Saúde

Caracterização epidemiológica dos casos de sífilis congênita registrados no estado do Amapá, Amazônia brasileira, entre 2013 e 2022

ARTIGO ORIGINAL

PINHEIRO, Luane Magalhães [1], LEAL, Mariana Vasconcelos de Mendonça [2], FREIRE, Tadeu Banha Lopes [3], DENDASCK, Carla Viana [4], DIAS, Claudio Alberto Gellis de Mattos [5], FECURY, Amanda Alves [6]

PINHEIRO, Luane Magalhães et al. Caracterização epidemiológica dos casos de sífilis congênita registrados no estado do Amapá, Amazônia brasileira, entre 2013 e 2022. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 01, pp. 60-77. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/sifilis-congenita-registrados, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/sifilis-congenita-registrados

RESUMO

A Sífilis Congênita (SC) é causada pela transmissão da espiroqueta Treponema pallidum da mãe para o feto, o que pode resultar em diversas apresentações clínicas. Dentre as doenças que podem ser transmitidas durante a gestação, a sífilis é uma das que possuem a maior taxa de incidência, sendo uma doença de notificação compulsória para fins de vigilância epidemiológica. O estudo teve como objetivo caracterizar epidemiologicamente a doença no estado do Amapá. Os principais instrumentos para coleta de dados foram o Departamento de Informação em Saúde do SUS (DATASUS), o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). No período analisado, de 2013 a 2022, foram notificados 1129 casos de sífilis congênita e 24 óbitos no Amapá. Observou-se um crescimento significativo do número de casos nesse período que podem estar relacionados a fatores como a melhoria no rastreio, a diminuição no uso de preservativos, e a falhas na disponibilidade do tratamento adequado. Logo, é preocupante o panorama referente à SC no Amapá, uma vez que poderia ser efetivamente combatida se fossem colocadas em prática as premissas estabelecidas pelas autoridades nacionais e internacionais.

Palavras-chave: Sífilis, Sífilis Congênita, Vigilância, Epidemiologia.

1. INTRODUÇÃO

A sífilis é uma enfermidade contagiosa e sistêmica, de progressão e alcance global, cujo agente causador é a bactéria Treponema pallidum. Quando a infecção ocorre a partir da transmissão por via transplacentária, vertical, da mãe para o feto, denomina-se Sífilis Congênita (SC) (Azevedo et al., 2019). Nesse sentido, a SC é uma das principais repercussões da infecção na gestante por englobar o nascimento do bebê com sífilis e suas complicações, bem como a possibilidade de ocorrência de aborto, morte fetal e neonatal (Guimarães et al., 2020).

Apesar do diagnóstico ágil e da terapia acessível, tal doença ainda é considerada uma questão de saúde pública em virtude do aumento constante dos índices de ocorrências (Trento e Moreira, 2022). De acordo com Saback et al. (2019), mais de 12 milhões de indivíduos são afetados pela sífilis em escala mundial, destacando-se nesse total, algo em torno de 1,5 a 1,8 milhões são gestantes, e aproximadamente 1,6 milhões são crianças.

Considerando o crescimento progressivo dos registros no Brasil, é fundamental compreender as características das gestantes e crianças infectadas, bem como identificar as áreas do país com maior incidência dessa doença e a importância dos obstáculos que impactam o controle da sífilis. Assim, os estudos epidemiológicos são importantes, pois auxiliam e/ou subsidiam, através das informações vigentes, o desenvolvimento de medidas que visem a reduzir ou a eliminar a ocorrência de doenças e agravos (Trento e Moreira, 2022).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amapá, que abrange 16 municípios da região Norte do Brasil, possui uma densidade demográfica de apenas 5,15 habitantes por milhão quadrado. Essa baixa densidade, aliada à localização de difícil acesso e à extensa área territorial, representa um desafio para a adesão ao pré-natal e o diagnóstico adequado, conforme apontam Mendes et al. (2023). Por isso, este estudo justifica-se pela necessidade de avaliar as características do pré-natal nessa região devido ao impacto na saúde pública.

