ARTIGO ORIGINAL
LUSATTO, João Thiago [1]
LUSATTO, João Thiago. Humanos X Inteligência Artificial no cinema Hollywood: perspectivas e desafios da profissão de dublê de ação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 06, Vol. 02, pp. 05-12. Junho de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/arte/humanos-x-inteligencia-artificial, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/arte/humanos-x-inteligencia-artificial
A evolução da Inteligência Artificial depois de 2023 está sendo o palco de muitas discussões sociais e acadêmicas. No âmbito das profissões já foi evidenciado uma intensa substituição de humanos por tecnologias que operam de forma muito mais eficiente e com menor custo. Desta feita, esse artigo pretende trazer uma abordagem teórico reflexiva das perspectivas e desafios da profissão do duble de ação, recuperando um olhar dentro da evolução do cinema hollywoodiano e da própria transformação social na adesão do entretenimento.
Palavras-chaves: Cinema, Dublê de ação, Inteligência artificial.
No alvorecer do século XX, o cinema emergiu como um paradigma cultural, assinalando a ascensão da hegemonia imagética. Contudo, em sua gênese, por volta de 1895, o dispositivo cinematográfico carecia de um léxico intrínseco, manifestando-se imbricado a expressões culturais preexistentes, a exemplo dos espetáculos de lanterna mágica, do teatro popular, dos cartuns, das revistas ilustradas e dos cartões-postais. Os aparatos de projeção fílmica, nesse contexto, eram percebidos como mais uma dentre as inovações que pontuaram o final do século XIX, sendo exibidos como novidades em demonstrações para círculos científicos, palestras ilustradas e exposições universais, ou coadunados a outras formas de entretenimento popular, como circos, parques de diversões, gabinetes de curiosidades e espetáculos de variedades (Costa, 2008).
De acordo com Costa (2008) a constante transformação caracteriza, de modo preeminente, o período inaugural do cinema, compreendido entre 1895 e 1915. Em contraste com a estabilidade paradigmática do cinema hollywoodiano clássico, que se estendeu de 1915 até o advento da televisão nos anos 1950, essa fase primordial do cinema foi marcada por uma sucessão de reorganizações em suas esferas de produção, distribuição e exibição.
Mascarello (2008) comenta que após a severa crise vivenciada no final da década de 1960, a predominância avassaladora de Hollywood na contemporaneidade é, em grande parte, atribuída à reconfiguração estética e mercadológica do blockbuster a partir de 1975. Esse fenômeno ocorreu no contexto da integração horizontal dos grandes estúdios com os demais segmentos da indústria midiática e de entretenimento.
Três conceitos emergem como pilares nos estudos da Hollywood contemporânea, estruturando as discussões: Nova Hollywood, cinema hollywoodiano pós-clássico e filme high concept. Cada um possui sua trajetória crítica e acadêmica distinta. O termo Nova Hollywood apresenta uma notável mutação semântica. Inicialmente, referia-se ao American Art Film do final dos anos 1960 e início dos 1970, praticado por cineastas como Robert Altman, Arthur Penn, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, que se afastavam do classicismo para dialogar com o modernismo europeu. Contudo, o conceito passou a designar a produção mainstream que, a partir de 1975, marcou o esvaziamento do ciclo do “cinema de arte americano” – ou seja, o blockbuster à Lucas e Spielberg. Essa produção pós-1975 distingue-se pelo abandono progressivo da pujança narrativa característica do cinema hollywoodiano até meados de 1960, além de assumir a posição de carro-chefe absoluto de uma indústria que se integrou fortemente à cadeia maior de produção e consumo midiáticos (englobando cinema, TV, vídeo, jogos eletrônicos, parques temáticos, brinquedos, entre outros) (Mascarello, 2008).
