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Os Saberes da Ayahuasca na Barquinha

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Os Saberes da Ayahuasca na Barquinha
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OLIVEIRA, Rita Barreto de Sales [1]

OLIVEIRA, Rita Barreto de Sales. Os Saberes da Ayahuasca na Barquinha. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 1. Vol. 11. pp 246-259, Dezembro de 2016. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo tem como propósito analisar os saberes da ayahuasca, chá de origem indígena feito da combinação entre um cipó conhecido como mariri ou jagube e as folhas de um arbusto conhecido como chacrona, usado em diferentes contextos culturais como é o caso da religião brasileira chamada a Barquinha. Por meio de pesquisa bibliográfica, apresentaram-se anotações biográficas e históricas acerca do surgimento da Barquinha; expuseram-se os fundamentos essenciais da mesma, a saber: educação enteógena, a floresta como projeto de vida, a interculturalidade, a educação estética, os saberes medicinais, e analisou-se a religião como espaço educativo. Dessa forma, verificou-se que, apesar de a sociedade acolher somente como racionais e legítimas as práticas e saberes adequados à soberania epistêmica da ciência moderna, as religiões ayahuasqueiras têm desfrutado de um momento singular, com um crescimento que chega a 10% ao ano.

Palavras-chave: Religião. Educação enteógena. Saberes medicinais. Religiões ayahuasqueiras. Educação estética.

INTRODUÇÃO

O homem sempre sentiu a necessidade de se conectar com um poder maior, ao qual muitos chamam de Deus, Arquiteto do Universo, Criador. E na busca pela compreensão de sua própria existência vem gerando mecanismos que lhe possibilitem acessar experiências com essa fonte com a qual se identifica; às vezes, teme, mas, quase sempre é impelido a questionar e perseguir. Afinal, as maiores dúvidas da humanidade englobam questões como: Quando o mundo foi criado? Existe um ser supremo responsável pela existência humana? Haverá vida depois da morte? Por que sonhamos com entes queridos que já não estão entre nós?

Pois bem, nessa busca por um poder maior com o qual o homem se sente impelido a conectar, muitas religiões surgiram, muitas brigas foram e continuam sendo travadas, muitas perseguições e sofrimentos foram infligidos aos semelhantes. Ainda hoje, em nosso país, pessoas são humilhadas por pertencerem a alguma religião de origem africana, haja vista a grande proliferação de igrejas neopentecostais que não respeitam a religião alheia.    Nessa linha de pensamento, Puff (2016) afirma que

Dados compilados pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR) mostram que mais de 70% de 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados no Estado entre 2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas.

O autor supracitado comenta que a BBC Brasil ouviu especialistas acerca da hostilidade contra as religiões de origem africana e o que pode ser feito, e tais especialistas deram duas explicações, as quais são:

Por um lado o racismo e a discriminação que remontam à escravidão e que desde o Brasil colônia rotulam tais religiões pelo simples fato de serem de origem africana, e, pelo outro, a ação de movimentos neopentecostais que nos últimos anos teriam se valido de mitos e preconceitos para “demonizar” e insuflar a perseguição a umbandistas e candomblecistas (s/p).

Mas o fato de religiões serem criticadas e desrespeitadas por outras pessoas e grupos não impede que os indivíduos continuem buscando respostas para seus anseios religiosos. Um exemplo disso se encontra na proliferação de religiões ayahuasqueiras que vêm crescendo ultimamente.   A esse respeito, Nogueira (2008) assevera que

  • Após quase oito décadas de existência, as religiões ayahuasqueiras vivem seu melhor momento. Assimiladas por outras fés e reconhecidas pelas autoridades, veem seu número de adeptos subir 10% ao ano; 2) Todo esse ciclo de expansão é ignorado pela maior parte da sociedade brasileira, que continua desconfiando do uso de uma substância psicoativa de forma religiosa.

