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O Caminho para a Casa do Pai: Um Breve Comentário de João 14.1-14

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O Caminho para a Casa do Pai: Um Breve Comentário de João 14.1-14
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AMORIM, Ramon Augusto [1]

AMORIM, Ramon Augusto. O Caminho para a Casa do Pai: Um Breve Comentário de João 14.1-14. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 06, Vol. 06, pp. 28-40, Junho de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

Este breve comentário tem a intenção de apresentar algumas das implicações de uma das partes mais conhecidas do discurso de despedida do Senhor Jesus, conforme retratado pelo evangelista João. O foco é a análise de João 14.1-14, levando em consideração a divisão natural do texto, algumas implicações gramaticais e as indicações do contexto.  Seu objetivo principal é ser uma ferramenta para servir àqueles que buscam compreender o texto em questão e evangelizar os que, porventura, tenham se interessado em conhecer o Senhor Jesus. Apesar de tratar de questões profundas e fundamentais à fé, a sua linguagem é simples, possibilitando que até o mais despretensioso leitor compreenda sua mensagem. Foram consultados autores como Donald A. Carson, John F. MacArthur e Frederick F. Bruce. As citações bíblicas, salvo indicação em contrário, são da Nova Versão Internacional (NVI).

Palavras-chave: João 14, A Casa do Pai, Jesus Cristo.

Introdução

Os eventos narrados no entorno de João 14 ocorrem no final da última semana do ministério terreno do Senhor Jesus, quando ele se reúne com seus discípulos pela última vez antes de sua paixão, morte e ressurreição. No início desta mesma semana, o Senhor havia chegado a Jerusalém com seus discípulos para a comemoração das festividades da Páscoa. Ele chegou montado em um jumentinho e nessa ocasião foi ovacionado pela multidão, que dava testemunho de ser ele o rei de Israel, o descendente de Davi. Isso está narrado nos versículos 12 a 16 do capítulo 12.

Na noite de uma quinta-feira sem precedentes na história humana, o Senhor discursa aos seus, algum tempo antes de experimentar momentos de profunda agonia e dor. Nas próximas horas, ele iria ser traído, abandonado pelos seus discípulos e negado por um de seus melhores amigos; ele seria julgado ilegalmente e condenado injustamente a cusparadas e chicotadas, ao escárnio e à morte. Sabendo o destino que lhe aguardava, o Senhor Jesus se angustiou profundamente, como revelam os versículos 27 do capítulo 12 e 21 do capítulo 13. Ainda assim, demonstrou profundo amor e sincero afeto por aqueles a quem o Pai lhe dera, como mostra o início da narrativa dessa reunião, que acontece no versículo 1 do capítulo 13, que diz: “[…] sabendo Jesus que era chegada a sua hora […] tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”.

Reunidos no cenáculo, naquela reunião de despedida, o Senhor Jesus despiu-se e humilhou-se, lavando os pés de seus discípulos, inclusive os de Judas. Isso simbolizava a limpeza espiritual que ele traria ao derramar o seu sangue, o precioso sangue do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Após, o Senhor Jesus afastou de entre eles o traidor, o que aconteceu assim que Satanás tomou o corpo de Judas Iscariotes (13.21-30). E sem a presença deste, o Senhor Jesus passou a confortar os restantes com suas últimas palavras antes de morrer, demonstrando que, após sua partida, eles deveriam, acima de tudo, demonstrar amor uns pelos outros. Isso está nos versículos 31 a 35 do capítulo 13[2].

Os discípulos, ou apóstolos, demonstravam profunda angústia, medo e desespero. Isso fica mais em evidência quando o Senhor Jesus lhes fala claramente que ele iria deixá-los, partindo para o Pai, sem que eles pudessem segui-lo (13.33-36). A angústia, o medo e o desespero dos apóstolos aumentaram ainda mais diante da palavra que Jesus dissera a Pedro, isto é, que ele o negaria não menos que três vezes antes do cantar do galo.

É possível imaginar a angústia, o medo e ansiedade dos discípulos ao saber que, após três anos de companhia, o Senhor Jesus estava prestes a abandoná-los. Talvez eles tenham dito: “Mas, Senhor, nós deixamos tudo para te seguir e agora o Senhor está nos abandonando?!”

