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Imigração em tempos da Covid-19: a vida em uma ocupação na região metropolitana de Curitiba

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

MACHADO, Juliana de Toledo [1], CHERY, Pierre Narcisse [2]

MACHADO, Juliana de Toledo. CHERY, Pierre Narcisse. Imigração em tempos da Covid-19: a vida em uma ocupação na região metropolitana de Curitiba. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 05, Vol. 03, pp. 40-55. Maio de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencias-sociais/imigracao

RESUMO

A pandemia da COVID-19 se configurou como um evento abrupto e traumático que recaiu sobre toda a sociedade global e, dessa forma, modificou hábitos e costumes de maneira inesperada, o que fez com que os indivíduos fossem forçados a se adaptar aos múltiplos cenários que sofreram mutação. Diante dessa realidade, coloca-se a questão que indaga de que maneira a pandemia da COVID-19 alterou as dinâmicas individuais dentro do espaço urbano, com o objetivo de entender a dimensão e os impactos do fenômeno pandêmico para imigrantes. Para tanto, o presente artigo estuda os processos e mudanças de vida experienciados neste período por imigrantes haitianos e venezuelanos que residem em uma ocupação na Região Metropolitana de Curitiba. Para a coleta dos dados, foram feitas entrevistas semiestruturadas. Verificou-se que as dificuldades já existentes, bem como a demanda por componentes urbanos que garantem o direito à cidade, foram intensificados durante o momento pandêmico e que as realidades econômicas e sociais demonstradas em escala global foram amplamente reproduzidas dentro do microcosmo da ocupação, uma vez que seus moradores experienciaram os medos, o desemprego, a precariedade da mobilidade urbana, a dificuldade de acesso às aulas. Conclui-se que, apesar de o cenário e o estudo das dimensões abordadas nas entrevistas merecerem cada um os devidos aprofundamentos, uma vez que apresentam uma amostra local de um fenômeno global que precisa ser mais bem conhecido, as respostas fornecidas pelos entrevistados demonstraram que a pandemia da COVID-19 alterou as dinâmicas de suas vidas de forma flagrante.

Palavras-chave: Imigração, Direito à cidade, Ocupação, Pandemia da COVID-19.

INTRODUÇÃO

Cada indivíduo vive seu cotidiano em um ritmo próprio e particular. Este ritmo é coerente com os hábitos e costumes gerados pela classe social a qual este indivíduo pertence, com a sua situação econômica e com a sua condição intelectual. Dentro deste universo, o presente artigo destaca o grupo dos imigrantes e refugiados que, a exemplo do que ocorre com os habitantes históricos de determinado lugar, são afetados tanto pelas disparidades já existentes no espaço urbano que ocupam quanto por novos eventos. Um evento abrupto e traumático que recaiu sobre toda a sociedade global foi a pandemia provocada pela COVID-19, evento este que fez com que os hábitos e costumes fossem impactados e alterados de maneira inesperada. Os indivíduos precisaram se adaptar aos múltiplos cenários que sofreram mutação.

Tais mudanças podem ser observadas em ambientes urbanos, educacionais, laborais e tantos outros, ao ponto de Mondelli (2021) afirmar que “as pessoas deverão desenvolver aptidões como autogestão, perspectiva global, resiliência e fluência digital” para que consigam lidar com os impactos da pandemia e da pós pandemia, classificados por Junior, Garcia  e Nascimento (2020) como de alta complexidade, uma vez que, em um mesmo momento, coexistem o luto coletivo, as sequelas da doença, incertezas quanto ao futuro individual e da comunidade. Essa realidade gera ansiedade e compromete a saúde mental. Em países como o Brasil, por exemplo, além das questões diretamente relacionadas com a pandemia, a população têm que lidar com negacionismo, corrupção evidenciada no desvio de recursos que seriam destinados ao enfrentamento da doença, o que desencadeou um verdadeiro caos político.