Mas, o que vem a ser uma religião ayahuasqueira? Para Labate, Rose e Santos (2008), a categoria “religiões ayahuasqueiras brasileiras” se refere a movimentos religiosos originários do Brasil que têm como um de seus fundamentos o uso ritualizado da ayahuasca[2]: Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha, em suas variadas vertentes.

Já Goulart (2015) afirma que o termo “religiões ayahuasqueiras brasileiras”, propaga bem o processo de construção de reconhecimento público destes grupos como religiões brasileiras. Dessa forma, os primeiros trabalhos acadêmicos acerca desse fenômeno não utilizavam o referido termo, usando, com mais frequência, outras denominações, tais como cultos, doutrinas ou, unicamente, grupos. Se na atualidade a expressão “religiões ayahuasqueiras” possui o status de uma referência conceitual entre os estudiosos do tema, isto vem de um processo complexo de interlocução entre representantes destes grupos e diferentes instâncias da sociedade onde eles estão inseridos. Nesse processo, ressalta-se a ação dos pesquisadores acadêmicos de diversas áreas, mas, sobretudo das ciências humanas, os quais têm grande responsabilidade no processo de definição destes grupos como religiões. Todavia, essa definição é fruto, primeiramente, das ações e dos relacionamentos que os próprios adeptos destes grupos estabelecem com diversos agentes da sociedade e com o próprio Estado, no seu movimento de legitimação pública.

Para essa autora, aqui no Brasil, esta mobilização de legitimação dos grupos ayahuasqueiros sugere, a partir do final dos anos 1970, um atrelamento da reflexão sobre esses grupos ao debate público sobre uso de drogas. Dessa forma, desde essa época, principalmente com a expansão dos grupos para diferentes regiões brasileiras, as relações entre eles e diferentes instituições da sociedade, assim como com o Estado, começaram a abranger discussões sobre a regulação do uso da bebida psicoativa ayahuasca.

Este artigo tem como objetivo: Analisar os saberes da ayahuasca, chá de origem indígena feito da combinação entre um cipó conhecido como mariri ou jagube e as folhas de um arbusto conhecido como chacrona, usado em diferentes contextos culturais como é o caso da religião brasileira chamada a Barquinha.

1 A BARQUINHA: ANOTAÇÕES BIOGRÁFICAS E HISTÓRICAS

A Barquinha foi instituída em 1945 pelo negro maranhense, Daniel Pereira de Matos, o qual nasceu em 1888 e foi grumete da Marinha. Ao deixar a corporação como sargento, permaneceu em Rio Branco como barbeiro. Na metade da década de 1930, Daniel esteve doente do fígado e foi amparado por seu amigo e também maranhense Raimundo Irineu Serra, fundador do Santo Daime (MERCANTE, 2015).

O autor supracitado assevera que Daniel principiou a seguir os trabalhos espirituais de Irineu. Após algum tempo teve uma visão revelatória de anjos que baixavam do céu trazendo-lhe um livro. Tal visão é usada por Irineu para impulsionar Daniel a iniciar o próprio trabalho espiritual. Em 1945 este último ganhou um terreno dentro de um antigo seringal, no que hoje é o bairro da Vila Ivonete, e Irineu lhe abasteceu com o Daime, que é o nome dado à ayahuasca nestas tradições.

Em 1957, Francisca Campos do Nascimento, pouco depois do parto de sua terceira filha, buscou o auxílio de Daniel para tentar resolver um problema de saúde. Ela possuía o corpo coberto de feridas, e os médicos não logravam diagnosticar e nem tratar o problema. Daniel começou a cuidar de dona Francisca, que anunciou que, se ficasse curada, consagraria sua vida à doutrina de Daniel (MERCANTE, 2015).

