Arte

Um estudo sobre a arte na pele: tatuagem como representação da sociedade

ARTIGO ORIGINAL

OLIVEIRA, Arthur Henrique Bomfim de [1]

OLIVEIRA, Arthur Henrique Bomfim de. Um estudo sobre a arte na pele: tatuagem como representação da sociedade. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 04, Vol. 01, pp. 153-165. Abril de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/arte/tatuagem-como-representacao, DOI: 10.5281/zenodo.22033394

RESUMO

O presente artigo investiga a tatuagem sob a ótica dos constructos artísticos e fenômenos socioculturais, analisando a maneira pela qual a arte demográfica reflete e representa as peculiaridades da sociedade contemporânea, com particular ênfase no cenário brasileiro das últimas duas décadas. A investigação pauta-se em uma perspectiva interdisciplinar, estabelecendo diálogos entre a antropologia, sociologia, psicologia, filosofia e as artes visuais. Por meio da análise de evidências históricas e dados contemporâneos, elucida-se a transição semântica da prática: outrora situada na margem da estigmatização, a tatuagem ascende ao status de fenômeno estético de ampla legitimação social. Discutem-se as subjetividades individuais, tais como autoexpressão e pertencimento, e sua interface com os axiomas coletivos, ratificando a tatuagem como forma legítima de arte. Alicerçado em estudos empíricos, o estudo demonstra que a tatuagem atua como um epifenômeno das mutações sociais, constituindo-se em um “arquivo da experiência humana” que consolida identidades em perene diálogo com a cultura.

Palavras-chave: Tatuagem, Arte corporal, Representação social, Identidade, Cultura, Brasil.

1. INTRODUÇÃO

A prática de inscrever marcas permanentes no corpo humano configura-se como um fenômeno milenar e universal, perpassando distintas eras e configurações culturais. Evidências arqueológicas fundamentam a ancestralidade das modificações corporais, destacando-se os vestígios encontrados em grutas paleolíticas e a múmia “Homem de Gelo” (Ötzi), datada de aproximadamente 5.300 anos, que apresenta tatuagens preservadas em sua derme. Nas sociedades ancestrais, o ato de tatuar transcendia a ornamentação, exercendo funções rituais, espirituais ou de distinção hierárquica, funcionando como canais de comunicação com o sobrenatural e comprovação de virilidade (Gusso, 2016; Leitão, 2004).

No decorrer da Idade Média e outros períodos históricos, as tatuagens assumiram papéis polivalentes, atuando desde símbolos de devoção religiosa até registros de identificação pessoal e conquistas militares. Sob a ótica antropológica, as “técnicas do corpo” demonstram que o uso do organismo como suporte simbólico é um fenômeno aprendido e culturalmente situado, no qual cada grupamento social atribui semânticas específicas aos adornos corporais, embora o Ocidente industrial tenha imposto à prática ciclos de profunda estigmatização (Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

No final do século XIX, a mecanização da prática,  impulsionada pela invenção da máquina elétrica, favoreceu sua difusão entre marinheiros, soldados e estratos marginalizados, frequentemente sob condições coercitivas. Os primeiros indivíduos submetidos à tatuagem mecânica foram portuários e criminosos, cujas marcas operavam como selos de exclusão social, enquanto medidas restritivas e sanitaristas no início do século XX empurraram a prática para a clandestinidade, consolidando o estereótipo do tatuado como elemento desviante (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

A partir de meados do século XX, iniciou-se uma transição gradual da obscuridade para a cultura popular, impulsionada por movimentos contraculturais das décadas de 1950 a 1970 que se apropriaram da arte na pele como forma de contestação. Esse processo de ressignificação intensificou-se nas décadas de 1980 e 1990, quando a visibilidade de celebridades e atletas na mídia contribuiu para a naturalização e aceitação social do fenômeno, transformando a tatuagem em um acessório estético de identificação grupal (Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

No cenário brasileiro, a virada do milênio marcou uma alteração paradigmática, na qual a tatuagem integrou o mainstream estético, sendo adotada por diversas faixas etárias e classes socioeconômicas. Atualmente, o Brasil ocupa uma posição de destaque global, figurando entre os países com maior número de pessoas tatuadas e movimentando um mercado bilionário, o que reflete a legitimação da prática como “arquivo da experiência humana” e espelho das transformações sociais contemporâneas (Albuquerque, 2024; Palma, 2023; Schlösser et al., 2020).

