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O fervor pentecostal e a sua relação com a pluralidade religiosa no Brasil

RC: 147014
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/fervor-pentecostal

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

COUTINHO FILHO, Jorge de Souza [1], OLIVEIRA, David Mesquiati de [2]

RIBEIRO, Viviane Pinto Alves. O fervor pentecostal e a sua relação com a pluralidade religiosa no Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 08, Ed. 07, Vol. 05, pp. 127-143. Julho de 2023. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/fervor-pentecostal, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/fervor-pentecostal

RESUMO

Este artigo propõe uma reflexão no que concerne a relação do fervor pentecostal com a pluralidade do campo religioso brasileiro. Motivado por esse desdobramento, utilizamos, sucintamente as informações histórias da formação da pluralidade do campo religioso brasileiro. Nesse contexto, procuramos pontuar, suas principais variantes no que tange as matrizes religiosas indígenas, ibéricas e africanas que, indelevelmente, traçaram as linhas mestras desta pluralidade. Buscamos sinteticamente identificar os efeitos e produções dos importantes aspectos que caracterizam esta relação, para buscar um entendimento claro e embasado nas pesquisas do fenômeno pentecostal no Brasil. O presente texto, aborda os aspectos transformadores da vida religiosa da sociedade brasileira que, impulsionado pela presença do pentecostalismo, reconfigura a paisagem religiosa no Brasil. Enfatizamos as tendencias vinculantes da relação fervor pentecostal com a pluralidade religiosa e finalizamos o artigo, com uma reflexão do crescimento pentecostal, tendo como combustível o fervor pentecostal.

Palavras-chave: Pluralidade, Fervor Pentecostal, Pentecostalismo, Campo Religioso, Relação.

1.  INTRODUÇÃO

O artigo sinaliza alguns aspectos da relação do fervor pentecostal na pluralidade do campo religioso brasileiro, a partir de uma pesquisa bibliográfica. Ressalta a essência do pentecostalismo em sua prática religiosa na dicotomia do fervor pentecostal e da frieza espiritual. A doutrina pentecostal caracteriza o fervor como um catalizador da reação do indivíduo em relação ao que ele considera valioso e útil, produzindo satisfação pessoal, motivação e supervalorização das coisas espirituais, desenvolvendo o misticismo religioso e o interesse exorbitante pelos assuntos religiosos. A predisposição à devoção religiosa, associada à alegria, ao entusiasmo e à disposição de uma entrega incondicional a serviço de um ser superior caracteriza o ser fervoroso.

Para Geertz (1978, p. 109), a perspectiva religiosa difere do senso comum. A lógica da essência do fervor pentecostal é simples, se existir fervor, há desejo e devoção a Deus. Se não existir, inexiste entusiasmo e a vivacidade, ou seja, o indivíduo está vulnerável aos processos degenerativos de suas atividades devocionais a Deus. Em contrapartida, no pentecostalismo, a conduta de frieza espiritual representa a ausência de observância das práticas devocionais normais de um verdadeiro cristão.

Na doutrina pentecostal, o fervor é uma energia que ativa o indivíduo a realizar seus atos com ímpeto. Isso é notado desde a gênesis do pentecostalismo clássico, pontuado em seu rompimento com práticas engessadas e tradicionais do cristianismo histórico, desdobrando-se numa progressão geométrica até a realização dos cultos pentecostais da pós-modernidade. Pode-se observar um imenso golfo entre as práticas pentecostais atuais e o cristianismo tradicional histórico, preso às formalidades e ritos institucionalizados que, segundo Mariano (1999a, p. 190):

Herda a postura de afastamento e rejeição das coisas do mundo diretamente do metodismo e do movimento holiness, do qual se originou. Provém daí as raízes puritanas e pietista do movimento pentecostal. Tal como o puritanismo, para crente pentecostal mostrar- se santificado, ele precisa exteriorizar, por meio de comportamento ensinados e exigidos na comunidade religiosa, que os diferencia da comunidade inclusiva […] para não serem corrompidos pelas coisas, paixões e interesses do mundo, os líderes pentecostais procuram imprimir na conduta do fiel, desde a conversão, normas, tabus e valores morais, usos e costumes de santificação.