Em resposta à angústia e ao desespero dos discípulos, o Senhor Jesus dá continuidade à sua série de discursos que vai até o final do capítulo 16. “O propósito prático naquela noite, naquele momento, era diminuir ansiedade dos discípulos”[3]. Esta parte do discurso, o capítulo 14, até o versículo 14, tem sido dividida de diversas formas. Eu gostaria de seguir a divisão que parece mais natural ao texto, que o fragmenta em três: a primeira parte, que mostra o caminho para a casa do Pai, do versículo 1 ao 7; a segunda, que mostra que o Pai é visto no Filho, do versículo 8 ao 11; e a terceira, que é um estímulo ao trabalho e à oração, do versículo 12 ao 14[4].

1. O caminho para a casa do pai

Quando o quadro de confusão, preocupação e desespero em que os discípulos estavam e a angústia do próprio Senhor Jesus são colocados em evidência, é possível enxergar a beleza com a qual ele se dirige aos seus. Em vez de exigir apoio em face da angústia da cruz, o Senhor apoia, conforta e instrui seus discípulos, revelando a profundidade de seu amor[5]. Afinal de contas, o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em favor de muitos (Mateus 20.26-28). Ainda que ele próprio estivesse angustiado, seu sincero afeto fora demonstrado aos discípulos quando ele se dirige a eles com as palavras de conforto dos primeiros versículos: “Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim” (v. 1). Suas palavras serviriam de consolo para os discípulos e faziam referência à fé porque somente a fé em Jesus Cristo pode acalmar um coração aflito e perturbado[6]. Existe uma discussão interessante sobre a tradução do verbo crer[7] aqui neste versículo. Duas coisas são inquestionáveis: primeiro, há várias maneiras de traduzi-lo; segundo, é impossível definir gramaticalmente qual a maneira pretendida por João ao escrever. Sem entrar no mérito da discussão, gostaria de adotar aqui a posição de que as duas ocorrências são imperativas, como bem traduziu a Nova Versão Internacional (NVI): “Creiam em Deus; creiam também em mim”. Isto é, os discípulos deveriam continuar descansando em Deus, crendo nele, firmando-se cada vez mais nele, e, obvia e consequentemente também em Jesus Cristo, porque ele jamais os havia abandonado e não seria neste momento de angústia que ele o faria. Jesus Iria deixá-los, é verdade. Mais deixaria com eles o seu amor, a sua alegria (15.11) e a sua paz (14.27)[8].

Como base para consolar o coração dos seus, o Senhor Jesus faz duas coisas. Primeiro, ele apresenta uma realidade. Depois, ele faz uma promessa a respeito desta realidade. A realidade é a Casa do Pai e a promessa é que os discípulos teriam um lugar garantido para ficar nesta casa. Ele diz: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar para vocês” (v. 2). A palavra morada[9], como acontece aqui do versículo 2, ocorre apenas uma outra vez Novo Testamento. E ela está no versículo 23. O seu sentido mais comum é de “um lugar para ficar”, e havendo vários lugares como este em uma casa, quartos, cômodos, ou mesmo apartamentos são traduções bem naturais[10]. Estes lugares para ficar, disponíveis apenas para os seguidores de Jesus, se encontram na Casa do Pai.

Agora, o que e onde seria a casa do Pai? Em 2.16 “a casa de meu Pai” é o templo de Jerusalém. Obviamente, levando em consideração o contexto e a própria construção do discurso de Jesus, aqui não há referência ao templo, ou a qualquer lugar aqui na terra. A casa do Pai é o lugar prometido ao longo de toda a Escritura como o destino daqueles que creram em Jesus e, pela fé, receberam dele a remissão dos pecados, tendo se comprometido a segui-lo por todos os dias da vida. A Casa do Pai tem espaço mais que suficiente para todos estes[11].

