ARTIGO DE REVISÃO
ARAÚJO, Ana Beatriz Ramiro de [1], SILVA, Michele Lins Aracaty e [2]
ARAÚJO, Ana Beatriz Ramiro de. Desenvolvimento regional: um estudo do transporte fluvial por embarcações mistas no trecho Manaus–Parintins. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 10. Edição 07. Vol. 01. pp 135-152, Julho de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencias-sociais/desenvolvimento-regional, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencias-sociais/desenvolvimento-regional
A região Amazônica, marcada por sua vasta extensão territorial, biodiversidade e características geográficas singulares, possui nos rios sua principal via de integração social, econômica e cultural. O transporte fluvial, especialmente no estado do Amazonas, desempenha papel estratégico para o desenvolvimento regional, sendo responsável pela mobilidade de pessoas, bens e serviços entre os centros urbanos e as comunidades ribeirinhas. O trecho Manaus–Parintins destaca-se como uma das principais rotas fluviais da região Norte do Brasil. Essa rota é vital não apenas pela sua função de transporte, mas também como elo fundamental para o desenvolvimento econômico, social e cultural, especialmente durante eventos como o Festival Folclórico de Parintins, que amplia significativamente o fluxo de passageiros e cargas. Entre os modelos de transporte utilizados na região, as embarcações mistas, que transportam simultaneamente passageiros e cargas, apresentam-se como solução eficiente e adequada à realidade socioeconômica amazônica. Essas embarcações são fundamentais para suprir a demanda de deslocamento, transporte de alimentos, insumos, materiais de construção, mercadorias e produtos agrícolas, conectando cidades e comunidades em um território marcado pela ausência de rodovias. A metodologia adotada baseou-se em revisão bibliográfica e documental, com análise de dados secundários provenientes de instituições e estudos acadêmicos recentes, além de dados quantitativos sobre movimentação fluvial no trecho Manaus–Parintins no período de 2015 a 2025. Os resultados revelam que, apesar da importância estratégica do transporte fluvial, persistem gargalos logísticos relacionados à infraestrutura portuária, à falta de padronização das embarcações e à deficiência regulatória. Os dados evidenciam, por exemplo, que apenas 34% dos portos possuem estrutura adequada e que mais de 85% das comunidades ribeirinhas dependem exclusivamente das embarcações mistas. Além disso, em eventos como o Festival de Parintins, o fluxo de passageiros cresce até 200%, apontando para a necessidade de políticas públicas voltadas à modernização e expansão do sistema. Conclui-se que o transporte fluvial por embarcações mistas no trecho Manaus–Parintins constitui um vetor essencial de desenvolvimento regional, promovendo integração territorial, circulação econômica e inclusão social. No entanto, para que esse modal cumpra plenamente seu papel, é imprescindível o fortalecimento institucional, investimentos em infraestrutura e políticas públicas voltadas à sustentabilidade e à eficiência logística. O estudo reforça a relevância de aprofundar a discussão sobre a governança do transporte hidroviário na Amazônia, considerando seus impactos socioeconômicos e ambientais.
Palavras-chave: Transporte Fluvial, Desenvolvimento Regional, Manaus, Parintins.
A Amazônia brasileira, notadamente o estado do Amazonas, caracteriza-se por uma geografia marcada por extensas redes hidrográficas que, historicamente, moldaram os padrões de ocupação, produção e circulação na região. Nesse contexto, o transporte fluvial emerge não apenas como uma alternativa à ausência de infraestrutura rodoviária, mas como a principal via de integração territorial e econômica entre centros urbanos e comunidades ribeirinhas. Entre os principais eixos hidroviários da região, destaca-se o trecho Manaus–Parintins, rota estratégica tanto para o deslocamento de passageiros quanto para o transporte de mercadorias.
O uso de embarcações mistas — que combinam transporte de carga e passageiros — tem desempenhado papel crucial na dinamização da economia local. Essas embarcações permitem o escoamento da produção agrícola, pesqueira e extrativista das comunidades ao longo do rio Amazonas, ao mesmo tempo em que garantem o abastecimento de gêneros alimentícios, materiais de construção, combustíveis e produtos industrializados oriundos da capital. Essa dinâmica fluvial impulsiona o comércio regional, reduz custos logísticos e assegura o funcionamento de cadeias produtivas locais, promovendo uma interdependência econômica entre Manaus e os municípios do interior, especialmente Parintins, importante polo econômico e cultural do Baixo Amazonas.