Em 1958 Daniel morreu, porém, Francisca, cumprindo sua promessa, segue até os dias de hoje dentro da Barquinha. Em 1991 ela deixou o centro original da Barquinha e abriu sua própria igreja, o “Centro Espírita Obras de Caridade Príncipe Espadarte”. Esse príncipe é o espírito de um encanto, um ser espiritual que tem mais de uma forma: no mar ele é um peixe-espada, o “Príncipe Espadarte”; na terra, o “Soldado Guerreiro Dom Simeão”. Os encantos ou encantados são temas de cultos em todo o Norte e Nordeste do Brasil, em muitas religiões que têm influência afro e indígena (mercante, 2015).

Araújo (1999) afirma que o nome Barquinha está relacionado à figura de uma embarcação. Esse autor estudou com detalhes os significados relacionados ao nome Barquinha para os fiéis deste grupo, focalizando mais particularmente a construção dos espaços rituais do grupo, comentando que a noção de uma barca está intensamente ligada, no imaginário destes fiéis, à missão espiritual do mestre Daniel.

Para o autor supracitado, haveria uma relação estreita entre a figura de uma barca e a própria comunidade de adeptos e, também, uma associação entre o mar e o chá da ayahuasca. Por causa dessa associação, os seguidores deste grupo frequentemente garantem que navegam nas ondas do mar sagrado.

Goulart (2015) assevera que termos como viagens marítimas, embarcações e naus são constantes entre os adeptos da Barquinha, e normalmente são usados para comentar suas experiências espirituais, que envolvem o uso ritual do daime ou ayahuasca. Ademais, as roupas usadas nas cerimônias do grupo, chamadas de fardas, se assemelham aos uniformes dos marinheiros.

Para essa autora, é possível explicar, em parte, a presença deste imaginário ligado ao mar e a marinheiros devido ao fato de o mestre Daniel ter servido na marinha por um período de sua vida. É fato comprovado que ele veio para o Acre como marinheiro em uma viagem da corporação em 1907.

2 A RELIGIÃO COMO ESPAÇO EDUCATIVO

Albuquerque (2011) comenta que a interpretação das religiões como espaços educativos ou de circulação de saberes é mesmo bastante limitada. Em parte, este limite se aclara em função de certa compreensão sobre a escola formal como espaço único do saber no seio da ciência pedagógica.

Neste texto, a religião da Barquinha é interpretada como um espaço educativo no qual existem conhecimentos fundamentais na construção da identidade dos sujeitos envolvidos e na sobrevivência de suas histórias. Nessa expectativa, leva-se em consideração o ponto de vista de Brandão (2002), para quem a religião constitui um território de trocas de bens, de serviços e de significados entre pessoas assim como a educação. E as agências culturais de trabalho religioso abrangem hierarquias, distribuição desigual do poder, inclusões e exclusões, rotinas, programas de formação seriada de pessoal e diferentes estilos de trabalhos cotidianos da mesma forma que as agências da educação.

Albuquerque (2011) ressalta que a despeito dos poucos trabalhos que procuram explicitar as relações entre religião e educação, existem algumas contribuições significativas nessa linha. Uma delas é artigo de Fonseca (2006), que se volta para o estudo das práticas educativas da religião Candombe do Açude, em Minas Gerais.

Para Fonseca (2006), a educação no terreiro se exprime por meio da explicação mítica da realidade, da linguagem metafórica, da importância da palavra e das tradições, pelo reconhecimento aos mais velhos e ancestrais, pela estima pela mãe, pelos cânticos como conhecimento, entre outros. Outro artigo citado é o de Tramonte (2006, p. 1), o qual, ao analisar a religiosidade afro-brasileira, compreende os terreiros como lugares que “têm uma função educativa nos planos intercultural e ambiental, normatizando hábitos e criando valores éticos junto a seus integrantes”.