Infelizmente, a mensagem que geralmente ouvimos hoje trazem conceitos errôneos sobre o que é o céu. Ao invés de ouvirmos que a Casa do Pai diz respeito ao gozo de estarmos transformados e na presença de Jesus, o enfoque principal tem sido, muitas vezes, naquilo que teoricamente os crentes irão receber ali. Para muitos o céu é uma espécie de parque de diversões paradisíaco com variedade indizível de prazeres infinitos. Em suma, muitos acreditam que a casa do Pai é uma terra do prazer, como a Terra do Nunca ou a Disneylândia. Não pode haver maior absurdo. Toda esta ideia é uma maneira simplesmente humana e carnal de considerar a eternidade. Não é isso que as Escrituras ensinam.

Não é preciso muito esforço para notar que ao falar sobre a Casa do Pai, o Senhor Jesus não está preocupado em demonstrar a beleza ou a qualidade de seus quartos. O texto diz: “E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver” (v. 3). Sua intenção é mostrar que, na casa do Pai, em tempo oportuno, os discípulos poderiam desfrutar novamente de sua gloriosa presença. Na verdade, no início desta mesma semana ele já havia dito que seus servos teriam o privilégio de segui-lo e desfrutar de sua companhia (12.26). Deste modo, seria ele mesmo quem os transportaria pessoalmente para a Casa do Pai.

Os discípulos ficaram preocupados quando Jesus falou que iria partir para o Pai. Aqui, o Senhor mostra que não haveria motivos para tal preocupação, porque no final das contas eles seriam grandemente beneficiados com esta partida. O motivo de sua partida era preparar-lhes um lugar. Após, ele voltaria para se reencontrar novamente e para levá-los consigo para que desfrutem para sempre de sua companhia[12]. Este reencontro é descrito como o momento em que o Senhor descerá dos céus para reunir os crentes vivos, não sem antes ressuscitar os crentes mortos, por meio de um arrebatamento sobrenatural, a consumação da comunhão entre o Senhor e aqueles que lhe pertencem. Há evidências desse acontecimento magnífico em 1Coríntios 15.51-54 e 1Tessalonicenses 4.13-18. Todavia, é importante lembrar que, ainda que a referência do Senhor aqui seja ao seu retorno sobrenatural, para o crente, a própria morte é encontrar-se com o Senhor na Casa do Pai, como atestam 2Coríntios 5.8 que diz: “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (ARA); e Filipenses 1.23: “[…] tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (ARA).

Após mostrar que a beleza da Casa do Pai está em sua presença para sempre, o Senhor Jesus faz uma afirmação que deixa os discípulos, principalmente Tomé, um tanto quanto confusos. Ele diz: “Vocês conhecem o caminho para onde vou” (v. 4). É bem verdade que muitos manuscritos da Bíblia trazem um texto um pouco maior aqui. Nas versões em português, a que melhor transmite esta situação é a Almeida Revista e Corrigida (ARC), que aqui diz: “Mesmo vós sabeis para onde vou e conheceis o caminho”. Quase todos os manuscritos mais antigos, exceto um[13], trazem o texto reduzido. O sentido do texto mais longo é importante[14], porque constrói o caminho para a próxima pergunta de Tomé de maneira mais suave: “Senhor não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho?” (v. 5). Em outras palavras, é como se o Senhor dissesse: “Vocês conhecem o caminho. Portanto, não precisam conhecer o destino”. Ao que Tomé responde: “Um momento, Senhor. Isso não faz sentido. Se não sabemos qual é o destino, como podemos conhecer o caminho?”

Respondendo à pergunta de Tomé, Jesus se utiliza de sua sexta afirmação “Eu Sou”[15] no Evangelho de João. Ele diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (v. 6). Jesus é a única via de acesso a Deus. Sua exclusividade quanto a este propósito é indiscutível. Existe um único caminho para a Casa do Pai e seu nome é Jesus Cristo.

Ele é o exclusivo caminho porque somente ele é a Palavra encarnada, a revelação do próprio Deus, como João disse no capítulo 1. Deus não tem outro meio de mostrar-se ao ser humano a não ser por sua Palavra, escrita ou encarnada. Logo, a raça humana só pode achegar-se a Deus por meio do Verbo, “que se tornou carne e habitou entre nós” (1.14 – ARA).