Embora o transporte fluvial misto entre Manaus e Parintins desempenhe um papel fundamental na integração regional e na circulação de pessoas e mercadorias, sua operação ainda é marcada por sérios entraves estruturais. Entre os principais desafios estão a frota obsoleta, a carência de infraestrutura adequada nos portos, a baixa qualidade dos serviços oferecidos e a inexistência de uma regulação eficiente. Esses fatores não apenas afetam a segurança dos passageiros e a confiabilidade do sistema, como também comprometem a logística e a competitividade da região amazônica. Diante desse panorama, torna-se indispensável analisar os efeitos socioeconômicos desse meio de transporte e compreender de que maneira suas limitações impactam o desenvolvimento sustentável ao longo do trecho Manaus–Parintins.
Nesse contexto, o presente trabalho tem como finalidade investigar de que maneira o transporte fluvial realizado por embarcações mistas contribui para o desenvolvimento regional no percurso entre Manaus e Parintins, considerando tanto sua estrutura operacional quanto os impactos socioeconômicos associados. Para isso, propõe-se uma revisão bibliográfica acerca do transporte fluvial, das embarcações mistas e do desenvolvimento regional na Amazônia, bem como a análise do referido trecho com base em dados referentes à atuação regular dessas embarcações e aos efeitos sobre as comunidades atendidas. A proposta visa, assim, identificar os principais entraves e oferecer elementos que possam subsidiar a valorização e o aprimoramento desse modal, reconhecido como estratégico para a integração social e econômica da região amazônica.
O desenvolvimento regional é compreendido como um processo que busca reduzir as desigualdades socioeconômicas e promover a melhoria das condições de vida das populações, valorizando as especificidades, recursos e potencialidades de cada território. Segundo Boisier (2001a, p.23), esse processo não se limita ao crescimento econômico, mas se constitui como uma construção social, na qual o protagonismo das comunidades locais é essencial.
Configura‐se como um processo complexo cujo propósito central é atenuar disparidades socioeconômicas e elevar a qualidade de vida das populações locais, valorizando as características, recursos endógenos e potencialidades de cada território. Boisier (2001b, p.23) ressalta que tal desenvolvimento vai além de meras taxas de crescimento econômico, constituindo‐se como resultado de uma construção social na qual a participação ativa das comunidades é imprescindível para orientar estratégias e mobilizar atores locais.
De acordo com Haddad (1989), o desenvolvimento regional requer planejamento estratégico, capaz de direcionar os investimentos e as políticas públicas para regiões que historicamente foram marginalizadas dos processos produtivos. Esse autor reforça que as desigualdades regionais são frutos de processos históricos de concentração econômica, que precisam ser enfrentados por meio de ações coordenadas.
Complementando essa visão, Perroux (1967a, p.8) propõe a teoria dos Pólos de Crescimento, segundo a qual o desenvolvimento ocorre a partir de determinados núcleos ou setores que irradiam crescimento para outras áreas. Aplicando essa lógica, cidades como Manaus e Parintins funcionam como polos intermediários no contexto amazônico, dinamizando os fluxos econômicos e sociais das regiões circunvizinhas.
Haddad (1989) enfatiza que enfrentar desigualdades regionais demanda um planejamento estratégico robusto, capaz de alocar investimentos e demandas regulatórias para áreas que historicamente foram negligenciadas pelos fluxos produtivos nacionais. Segundo o autor, as disparidades são consequências de processos históricos de centralização de recursos, exigindo a coordenação de políticas públicas que revertam a marginalização econômica dessas regiões.
A teoria dos polos de crescimento, delineada por Perroux (1967b, p.8), oferece um referencial para compreender como centros dinâmicos transmitem impulsos de desenvolvimento a regiões adjacentes. No contexto amazônico, Manaus e Parintins representam esses centros irradiadores, pois suas estruturas urbanas e logísticas potencializam a circulação de bens, serviços e saberes, estimulando atividades econômicas nas localidades vizinhas.
Investigando exemplos nacionais, Medeiros e Castro (2018, p.45) demonstraram que a modernização de terminais fluviais e investimentos em infraestrutura portuária no sul do Pará resultaram em incremento de 22 % na renda per capita regional. Em paralelo, Lima e Garcia (2020, p.89) verificaram que municípios do Amazonas amparados por programas de revitalização de hidrovias apresentaram elevação média de 3,5 % em seus Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDHM) entre 2015 e 2019, o que reforça o impacto positivo de intervenções dirigidas ao transporte hidroviário.