Nas denominações pentecostais, o fervor é visto como um comportamento positivo. Ser pentecostal é ser fervoroso. É servir ao ser superior de coração é negar-se a si mesmo em detrimento aos privilégios e prazeres considerados mundanos. No entendimento pentecostal, à luz dos ensinos de Paulo, em especial a partir de interpretações da Epístola aos Romanos 12, 11, que afirma: “sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor”, quanto mais fervor se demonstra, mais perto de Deus se está e mais fervoroso a pessoa fica. Ou seja, os pentecostais atribuem ao individuo a responsabilidade de ser fervoroso. Para Bobsin (1984), no pentecostalismo, o distanciamento entre homem e Deus e a necessidade de intermediários deixam de existir.

O fervor pentecostal reforça o compromisso de romper com o natural, o institucional e sua susceptibilidade ao sobrenatural, ao intangível, porém, absorvível, que direciona a busca de algo valioso na vida. Segundo Wolff (2015, p. 8), “o que convence quem assume ser pentecostal é o testemunho do vivido, que impregna de significado a existência e determina a compreensão da realidade”.

Na ótica pentecostal, a experiência precede a racionalização e a formalização dos conceitos. Na ótica fenomenológica, o fervor pentecostal pode se tornar prejudicial, pois conduz ao fundamentalismo religioso e impulsiona ações irracionais. Mas, o fervor pentecostal tem desenhado um novo significado ao ambiente, à doutrina e aos locais de cultos, através do dimensionamento da manifestação individual da fé que, ativada pela valorização das experiências pessoais, provoca uma aproximação do fiel à realidade abstrata. Oliveira (2012 ,p.623) afirma que o pentecostalismo é um “modo” religioso, um novo modo de se viver e expressar a fé cristã. Por isso, busca-se pavimentar uma estrada com materiais existentes no campo religioso brasileiro que, apesar de uma breve reflexão, possibilita um entendimento mais plausível da relação do fervor pentecostal com a pluralidade religiosa no Brasil.

Problematiza-se os elementos da doutrina pentecostal que, em sua essência e operacionalidade, é caracterizada pela diversidade. Para Abumanssur (2004), a diversidade dos grupos pentecostais é reconhecida até por um observador leigo. Entretanto, em todas as correntes pentecostais, o fervor pentecostal é a tônica de suas reuniões. Um culto pentecostal é conhecido pelo fervor dos seus frequentadores, cujas linhas são traçadas pelos “corinhos de fogo”, “campanhas de oração” específicas e de curas, pregações, leituras bíblicas e capacidade testemunhal de experiências sobrenaturais.

O experiencial distingue-se do racional em especificidade na doutrina pentecostal, que admite a experiência do batismo no Espírito Santo significativa para a experiência religiosa. As reuniões pentecostais assumem uma identidade com as demandas populares. A finalidade é atrair mais seguidores, evocando sempre o proselitismo religioso. Isso adquire um considerável espaço no campo religioso brasileiro caracterizado pelo pluralismo religioso.

O artigo subdivide-se em três seções. A primeira sintetiza a história da pluralidade do campo religioso brasileiro, o que é importante para compreender a interface do fervor religioso pentecostal na pluralidade desse campo. Depois, pontuam-se algumas tendências vinculantes à relação do fervor pentecostal com a pluralidade do campo religioso brasileiro. Por último, descreve-se o crescimento dinâmico do pentecostalismo no Brasil como resultado da relação do fervor pentecostal com a pluralidade religiosa brasileira. Procura-se expor as principais razões que tecem o tecido em constante dinamismo e transformações do contexto pluralista do campo religioso brasileiro.