Enquanto o conceito de Nova Hollywood busca elucidar as substanciais diferenças estéticas e econômicas do cinema contemporâneo (especialmente pós-1975) em relação à Velha Hollywood, o conceito de filme hollywoodiano pós-clássico, em paralelo, procura explicá-las como uma superação do classicismo cinematográfico americano. Daí derivam suas distintas recepções críticas: a ideia de uma Nova Hollywood raramente é contestada (embora sua definição e amplitude sejam amplamente debatidas), ao passo que a noção de “pós-clássico” tem gerado uma ferrenha polêmica sobre sua pertinência historiográfica e teórica desde sua popularização no início dos anos 1990. Essa controvérsia é, evidentemente, uma consequência do enorme peso histórico-acadêmico que o conceito de cinema clássico possui nos estudos de Hollywood (Mascarello, 2008).
De acordo com Mascarello (2008) trajetória de Hollywood na década de 1960 foi substancialmente influenciada por sua resposta histórica à profícua repercussão artística e sociocultural do moderno cinema europeu. Em meados da década, um movimento inicialmente off-Hollywood, denominado New American Cinema, emergiu com realizadores que ora se inspiravam na Nouvelle Vague francesa (John Cassavetes), ora adotavam um perfil experimental (Jonas Mekas, Kenneth Anger). Ambos os vieses manifestavam uma oposição modernista explícita ao mainstream clássico. Contudo, a partir de 1967, com o marco de Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, Hollywood presenciou o despontar de uma nova corrente cinematográfica. Essa vertente não apenas conciliava procedimentos clássicos e modernos, mas também explorava temáticas americanas sob uma ótica predominantemente crítica, frequentemente ousada na representação da violência e da sexualidade, obtendo sucesso junto a um significativo contingente de críticos e público (Bordwell, 1985).
As denominações atribuídas a esse período – como Nova Hollywood, American Art Film ou Renascimento Hollywoodiano – e os diretores a ele associados (desde os mais experientes como Robert Altman, Arthur Penn, Mike Nichols e Stanley Kubrick, até os “movie brats” da film school generation como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e, em seus primórdios, George Lucas e Steven Spielberg) variam conforme a perspectiva de cada autor. Não obstante, há um consenso considerável em torno de seu significado cultural. De modo geral, a Nova Hollywood, em sua vertente de art film, é frequentemente inserida pelos críticos no cenário mais abrangente das manifestações contraculturais americanas da década de 1960 (MASCARELLO, 2008).
No que tange a produção, a utilização e corpos humanos fora sendo utilizada de diversas formas, de acordo com cada obra ou tendencia momentânea, sendo no decorrer dos anos desenvolvidas diversas tecnologias de incorporações dos personagens que em muitos casos transpassam a humanização, em especial, com uso da tecnologia.
Na sequência deste material, traz-se uma abordagem sobre o uso da dublagem e suas diversas formas no cinema, buscando evidenciar a dublagem de ação.
De acordo com Souza (2017) desde a primeira projeção cinematográfica, feita pelos irmãos Louis e Auguste Lumière em 1895, já havia o interesse na utilização da dublagem, seja de voz, como partes de corpos, como da substituição dos atores principais por dubles em cena de ação.
Com relação ao duble de corpos, concorda-se com Costa Junior (2019) que o corpo em cena tem sido objeto de um interesse particular e persistente nos estudos de cinema, revitalizando uma linha de investigação que remonta, no mínimo, à década de 1920. Exemplifica essa abordagem os escritos de Béla Balázs (2014), que já exploravam a singularidade do “homem visível” ou, mais precisamente, do ser humano filmado.
Apesar de imprescindível o dublador de corpos, sendo estético ou acrobático sempre passou como um ser invisível, muito embora nos Estados Unidos se identifique a existência de um sindicato, e os salários atrativos, bem como um recente evento de premiação aos dubles.