Jesus não é apenas o caminho para a casa do Pai. Ele é a verdade de Deus, sua completa revelação, a plenitude da Divindade, a imagem do Deus invisível. Ele é “o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 João 5.20), manifestada para se entregar “pela vida no mundo” (6.51).

Um dos mais belos comentários sobre este trecho é o escrito por Tomás de Kempis, em sua obra Imitação de Cristo, do século XV, que diz:

Sigam-me. Eu sou o caminho e a verdade e a vida. Não é possível andar fora do caminho, não é possível conhecer fora da verdade, não é possível viver fora da vida. Eu sou o caminho pelo qual vocês devem andar; a verdade na qual vocês devem crer; a vida na qual vocês devem pôr sua esperança. Eu sou o caminho inerrante, a verdade infalível, a vida infindável. Eu sou o caminho reto, a verdade absoluta, a vida verdadeira, bendita, não-criada. Se vocês permanecerem no meu caminho conhecerão a verdade, e a verdade os libertará, e tomarão posse da vida eterna.[16]

Chegar à presença de Deus por meio de Jesus Cristo é a única maneira de conhecê-lo de verdade[17]. É exatamente isso que Jesus diz a seguir: “Se vocês realmente me conhecessem, conheceriam também o meu Pai. Já agora vocês o conhecem e o têm visto” (v. 7). O que Jesus quer dizer com estas palavras é que os discípulos chegaram ao conhecimento do Pai e que isso só lhes fora possível porque eles conheceram o Filho. A realidade clara disso é que, no Filho, eles estavam tendo um relacionamento direto com o Pai. Além do mais, ainda que eles tivessem conhecido o Pai nos três anos anteriores por meio de seu relacionamento ministerial com Cristo, o conheceriam ainda mais por meio da morte sacrificial e da ressurreição do Senhor[18].

2. A relação indivisível entre o filho e o pai

Após a apresentação do caminho para a casa do Pai, Tomé sai de cena e, agora, Filipe passa a dialogar com o Senhor. Filipe se mostrou um tanto quanto ignorante ou até inocente diante das afirmações anteriores de Jesus. O Senhor havia claramente exposto qual o nível de seu relacionamento com o Pai ao dizer que conhecer o Filho significaria também conhecer a Deus, que de outra forma seria inacessível[19]. Seja por ignorância ou por inocência, o pedido de Filipe deu ocasião para que Jesus explicasse com clareza ainda maior a profundidade de seu elo com o Pai. Filipe pediu: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (v. 8).

Jesus responde ao pedido de Filipe mostrando uma verdade que é contínua no Evangelho joanino: o relacionamento indivisível entre o Filho e o Pai. Em 1.18, João diz: “Ninguém jamais viu a Deus: O Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Em 5.36, encontramos Jesus dizendo: “Eu tenho um testemunho maior que o de João; a própria obra que o Pai me deu para concluir, e que estou realizando, testemunha que o Pai me enviou”. Em 8.38, ele diz: “Eu estou dizendo o que vi na presença do Pai”. Em 10.15, ele diz: “Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a vida pelas ovelhas”.  Em 10.30: “Eu e o Pai somos um”. Em 10.38: “[…] para que possam saber e entender que o Pai está em mim, e eu no Pai”. Em 16.15: “Tudo que pertence ao Pai é meu”. Em 16.28: “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai”. Em 17.11: “Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um”. E em 17.21: “Pai, que todos sejam um, como tu estás em mi e eu em ti”. Aqui está uma infinidade de textos apenas do Evangelho de João que poderiam ser utilizados pelo Senhor para lembrar Filipe que ele já conhecia o Pai e que, portanto, seu pedido já havia sido atendido.

Reafirmando esta verdade o Senhor Jesus diz: “Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Você não crê que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (vv. 9-10b). Os questionamentos de Jesus são, obviamente, todos retóricos e não exigiam uma resposta de Filipe. A prova que Jesus apresenta para mostrar que ele é o Pai são unânimes em um só propósito é incontestável: Ele falava e fazia o que o Pai queria que ele falasse e fizesse. Ele diz assim: “As palavras que eu digo não são apenas minhas. Ao contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando a sua obra. Creiam em mim quando digo que estou no Pai e que o Pai está em mim; ou pelo menos creiam por causa das mesmas obras” (v. 10b-11).