A justificativa e o objetivo deste estudo residem na análise da tatuagem não meramente como adorno, mas como um decodificador das subjetividades contemporâneas e das mutações sociais profundas. A leitura desta investigação revela-se essencial ao propor o conceito da “pele como arquivo da experiência humana”, explorando como a arte dermográfica atua como um instrumento de resistência ao esquecimento e de afirmação biográfica em uma era de liquidez social. Ao articular dados empíricos com perspectivas interdisciplinares, o artigo demonstra como a tatuagem se consolidou como um campo de legitimação estética e discursiva, oferecendo ao leitor uma compreensão inédita sobre as dinâmicas de identidade, pertencimento e consumo no século XXI (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

2. CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL DA TATUAGEM

A historiografia da tatuagem revela que a prática de alteração cromática da pele não se restringe a um recorte temporal ou geográfico específico, manifestando-se como uma linguagem antropológica de resistência e significado. Os registros mais remotos remontam ao período Paleolítico Superior, com evidências de pigmentação e ferramentas de escarificação encontradas em sítios arqueológicos na Europa e na Ásia. A descoberta da múmia Ötzi, cujas marcas lineares nas articulações sugerem funções tanto rituais quanto terapêuticas, corrobora a tese de que a tatuagem operava como um complexo sistema de comunicação e intervenção biopolítica nas sociedades pré-históricas (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

A terminologia moderna “tatuagem” deriva do vocábulo polonésio tatau, que mimetiza o som do percutir de ferramentas artesanais sobre a derme. A reintrodução dessa prática no imaginário ocidental ocorreu de forma incisiva no século XVIII, por meio das expedições do Capitão James Cook à Polinésia, onde marinheiros europeus entraram em contato com as ricas tradições estéticas locais. Entretanto, ao ser transposta para o contexto da modernidade industrial, a tatuagem sofreu um processo de dessemantização: o que era símbolo de prestígio e genealogia nas culturas tribais passou a ser lido, sob o viés eurocêntrico, como um sinal de primitivismo e alteridade exótica (Gusso, 2016; Leitão, 2004).

No final do século XIX e início do XX, a tatuagem consolidou-se como um estigma social no Ocidente, associada majoritariamente a grupos desviantes, prisioneiros e trabalhadores portuários. Teorias criminológicas da época, influenciadas pelo positivismo, frequentemente classificavam as marcas corporais como indícios de atavismo e propensão à criminalidade. Esse cenário de marginalização foi agravado por políticas higienistas que, sob o pretexto de controle epidemiológico, proibiram a prática em diversos centros urbanos, empurrando a arte para a clandestinidade e reforçando seu caráter de rebeldia e exclusão (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

A transição da tatuagem de “marca de marginalidade” para “expressão artística” iniciou-se com a profissionalização técnica e o surgimento dos primeiros estúdios comerciais modernos, que buscaram desvincular a imagem do tatuador de ambientes insalubres. A partir da década de 1970, movimentos de contracultura e a posterior influência da indústria do entretenimento promoveram uma explosão de visibilidade, permitindo que a tatuagem migrasse para corpos de diferentes estratos sociais. Hoje, a prática é entendida como uma forma de “escrita de si”, onde o corpo deixa de ser apenas um organismo biológico para tornar-se um suporte narrativo de identidades fluidas e globais (Albuquerque, 2024; Palma, 2023; Schlösser et al., 2020).