As cidades tiveram que adotar medidas preventivas e combativas ao vírus, que muitas das vezes enfrentaram a desaprovação de algumas partes da sociedade, além de terem que direcionar recursos (financeiros e humanos, por exemplo), o que culminou em deficiências em outras áreas. Os aspectos apontados correspondem também a uma situação que traz em seu cerne a possibilidade de mudanças relacionais entre as pessoas. Analistas mais otimistas apontam que as relações e o modo de atuar em sociedade podem melhorar diante do aprendizado adquirido em tempos de dificuldades tais como catástrofes, guerras e pandemias. Tal melhoria poder-se-ia extrapolar para a forma como as pessoas interagem com o urbano, ocupam seus espaços e exercem seu direito à cidade (LEFEBVRE, 2016), uma vez que o espaço urbano é o palco no qual a vida acontece e, “onde será possível encontrar a felicidade, ou pelos menos uma vida melhor” (COELHO, 1985, p.15).

Diante do cenário exposto, bem como das perspectivas apontadas, é de se esperar que a sociedade global siga algumas orientações inesperadas pós-pandemia, uma vez que realidades diversas são reveladas e se alteram por completo e, dessa forma, impactam as pessoas  em suas vidas cotidianas, rotineiras. Fato é que a humanidade vive uma lógica do cisne negro, tendo que lidar com os impactos do altamente improvável e impensável até pouco tempo atrás (TALEB, 2011). No caso, o cisne negro é a pandemia provocada pela COVID-19, nome oficial que entra no dicionário do século XXI como fato histórico e como catástrofe.

Durante a pandemia provocada pela COVID-19, o sentido de conviver tem sido alterado e grupos comunitários têm adotado novas formas para que se apoiem e sobrevivam nesse contexto que muda a cada dia, e se torna mais complexo, difícil, por meio da força da solidariedade e da cooperação. Dentro dos espaços urbanos, verificam-se em ocupações e compartimentos o esforço pelo bem-estar coletivo para que as demandas voltadas à melhor gestão urbana e à distribuição de bens pessoais sejam atendidas pelo Poder Público. Este artigo assume que é importante partir do espaço para explicar o social, conforme preconizado por Villaça (2001) e, portanto, busca responder à questão que indaga sobre de que maneira a pandemia da Covid-19 alterou as dinâmicas individuais dentro do espaço urbano, com o objetivo de entender a dimensão e os impactos do fenômeno pandêmico para imigrantes. Para tanto, estuda os processos e mudanças de vida experienciados neste período por imigrantes haitianos e venezuelanos que residem em uma ocupação na Região Metropolitana de Curitiba.

METODOLOGIA

Realizou-se uma pesquisa na literatura para o entendimento acerca do que é pandemia provocada pela COVID-19, bem como para a compreensão de seus impactos sociais, econômicos e relacionados à área da saúde. Uma vez entendido este contexto, buscou-se compreender a realidade migratória, tanto de um ponto de vista histórico, onde a pandemia não era uma realidade, quanto do ponto de vista do período pandêmico, uma vez que, a exemplo do que ocorre com todos os fenômenos e dinâmicas sociais, o processo migratório foi fortemente impactado pela pandemia.

Encerrada a etapa de embasamento teórico, realizou-se um estudo de caso para a compreensão desse cenário e, para tanto, aplicou-se um questionário previamente elaborado pelos autores. As perguntas foram feitas no formato de entrevista presencial semiestruturada, pois foi concedida aos entrevistados a possibilidade de falar livremente sobre os temas perguntados. Tais entrevistas foram realizadas entre os dias seis e dezesseis de novembro de 2021, quando um dos autores do presente artigo visitou as casas de moradores da comunidade Nova Esperança, uma ocupação na região metropolitana de Curitiba. Nesta ocupação – ou comunidade, como os seus moradores preferem –, vivem cerca de 1500 famílias cujos familiares dividem-se entre brasileiros, venezuelanos, cubanos e haitianos.

Devido às dificuldades relativas à pandemia e ao receio que muitas pessoas ainda têm de se aproximarem, foram feitas dezessete entrevistas. A amostra contou com um total de oito venezuelanos e nove haitianos. Num primeiro momento, este aparentou ser um número tímido, mas, na análise das respostas e na confrontação com a realidade observada empiricamente por um dos autores que reside na ocupação, chegou-se à conclusão de que a quantidade de entrevistas foi suficiente para demonstrar a realidade vivenciada por seus habitantes.  Além disso, as entrevistas revelaram a dinâmica de sessenta e uma pessoas, uma vez que os respondentes falaram sobre suas famílias também.