Os discípulos, como atesta a colocação de Filipe mesmo diante de toda a revelação anterior de Jesus, eram muito tardios em compreender muitas verdades expostas pelo Senhor. Todavia, como é possível notar em seu testemunho posterior, eles não demonstravam dificuldades em crer e anunciar tais verdades, uma vez que elas haviam sido compreendidas. Mesmo que no início eles tiveram dificuldades para compreender a doutrina bíblica da trindade conforme exposta por Jesus, posteriormente, eles a anunciaram direta e indiretamente em seus ministérios. Veja como exemplos os seguintes textos: Romanos 8.14-17; 15.16,30; 1Coríntios 2.10-16; 6.11,14,15,19,20; 12.4-6; 2Coríntios 1.21-22; 13.13; Efésios 1.3-14; 4.4-6; 2Tessalonicenses; Tito 3.4-6; 1Pedro 1.1-2; Judas 1.20-21.

3. Um estímulo ao trabalho e à oração

Após falar que ele iria para a Casa do Pai, que iria preparar-lhes lugar, e que, quando chegasse o momento oportuno, ele retornaria para levá-los consigo; após falar que ele é o único caminho para o Pai, principalmente porque ele e o Pai são apenas um, o Senhor Jesus diz que outro grande benefício de sua partida estaria no fato de que seus discípulos seriam habilitados para continuar o ministério que ele começou, fazendo, inclusive, obras maiores que as dele. O texto diz: “Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai” (v. 12). Em 5.2, após curar o paralítico no tanque de Betesda, o Senhor Jesus disse que ele mesmo faria obras maiores do que aquela. Agora os discípulos recebem a promessa de que eles fariam obras maiores do que as que Jesus havia feito.

Obviamente, Jesus não está falando que seus discípulos teriam mais poderes do que ele, mas realizariam obras maiores em extensão e em alcance. O foco aqui é claro. Jesus não se refere somente a milagres físicos[20], mas principalmente a milagres espirituais realizados por meio da obra do Espírito Santo que, após a sua partida, passaria a habitar os crentes, concedendo-lhes poder (Atos 1.8). De fato, somente mediante a ação do Espírito é que os discípulos seriam preparados para realizar tais obras maiores que as de Jesus[21]. E tal situação é consoladora em face da partida de Jesus porque o Consolador, o Espírito Santo, só seria enviado quando Jesus partisse, conforme nos relatam os versículos 26 deste mesmo capítulo e 39 do capítulo 7. Uma questão importante aqui é que as obras dos discípulos seriam maiores também pelo fato de que seriam realizadas com base na obra completa do Senhor Jesus. Sobre isso, Donald Carson diz:

Em suma, as obras que os discípulos realizam após a ressurreição são maiores que aquelas feitas por Jesus antes de sua morte, na medida em que aquelas pertencem a uma era de clareza e poder introduzidos pelo sacrifício e exaltação de Jesus. As palavras de Jesus e suas obras era, de alguma forma, veladas durante os dias de sua carne; mesmo seus mais próximos seguidores, como os versículos anteriores deixam claro, entenderam somente uma parte do que ele estava dizendo.[22]

O cumprimento das promessas de Jesus está narrado no livro de Atos. Por exemplo, nos primeiros dias após a partida de Jesus para o Pai, após um sermão de Pedro, três mil pessoas foram batizadas. A partir daí, a narrativa de Atos mostra como a ação do Espírito Santo foi fundamental na eficiência do testemunho dos discípulos ao redor do mundo. E, sem dúvida, eles impactaram o mundo (Atos 17.6), arrebanhando mais seguidores para o Senhor Jesus do que durante o seu ministério pessoal na Galileia e na Judeia. Estas obras maiores ainda são as obras de Cristo, mas feitas sem sua presença física; feitas, sim, pelo Espírito dentro dos seguidores de Jesus[23].