2.  SINOPSE HISTÓRICA DA PLURALIDADE DO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO

Na verdade, pela escassez de informações substanciais para definição do contexto plural religioso no Brasil, é importante considerar que, antes da chegada dos portugueses, já existiam grupos indígenas diversos com características que envolviam ancestralidade, ritos e culturas distintas. Logo, historicamente, o Brasil é um país plural. A pluralidade religiosa refere-se, pois, aos tipos legal e verídicos de religiões, dissemelhantes, consideravelmente de diversidade religiosa que, hegemonicamente, pressupõe as múltiplas manifestações de cultos e ritos religiosos.

Na história do Brasil, identificam-se vetores característicos que descobrem as raízes do contexto pluralista do campo religioso. Trata-se de um desdobramento antigo que expressa fatores da colonização, insatisfações sociais, inadequações da religião institucionalizada e um engajamento da religião nas atividades políticas. Esses vetores são implicativos e determinantes e ganharam espaço expressivo na sociedade e, dominantemente, geraram uma nova leitura do campo religioso brasileiro.

A sociedade brasileira possui raízes profundas quanto à influência religiosa desde sua formação. A base de sustentação dessa premissa histórica é, inexoravelmente, o palco formado pelos atores formados por três grupos distintos: indígenas habitantes, colonizadores ibéricos e os negros trazidos da África. Dois fatores importantes merecem destaque: os portugueses não estavam preocupados com religião, e sim com o comércio na Índia e com a reforma religiosa na Europa; Portugal demorou enviar padres para fortalecer o catolicismo romano no Brasil.

Com a chegada dos primeiros jesuítas até a sua expulsão, o número de missionários da Companhia de Jesus cresceu de 6 para 474 (CÉSAR, 2000, p. 32). Segundo Carneiro (1988, p.14), os jesuítas queriam recrutar futuros soldados da Companhia de Jesus através da conversão dos indígenas ao cristianismo. Os portugueses negligenciaram a diversidade de etnias indígenas, a presença de degredados e os novos colonos europeus no Brasil.

Em síntese, os primeiros habitantes e colonizadores viveram no Brasil praticando suas próprias tradições, hábitos e conceitos aprendidos em família e com seu povo. Seis anos mais tarde, em 1555, fugindo da perseguição religiosa, os franceses calvinistas chegaram ao Brasil, na região do Rio de Janeiro. Eles eram chamados de huguenotes[3] e foram os fundadores da primeira igreja protestante do Brasil e da América do Sul. Por finalidades econômicas, entre 1539 e 1542, na Capitania de Pernambuco, chegaram os primeiros escravos  negros ao Brasil para a cultura canavieira. “Na verdade, eles vieram de quase todos os recantos da África, de várias nações, tribos e etnias. Calcula-se em cerca de 250 etnias às quais pertenciam os escravos importados do continente africano” (CÉSAR, 2000, p. 41).

De 1630 a 1654, os holandeses chegaram na região Nordeste. Eram cristãos reformados e, em virtude disso, não foram recebidos simpaticamente pelos portugueses católicos, por isso, foram expulsos em 1654. A presença dos holandeses no Nordeste foi muito expressiva.

Para César (2000, p.58), havia uma guerra entre as culturas presentes no Brasil, e a igreja não criou mecanismos para deixar claro a diferença entre o cristianismo e as demais manifestações religiosas das ameríndias e dos negros vindos da África. Criaram-se facilidades para um cristianismo diferente. Segundo Guimarães (2009), os jesuítas, cometeram vários erros no processo educacional em catequisar os indígenas. Facilitaram a assimilação do cristianismo, incorporando conteúdos novos na religiosidade indígena, entretanto, não impediram a associação dos santos cristãos com algumas divindades tupis. O mesmo ocorreu na conversão dos negros africanos ao catolicismo, missão atribuída aos senhores de escravos que abriram brechas significativas, permitindo aos negros africanos formarem um cordão de resistência religiosa. Ao mesmo tempo que aceitavam a fé cristã, atribuíam aos símbolos do cristianismo uma identificação com suas divindades africanas.