De acordo com a British Action Academy (2025), o primeiro dublê de que se tem notícia foi Frank Hanaway, creditado no Guinness Book como o primeiro stuntman da história, tendo sido escalado para uma cena arriscada no filme The Great Train Robbery (1903). Naquela época pioneira, não havia treinamento formal – recrutavam-se indivíduos “corajosos o suficiente” para pendurar-se em prédios ou saltar de alturas diante das câmeras. Muitos dos primeiros dublês vieram do circo, do vaudeville ou eram atletas e acrobatas, aproveitando suas habilidades em troca de oportunidades na nascente indústria cinematográfica. Ainda na era do cinema mudo, comédias pastelão como as dos Keystone Kops (1912-1917) tornaram-se um celeiro de acrobacias cômicas; artistas como Buster Keaton e Charlie Chaplin realizaram eles mesmos façanhas físicas impressionantes, estabelecendo os alicerces do que seriam as cenas de ação no cinema clássico.
Ao longo das décadas, a profissão de dublê evoluiu em técnica e organização. Na metade do século XX, especialmente a partir dos anos 1960 e 1970, o crescimento dos filmes de ação e aventura em Hollywood levou à sofisticação dos truques e à criação de equipamentos de segurança mais eficazes, como colchões de ar para quedas de grandes alturas, cabos de sustentação invisíveis (wire-fu), cargas explosivas controladas, dentre outras., reduzindo consideravelmente a ocorrência de acidentes graves nos sets. Também surgiram as primeiras unidades de dublês e coordenadores de ação dedicados: profissionais responsáveis por planejar as cenas perigosas e treinar elencos, institucionalizando os procedimentos de segurança. A profissão ganhou status e reconhecimento interno na indústria: sindicatos e associações de dublês foram criados em diversos países para defender a categoria. Nos Estados Unidos, o Screen Actors Guild (SAG) passou a representar também os dublês, estabelecendo pisos salariais e condições de trabalho específicas para eles desde a segunda metade do século XX.
Nas últimas décadas, dois fatores globais influenciaram significativamente a profissão: o advento das tecnologias digitais (discutido mais adiante) e a maior visibilidade na mídia. Em 2022, por exemplo, a novela “Cara e Coragem” (TV Globo) trouxe dublês como personagens centrais da trama, fato inédito que chamou atenção do público para os bastidores da profissão. Aproveitando essa visibilidade, muitas dublês mulheres deram depoimentos sobre os desafios do ofício, abordando temas como machismo, preparação intensa e lesões frequentes. Internacionalmente, a pressão para reconhecer o trabalho desses profissionais culminou numa vitória histórica: a Academia de Hollywood anunciou, em 2025, a criação do Oscar de “Melhor Design de Acrobacias” a partir de 2028, marcando a primeira vez que dublês (stunt performers) serão premiados na cerimônia mais importante do cinema. Essa decisão veio após anos de campanha da classe por reconhecimento equivalente ao dado a técnicos de som, efeitos visuais, maquiagem etc., e sinaliza uma perspectiva promissora de valorização futura.
Os avanços em Inteligência Artificial (IA) estão transformando diversos setores, e a indústria de dublagem de filmes e séries de TV não é uma exceção. No campo do entretenimento, a aplicação da IA tem sido um catalisador para mudanças significativas, especialmente no que tange à localização de conteúdo audiovisual (Arruda; Alves, 2024).
Por um lado, a tecnologia expandiu os limites do que pode ser mostrado na tela. Sequências que antes eram impossíveis ou perigosíssimas agora podem ser realizadas virtualmente. Um especialista em efeitos visuais, Pedro Sabrosa, explica que o uso crescente de duplos digitais “permitiu que filmes e séries concebam cenas de ação mais elaboradas, permitindo aos personagens fazerem coisas que de outra forma seriam impossíveis ou difíceis de executar na prática”. Por exemplo, cenas de super-heróis voando ou lutando contra criaturas fantásticas podem combinar atuações reais com transições para modelos digitais dos atores nos momentos mais extremos. Desde meados dos anos 1990 (como no filme Batman Forever, de 1995, que estreou um dos primeiros dublês digitais da história), as produções vêm aperfeiçoando essa integração. Hoje, é comum atores principais terem seus corpos escaneados em 3D no início das filmagens, mesmo que não haja inicialmente uma cena claramente identificada para uso digital – isso dá flexibilidade à pós-produção para inserir um dublê virtual caso surja necessidade. No entanto, esse mesmo avanço levanta preocupações entre os profissionais de dublê. A possibilidade de substituição digital em cenas perigosas significa, em tese, menos dias de trabalho para dublês humanos.