Outro consolo recebido pelos discípulos é o fato de que, para darem continuidade ao trabalho do Mestre, eles receberiam das mãos do Pai (cf. 16.23) o que fosse necessário, quando o pedissem em nome de Jesus. O texto diz assim: “Eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. O que vocês pedirem em meu nome, eu farei” (v. 13-14). Infelizmente, muitos interpretam erroneamente este texto e, com base nesta interpretação falha, formulam uma teologia da oração completamente anti-bíblica. Eles têm visto o nome de Jesus como um amuleto que garante que absolutamente tudo que for pedido em oração será necessariamente atendido conforme solicitado. Segundo eles, quando uma petição feita a Deus não é respondida, é por falta de fé daquele que pede.

Todavia, quando o texto é analisado com o mínimo critério, é possível notar que o propósito do Senhor é fornecer a oração como um recurso para que eles peçam ao Pai o que for necessário para dar continuidade à sua obra[24]. Em outras palavras ele está dizendo: Eu estou indo embora para a Casa do Pai preparar um lugar para vocês. Logo eu voltarei para buscá-los para que estejamos sempre juntos. Por enquanto, vocês vão continuar a minha obra até que chegue o momento de eu voltar. E para que vocês continuem o meu trabalho, eu fornecerei um recurso importantíssimo para que vocês o utilizem para o benefício do meu Reino. Este recurso é a oração. Utilizem-no para os propósitos do meu Reino, para minha glória. Se vocês o utilizarem assim, eu sempre os ouvirei.

Ou seja, pedir em nome de Jesus não é apenas utilizar uma expressão no final de uma oração. É, sobretudo, falar com Deus com o propósito de que seu Reino esteja continuamente em expansão e, como consequência disso, glorifique o Pai e o Filho[25]. É possível ver que é exatamente (para não dizer exclusivamente) assim que a oração é utilizada pelos apóstolos em sua vida e ministério. Vejamos os seguintes textos como exemplos: Atos 8.15; 13.3-4; Romanos 15.30-31; Efésios 6.18-20; Colossenses 1.9; 4.3-4; 1Tessalonicenses 3.9-10; 5.25; 2Tessalonicenses 3.1-2; Hebreus 13.18.

Conclusão e aplicações

À luz das verdades apresentadas ao longo deste breve comentário, é possível chegar a algumas conclusões. Talvez a mais clara delas seja o fato de que o Senhor Jesus é o grande consolo do cristão, mesmo em meio à angústia, ao desespero e ao medo. Esse consolo é garantido, não apenas pela certeza do retorno de Cristo. Não é apenas um consolo futuro e profético. É também presente no agora. Isso quer dizer que hoje mesmo o crente pode desfrutar do consolo de Cristo[26]. Primeiro, porque ele é o único caminho para a Casa do Pai; depois, porque ele os capacita a dar continuidade à sua obra disponibilizando recursos maravilhosos para isso. A habitação do Espírito Santo é um conforto sem igual. E como se não bastasse, a certeza de que o Pai ouve nossas orações através de Jesus é algo que não cabe no vocabulário humano.

Uma coisa maravilhosa é saber que Jesus Cristo irá voltar a despeito das falhas e fracassos de seu povo. A promessa de seu retorno glorioso não é condicionada às ações de quem quer que seja. Ele irá voltar e ponto. No tempo oportuno, ele aparecerá no céu e reunirá os seus eleitos que, a partir de então, estarão para sempre em sua gloriosa presença.

Talvez alguns fiquem angustiados ou temerosos ao ouvir palavras como essas. Talvez se sintam inseguros ou despreparados para se encontrar com ele. É preciso lembrar que diante da angústia dos discípulos, foi justamente a promessa de que Jesus iria voltar para levá-los à Casa do Pai que os confortou.

A certeza de que um dos quartos que Jesus foi preparar na casa do Pai pode ser experimentada mediante o arrependimento de pecados e o clamor pela misericórdia do Senhor. Aquele que passar a desfrutar dessa certeza irá viver uma vida de alegria, dirigida pelo Espírito Santo; receberá das mãos do Senhor todos os recursos necessários para dar continuidade ao que Jesus começou; irá anunciar o seu Reino e a sua Palavra por todos os dias de sua vida; e finalmente, quando chegar o momento, irá para a Casa do Pai, onde irá desfrutar de sua gloriosa presença por toda a eternidade.