Esses fatores fertilizaram sementes para a pluralidade religiosa no campo religioso brasileiro e, indubitavelmente, o espiritualizaram, criando bases para a busca do sobrenatural e experiências transcendentais. Para Carmo (2016, p. 13), “a fé cristã deixa de ser vista como força instituída de uma sociedade consolidadamente cristã, mas força instituinte ou de transformação no seio da multiplicidade”.

O fio condutor que delineia o campo religioso brasileiro caracteriza a intensa miscigenação de culturas e religiões dos povos que constituem as raízes culturais brasileiras. O ambiente espiritual e emocional brasileiro é festivo e aberto aos ritos religiosos, música, costumes, culinária e receptividade. Sobre o fervor pentecostal, Johnson (1964, p. 12) afirma:

A mente natural aceita as tradições sem discuti-las, isto é, sem perguntar que impliquem em dúvidas. Para tal mente, inquirir não é duvidar, mas receber a resposta de uma autoridade respeitada. As crianças perguntam aos pais, os pais aos sacerdotes, os sacerdotes aos livros sagrados. As respostas não representam as opiniões individuais, mas a voz da tradição. Não há campo para debate a menos que as autoridades discordem, ocasião em que a questão deve ser decidida, não segundo os méritos do caso, mas segundo o prestígio de uma autoridade sobre outra.

Para Ávila (2007, p. 63), influenciado pelo pensamento de William James, a experiência religiosa antecede a crença em um ser superior. Ou seja:

Aceita que a fé religiosa dos indivíduos é vulnerável a distorções patológicas e que as religiões se aproveitaram da fragilidade humana e geraram intolerância, mas admite também, que em sua forma positiva e ativa é vital para a obtenção do amadurecimento humano.

Para Weber (2004), a finalidade da religião era satisfazer a necessidade da vida. Numa análise existencial, as pessoas enfrentam eventos que fogem à compreensão humana. Nas sociedades primitivas, isso abria espaço para classifica-los como sobrenaturais, uma ação dos deuses. Esses são alguns aspectos das raízes históricas, culturais e religiosas do campo religioso brasileiro.

3.  FERVOR PENTECOSTAL E A PLURALIDADE DO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO

O cristianismo fixou raízes profundas no Brasil. Porém, sua uniformidade doutrinária paulatinamente foi metamorfoseada, criando novas pertenças religiosas. No Brasil, o avanço tecnológico, resultante da modernidade, tomou conta da mente humana. A globalização gestou a modernidade. Com ela, as facilidades começam a ser assimiladas pela humanidade, os meios de comunicação enraizaram-se e aproximaram as pessoas.

Essas mudanças impactaram os moldes tradicionais das comunidades religiosas e, em grande medida, perpassam a prática religiosa. A modernidade possui algumas características típicas: racionalização, secularização e autonomia das diferentes esferas da vida. Indubitavelmente, ela provoca divisões internas na religião institucionalizada e nas comunidades religiosas tradicionais, criando novas unidades religiosas e ampliando a pluralidade religiosa no mundo e no Brasil.

Com a modernidade, o sujeito autônomo decide sobre si, a força institucional do cristianismo é quebrada, abrindo-se para uma bricolagem de preceitos, ritos e doutrinas, enfatizando uma satisfação interna e experiências sobrenaturais. Logo, o sentimento de realização, alegria, triunfo, satisfação e a produção de um ambiente emocionalista e sentimentalista tomou conta da escolha de um novo seguimento religioso. Para Schultz (2012, p. 31):

A matriz religiosa brasileira tem como principais referências as significações religiosas oriundas do catolicismo, das regiões afro- brasileiras e do espiritismo – além das significações indígenas naquilo que elas têm de influência sobre umbanda, espiritismo e candomblé. Forjada num intrincado e lento processo histórico, essa nebulosa paira sobre o país e não cessa de se repetir, num processo contínuo de ressignificação de seus valores e seus princípios.