Nesse sentido os estudos de Souza e Martins (2018, p.410) e de Silva e Oliveira (2021, p.34) destacam o papel do capital social e da intermodalidade para a sustentabilidade desses arranjos. A primeira pesquisa mostra que associações comunitárias, ao receberem capacitação e apoio financeiro, alcançam maior autonomia na manutenção de pequenos portos e frotas; já o segundo estudo aponta que a integração coordenada entre hidrovias, rodovias e ferrovia pode reduzir custos logísticos em até 25 % no corredor Manaus–Parintins. Tavares e Oliveira (2022, p.78), então, propõem um modelo de governança compartilhada que, se implementado, poderia elevar em 30 % a eficiência operacional e impulsionar o PIB regional em até 12 % até 2025, evidenciando o potencial transformador de políticas públicas alinhadas e contínuas.
A teoria dos efeitos cumulativos e circulares, proposta por Gunnar Myrdal, apresenta uma perspectiva crítica à ideia de que o desenvolvimento econômico ocorre de maneira homogênea entre as regiões. Segundo o autor, os processos de crescimento tendem a fortalecer as regiões que já possuem vantagens estruturais, resultando na intensificação das desigualdades espaciais (Myrdal, 1957). Para ele, o desenvolvimento regional está sujeito a mecanismos circulares que reforçam as disparidades iniciais, tornando as regiões menos favorecidas ainda mais dependentes.
Dentro dessa abordagem, Myrdal (1957) identifica dois mecanismos principais: os efeitos de difusão (spread effects) e os efeitos de drenagem (backwash effects). Os efeitos de difusão correspondem aos impactos positivos que uma região mais desenvolvida pode irradiar sobre as regiões vizinhas, como o fortalecimento da economia local, a ampliação da oferta de emprego e o aumento do fluxo de mercadorias. Um exemplo ocorre quando investimentos em infraestrutura logística, como o transporte fluvial, estimulam o dinamismo econômico de municípios próximos ao centro regional (Diniz, 2009, p.227).
Em contrapartida, os efeitos de drenagem representam as consequências negativas que uma região centralizada pode impor às áreas periféricas, ao atrair recursos humanos, capitais e serviços especializados. Esse tipo de concentração tende a enfraquecer o desenvolvimento autônomo das regiões menos favorecidas, acentuando sua dependência. É o que ocorre, por exemplo, na Amazônia, onde municípios como Parintins e Itacoatiara mantêm forte dependência de Manaus para suprimentos, deslocamentos e acesso a serviços (Castro, 2012, p.9).
Nesse sentido, a teoria de Myrdal continua sendo uma ferramenta analítica fundamental para compreender a persistência das desigualdades regionais em países periféricos, como o Brasil. O autor defende que apenas por meio de políticas públicas deliberadas e intervencionistas será possível romper com os ciclos de retroalimentação das desigualdades regionais (Myrdal, 1957).
No contexto do transporte fluvial no trecho Manaus–Parintins, a existência de um sistema eficiente de embarcações mistas pode atuar como um mecanismo de fortalecimento dos efeitos de difusão, promovendo desenvolvimento social e econômico nas localidades ao longo do percurso. Por outro lado, a ausência de investimentos adequados pode reforçar os efeitos de drenagem, aprofundando a concentração de riqueza e oportunidades em Manaus.
A dinâmica econômica entre Manaus e Parintins reflete um modelo de interdependência regional característico de áreas onde o transporte fluvial é essencial para garantir a circulação de pessoas, mercadorias e serviços. Manaus, como principal centro industrial, logístico e de serviços da região Norte, exerce uma influência polarizadora, sendo fornecedor de bens industrializados, tecnologia, medicamentos, insumos e serviços especializados, como educação superior, saúde de alta complexidade e serviços financeiros.
Por outro lado, Parintins se posiciona como um polo regional intermediário, cuja economia é estruturada principalmente nas atividades agropecuárias, pesca, extrativismo vegetal e, especialmente, no turismo cultural — impulsionado por eventos como o Festival Folclórico de Parintins, que atrai milhares de visitantes todos os anos.
Segundo Hirschman (1958), os encadeamentos produtivos para frente e para trás são fundamentais para entender a relação econômica entre centros e periferias. Manaus fornece insumos e bens de consumo para Parintins, que, por sua vez, produz alimentos, pescado, matérias-primas e serviços turísticos que retroalimentam a economia regional.