2. OBJETIVOS

O estudo objetivou realizar a caracterização epidemiológica dos casos de sífilis congênita registrados no estado do Amapá entre 2013 e 2022, observando possíveis reduções ou aumentos nas notificações dos mesmos, visto que impactam diretamente na saúde pública.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, transversal, analítica e descritiva. Segundo Minayo (2001) e Rouquayrol e Silva (2018) o estudo quantitativo é um método que visa coletar informações mensuráveis para posterior análise estatística da amostra representativa de uma determinada população em estudo. Para uma avaliação estatística adequada dos dados, é fundamental definir inicialmente a unidade de análise, que constitui a maneira pela qual os dados são organizados e envolve a decisão sobre o que será investigado, podendo ser uma organização, um grupo, diferentes grupos dentro de uma comunidade ou indivíduos específicos.

Os dados foram obtidos por meio de domínio público, respeitando as normas éticas vigentes na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, por meio da coleta de informações online provenientes do Departamento de Informação em Saúde do SUS (DATASUS) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), além do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) (Brasil, 2022a).

Para a análise das características sociodemográficas dos casos de sífilis congênita do estado do Amapá de 2013 a 2022, foram selecionados os seguintes indicadores do DATASUS: Casos confirmados de SC e a distribuição percentual de casos de gestantes com sífilis segundo faixa etária da mãe, a raça materna e o nível de escolaridade da mãe. A distribuição demográfica no estado e os óbitos dos casos de SC tanto pelo SINAN como pelo SIM sendo categorizados em óbitos infantis e fetais; a realização do pré-natal, o momento do diagnóstico e o status do tratamento do parceiro (Brasil, 2022a). Os dados coletados foram organizados e analisados em planilha do Microsoft Excel, utilizado para confecção de gráficos e tabelas.

4. RESULTADOS

Do total de notificações de gestantes com sífilis adquirida no Estado do Amapá, foram registrados 1.129 casos de sífilis congênita, no período de 2013 a 2022, com o pico de 281 eventos no ano de 2021. A Figura 1 abaixo mostra a detecção da SC em uma evolução temporal.

Figura 1: Quantitativo de notificações de gestantes com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022

Fonte: (Brasil, 2022a).

Durante o período avaliado, somente a partir de 2018, foram registrados óbitos por sífilis congênita (24 casos), 2,12%; e 11 por outras causas (0,97%). Do total de registros, 89,37% (1.009) dos casos estão vivos e 21 foram ignorados/branco, representando 1,86%, de acordo com dados do SINAN, representado a seguir na Figura 2. Dos 24 óbitos registrados no Estado, 21 concentram-se na capital. Por outro lado, os dados do SIM, revelam um total de 24 óbitos infantis pelo agravo e 9 óbitos fetais no período relacionado.

Figura 2: Quantitativo, em percentual, da evolução dos casos com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022

Fonte: (Brasil, 2022a).

 Em relação ao quantitativo de casos notificados de Sífilis Congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, por faixa etária materna, 381 casos estão entre 20 e 24 anos; em seguida, o estrato entre 15 e 19 anos, com um quantitativo de 325 casos. A distribuição das idades está exemplificada na Figura 3.

Figura 3: Quantitativo de casos notificados de sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, por faixa etária

Fonte: (Brasil, 2022a).

No tocante ao quantitativo de casos notificados com Sífilis Congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, no que se refere à autodeclaração de cor/raça, constatou-se um total de 537 pardas, correspondente a 47,56%, 16 pretas (1,41%), 69 brancas (6,11%), 1 indígena (0,08%) e 506 casos com dados ignorados ou em branco, com 44,81%, como é descrito pela Figura 4.

Figura 4: Distribuição quantitativa de casos notificados com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, no que se refere à autodeclaração de cor/raça

Fonte: (Brasil, 2022a).

Quanto ao município de residência, dos 1.129 de casos notificados com Sífilis Congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, 875 são provenientes da capital Macapá (77,50%). Seguido pelas cidades de Santana, Laranjal do Jari, Porto Grande e Mazagão, com respectivamente 124, 23, 16 e 16 notificações de SC. A distribuição geográfica do agravo no Estado do Amapá pode ser observada na Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição demográfica do quantitativo de casos notificados com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022

Fonte: (Brasil, 2022a).

De 2013 a 2022, o maior quantitativo de casos notificados com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, ocorreu em mães com 5ª a 8ª série incompleta do Ensino Fundamental, 20,19% dos casos; seguida do Ensino Médio Incompleto, com 20,01%; do Ensino Médio Completo, 15,76% das mães; do Ensino Fundamental Completo, com 9,12%; da 1ª a 4ª série incompleta, com 4,07%. A 4ª série completa do Ensino Fundamental, o Ensino Superior Incompleto, e Completo apresentaram incidência de 3,01%; 2,03% e 1,06% respectivamente. Além disso, 0,70% das gestantes eram analfabetas e a maioria foi ignorado ou branco; exemplificado na Figura 5.