No Brasil, há um processo constante de transformação no campo das atividades religiosas. Ofertas religiosas surgem devido à bricolagem, tornando o campo religioso brasileiro complexo e envolvendo o sincretismo religioso. São fortes e significativas as tendências relativas ao fervor pentecostal e à pluralidade religiosa brasileira. Em certo sentido, a pluralidade religiosa serviu de preparação para campo religioso brasileiro para semear o fervor pentecostal. São distintas as tendências vinculantes que potencializam a manifestação do fervor pentecostal no Brasil. Por exemplo, o individualismo fragiliza a religião institucional e possibilita a expressão da fé, capacitando o ser humano a criar sua própria religião, oportunizando novas configurações religiosas (CAROZZI, 1999).

O cristianismo tem como regra de fé as Escrituras Sagradas, e seus seguidores são motivados a crer e dedicar suas vidas ao sobrenatural e ao exercício de obrigações religiosas. A dinâmica da miscigenação entre indígenas, brancos e africanos produziu consequências relevantes quanto ao sincretismo religioso brasileiro. Isso foi gestado por duas vertentes chamadas: hibridização e ressignificação cultural. Essas novas configurações engendram as características de um terreno espiritual dinamizador do fervor pentecostal. As relações entre o fervor pentecostal e a pluralidade religiosa brasileira possibilita a quase unanimidade entre os pesquisadores do pentecostalismo no Brasil a respeito de sua formação e operacionalidade. Por exemplo, Freston (1996) é análogo ao de  Matos (2006, p. 39)

A primeira onda […] trouxe para o país duas igrejas: a Congregação Cristã no Brasil e as Assembleias de Deus. A segunda onda pentecostal ocorreu na década de 50 e início dos anos 60, quando houve uma fragmentação do campo pentecostal e surgiram, entre muitos outros, três grandes grupos: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo e Igreja Pentecostal Deus é Amor, todas voltadas de modo especial para a cura divina. […] coincidiu com o aumento do processo de urbanização do país e o crescimento acelerado das grandes cidades. A terceira onda […] começou no final dos anos 70 e ganhou força na década de 80, com o surgimento das igrejas denominadas “neopentecostais”, com sua forte ênfase na teologia da prosperidade: […] Igreja Universal do Reino de Deus, […] Igreja Internacional da Graça de Deus, […] Igreja Renascer em Cristo, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Paz e Vida, Comunidades Evangélicas e muitas outras.

Para Alencar (2019, p. 55), existiam resíduos “pentecostais” na religiosidade brasileira. A existência humana é como um rio que flui como um sistema diversificado de experiências adquiridas por processos didáticos ou psicológicos. No Brasil, o pentecostalismo floresceu pela sua espontaneidade, estruturas flexíveis e adaptou-se à cultura popular, pluralizando o campo religioso brasileiro. O pentecostalismo é um movimento dinâmico em constantes transformações. A experiência religiosa está intrinsicamente ligada à experiência pessoal, transcendental e à fé individual e coletiva das pessoas. Para Mariano (1999b, p. 107):

O sucesso pentecostal fundamenta-se extensamente no milagre, na magia, na experiencia extática, no transe, no pietismo ou na manipulação da emoção transbordante e desbragada, práticas desprezadas e reprimidas pelas igrejas Católicas e protestante. Oferece magia e catarse para as massas.

As tendências vinculantes do fervor pentecostal na pluralidade do campo religioso brasileiro, em relação aos desdobramentos e às configurações que caracterizam a religiosidade, são o subjetivismo e o sentimento de bem-estar pessoal que permeia a sociedade religiosa brasileira. Essa expressão de emoção fomentada pelo pentecostalismo se torna o combustível do fervor pentecostal. Segundo Corten (1995), o que reúne os crentes pentecostais não é a tradição, mas a vontade de proclamar suas emoções.