Bibliografia

BRUCE, F. Frederick. João: Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1987.

BUSHELL, Michael S.; TAN, Michael; WEAVER, Glenn L. Bibleworks 8. Versão 8.0.013z.1. Norfolk: Bibleworks, LLC, 2004.

CARSON, Donald A. O comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.

KITCHEN, K. A.; PAYNE, D. F.; HARRIS, B. F. Papiros e Ostracas. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Volume III. Editor em Português: Russel P. Shedd. São Paulo: Edições Vida Nova, 1966.

LOPES, Augustus Nicodemus Gomes. The Father’s Home, and the way there. The Gospel Coalition. Disponível em: http://resources.thegospelcoalition.org/library/the-father-s-home-and-the-way-there. Acesso em: 25 de agosto de 2017.

MACARTHUR. John Fullerton, Jr. Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

[1] O autor é graduado em Teologia pelo Faculdade Batista Brasileira (FBB); é professor de Noções de Hebraico Bíblico e Língua Portuguesa no Seminário Teológico Bíblico Thompson (STBT) e exerce o Ministério Pastoral na Igreja Bíblica Congregacional de Vitória da Conquista (Urbis I).

[2] LOPES, 2015, s.p.

[3] LOPES, 2015, s.p. (Tradução Livre)

[4] BRUCE, 1987, pp. 255-258.

[5] CARSON, 2007, p. 487.

[6] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[7] πιστεύετε é a forma do presente do indicativo ativo da segunda pessoa do plural e também presente do imperativo ativo da segunda pessoa do plural do verbo πιστεύω. Segundo Donald Carson, seja qual for a tradução correta, o texto relaciona Jesus com o Pai como um objeto apropriado de fé, o que faz com que sua cristologia seja formidavelmente elevada (CARSON, 2007, p. 488).

[8] BRUCE, 1987, p. 253.

[9] μοναὶ é o plural de μονή, palavra derivada do verbo μένω, cujo significado é permanecer, ficar.

[10] BRUCE, 1987, p. 255.

[11] CARSON, 1987, p. 490.

[12] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[13] O único manuscrito mais antigo que traz o texto longo é a primeira edição do Papiro 66, ou Bodmer II (c. 200 d.C.), um manuscrito antigo do NT que contém João 1.1-14.26 (KITCHEN, PAYNE, HARRIS, 1966, p. 1197). A sua segunda edição traz o texto mais curto. (BRUCE, 1987, p. 256)

[14] Segundo Donald A. Carson, “mesmo que a leitura mais longa 8seja de autenticidade duvidosa, a leitura mais curta deve ser entendida da mesma forma”. (CARSON, 2007, p. 491 – nota adicional)

[15] Na construção narrativa do seu Evangelho, João destaca sete afirmações do Senhor Jesus sobre si próprio: eu sou o pão da vida (6.35,51); eu sou a luz do mundo (8.12; 9.5); eu sou a porta das ovelhas (10.7,9); eu sou o bom pastor (10.11,14); eu sou a ressurreição e a vida (11.25-26); eu sou o caminho, e a verdade, e a vida (14.6); eu sou a videira verdadeira (15.1,5).

[16] TOMÁS DE KEMPIS apud. BRUCE, 1987, p. 257.

[17] BRUCE, 1987, p. 257.

[18] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[19] BRUCE, 1987, p. 257.

[20] Segundo Donald A. Carson, as obras que Jesus havia realizado e as obras ainda maiores que seus discípulos fariam não podem legitimamente restringir-se a feitos de humildade (13.15), atos de amor (13.34,35) ou à proclamação das palavras de Jesus (v. 10). Para ele, as obras podem referir-se a mais do que os milagres do Senhor sem, no entanto, excluí-los. (CARSON, 2007, p. 496)

[21] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[22] CARSON, 2007, p. 496.

[23] BRUCE, 1987, p. 258.

[24] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[25] MACARTHUR, 2010, p. 1417.

[26] Ibidem, p. 1416.

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