As respostas concedidas pelos entrevistados, bem como a análise de tais dados, serão apresentados na seção “A vida na comunidade”.

Ao todo foram feitas doze perguntas que objetivavam constatar o país de origem dos entrevistados, número de residentes em sua casa (entre crianças e adultos), tempo em que moram na ocupação e as mudanças que experimentaram durante a pandemia. As perguntas realizadas foram listadas no quadro 1:

Quadro 1: Perguntas da entrevista com moradores da ocupação

Item Pergunta
1 Qual é seu país de origem?
2 Quantas pessoas vivem em sua casa?  Quantos adultos e quantas crianças?
3 Há quanto tempo mora na Nova Esperança?
4 As crianças frequentavam a escola antes da pandemia?
5 A escola é longe da sua casa? Como as crianças vão até ela (ônibus, carro, etc)
6 E durante a pandemia, como estudaram?
7 Você e os demais membros da sua família trabalhavam antes da pandemia?
8 Se sim, isso mudou durante a pandemia? (perdeu o emprego ou conseguiu um)
9 O trabalho é perto de sua casa? Como você vai até ele? (ônibus, carro, etc)
10 Você se sentiu protegido do Coronavírus dentro da comunidade? Por quê?
11 Em termos de infraestrutura, você sentiu falta de alguma coisa durante a pandemia? (posto de saúde, políticas públicas, mobilidade, etc.)
12 Houve alguma mudança significativa no seu estilo de vida depois da pandemia? Qual?

Fonte: Os autores (2021).

As perguntas listadas ajudaram a delimitar e entender o universo dos entrevistados e a compreender os processos experienciados por eles durante o período da pandemia.

REALIDADE ECONÔMICA

O relatório “Brasil e o mundo diante da Covid-19 e da crise econômica”, produzido pelo Programa de Educação Tutorial (PET) em Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apontou que a economia do mundo tem vivido o pior momento da história, uma vez que vários países têm registrado a redução do PIB (BOSQUEROLLI et al., 2020).  Tal redução afeta tanto a China, local em que começou a pandemia, quanto os países mais ou menos afetados pelo vírus.

No caso específico da economia brasileira, especialistas esperavam um desempenho no ano de 2020 sensivelmente melhor do que o apresentado em 2019 (GULLO, 2020). No entanto, o que se revelou foi a evidência da fragilidade da atividade econômica frente ao fenômeno pandêmico. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), em relatório apresentado em 2020, apontou que o fechamento tanto de comércio quanto de outros empreendimentos na busca por evitar e combater a contaminação resultou no encerramento das atividades de muitos estabelecimentos e consequente demissão de funcionários e não abertura de novas vagas de emprego (SEBRAE, 2020). Essa informação é relevante para o contexto do presente artigo, uma vez que grande parte dos imigrantes se colocam no mercado de trabalho em micro e pequenas empresas, majoritariamente nos setores de comércio e serviços.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que a indústria, o comércio e o setor de serviços apresentaram no mês de março uma queda de 9,1%, 2.5% e 6.9% respectivamente, o que fez com que a economia do país entrasse em uma recessão técnica, que resultou em uma queda do PIB de 2,5% (BOSQUEROLLI et al., 2020). Ao expandirem o olhar para o mundo, Schneider et al. (2020), ao traçarem um panorama global da economia, explicam a grande projeção do PIB durante a pandemia provocada pela COVID-19 durante o ano de 2020.  Eles afirmam que:

As projeções do Banco Mundial (2020) indicam que os impactos da pandemia da Covid-19 vão reduzir em 5,2% o crescimento econômico global em 2020. Para as economias avançadas a projeção é de queda de 6,1% para os Estados Unidos da América, 9,1% para a Zona do Euro, e 6,1% para o Japão. Entre as economias emergentes a projeção é de retração de 6% para a Rússia e crescimento de 1% para a China. Para a América Latina como um todo o Banco Mundial projeta queda de 7,2%. Com relação ao comércio internacional, a Cepal (2020) estima queda de 17% no acumulado entre janeiro e maio de 2020, em relação ao mesmo período de 2019, e projeta para o ano de 2020 queda de 23% nas exportações da América Latina e Caribe, no valor comercializado. Essa redução reflete a queda das exportações para os Estados Unidos em 22,2%, para a União Europeia, em 14,3%, e para a própria região, em 23,9% (SCHNEIDER et al., 2020, p. 2).

