessária, mas que não agrega valor a produto.

3. CONCLUSÃO

Após a implementação do projeto Gênesis no ambiente fabril foi constatado a redução do tempo de processo entre tratamento de superfície e pintura. Eliminando a necessidade de transferência das peças entre quadros, diminuindo a atividade que não agrega valor e substituindo a atividade de limpeza periódica dos quadros realizada por uma empresa terceira, antes necessária, devido à contaminação de tinta nos quadros da pintura.

A redução anual do tempo que não agrega valor por turno com média de transferência diária de 100 quadros, conforme produção atual foi de 1.567 horas de trabalho.

Comparando o primeiro método de trabalho com os custos de limpeza dos quadros com o novo método proposto foi possível reduzir em 70% os custos.

Por fim é possível afirmar que além dos retornos financeiros o projeto Gênesis trouxe ares de mudanças culturais em relação ao tema de melhoria contínua no setor da Pintura. Gerando entusiasmo e criatividade para enxergar além das idéias pré-concebidas.

REFERÊNCIAS

CARDOSO, Fernanda e CUNHA, Eliel Silveira. Aristóteles: Vida e Obra. São Paulo, Editora Nova Cultura, 2004.

JONES, Daniel; Roos Daniel; WOMACK, James. A Máquina que Mudou o Mundo. Editora Campos.

MATTOS, Tiago. Vai lá e Faz. Caxias do Sul, Editora Belas Letras, 2017.

SANTOS, José Augusto Benedito. Formação Prática de Coordenadores KPO. 2017.

TZU, Sun. A Arte da Guerra. Porto Alegre, Editora L&PM, 2007.

[1] Graduado Licenciatura em História.

[2] Cursando Engenharia de Produção.

Enviado: Agosto, 2019.

Aprovado: Setembro, 2019.

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