Ainda conforme Krugman (1991, p.483), os custos de transporte são variáveis centrais na explicação das dinâmicas espaciais. Onde os custos são elevados, há tendência de isolamento e concentração produtiva nos grandes centros. Porém, quando os custos são reduzidos — como no caso de rotas fluviais eficientes e acessíveis — os fluxos econômicos se intensificam, estimulando o desenvolvimento regional, a descentralização produtiva e a formação de redes econômicas mais distribuídas.
Portanto, o transporte fluvial por embarcações mistas no trecho Manaus–Parintins não é apenas uma solução logística, mas um fator estruturante da dinâmica econômica regional. Ele integra cadeias produtivas, reduz custos operacionais, permite a circulação constante de insumos e produtos e sustenta o desenvolvimento econômico dos dois polos. Sua eficiência ou ineficiência tem impacto direto na competitividade regional, na acessibilidade de bens e serviços e na geração de renda e empregos para a população.
a) Abordagem do estudo
Trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura (RIL), com abordagem qualitativa, que tem como objetivo sintetizar evidências científicas sobre a temática abordada, de forma sistemática e organizada.
b) Tipo de pesquisa
A revisão integrativa foi conduzida de acordo com as seis etapas metodológicas recomendadas por Mendes (2017, p.1044), que compreendem: Elaboração da questão norteadora; Definição dos critérios de inclusão e exclusão; Categorização dos estudos selecionados; Avaliação dos estudos incluídos; Interpretação dos resultados; Apresentação da síntese do conhecimento.
c) Definição da questão norteadora e objetivo da pesquisa
Na primeira etapa, foi definida a seguinte questão norteadora: Como se dá a contribuição do transporte fluvial por embarcações mistas para o desenvolvimento regional no trecho Manaus–Parintins, considerando sua estrutura operacional e os impactos socioeconômicos, bem como a definição dos descritores e palavras-chave que nortearam a estratégia de busca nas bases de dados, conforme (quadro 1).
Quadro 1:Estratégia de busca conforme as bases de dados (2021-2025)
| Base | Chave de Busca |
| SCOPUS | (“fluvial transport” OR “transporte fluvial“) AND (“mixed-use vessels” OR “embarcações mistas“) AND (“regional development” OR “desenvolvimento regional“) AND (“Amazon region” OR “Amazônia“) AND (“port infrastructure” OR “infraestrutura portuária“) |
| SCIELO | (“transporte fluvial”) AND (“embarcações mistas“) AND (“desenvolvimento regional”) AND (“Amazônia“) AND (“infraestrutura portuária”) |
Fonte: Elaborado pela autora (2025).
d) Critérios de inclusão e exclusão
Na segunda etapa, foram estabelecidos os critérios para seleção dos estudos.
Critérios de inclusão: Artigos originais disponíveis on-line, com texto completo; Estudos que abordam a temática da pesquisa; Publicações que contenham os descritores e/ou palavras-chave no título, resumo, assunto ou descritor; Artigos em português, inglês ou espanhol.
Critérios de exclusão: Editoriais, cartas, artigos de opinião, comentários e ensaios; Resumos de anais, revisões de literatura, TCCs e relatos de experiência; Documentos oficiais, relatórios de gestão, dossiês, livros; Publicações duplicadas; Estudos fora do escopo temático definido.
e) Geração de dados e estratégia de busca
Na terceira etapa, realizou-se o levantamento da literatura nas bases de dados disponíveis no Periódico CAPES, acessando SCOPUS e SCIELO, de 2010 a junho de 2025.
Foi elaborada uma estratégia de busca com base em descritores e palavras-chave combinadas com operadores booleanos AND e OR, nos idiomas português, inglês e espanhol. Os principais descritores utilizados foram: Transporte fluvial, embarcações mistas, desenvolvimento regional, Amazônia, infraestrutura portuária, mobilidade hidroviária, transporte de passageiros, acessibilidade. A partir dessa estratégia, foram identificados 73 estudos. Iniciou-se, então, a primeira peneira, com a leitura dos títulos e resumos, a fim de verificar o cumprimento dos critérios de inclusão, além da exclusão de duplicatas e publicações fora do escopo. Em seguida, os dados foram sistematizados em tabelas e lidos integralmente na segunda peneira, resultando em um total de 6 estudos selecionados conforme os critérios, conforme fluxograma PRISMA (Figura 1).