Eventos como guerras, conflitos, crises econômicas, revoluções tecnológicas e mesmo o processo de globalização são vistos por pesquisadores como Gorender (1997) como acontecimentos que, mesmo que sejam traumáticos para a humanidade, resultam em evolução, seja ela econômica, tecnológica ou social. Com a pandemia não foi diferente. Os economistas apontam que ela propiciou o cenário e o desenvolvimento de habilidades necessárias para a formação de uma economia do futuro. As tecnologias desenvolvidas, os diferentes modelos de trabalho, a nova forma de se relacionar em sociedade, de ocupar as cidades e até as mudanças no modo de imigrar e acolher foram e ainda são resultados do momento pandêmico com os quais a humanidade convive e continuará a conviver daqui para frente.

A REALIDADE MIGRATÓRIA

Em discurso proferido em 2018 na Assembleia Geral da ONU, a sua presidente, Maria Fernanda Espinosa, declarou que: “a história da humanidade é uma história de migrações”, não podendo, portanto, um fenômeno ser entendido desvinculado do outro (JORNAL MUNDO LUSÍADA, 2018). Fato é que o fenômeno migratório foi significativo em diversos contextos e momentos históricos, característica que se mantém na atualidade, inclusive nos tempos da pandemia provocada pela COVID-19. Como fenômeno social, os processos migratórios sofreram alterações durante o período pandêmico, uma vez que tiveram que se adequar à nova realidade global. Se por um lado a pandemia reduziu o fluxo das pessoas e mercadorias, por outro, pesquisadores como Brígido e Uebel (2020) enxergam a situação migratória mundial de forma diferente.

Brígido e Uebel (2020) qualificam a crise migratória durante a pandemia como a pior desde a segunda guerra mundial, visto que se “milhões de pessoas têm abandonado suas residências a fim de buscar proteção em outras cidades ou em outros países”, tem-se um problema (BRÍGIDO; UEBEL, 2020, p. 25). Segundo os autores, 30,2 milhões de refugiados foram contabilizados ao final do ano de 2019. Para outras fontes, como Boletim de Economia e Política Internacional (BEPI) e Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a estimativa era que esse número chegaria a 79,5 milhões de pessoas no ano de 2020 (BRÍGIDO; UEBEL, 2020).

O relatório publicado pela Organização Internacional para Migrações (OIM, 2020), em parceria com o Instituto de Política de Migração, apontou, ao reunir certos dados, que a pandemia impactou a mobilidade global. O documento afirmou que houve uma drástica redução da mobilidade humana no ano de 2020. A redução foi motivada pelas medidas restritivas impostas pelos governos. Esse relatório revelou também que a pandemia fomentou uma crise humanitária, pois reduziu as chances de mobilidade de grupos que se mudam por necessidade. Houve também um aumento nas vulnerabilidades socioeconômicas das pessoas que dependiam da mobilidade para sobreviverem e acarretou no aumento da dependência que muitos migrantes já tinham de intermediários e facilitadores, muitas vezes voltados ao contrabando inseguro de pessoas. Percebeu-se que a pandemia potencializou esses problemas que já eram preocupantes.

Para a gestão urbana, a entrada de imigrantes nas cidades se apresenta como um desafio, pois ela precisa estar preparada e ter capacidades instaladas para atender as demandas que se apresentam. Tais grupos tendem a buscar o agrupamento étnico (MASSEY; DENTON, 1988) e a estratificação de lugar (MCAVAY, 2018) na busca por segurança, manutenção cultural, vantagens econômicas e sociais, proteção contra preconceitos, entre outros. A partir deste cenário, o presente artigo buscou entender a realidade, dificuldades e alterações de vida causadas pela pandemia provocada pela COVID-19 em uma comunidade de imigrantes em Campo Magro, região metropolitana de Curitiba. Para a compreensão desse cenário, foram aplicadas entrevistas para a coleta dos dados necessários à elaboração da análise aqui proposta. Os resultados serão apresentados na próxima seção.