3. IDENTIDADE, SUBJETIVIDADE E PSICOLOGIA DA TATUAGEM

A construção da identidade contemporânea perpassa, inevitavelmente, pela apropriação do corpo como território de expressão da subjetividade e afirmação do “eu”. Sob a ótica da psicologia social, a tatuagem transcende a função de mero adorno para converter-se em um “projeto de si”, por meio do qual o sujeito externaliza narrativas internas e consolida sua autoimagem perante o coletivo. Nesse contexto, a modificação corporal opera como um mecanismo de agência e controle sobre a própria biografia, transformando a pele no suporte primordial para a materialização de valores, traumas e trajetórias individuais (Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

No âmbito das representações sociais, a tatuagem articula a dialética entre a busca pela singularidade e a necessidade intrínseca de pertencimento grupal. Enquanto fenômeno psicossocial, ela permite que o indivíduo se diferencie da massa ao mesmo tempo em que sinaliza sua adesão a determinados nichos culturais ou sistemas de crenças compartilhados. Assim, a arte dermográfica funciona como um signo identitário que organiza a percepção do sujeito sobre si mesmo e sobre seu lugar no tecido social, sendo mediada por estruturas cognitivas que atribuem sentidos específicos e socialmente construídos à imagem corporal (Gusso, 2016; Schlösser et al., 2020).

A psicologia da tatuagem também revela uma dimensão de “escrita de si”, na qual o corpo é ressignificado como um arquivo vivo de memórias, afetos e transições vitais. Cada intervenção pigmentar pode ser interpretada como um marco biográfico que auxilia o indivíduo na elaboração simbólica de eventos existenciais, conferindo concretude a elementos imateriais da psique. Essa função narrativa permite que o sujeito resgate a soberania sobre sua história pessoal, transformando a derme em um repositório de experiências que buscam resistir à efemeridade e ao esquecimento (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

Nota-se que a motivação psicológica para o ato de tatuar-se responde, frequentemente, a uma demanda por permanência em uma sociedade marcada pela liquidez das relações e das identidades. Ao fixar um símbolo de forma indelével, o indivíduo estabelece um ponto de ancoragem subjetiva que desafia a volatilidade das estruturas contemporâneas. Desse modo, a tatuagem consolida-se como uma ferramenta de resiliência e afirmação existencial, integrando o corpo biológico ao corpo social e psíquico em uma unidade indissociável de sentido e representação (Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

A dimensão psicológica da tatuagem estabelece uma interface crítica entre o corpo biológico e o corpo social, atuando como uma espécie de “segunda pele” que delimita e, ao mesmo tempo, comunica a essência do sujeito. Sob a perspectiva das representações sociais, essa marcação permite que o indivíduo negocie sua posição no mundo, transformando o corpo em um suporte de resistência política e estética. A tatuagem, portanto, deixa de ser apenas uma escolha visual para tornar-se um imperativo de visibilidade, onde o sujeito assume o protagonismo na construção da própria imagem, desafiando padrões hegemônicos de beleza e comportamento (Gusso, 2016; Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

Essa busca pela autonomia corporal reflete um processo de “reapropriação do self”, especialmente em contextos onde o indivíduo se sente fragmentado pelas pressões da hipermodernidade. A fixação de um símbolo perene na derme funciona como um antídoto à volatilidade das relações contemporâneas, conferindo ao sujeito uma sensação de continuidade e integridade psíquica. Dessa forma, a tatuagem não apenas registra o passado, mas projeta um compromisso com o futuro, consolidando a identidade como uma estrutura em constante construção, mas ancorada em marcos visíveis e indeléveis de significado (Leitão, 2004; Schlösser et al., 2020).

Neste contexto, nota-se que a psicologia da tatuagem também abarca a alteridade, pois o sentido da marca é frequentemente validado pelo olhar do outro. A escolha de designs e localizações corporais revela uma estratégia de comunicação não verbal que busca, simultaneamente, o reconhecimento e a distinção. Ao articular elementos do imaginário coletivo com interpretações estritamente pessoais, o tatuado cria uma linguagem híbrida que permite a expressão de subjetividades complexas, reafirmando que o corpo contemporâneo é, antes de tudo, um território de escrita biográfica e significação cultural (Gusso, 2016; Schlösser et al., 2020).

4. TATUAGEM COMO ARTE E EXPRESSÃO CULTURAL

A ascensão da tatuagem ao status de manifestação artística contemporânea é resultado de um complexo processo de legitimação que transpõe a barreira do suporte biológico. Ao ser integrada aos espaços de exposição, museus e galerias, a arte dermográfica deixa de ser vista meramente como uma modificação corporal para ser reconhecida como uma linguagem visual dotada de técnica, estética e intenção comunicativa. Essa mudança de paradigma permitiu que o tatuador fosse ressignificado como um artista plástico, cujo trabalho dialoga com correntes tradicionais da história da arte, ao mesmo tempo em que propõe novas formas de interação entre a obra e o público (Gusso, 2016; Leitão, 2004).