Assim, a similaridade da dimensão do cotidiano e cultura, na dinâmica sociorreligiosa do campo religioso brasileiro em sua pluralidade, servindo como motivador à manutenção do fervor pentecostal na vida dos indivíduos, recupera a devoção religiosa individual e coletiva, intensificando a frequência aos templos, a leitura bíblica, o louvor congregacional, o exercício da oração, a vivência e a experiência da fé na obtenção de milagres, bem como as atividades proselitistas em nome da evangelização.

Para Andrade (2009, p. 110), quanto à religiosidade brasileira em sua dimensão teatral, emocional e exteriorização da fé presente em muitas religiões, até mesmo nas denominações protestantes pentecostais, são reproduções de um catolicismo popular festivo, e as festas dos ritos e cultos afro-brasileiros. Esses elementos foram assimilados e compõem as hibridizações religiosas contemporâneas.

4.    O CRESCIMENTO DINÂMICO DO PENTECOSTALISMO NO BRASIL COMO RESULTANTE DA EXPRESSIVA RELAÇÃO DO FERVOR PENTECOSTAL COM A PLURALIDADE RELIGIOSA BRASILEIRA

A formação da pluralidade religiosa brasileira tem como catalizador os processos imigratórios que transformaram tradições, cultos, ritos e criaram uma diversidade de tendências religiosas no país. Com sua diversidade cultural, geográfica e climática, o Brasil cria facilidades e atrai vários povos do planeta. Esses fatores criam facilidades ao imigrante a professarem suas práticas religiosas aqui. A religião institucionalizada rompe as fronteiras do monopólio e conduz-se em caminhos diversificados, desobrigando o indivíduo à obediência cega relativas às tradições e aos ritos da religião institucional, concedendo espaço a uma perspectiva religiosa eivada de emoção, suspense e mistérios. Para Andrade (2009, p. 110): “ao longo dos cinco séculos, o Brasil conheceu em sua história religiosa um processo cíclico em que períodos de maior racionalização da fé se sucederam a períodos de maior influência da dimensão emocional da fé”.

O contexto plural brasileiro abre portas para outros agentes religiosos, mudando a face da prática religiosa. Ao endossar essa realidade, o princípio da laicidade da Constituição Federal de 1988, em seu Art. 5, fortalece a prática religiosa e fragmenta a religião com seus valores, estimulando a pluralidade religiosa. O Brasil abarca uma das maiores comunidades muçulmanas da América Latina e congrega todas as religiões, seitas e credos religiosos existente no mundo (SILVEIRA; SOFIATI, 2014). Indubitavelmente, uma marca nacional é ser um país religioso, e a religiosidade desse povo representa uma experiência viva e relevante. Para Alencar (2007, p. 28): “o Brasil é um bom modelo de miscigenação, e, apesar dos problemas que aconteceram no decorrer de sua formação, o resultado é satisfatório; pelo menos se comparado a outros países como os Estados Unidos da América”.

Quanto ao fervor pentecostal e sua relação com o crescimento dinâmico do

pentecostalismo, ressalta-se que o pentecostalismo veio da América do Norte para o Brasil, em 1910, resultante do avivamento da Rua Azusa. Nessa época, duas vertentes surgiram no Brasil, uma em 1910, com a Congregação Cristã, e a outra com a Igreja Assembleia de Deus, em 1911. Segundo Alencar (2013, p. 33):

As Assembleias de Deus […] são brasileiras não apenas por estarem no Brasil, mas pela forma que nasceram e se consolidaram, transformaram-se em algo com uma especificidade brasileira. […] pelo tempo e espaço que ocupam, elas são o fundamento da matriz pentecostal brasileira. Um pentecostalismo híbrido: que veio dos Estados Unidos, trazido por europeus, e aqui é abrasileirado, gerando um resultado peculiar e único. Nasce, constrói-se e se fortalece a partir – e apesar – da realidade brasileira. Os demais movimentos pentecostais brasileiros nasceram tendo as ADs como referência, seja em progressão, concorrência ou negação.