Betiato (2010) afirma que é impossível para o ser humano pensar em si mesmo não sendo ou não existindo; é impossível também pensar o nada, o vazio absoluto, e como isso é impraticável, ele se projeta para além da vida. Brotam então as religiões, para dar respostas, cada uma com sua própria maneira.  Foram os seres humanos que inventaram as religiões e as inventaram para entender o mistério mais profundo da vida: a transcendência. As religiões nasceram na história como ferramentas, instrumentos para as aspirações mais profundas da existência, o significado da vida.

Nesse sentido, Santiago e Junqueira (2011) asseveram que a religião tem contribuído bastante com os Estados, as sociedades e, portanto, com a vida humana, sobretudo em duas dimensões, a educação e a saúde, que pelo seu fundo humanístico, pela importância que possuem para a vida humana, são assumidas pela religião. Para esses autores o grande paradoxo, a grande contradição do mundo moderno e descrito como desenvolvido, é a existência da pobreza material absoluta, a miséria. Ou seja, o fato de haver tantas pessoas privadas do essencial, desde o acesso ao mínimo indispensável para uma vida saudável, até à alfabetização, inclusive a alimentação mínima, mesmo que somente em quantidades calóricas diárias. Quando existe a miséria, são as religiões que, comumente, assumem uma posição em defesa da vida.

Esses autores acrescentam ainda que se não fosse a fraternidade, valor religioso e definitivamente relacionado com as religiões, praticado por elas nestas circunstâncias, certamente teríamos muito mais do que nos envergonhar. As inúmeras campanhas de solidariedade que recolhem alimentos, roupas, remédios e acusam estas agressões à vida, quase sempre brotam de alguma religião. Se não diretamente, o apelo de quem as faz é continuamente um apelo religioso, educando pelo exemplo. “Se a escola também não educa para a liberdade, para a justiça, deixa de cumprir sua missão” (p. 335). Quando as duas se omitem de sua vocação, sobra a lei do mais forte. “Quando a religião não assume a luta pela justiça e pela paz, está somando com quem pratica a injustiça e é contra a paz” (p. 335).

Para MacRae (1999), a Barquinha é uma das principais matrizes religiosas que empregam a ayahuasca no Brasil e, entretanto, uma das menos estudadas. Um fator comum que liga estas linhas religiosas é que estas não classificam a ayahuasca como uma “droga”, mas como um sacramento, um ser divino que possui grandes poderes e até vontade própria.

Para Araújo (1999) e Frenopoulo (2004, 2005) apud Santos (2005), a cosmologia da Barquinha é muito complexa e organizada, tendo uma cartografia espiritual com diversas influências: do cristianismo, do xamanismo e da umbanda, com os pretos velhos, caboclos, encantados e suas falanges. Nos rituais há trabalhos de

Aplicação de passes, exorcismo, pontos riscados, doutrinação de almas, batismo de entidades, bailado e concentração, dentro dos quais a prática da caridade é muito intensa. São cantados salmos (cânticos de conteúdos bíblicos) e pontos (trazidos da umbanda e reinterpretados), que são mensagens sagradas recebidas de entidades divinas pelo presidente da casa ou pelos aparelhos (médiuns) do centro, conhecidos como fardados. A cosmologia da Barquinha é vista como uma cosmologia em construção, devido à sua enorme plasticidade e reelaboração/incorporação de vários elementos de outras manifestações religiosas, sobretudo nordestinas e ameríndias (p. 2).

O autor supracitado afirma que o principal trabalho da Barquinha é o das obras de caridade, do qual derivaram todos os outros rituais da casa. Quando Daniel Pereira de Matos recebeu sua missão, o foco fundamental desta incidia na caridade, logo, esta é o eixo central de todos os trabalhos da Barquinha.