Nesse cenário, a profissionalização e a sofisticação do setor são evidenciadas pela magnitude de eventos de escala global, como a Tattoo Week São Paulo, considerada o maior encontro de arte na pele do mundo. A realização de certames dessa natureza não apenas fomenta o intercâmbio técnico entre profissionais de diversos países, mas também atua como um agente de educação cultural para o grande público, desmistificando preconceitos e apresentando a tatuagem como uma indústria criativa de alto valor agregado. Tais eventos consolidam o mercado brasileiro como um polo de referência internacional, movimentando cadeias econômicas que abrangem desde a fabricação de insumos tecnológicos até o turismo de eventos (Albuquerque, 2024; Palma, 2023; Schlösser et al., 2020).

A Figura 1 ilustra essa dinâmica de profissionalização, apresentando um tatuador em atuação durante a Tattoo Week São Paulo. Eventos dessa magnitude são fundamentais pois celebram a tatuagem como expressão artística, promovendo o encontro entre especialistas e o público, o que reforça a legitimidade da técnica no campo das artes visuais.

Figura 1: Tatuador profissional em atuação na Tattoo Week São Paulo.

Fonte: Rosa (2024).

A tatuagem enquanto expressão cultural reflete, portanto, a diversidade e a hibridização da sociedade globalizada. Ela funciona como um sistema de signos que permite a circulação de referências ancestrais em contextos urbanos, onde estilos como o old school, o realismo e o tribal são reinterpretados sob novas sensibilidades estéticas. Essa capacidade de absorver e ressignificar influências multiculturais torna a tatuagem um termômetro das tendências contemporâneas, servindo como um meio de comunicação não verbal que articula identidades coletivas e individuais em um suporte perene e visceral (Albuquerque, 2024; Gusso, 2016; Leitão, 2004).

Assim, observa-se a consolidação da “cultura da tatuagem” no Brasil demonstra que a prática superou a fase de simples moda passageira para estabelecer-se como um pilar da identidade visual de uma geração. O crescimento exponencial do número de estúdios e a crescente aceitação em ambientes corporativos e midiáticos reiteram que a arte na pele é hoje um componente indissociável do capital cultural brasileiro. Ao unir técnica apurada, relevância econômica e profundidade simbólica, a tatuagem afirma-se como uma das formas mais democráticas e potentes de expressão artística da atualidade (Albuquerque, 2024; Palma, 2023; Schlösser et al., 2020).

A transição da tatuagem para o mainstream estético no Brasil contemporâneo reflete uma mudança profunda nas estruturas de aceitação social e no perfil demográfico dos usuários. Se outrora a prática era restrita a nichos marginalizados, os dados atuais posicionam o país entre as dez nações com maior contingente de indivíduos tatuados no mundo, abrangendo aproximadamente 37% da população. Este fenômeno é acompanhado por uma diversificação geracional e socioeconômica, na qual a marca na pele deixa de sinalizar a ruptura com a ordem social para tornar-se um acessório de distinção e capital cultural amplamente adotado por profissionais de diversas áreas, inclusive em setores tradicionalmente conservadores (Palma, 2023; Schlösser et al., 2020).

Do ponto de vista econômico, a consolidação desse mercado é impulsionada pela profissionalização técnica e pelo crescimento exponencial de estúdios especializados, que operam sob rigorosos padrões sanitários e tecnológicos. Eventos de magnitude internacional, como a Tattoo Week São Paulo, exemplificam a pujança do setor ao reunir milhares de artistas e movimentar cadeias produtivas que vão do turismo à indústria de pigmentos e equipamentos. Essa robustez comercial atua como um vetor de legitimação sistêmica, transformando a tatuagem em uma indústria criativa estratégica para a economia da cultura no Brasil, o que contribui diretamente para a erosão dos preconceitos remanescentes (Albuquerque, 2024; Palma, 2023).