Figura 5: Quantitativo de casos notificados com sífilis congênita (SC) no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022, por nível de escolaridade das mães, por distribuição em frequência

Fonte: (Brasil, 2022a).

Das gestantes com diagnóstico positivo de sífilis, dos 1.129 casos de sífilis congênita no Amapá, 797 (70,59%) fizeram o pré-natal, 239 (21,16%) não realizaram e 93 (8,23%) ignorado/branco. Quanto ao momento do diagnóstico, extraiu-se que 400 foram realizados durante o pré-natal, 443 no momento do parto/curetagem, 191 após o parto, 60 casos não realizados e 89 tinham dados ignorados ou em branco.

No que se refere à quantidade de parceiros tratados, observou-se um total de 742 casos não tratados, 154 tratados e 236 com dados ignorados ou em branco. Nesse âmbito, nota-se um percentual de 65,72% de parceiros que não foram tratados, contra uma taxa de apenas 13,64% de tratados.

De acordo com a análise dos fatores relacionados à assistência pré-natal, diagnóstico e tratamento do parceiro, a Tabela 2 evidencia que a maioria das gestantes realizou o pré-natal e foram diagnosticadas no momento do parto ou curetagem, além da não aderência ao tratamento por grande parte dos parceiros.

Tabela 2: Quantitativo de realização do pré-natal, momento do diagnóstico e tratamento do parceiro em números absolutos e percentual, no Estado do Amapá, entre 2013 e 2022

Fonte: (Brasil, 2022a).

5. DISCUSSÃO

No que concerne à quantidade de casos de SC ao longo do período estudado, observou-se que a curva com padrão ascendente se assemelha ao padrão nacional. Nesse sentido, Domingues et al. (2021) e Trento e Moreira (2022) retratam que o crescimento de casos pode estar relacionado a múltiplos fatores, tais como: 1. Incremento na testagem/teste rápido; 2. Diminuição no uso de preservativos; 3. Redução na administração de penicilina na atenção primária à saúde; e 4. Desabastecimento mundial do medicamento.

Por outro lado, a considerável ascensão de eventos em 2021, bem como o brusco declínio apresentado em 2022 não encontram amparo sólido nas literaturas pesquisadas e assim, suscitam dúvidas quanto à razão do acontecimento, sendo incerto se o acréscimo em tal monta se relaciona aos fatores elencados ou a ações como o projeto de Resposta Rápida à Sífilis nas Redes de Atenção da Agenda Estratégica para Redução da Sífilis no Brasil 2020-2021, bem como se a diminuição representa uma maior eficácia das estratégias do estado para prevenir e tratar os casos de infecções sexualmente transmissíveis. Destacando-se, portanto, a necessidade de monitorizar esses dados para melhor compreender a evolução desses números (Brasil, 2021; Abrão et al., 2024; Amanajás et al., 2024).

Nessa conjuntura, quanto ao crescimento de casos de SC, o Boletim Epidemiológico da Sífilis de 2022 revela que, em 2021, o Amapá obteve a segunda maior taxa de incidência nacional de SC e, entre 2020 e 2021, alcançou o segundo maior aumento nas taxas de incidência de SC (Brasil, 2022).

Quanto à evolução dos casos, de acordo com os dados do SINAN, observou-se equivalência entre o número de acometidos pela doença que permaneciam vivos, assim como o quantitativo de casos ignorados no âmbito estadual e nacional. Por outro lado, merece alerta que dados do SINAN e SIM revelaram a inexistência de notificação de óbitos antes de 2018, revelando um déficit para a análise em questão. Nesse âmbito, devem ser ventiladas hipóteses de subnotificações ou sub-registros no sistema, sendo essa uma das limitações do estudo realizado, pois, ao analisar dados secundários, fica impossibilitada a verificação de falhas de preenchimento e/ou inconclusividade de elementos das fichas de notificação, influenciando na observação de informações que compõem o perfil e o manuseio dos casos de SC (Trento e Moreira, 2022).