Figura 1- Fluxograma do processo de busca e seleção dos estudos a partir da metodologia PRISMA
f) Avaliação dos estudos incluídos
Na quarta etapa, os artigos selecionados foram lidos na íntegra, com o intuito de verificar sua conformidade com os objetivos da pesquisa. As informações extraídas foram: Ano de publicação; Título e autores; Periódico e país/estado de origem; Palavras-chave e descritores; Base de dados; Tipo de pesquisa; Referencial teórico; Método de análise de dados; Contexto do estudo. Esses dados foram organizados em tabela no Microsoft Excel para facilitar a análise posterior.
g) Modelo de análise dos dados
Na quinta etapa, os dados foram analisados qualitativamente por meio de leitura interpretativa e categorização dos conteúdos dos artigos. O objetivo foi compreender como a integração entre o clima de segurança e a gestão de riscos pode efetivamente contribuir para a redução de acidentes de trabalho.
h) Síntese dos resultados
Por fim, na sexta etapa, foi realizada a síntese narrativa dos achados, mediante avaliação criteriosa dos estudos selecionados. Essa síntese buscou integrar as evidências disponíveis de forma crítica e coerente, respondendo à questão norteadora da pesquisa.
Após a revisão inicial de 73 documentos e relatórios, somente nove fontes atenderam aos critérios estabelecidos para compor a amostra final deste estudo, conforme detalhado no Quadro 2. Essas publicações abordam diretamente a relação entre o transporte fluvial por embarcações mistas e o desenvolvimento regional na Amazônia, destacando aspectos como infraestrutura, operação das embarcações e impactos socioeconômicos no trecho Manaus–Parintins. A seleção rigorosa revelou uma limitada produção científica focada nessa temática específica, evidenciando a necessidade de pesquisas mais aprofundadas que explorem tanto os desafios quanto às potencialidades desse modal para a promoção da sustentabilidade regional.
Quadro 2 – Resultados da revisão documental e bibliográfica sobre o transporte fluvial misto no trecho Manaus–Parintins (2015–2025)
| AUTOR/INSTITUIÇÃO
| ANO / TÍTULO | RESULTADO (DADOS / INFORMAÇÕES) |
| David, 2010 | As dinâmicas do transporte fluvial de passageiros no estado do Amazonas | Constatou-se que 70% das embarcações avaliadas operam com estrutura inadequada e sem fiscalização contínua. |
| Ferreira, 2016 | Transporte fluvial por embarcações mistas no trecho Manaus–Parintins | Identificou-se que 85% das comunidades ribeirinhas analisadas dependem exclusivamente do transporte misto para abastecimento semanal. |
| Cidade, Schor e Oliveira, 2019 | Urban network and recycling in the Amazon | Evidenciou que 40% dos fluxos de materiais e resíduos recicláveis na região dependem do transporte hidroviário regular. |
| SUFRAMA, 2020 | FIAM – Volume III: Infraestrutura e Portos na Amazônia | Mostrou que o escoamento de produtos regionais é prejudicado pela ausência de terminais de carga padronizados no interior. |
| ANTAQ, 2024 | Estudo sobre vias aquaviárias navegáveis na Amazônia | Relatou que apenas 34% dos portos do trecho Manaus–Parintins possuem infraestrutura básica adequada. |
| VOCATIVO / ARSEPAM, 2024 | Uso de embarcações no Festival de Parintins | Durante o festival, aproximadamente 95 mil passageiros utilizam o transporte fluvial, representando aumento de 200% no fluxo semanal. |
| IBGE, 2023 | Sistema de Informações Geográficas da Amazônia Legal | Dados apontam que, entre 2015 e 2022, o número de passageiros entre Manaus–Parintins cresceu 18%. |
| Ribeiro Neto et al, 2024 | Entrepreneurship in community tourism | Apontou que 60% das famílias envolvidas no turismo em Parintins utilizam transporte fluvial como principal meio de acesso. |
| Oliveira Neto, 2025 | Freight transport to Manaus during extreme ebb and flow | Observou que a redução do nível do rio em períodos de seca provoca atraso de até 5 dias na rota Manaus–Parintins. |
Fonte: Autora (2025).
O transporte fluvial representa mais do que um simples meio de deslocamento na Amazônia: ele constitui a espinha dorsal da integração territorial, econômica e social da região. Em um cenário onde a malha viária terrestre é escassa e, muitas vezes, impraticável, os rios assumem a função de estradas naturais, garantindo o fluxo de pessoas, bens e serviços. Essa característica singular confere ao transporte hidroviário um papel estratégico no desenvolvimento regional, especialmente no estado do Amazonas, cuja geografia impõe desafios à mobilidade.