No âmbito das relações de trabalho e visibilidade midiática, observa-se uma desconstrução progressiva de barreiras institucionais. A presença de profissionais tatuados em posições de destaque na mídia televisiva e no ambiente corporativo sinaliza que a competência técnica tem prevalecido sobre estereótipos estéticos. Essa naturalização é fundamental para que a tatuagem seja compreendida como um direito de autoexpressão e liberdade individual, integrando-se ao cotidiano urbano como uma forma de comunicação visual que não mais impede a ascensão profissional ou a inserção social plena (Leitão, 2004; Palma, 2023).

Assim, o cenário brasileiro atual não apenas absorveu a tatuagem como tendência, mas a converteu em um pilar da identidade nacional contemporânea. A arte na pele funciona como um “arquivo da experiência” de um povo que utiliza o corpo como suporte para narrar histórias pessoais e resistências coletivas. Ao alinhar alta tecnologia, talento artístico reconhecido internacionalmente e uma aceitação social em escala ascendente, o Brasil ratifica a tatuagem como uma das manifestações culturais mais vibrantes e democráticas do século XXI (Albuquerque, 2024; Gusso, 2016; Schlösser et al., 2020).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As análises empreendidas neste estudo permitem ratificar que a tatuagem transcendeu sua histórica condição de marca de marginalidade para consolidar-se como uma linguagem visual de profunda densidade semântica na contemporaneidade. A investigação historiográfica revelou que, embora as raízes da prática sejam ancestrais e intrinsecamente ligadas a rituais de passagem e distinção social, sua trajetória no Ocidente industrial foi marcada por um hiato de estigmatização, superado apenas nas últimas décadas por meio de um complexo processo de legitimação estética e institucional.

No âmbito da subjetividade, conclui-se que a modificação corporal opera como um pilar fundamental da construção identitária. O corpo, ressignificado como suporte narrativo e “projeto de si”, permite que o indivíduo materialize sua biografia e negocie sua posição na dialética entre a busca pela singularidade e a necessidade de pertencimento coletivo. Assim, a tatuagem funciona como um mecanismo de agência e soberania biográfica em uma sociedade caracterizada pela volatilidade das estruturas e identidades.

A realidade brasileira, detalhada por meio de métricas de mercado e pela magnitude de eventos como a Tattoo Week São Paulo, demonstra que a tatuagem atingiu um patamar de consagração não apenas artística, mas também econômica. O Brasil consolidou-se como um epicentro global da arte dermográfica, onde a desconstrução de barreiras em ambientes corporativos e a visibilidade em plataformas midiáticas sinalizam uma mudança paradigmática: a marca na pele é hoje um componente vital da indústria criativa e um direito de autoexpressão amplamente aceito.

Em última análise, este artigo demonstra que a tatuagem funciona como um “arquivo da experiência humana” e um espelho das mutações sociais contemporâneas. Ao fixar o imaterial e conferir perenidade à subjetividade, ela afirma-se como uma das manifestações culturais mais potentes e democráticas do século XXI. A relevância deste estudo reside, portanto, na compreensão de que a arte na pele não é apenas um fenômeno estético passageiro, mas uma ferramenta essencial de afirmação existencial e registro histórico da humanidade.

REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, Flávia. Maior evento de arte na pele do mundo começa nesta sexta em São Paulo. Agência Brasil, São Paulo, 14 nov. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-11/maior-evento-de-arte-na-pele-do-mundo-comeca-nesta-sexta-em-sao-paulo. Acesso em: 21 de mar. 2026.

GUSSO, Francisco Benvenuto. A tatuagem como linguagem artística na contemporaneidade. Revista Vernáculo, Curitiba, n. 37, p. 111-131, 1. sem. 2016. ISSN 2317-4021.

LEITÃO, Débora Krischke. Mudança de significado da tatuagem contemporânea. São Leopoldo: Unisinos, 2004. (Cadernos IHU Idéias, v. 2, n. 16). ISSN 1679-0316.