Santos (2005, p. 3) descreve o trabalho de caridade que ocorre na Barquinha:

No início do trabalho das obras de caridade, são formadas duas filas para tomar a ayahuasca, sendo que cada sexo deve ficar em uma fila diferente. Uma vez ingerida a bebida, os participantes se dirigem para o interior da igreja, onde o lado direito é reservado para os homens e o esquerdo para as mulheres. À frente de todos os participantes encontra-se uma mesa em forma de cruz, e logo atrás dela encontra-se o cercadinho no qual os médiuns que trabalham nas obras de caridade sentam-se. Esta mesa rege a maioria dos trabalhos do local, principalmente as obras de caridade. Atrás deste cercadinho ficam os fardados que deverão apoiar os médiuns, e os demais presentes ficam ao lado do cercadinho dos médiuns.

Araújo (1999) assevera que o trabalho de caridade, assim como os outros, é intercalado por salmos e preces. Em seguida, as entidades são convidadas e posicionadas em seus gabinetes de atendimento. Tais entidades trabalham no céu, na terra e no mar, os quais são os três mistérios da Barquinha, ou os três planos cosmológicos. Portanto, elas trabalham com o intuito de beneficiar tanto este plano como os outros, os invisíveis. O objetivo primordial das obras de caridade é a limpeza espiritual e o batismo de entidades inferiores, que dão consultas e passes, os quais são sinais simbólicos e expressivos que buscam retirar as influências negativas e restaurar a saúde do indivíduo.

Para Pelaez (2004), a fundamental transformação na vida dos que tomam a ayahuasca, e da qual decorrem todas as outras, é o sentimento de ter acordado, que lhes possibilita conhecer a existência de um mundo invisível que dá um verdadeiro sentido à realidade aparente. Partindo desta convicção, anunciam ter maior consciência nos seus atos de vida, sentem ainda aumentada a capacidade de autocrítica e a disposição para mudar pensamentos e condutas vistos como errados.

Achterberg (1996, p. 157) apud Santos (2005, p. 16) enumera alguns fatores que explicariam a eficácia de rituais tradicionais de cura:

1) os demorados preparativos habitualmente necessários antes do ritual de cura dão aos envolvidos algo para que eles possam demonstrar preocupação; 2) os preparativos e a participação ritual são um modo de paciente e comunidade sentirem que controlam aquilo que parecia ser uma situação sem esperança; 3) as relações dentro da comunidade são cimentadas e a solidariedade grupal é intensificada; 4) o enredo e a estética do ritual são reconfortantes e distraem; 5) as características do ritual consolidam os laços entre o paciente e o grupo, do qual ele pode ter se sentido alienado; 6) o paciente pode sentir alívio, na crença de que a harmonia entre ele e o mundo dos espíritos foi estabelecida; 7) os rituais e símbolos servem para interpretar o significado da doença e o papel do paciente em um contexto cultural; 8) o paciente é excitado emocionalmente pela intensidade do ritual, e isso aumenta ainda mais a esperança ou uma confiança, carregada de expectativas, de que algo importante irá ocorrer; 9) o custo dos rituais de cura é considerável, na maior parte das culturas (inclusive a medicina ocidental), e pode acarretar o preparo de alimentos mais apreciados e nutritivos, intensificando mais uma vez a autoestima, a esperança e o orgulho do paciente; 10) quando há preparados psicoativos ou quando se entra em estados de consciência alterados ou dissociativos, em consequência do ritual, o poder do curador é validado por essas experiências tão inusitadas, e elas reforçam o sistema de crenças espirituais.

Santos (2005, p. 14) diz perceber em alguns discursos “que a bebida parece ter um papel de curar e ensinar”, propriedades que, consideradas as devidas diferenças, também são enfatizadas entre as populações indígenas que fazem uso deste enteógeno [3].

3 OS FUNDAMENTOS ESSENCIAIS DA BARQUINHA  

Entre os fundamentos da religião a Barquinha, que é derivada do Santo Daime, os quais implicam uma concepção de educação e um conjunto de saberes podem-se destacar os seguintes: a) estruturar-se como uma espiritualidade enteógena; b) orientar-se em uma concepção sobre a floresta como lugar essencial da vida; c) caracterizar-se como prática intercultural com uma forte dimensão estética (ALBUQUERQUE, 2011).