A VIDA NA COMUNIDADE

As entrevistas que compuseram o presente artigo foram feitas com moradores da ocupação Nova Esperança, uma antiga fazenda voltada para a reabilitação de dependentes químicos, situada na cidade de Campo Magro, região metropolitana de Curitiba. Após encerrar suas atividades, a fazenda teve suas terras ocupadas pelo Movimento Popular por Moradias (MPM). De acordo com informações coletadas com os dirigentes do MPM, bem como com a liderança da União da Comunidade dos Estudantes e Profissionais Haitianos (UCEPH), vivem na comunidade Nova Esperança, mil e quinhentas famílias, dentre as quais duzentas e vinte e três são de imigrantes. No entanto, não souberam especificar quantas destas famílias são de haitianos, venezuelanos e cubanos. Entre os entrevistados, nove pessoas eram haitianas e oito venezuelanas.

Ao todo, a pesquisa alcançou a realidade de sessenta e uma pessoas, divididas entre crianças e adultos, uma vez que as respostas dadas se referiam ao contexto familiar dos respondentes. No momento da realização da pesquisa uma entrevistada havia se mudado para a ocupação com sua família havia três dias e o entrevistado com maior tempo de residência no local estava lá há dezesseis meses. O tempo médio de residência do total de entrevistados gira em torno de nove meses. Considerando que a pandemia já dura mais de 24 meses, percebeu-se, ao analisar os dados, que apesar da redução da mobilidade apontada pelo relatório da OIM (2020), o movimento migratório ainda persiste. Durante a pesquisa, não foi possível, no entanto, inferir o volume desse movimento em um cenário livre da pandemia.

No que se referiu aos dados escolares, dentro do grupo entrevistado, 58% tinham em suas residências pelo menos uma criança em idade escolar. Destas, 17% interromperam seus estudos durante a pandemia e 83% estudaram remotamente. As causas da interrupção dos estudos das crianças não foram declaradas, mas como a ocupação pode ser considerada como uma amostra do que é vivido em grande parte do país, foi possível considerar que a carência de infraestrutura de rede de internet e de equipamentos (computador, celular ou tablet) fosse um dos causadores. A ausência de ambiente apropriado para o estudo em residências pequenas, realidade de grande parte das crianças pobres em idade escolar, também foi observada na ocupação.

Os próximos dados vão de encontro ao demonstrado na seção sobre economia deste artigo, que discute sobre o fechamento de vagas de trabalho. Entre os entrevistados, 82% relataram que pelo menos um membro da família perdeu o emprego durante a pandemia. Destes, 35% conseguiram um novo emprego. Já 17% não trabalhavam antes da pandemia e isso não mudou no período. No que se referia à mobilidade urbana, o ônibus foi apontado como o meio de transporte mais utilizado pelas crianças para acessarem a escola e pelos adultos para irem ao trabalho. O carro foi classificado como o segundo recurso mais utilizado por ambos os grupos. Esse dado é importante para entender (pelo menos em parte) as respostas fornecidas para as duas perguntas seguintes do questionário, como será demonstrado a seguir.

Constatou-se que 100% dos entrevistados afirmaram que se sentiram seguros durante a pandemia devido aos cuidados individuais adotados, como isolamento, uso de máscara e higienização. A utilização do transporte individual também fez com que se sentissem mais seguros. Tais dados também vão de encontro à próxima pergunta. Foram questionados acerca de qual infraestrutura sentiram falta ou perceberam deficiente durante a pandemia. Do total da amostra, 47% responderam à mobilidade, referindo-se, portanto, ao transporte público e pavimentação. Quanto às grandes mudanças percebidas, 17,6% afirmam que nada mudou, enquanto 11,7% ressaltaram que tudo mudou. Outros 11,7% apontaram que a maior mudança que vivenciaram foi a conscientização sobre práticas de higiene. O total de 52, 9% dos entrevistados colocou as mudanças sociais, econômicas e psicológicas como as mais importantes verificadas no período.