A profissão de dublê de ação revela-se um campo de estudo multifacetado, entrelaçando arte, técnica, coragem e meticulosa preparação. Essa complexidade intrínseca a torna um objeto de análise fascinante no âmbito da produção audiovisual.
Ao examinar as distintas realidades mercadológicas, observam-se disparidades significativas. No Brasil, apesar da notável capacidade profissional, a atividade ainda carece de maior estruturação e um nível de reconhecimento comparável ao cenário norte-americano. Nos Estados Unidos, os dublês beneficiam-se de proteção sindical, remuneração mais elevada e um volume considerável de oportunidades. Essa discrepância salienta a imperatividade de uma maior valorização local dos profissionais, visando a criação de condições que lhes permitam dedicar-se integralmente ao ofício com dignidade e segurança financeira.
Os desafios contemporâneos, em particular o avanço da computação gráfica (CGI) e das tecnologias digitais, suscitaram questionamentos acerca do futuro da profissão. Contudo, a investigação conduzida indica uma síntese otimista: em vez de serem substituídos, os dublês demonstram capacidade de adaptação e colaboração com as novas tecnologias, mantendo-se como elementos centrais na concepção de sequências de ação. A convergência entre o stunt work e os efeitos visuais aponta para um futuro no qual a interação entre o elemento humano e o digital coexistirá para proporcionar experiências cinematográficas ainda mais impactantes ao espectador. Concomitantemente, movimentos em prol do reconhecimento profissional – como a proposta de criação de um Oscar dedicado aos dublês – sinalizam um crescente reconhecimento da indústria para com esses artistas do perigo.
ARRUDA, F.J.A; ALVES. K.C. Dublagem 2.0: A Inteligência Artificial nos Bastidores do Áudio. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – 24º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – Natal/RN – 08 a 10/05/2024.
BALÁZS, Béla. El hombre visible, o la cultura del cine. Buenos Aires: El cuenco de plata, 2014.
BORDWELL, D. Narration in the fiction film. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press, 1985.
BRITISH ACTION ACADEMY. Screen Action Agency. Encontrado em: https://britishactionacademy.com/, acesso em junho de 2025.
COSTA, F.C. Primeiro Cinema. In MASCARELLO, F. História do Cinema Mundial. Ed. Papirus, Campinas, SP, 2008.
COSTA JUNIOR. E.P. Figuras do corpo e espaços do outro no cinema. Compós, 2019.
MASCARELLO, F. História do Cinema Mundial. Ed. Papirus, Campinas, SP, 2008.
SOUZA, L.M.S. Versão dublada: processos de adaptação para a versão brasileira. Universidade Federal Fluminense, 2017.
[1] Ator e Dublê de Ação brasileiro, com registro profissional de Ator desde 2015. Possui formação superior pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Instituição Pública onde adquiriu sua base acadêmica antes de direcionar seu foco integralmente para as Artes Cênicas. ORCID: 0009-0007-3583-3167.
Material recebido: 22 de maio de 2025.
Material aprovado pelos pares: 13 de junho de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 13 de junho de 2025.
Este artigo analisa a instrumentalização política da arte, com especial atenção ao cinema, como possível…
A violência doméstica contra a mulher constitui uma das mais persistentes violações de direitos humanos…
O comércio eletrônico impõe aos sistemas de venda on-line elevada taxa de mudança em regras…
O objetivo deste estudo é compreender os sentimentos das primíparas frente às dificuldades no processo…
A gestão administrativa eficiente constitui um dos principais pilares de sustentação do desempenho organizacional no…
O artigo examina criticamente o fundamento da periculosidade nas medidas de segurança do direito penal…