3.1 Educação Enteógena

Um dos fundamentos essenciais da Barquinha é a busca espiritual por meio do uso das plantas sagradas. Para Alverga (1998, p. 15), em torno do questionamento sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central, seu papel como mentor religioso, está se criando

Um campo de estudos comum entre o saber cientifico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das plantas sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, elas nos estarão transmitindo a mesma mensagem. É a nossa consciência e ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada

Nesse sentido, Metzner (2002, p. 22) nos diz que

O individuo obtém uma visão terapêutica de suas neuroses, dos seus padrões de comportamentos e da dinâmica emocional dos seus vícios, além de questionar seus próprios conceitos e entendimentos da realidade, tornando-se capaz de transcendê-los nos seus fundamentos.

Ainda para Metzner (2002), o processo de expansão da consciência se agrega à visão dos xamãs que usam a ayahuasca, uma vez que eles afirmam que a beberagem não apenas lhes dá uma ideia mais profunda de si mesmos como ainda uma nova e melhor maneira de viver.

3.2 A Floresta Como Projeto de Vida

Albuquerque (2011) afirma que associada à perspectiva de uma espiritualidade enteógena existe uma concepção filosófica que considera a floresta como projeto de vida. Uma ênfase imediata disto é a centralidade da bebida para a sobrevivência da religião e a consequente precisão da matéria prima (a folha e o cipó) para o seu preparo. “Isto sugere, necessariamente, a preocupação com o plantio das espécies e o cuidado com a floresta amazônica, seu habitat natural” (p. 5).

3.3 A Interculturalidade

Na Barquinha a magnitude da interculturalidade pode ser confirmada pela mestiçagem que atua

Entre diversas tradições religiosas tais como: a indígena, o cristianismo, influências africanas, o espiritismo e o esoterismo sendo, portanto, uma doutrina plural e hibridizada. Tal interculturalidade vem da própria formação histórica da religião e os consequentes desdobramentos decorrentes de sua inserção em contextos urbanos (ALBUQUERQUE, 2011).

A Barquinha ainda é plural em sua epistemologia, pois o saber religioso é, de fato, um conjunto de saberes religiosos que procede das plantas, das outras religiões que com ele compõem e da doutrina própria que a igreja cria, configurando uma ecologia religiosa (ALBUQUERQUE, 2011). Metzner (2002) apud Albuquerque (2011, p. 7) nos lembra de algumas singularidades das religiões ayahuasqueiras nas quais estão presentes “os hinos, as rezas e as figuras bíblicas, sem que haja a exclusão dos espíritos da floresta, do sol, da lua, das estrelas e das várias divindades indígenas” tentando, com isso, uma reunificação dos elementos sagrado e natural afastados pelo cientificismo mecanicista do mundo moderno.

Para Costa (2008), a aproximação com a cosmologia umbandista é predicado da linha da Barquinha desde sua fundação com Daniel Pereira de Matos. Tal proximidade permitiu o convívio harmonioso entre o transe de possessão e a miração, sendo que os dois podem ocorrer simultaneamente em um mesmo indivíduo no transcurso de determinada sessão espiritual. Pela última, o espírito do médium pode viajar em outros planos, enquanto seu corpo é tomado por uma entidade sobrenatural que incorpora para prestar ou receber caridade.

Já a ecologia religiosa se propaga, também, a partir dos conteúdos presentes nos hinos, uma vez que as lições são transmitidas por meio da tradição oral sob a forma do canto cujos saberes decorridos são bastante diversificados. Neles se louva a natureza e suas forças; entidades de diversos panteões são invocadas; princípios como o amor, verdade, justiça são reforçados; a conduta é disciplinada, a história da doutrina é contada (ALBUQUERQUE, 2011).