Diante desse cenário, observou-se que 6,1% dos respondentes perceberam a diminuição da possibilidade de passear pela cidade como uma perda significativa sofrida durante a pandemia. Esse dado interessa aos estudos urbanos, uma vez que o lazer se configura como uma forma de apropriação dos espaços e dimensão dos usos desses espaços, pois ajuda a identificar o nível de direito à cidade dos indivíduos.

CONCLUSÃO

A pandemia provocada pela COVID-19 se tornou parte da realidade do mundo e se configura, até os presentes dias, como um grande desafio para governos e indivíduos. Para a gestão urbana o desafio se tornou ainda maior, uma vez que é nas cidades que a vida se manifesta e onde as pessoas trabalham, estudam, consomem, passeiam, se relacionam, ficam doentes e se tratam. Nesse contexto, a gestão urbana precisa atuar e se mostrar detentora de capacidades instaladas para prover meios e infraestrutura adequados para que essas dinâmicas ocorram. O estudo realizado por este artigo trouxe mais questionamentos do que respostas, pois demonstrou que todas as dimensões abordadas (moradia, mobilidade, trabalho, estudo, infraestrutura urbana) precisam e necessitam ainda de um aprofundamento para que se alcance um entendimento maior sobre os impactos da pandemia da Covid-19 na sociedade, principalmente na dimensão que mais demanda de ações da gestão urbana e necessita de políticas públicas e equipamentos urbanos, que é a infraestrutura urbana.

Apesar da necessidade de aprofundamento, as entrevistas realizadas junto aos moradores da ocupação refletiram uma realidade vivenciada por grande parte da população – principalmente a mais carente –, pois demonstrou-se que as novas formas de estudo, a queda no mercado de trabalho, as perdas de emprego, as dificuldades de mobilidade urbana, as mudanças comportamentais da população no que se refere às práticas de higiene e isolamento ainda precisam de respostas para que os seus problemas sejam sanados. Outro ponto importante verificado e que merece ser destacado é o fato de muitos entrevistados terem apontado mudanças sociais, econômicas e mesmo psicológicas como grandes ocorrências no período pandêmico. A delimitação feita por esta pesquisa correspondeu a uma micro representação local de um fenômeno que ocorre globalmente.

Mesmo que tenha sido feito um recorte, o país todo foi e ainda é afetado, em uma perspectiva econômica, pelos efeitos da COVID-19. Entretanto, esses indivíduos não foram afetados apenas do ponto de vista econômico, mas também em uma perspectiva social e afetiva. A forma como esses indivíduos passaram a se relacionar se alterou tanto pelo medo quanto pela impossibilidade do encontro físico, o que deixou sequelas emocionais. Este dado se justifica pelo fato de que as pessoas durante a pandemia passaram a procurar cada vez mais consultórios de psicólogos e psiquiatras para a conquista de um maior bem-estar emocional. Além disso, percebeu-se que o próprio comportamento dos indivíduos foi afetado ao permanecerem tanto tempo isolados de qualquer convívio social externo.

Com isso, assume-se que a pergunta “de que maneira a pandemia da Covid-19 alterou as dinâmicas atuais dentro do espaço urbano?” –  norteadora deste artigo – foi respondida, pois foi demonstrado, ao longo deste artigo, que não apenas as dinâmicas individuais, mas também as relações coletivas foram alteradas pela pandemia. Ou seja, a pandemia provocada pela COVID-19 impactou diretamente a vida das pessoas, pois alterou a maneira como as pessoas estudam, acessam o mercado de trabalho e se deslocam dentro do espaço urbano. Foram afetadas pelo contexto global no qual a humanidade se encontra. Um olhar mais íntimo, demonstrou que a pandemia alterou até mesmo a forma como as pessoas encaram a higiene pessoal e dos ambientes que frequentam, o que para a comunidade Nova Esperança pode se apresentar como um desafio a mais, tendo em vista a precariedade dos serviços de infraestrutura urbana.