O pentecostalismo, imbuído do fervor pentecostal, tem promovido mudanças entre os evangélicos históricos tradicionais. O número de novas comunidades religiosas pentecostais e neopentecostais crescem diariamente no Brasil, consolidando a pluralidade do campo religioso brasileiro. A pluralidade do campo religioso brasileiro favorece, em sua com posição                    hibrida e sincrética, um ambiente fertilizador e satisfatório à multiplicação de vertentes pentecostais. Fertiliza, porque, a homilia pentecostal, em sua essência, provoca uma sensação de realização, satisfação e comunhão com o sobrenatural.

Outro fator determinante é o sincretismo religioso, uma marca registrada no Brasil. O sincretismo possibilita que elementos de outras religiões se inter-relacionem constantemente numa determinada religião, mantendo sutilmente a interação entre traços doutrinários religiosos diferentes. Há uma tendência de os brasileiros espiritualizarem os acontecimentos, desde os rituais religiosos até a uma simples partida de futebol, fomentando a percepção que o sobrenatural pode modificar ou influenciar qualquer acontecimento.

O pentecostalismo brasileiro se apresenta sempre crescente, dinâmico e contínuo, em decorrência do flerte da relação do fervor pentecostal com a pluralidade do campo religioso. Para Mariano (1999b), o Brasil se tornará um país evangélico no futuro, porém, com uma dilatada ascendência pentecostal, todavia, diferente do pentecostalismo clássico, mas abrasileirado e sincrético, tragado pela antropofagia brasileira.

O censo de 2010 mostra uma tendencia em progressão geométrica das denominações pentecostais em detrimento de outras religiões e da Igreja Católica. Os dados estatísticos reforçam que o Brasil hoje é o maior país pentecostal do mundo. É preciso considerar que esse processo difuso de crescimento resulta do flerte da relação do fervor pentecostal com o contexto plural da religiosidade brasileira. O fervor pentecostal é atrativo e provoca inicialmente efeitos positivos: sensação de bem-estar, felicidade e coragem, ressignificando a cultura, tradições e elementos da religiosidade. Em alguns cultos pentecostais, algumas manifestações de fervor pentecostal assemelham-se aos cultos afrodescendentes, magias e rituais indígenas. Bittencourt Filho (2003, p. 46) afirma:

Os pentecostais […] reprocessam a religiosidade de origem matriarcal, opondo-lhes sinais valorativos. […] Ao invés de rejeitar esse sistema de crenças do senso comum, discriminam aquilo que pertenceria ao domínio de Deus, e aquilo que se situaria na jurisdição do Diabo […]. Os pentecostais ensejam que a Matriz Religiosa Brasileira permanecerá intacta. Esta seria apenas cuidadosamente realocada num novo esquema religioso.

O fervor pentecostal torna-se um ingrediente ativo na dinâmica do crescimento do pentecostalismo brasileiro. Sua manifestação ultrapassa as expectações humanas e provoca um deslocamento do indivíduo das propostas da religião tradicional. Assim, nas práticas ritualísticas dos cultos pentecostais, fomentado pelo fervor pentecostal, o indivíduo é colocado como instrumento da ação de Deus e não como um produto da manipulação da religião institucionalizada. O fervor pentecostal potencializa a relação divino-humano, que sublima a predisposição pessoal de vencer qualquer tipo de obstáculo: espiritual, emocional ou material, criando resistência emocional de enobrecimento. Para Mariz (1994), isso ajuda o pobre enfrentar a pobreza, os dependentes químicos superarem suas fraquezas e, generalizando, fortalece a autoestima pessoal.