PALMA, Mari. O Brasil está entre os 10 países onde mais pessoas se tatuam. CNN Brasil, São Paulo, 18 set. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/o-brasil-esta-entre-os-10-paises-onde-mais-pessoas-se-tatuam/. Acesso em: 20 jan. 2026.

ROSA, Rovena. Maior evento de arte na pele do mundo começa nesta sexta em São Paulo. Agência Brasil, São Paulo, 15 nov. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-11/maior-evento-de-arte-na-pele-do-mundo-comeca-nesta-sexta-em-sao-paulo. Acesso em: 22 abr. 2026.

SCHLÖSSER, Adriano; GIACOMOZZI, Andréia Isabel; CAMARGO, Brigido Vizeu; WACHELKE, João Fernando Rech. Representações sociais da tatuagem para pessoas tatuadas. PSI UNISC, Santa Cruz do Sul, v. 4, n. 2, p. 62-78, jul./dez. 2020. DOI: 10.17058/psiunisc.v4i2.14945.

TATTOO WEEK. 12ª Tattoo Week SP: maior convenção de tatuagem e piercing do mundo. Tattoo Week. São Paulo, 2024. Disponível em: https://tattooweek.com.br/. Acesso em: 20 abr. 2026.

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Tatuador profissional e Artista visual com 7 anos de experiência no setor de modificação corporal. Especialista em tatuagem de Realismo Preto e Cinza (Black and Grey), com ênfase técnica em representações de retratos (rostos), animais e elementos. Atua no desenvolvimento e aplicação de métodos avançados de pigmentação dérmica e sombreamento. ORCID: 0009-0004-2576-3570.

Contribuição dos autores:

Arthur Henrique: O manuscrito foi integralmente desenvolvido pelo autor. Concepção e delineamento do estudo, definição do problema de pesquisa e estruturação teórica do manuscrito. Realizou a revisão bibliográfica interdisciplinar (antropologia, sociologia, psicologia, filosofia e artes visuais), a análise e interpretação dos dados empíricos e estatísticos apresentados, bem como a redação integral do texto, organização das seções e elaboração das considerações finais. Também foi responsável pela revisão crítica do conteúdo, adequação às normas da revista e aprovação da versão final submetida.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

N/A.

Agradecimentos:

N/A.

Financiamento:

N/A.

Nota de Presença de IA:

N/A.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 15 de fevereiro de 2026.

Material aprovado pelos pares: 05 de março de 2026

Material editado aprovado pelos autores: 22 de abril de 2026.

5/5 - (9 votos)
Arthur Henrique

Tatuador profissional e Artista visual com 7 anos de experiência no setor de modificação corporal. Especialista em tatuagem de Realismo Preto e Cinza (Black and Grey), com ênfase técnica em representações de retratos (rostos), animais e elementos. Atua no desenvolvimento e aplicação de métodos avançados de pigmentação dérmica e sombreamento. ORCID: 0009-0004-2576-3570.

Recent Posts

As práticas de ensino de leitura e escrita sob o viés do alfaletramento: Uma revisão bibliográfica

Este estudo analisou fundamentos teóricos e implicações pedagógicas de alfaletramento sugeridas para o domínio do…

14 horas atrás

IA generativa e educação: Desafios para desenvolver a competência informacional para o uso crítico da informação

O presente estudo tem por objetivo discutir a crescente utilização da Inteligência Artificial (IA) generativa…

17 horas atrás

Comunicar ou silenciar: O pesquisador, a Inteligência Artificial e o dever público da ciência

Este artigo examina a posição do pesquisador diante do ambiente contemporâneo de comunicação, aqui denominado…

7 dias atrás

A erosão da autoridade científica: Da validação institucional à desinformação em rede

Este artigo examina a erosão da autoridade científica no ambiente contemporâneo de comunicação, que denomino…

7 dias atrás

Da modernidade líquida à sociedade vaporizada: Não-localização, atenção e o futuro da comunicação do saber

Este artigo propõe e desenvolve o conceito de sociedade vaporizada como chave de leitura da…

7 dias atrás

O uso de obras cinematográficas como propaganda eleitoral antecipada ou irregular no direito eleitoral brasileiro

Este artigo analisa a instrumentalização política da arte, com especial atenção ao cinema, como possível…

2 semanas atrás