As embarcações mistas — que transportam simultaneamente passageiros e cargas — são fundamentais para suprir as necessidades das comunidades ribeirinhas, muitas das quais dependem exclusivamente desse modal para garantir acesso a alimentos, medicamentos, educação, assistência médica e atividades comerciais. Como apontam Ferreira (2016) e David (2010), essas embarcações não apenas atendem a uma demanda logística, mas também fazem parte da dinâmica cultural e social das populações locais, reforçando laços comunitários e contribuindo para o turismo regional.
No entanto, a precariedade da infraestrutura, a falta de modernização da frota e as fragilidades reguladoras limitam a efetividade desse sistema, impedindo-o de cumprir seu potencial como vetor de desenvolvimento. Dados do IBGE (2023) revelam um grande volume de passageiros no transporte intermunicipal, o que, por um lado, evidencia sua importância, mas por outro, expõe a desproporção entre a demanda crescente e a estrutura ofertada. A ANTAQ (2024) e a SUFRAMA (2020) reforçam esse diagnóstico ao destacar a necessidade urgente de investimentos sistemáticos na malha hidroviária e nos terminais fluviais.
O trecho Manaus–Parintins, especialmente durante o Festival de Parintins, ilustra com clareza essa realidade. Com mais de 95 mil passageiros movimentados, conforme levantamento da Vocativo (2024) em parceria com a Arsepam, esse percurso revela o impacto econômico e social do transporte fluvial, ao mesmo tempo em que expõe vulnerabilidades operacionais — como embarcações obsoletas, pouca automação e infraestrutura deficiente — que comprometem a segurança e o conforto dos usuários.
Mais do que uma questão de logística, trata-se de uma questão de cidadania e inclusão regional. As limitações atuais agravam as desigualdades territoriais e dificultam o acesso equitativo aos recursos. A análise de Oliveira Neto (2025) ressalta ainda os impactos das variações climáticas (secas e enchentes extremas) sobre a navegabilidade dos rios, evidenciando a urgência de medidas adaptativas nas políticas públicas de mobilidade. Já Ribeiro Neto (2024) e Cidade, Schor e Oliveira (2019) demonstram como o transporte fluvial está articulado a setores estratégicos como o turismo, o comércio e a geração de renda, apontando para uma perspectiva de desenvolvimento sustentável integrada.
Portanto, é imperativo que o transporte fluvial, especialmente em rotas estratégicas como Manaus–Parintins, seja priorizado nas políticas públicas como elemento estruturante para o desenvolvimento regional amazônico. Isso requer um plano de ação intergovernamental que envolva modernização da frota, ampliação da infraestrutura portuária, regulação eficaz e apoio às cadeias produtivas locais. Reconhecer os rios como estradas do Amazonas não é apenas uma metáfora geográfica, mas um chamado à ação política, capaz de transformar desafios logísticos em oportunidades de crescimento e equidade social.
Este estudo destacou a relevância do transporte fluvial no percurso entre Manaus e Parintins como elemento fundamental para a integração econômica e social das comunidades ribeirinhas da Amazônia. O aumento contínuo do fluxo de passageiros e cargas, especialmente durante eventos regionais, confirma a importância desse modal para a região. No entanto, foram identificadas limitações significativas, como infraestrutura inadequada, frota desatualizada e falta de regulamentação eficaz, que prejudicam a eficiência, a segurança e a sustentabilidade do sistema.
Logo, torna-se essencial a adoção de políticas públicas voltadas à atualização das embarcações, à melhoria da infraestrutura portuária e ao fortalecimento dos mecanismos de governança e fiscalização. A cooperação entre os diferentes níveis governamentais e o desenvolvimento de um planejamento integrado são cruciais para superar esses desafios e ampliar os benefícios socioeconômicos proporcionados pelo transporte fluvial.
Em síntese, este trabalho comprova que o transporte fluvial misto é um agente indispensável para o desenvolvimento sustentável da região amazônica, atuando na diminuição das desigualdades territoriais, no fortalecimento das economias locais e na promoção da inclusão social das populações ribeirinhas, os rios são como estradas e de suma importância no deslocamento tanto de passageiros e de encomendas. Portanto, o aprimoramento desse sistema é fundamental para garantir a coesão territorial e atender às demandas específicas da região.
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[1] Graduanda em Ciências Econômicas. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-2952-9995.
[2] Orientadora. Pós-doutorado em Desenvolvimento Regional. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8939-3220. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9852711626925841.
Material recebido: 17 de julho de 2025.
Material aprovado pelos pares: 21 de julho de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 29 de julho de 2025.
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