Por fim, conclui-se que a realidade vivida pelos imigrantes da ocupação Nova Esperança durante a pandemia da Covid-19 segue a tendência global.  No entanto, deve-se considerar que as questões que já eram motivo de preocupação para este grupo de pessoas se intensificaram, uma vez que, sendo imigrantes, o acesso ao trabalho, escola, mobilidade, lazer – enfim, o direito à cidade, em todas suas manifestações –, que já era mais difícil em tempos de normalidade, tornou-se ainda mais complexo. No entanto, conhecer essa realidade pode ser um ponto de partida para a gestão urbana compreender em maior escala o que foi demonstrado em uma ocupação para, assim, criar políticas públicas e mecanismos capazes de garantir a esses cidadãos o acesso aos seus direitos e garantias fundamentais preconizados pela própria Constituição Federal.

REFERÊNCIAS

BOSQUEROLLI, A. M. et al. Brasil e o mundo diante da Covid-19 e da crise econômica. Curitiba: PET Economia – Universidade Federal do Paraná, 2020.

BRÍGIDO, E.; UEBEL, R. Efeitos da pandemia da COVID-19 nas migrações internacionais para o Mercosul e a União Europeia: aspectos normativos e cenários políticos. Boletim de Economia e Política Internacional, n. 27, p. 37-53, 2020.

COELHO, T. O que é utopia. São Paulo: Brasiliense, 1985.

GORENDER, J. Globalização, tecnologia e relações de trabalho. Estudos Avançados, v. 11, n. 29, p. 311-361, 1997.

GULLO, M. C. A Economia na Pandemia Covid-19: Algumas Considerações/The Economy in Pandemic Covid-19: Some Considerations. Rosa Dos Ventos-Turismo e Hospitalidade, v. 12, n. 3, p. 1-8, 2020.

JORNAL MUNDO LUSÍADA. ONU: A “história da humanidade é uma história de migração”. Jornal Mundo Lusíada, 2018. Disponível em: https://www.mundolusiada.com.br/acontece/onu-a-historia-da-humanidade-e-uma-historia-de-migracao/. Acesso em: 15 out. 2021.

LEFEBVRE, H. O direito à cidade. Trad. Cristina C. Oliveira. Itapevi:  Nebli, 2016.

MASSEY, D. S.; DENTON, N. A. The dimensions of residential segregation. Social Forces, v. 67, n. 2, p. 281-315, 1988.

MCAVAY, H. The ethnoracial context of residential mobility in France: Neighbourhood out‐migration and relocation. Population, Space and Place, v. 24, n. 6, p. 1-16, 2018.

MONDELLI, A. Mudanças e impactos causados pela pandemia da COVID-19.  2021, WTW. Disponível em: https://www.wtwco.com/pt-BR/Insights/2021/01/mudancas-e-impactos-causados-pela-pandemia-da-covid-19. Acesso em: 13 mai. 2022.

OIM. International Organization for Migration. Return and Reintegration Key Highlights 2020. IOM: Geneva, 2020. Disponível em: https://www.iom.int/. Acesso em: 15 out. 2021.

SCHNEIDER, S. et al. Os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre o agronegócio e a alimentação. Estudos Avançados, v. 34, n. 100, p. 167-188, 2020.

SEBRAE. O impacto da pandemia de Coronavírus nos pequenos negócios. Sebrae, 2020. Disponível em: https://bityli.com/Lu0Ew. Acesso em: 16 nov. 2021.

TALEB, N. N. A lógica do cisne negro: o impacto do altamente impensável. Trad. Marcelo Shild. 5ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2011.

VILLAÇA, F J. M. Espaço Intra-Urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel/Fapesp/ Lincoln Institute, 2001.

[1] Doutoranda em Gestão Urbana pelo PPGTU-PUCPR; Mestre em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR; Especialista em História Econômica pela UFJF; Licenciada em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. ORCID: 0000-0002-4509-5619.

[2] Doutorando em formação de professores do programa PPGE-PUCPR, mestre em ensino e gestão universitária da Universidad Católica Santo Domingo (UCSD), licenciado en educacion mencion línguas modernas, integrante do programa PIM (PIM/PMG – CAPES-CNE-Fulbright).  ORCID: 0000-0002-3168-0526.

Enviado: Janeiro, 2022.

Aprovado: Maio, 2022.

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