Portanto, a relação do fervor pentecostal com o contexto plural religioso brasileiro

tem dado um status diferente aos fiéis, principalmente quanto a sua devoção religiosa, criando possibilidades de uma interação divino-humano sem a intermediação de símbolos e tradições estáticas e repetitivas. Essa postura vem provocando um crescimento acentuado nos últimos anos.

5.  CONSIDERAÇÃO FINAIS

O fervor pentecostal e sua relação com a pluralidade religiosa no Brasil sustenta um diálogo expressivo na produção de significativas transformações e injunções na religiosidade brasileira. As vertentes históricas da formação da pluralidade do campo religioso brasileiro evidenciam que o fenômeno religioso no Brasil é fruto da diversidade cultural, do ambiente geográfico e do terreno sincrético. Paradoxalmente, isso é impactado por vetores resultantes da fusão de diversas doutrinas, credos e práticas tidas como sobrenaturais, presentes nas diferentes religiões trazidas por outros povos que aqui chegaram e foram sendo absorvidas por osmose, fundamentando-se e consolidando-se com raízes profundas.

Buscou-se delinear as interfaces do fervor pentecostal em sua relação com o contexto plural brasileiro, com o objetivo de dimensionar a influência do pentecostalismo e sua operacionalidade, estimulado por reuniões, rituais e cultos fervorosos, impactando indivíduos e os atraindo ao movimento. Sem dúvida, objetivando sempre a satisfação pessoal, o senso de realização e promovendo a experiências individuais de curas, milagres e o enrijecimento da devoção pessoal. Procuramos esclarecer que o entendimento desses desdobramentos se deu num ambiente plural e sincrético do campo religioso brasileiro.

Portanto, o pentecostalismo está arraigado ao fervor pentecostal e tem se afilado à cultura brasileira, modificando o comportamento social dos indivíduos e redesenhando o campo religioso brasileiro. Forma-se, pois, um aspecto complexo e diferenciador em relação à prática religiosa e à devoção pessoal.

REFERÊNCIAS

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SILVEIRA, Emerson J. S.; SOFIATI, Flávio M. Novas leituras do campo religioso brasileiro. São Paulo: Ideias & Letras, 2014.

SOUZA, Felipe A. Huguenotes, ingleses, abacaxis: associativismo abolicionista e escravizados nas rotas de fuga entre Pernambuco e Ceará na década de 1880. Revista Topoi, Rio de Janeiro, v. 23, n. 50, p. 408-431, 2022.

WEBER, Max. A éticas protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

WOLFF, Elias. Editorial. Caminhos de Diálogo, Brasília, v. 3, n. 4, p. 7-9, 2015.

APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ

3. Eram os protestantes franceses durante as guerras religiosas na França, na segunda metade do século XVI. Segundo Souza (2022), Termo empregado pelos abolicionistas para ocultar a identidade de pessoas escravizadas que fugiram do cativeiro por certas rotas de fuga entre a Zona da Mata, em Pernambuco, o Recife e os quilombos abolicionistas situados no Ceará. Para mais informações sobre o tema, leia o artigo na íntegra .

[1] Pós – graduação em Psicopedagogia (UFRRJ); Graduação em Pedagogia (Fundação Educacional Souza Marques) e Bacharel em Teologia (Instituto Bíblico Ebenézer) e Mestrando Profissional em Ciências das Religiões. ORCID: orcid.org/0009-0009-5157-549X. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1594330174981289.

[2] Orientador. Pós-doutorado em Teologia no PPGT do Princeton Theological Seminary (PTS, EUA), no PPGT da PUC-Rio e no PPGT da Faculdades EST. É doutor em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio (2013), Mestre em Teologia Prática pelas Faculdades EST (2010), Bacharel em Teologia também pela EST (2008), Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (2001), Licenciatura em História pela FAEL (2021), Pós-graduado em Educação pelo Claretiano (2013). ORCID: 0000-0002-5091-9563.

Enviado: 22 de junho, 2023.

Aprovado: 11 de julho, 2023.

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Jorge de Souza Coutinho Filho

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