3.4 A Educação Estética

Para Mercante (2012), enquanto no Daime a música entoada é chamada de hino, na Barquinha, os cantos são de duas espécies: os salmos e os pontos. Ambos são “recebidos” e, diferentemente do que ocorre no Santo Daime, no qual os hinos se tornam parte do hinário da pessoa que o recebe, na Barquinha não há um dono do hinário (p. 180).

3.5 Saberes Medicinais

O tema da cura é clássico no universo ayahuasqueiro. Nesse sentido, Assis, Faria e Lins (2014) afirmam que existem relatos de grupos terapêuticos, de antropólogos, psicólogos e psiquiatras sobre o efeito terapêutico da ayahuasca no tratamento da dependência de psicoativos. Contudo, deve-se registrar a existência de falhas de pesquisas realizadas sem bases sólidas ou fundamento em estudos com desenhos metodológicos rigorosos. Dessa forma, o sucesso do tratamento não está sujeito somente à farmacologia da ayahuasca, mas ainda às normas do contexto ritual, do zelo religioso, da influência do líder e da dinâmica social do grupo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurou-se demonstrar, neste texto, que a religião a Barquinha é um espaço educativo, no qual existe um conjunto de saberes, que abrange a ecologia, o conhecimento, a estética e a medicina, entre outros.  A singularidade dos processos de aprendizado nesse contexto religioso é que estes saberes não são transmitidos pelos humanos, mas pelas plantas. Tais saberes são, apesar disso, compartilhados pelos humanos uma vez que se configura uma ecologia entre plantas e pessoas.

Ao tomar a religião como um espaço educativo, almeja-se destacar o cuidado com um ângulo ainda pouco ressaltado pelas pesquisas, ou seja, o educacional e, dessa forma, reunir esforços na ampliação da noção clássica de educação, para além dos domínios exclusivamente escolares em que este campo do saber costuma aparecer. A ampliação da análise dos saberes para o âmbito das práticas sociais e, em particular, das plantas professoras é fecunda à compreensão dos processos educativos na Amazônia, região assinalada por uma grande diversidade de grupos humanos, histórias, complexos ambientais, situações linguísticas e imaginários. Nessa linha de entendimento, a prática social é também um local de múltiplas aprendizagens, muitas das quais perdidas ou silenciadas pela própria ciência pedagógica, encarcerada nos horizontes de uma razão fechada.

No âmbito desta racionalidade fechada, que só acolhe como racionais e legítimas as práticas e saberes adequados à soberania epistêmica da ciência moderna, os saberes da ayahuasca, que não se enquadram nesta lógica epistêmica e jurídica, tendem a ser alvo de preconceitos e perseguições. No entanto, as religiões ayahuasqueiras têm desfrutado de um momento singular, com um crescimento que chega a 10% ao ano.

REFERÊNCIAS

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TRAMONTE, Cristiana. Educação intercultural ambiental e religiosidade afro-brasileira. Anais do Seminário Internacional Educação Intercultural, Movimentos Sociais e Sustentabilidade. Florianópolis: CED/UFSC. 2006. Disponível em <http://www.rizoma3.ufsc.br/textos/363.pdf>. Acesso em: 14/11/2106.

[1] Cursando Pós-doutorado pela Universidad Iberoamericana (2016). Doutora em Ciências da Educação pela Universidad Americana (2014). Mestre em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (2008). Licenciada em Letras Plena pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1984).

[2] A ayahuasca é uma bebida obtida da combinação de duas plantas Banisteriopsis caapi (mariri) e Psychotria viridis (chacrona) por meio de decocção, e além desse chá ser considerado inofensivo à saúde humana em vários estudos científicos, traz diversos benefícios aos seus usuários (MENEGUETTI e MENEGUETTI, 2014).

[3] Segundo MacRae (1992, p. 16) o termo enteógeno deriva do grego antigo entheos e significa “aquilo que leva alguém a ter o divino dentro de si”.

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