Com relação ao aspecto etário, apesar da faixa etária materna de casos de SC entre 15 e 24 anos corresponder à 62,5% dos casos notificados no Amapá, tal qual na média nacional e em outros estudos referenciados, sobressai o fato de haver relatos de gravidez mães na faixa etária de 10 a 14 anos. Tal constatação pode ser explicada pela vulnerabilidade desse grupo, mais exposto às ISTs, pois atravessa uma fase de transição em sua maturidade sexual, emocional e cognitiva. Esse período é caracterizado pelo aumento da frequência de relações sexuais, descobertas, e forte influência de grupos sociais. Além disso, percebe-se um início cada vez mais precoce da vida sexual, geralmente associado a práticas desprotegidas, tanto em relação à prevenção da gravidez quanto das ISTs (Azevedo et al., 2019; Pereira et al., 2020; Brasil, 2022).

Acerca da variável cor/raça, os pardos representam maioria dos casos de SC no plano nacional e estadual em proporções equivalentes, uma vez que 63,5% da população amapaense, segundo o Censo de 2022, é composta por essa raça (Brasil, 2022; Ibge, 2022). Contudo, merece destaque que parcela significativa dos casos tiveram cor/raça ignorada ou em branco, diferente do observado nacionalmente. Essa situação resulta da complexidade em entender os conceitos de “ser negro”, “raça” e “cor”, o que prejudica o preenchimento adequado dessa informação nos sistemas de saúde e pode acarretar uma subnotificação de indivíduos negros e indígenas, especialmente em função das numerosas comunidades quilombolas e indígenas que não têm acesso a serviços de saúde adequados. Com isso, a falta de dados confiáveis representa um obstáculo para a análise epidemiológica e para a formulação de políticas públicas (Saback et al., 2019; Machado et al., 2022; Trento e Moreira, 2022).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge, 2022), a população de Macapá e Santana representam 60,3% (442.933/733.508 habitantes) e 14,6% (107.618/733.508) da população amapaense, respectivamente. Nesse sentido, o dado de que 88,48% dos casos de SC confirmados no período estudado em todo o estado pertence a ambas cidades, pode estar relacionado a maior densidade populacional dessas regiões, além de reforçar a suspeita de subnotificação nos interiores, uma vez que a infraestrutura rodoviária é insuficiente, com diversos trechos sem pavimentação, e a baixa densidade populacional em um território extenso dificulta o acesso aos serviços de saúde, dificultando acesso a testes e pré-natal adequados (Mendes et al., 2023).

Ademais, os casos nas ilhas do Pará, sobretudo Afuá, Breves e Chaves, pela proximidade geográfica, são registrados principalmente na capital Macapá. O meio de transporte das gestantes dessas ilhas e de áreas mais remotas do Estado é o barco, por se tratarem de cidades cercadas por rios e córregos, situação que dificulta o acesso aos serviços médicos e acarreta o início inadequado do pré-natal, principalmente pela falta de recursos financeiros para aquisição de passagens aéreas para viajar a cidades com atendimento de referência em busca de serviços médicos (Nemer et al., 2021; Mendes et al., 2023; Amanajás et al., 2024).

No Amapá e nacionalmente, a maioria das notificações sobre escolaridade materna foi ignorada ou deixada em branco no SINAN. O segundo grupo mais representado no estado corresponde a mães com Ensino Fundamental e Médio Incompleto, reforçando que a baixa escolaridade das gestantes limita a compreensão da importância das medidas de prevenção, sua efetividade, percepção da doença e adesão aos métodos contraceptivos, afetando a eficácia das estratégias de tratamento. Em contraste, houve uma queda significativa nos casos de SC entre gestantes com ensino superior incompleto (2,03%) e completo (1,06%), confirmando que níveis mais altos de educação influenciam a incidência da sífilis gestacional, embora não sejam fatores isolados (Silva et al., 2019; Guimarães et al., 2020; Pereira et al., 2022; Itapary et al., 2023).

Noutro norte, apesar da meta de pré-natal instituída previamente pelo Ministério da Saúde ser de 95% de cobertura, os dados levantados demonstraram desempenho aquém do esperado tanto na esfera local quanto nacional, não obstante, tenham sido similares entre si. Essa ampla cobertura não garante, por si só, a qualidade e a adequação do acompanhamento, o que revela uma problemática relevante na implementação das políticas públicas locais, constatando baixa oferta de serviços de assistência pré-natal de qualidade que pode, por consequência, elevar em até cinco vezes a mortalidade perinatal (Guimarães et al., 2020; Pereira et al., 2020).

Além disso, ainda é comum encontrar gestantes que realizaram pouca ou nenhuma consulta pré-natal. Ainda assim, a cobertura de pré-natal nos últimos anos aliado ao fato de que mulheres jovens são as mais expostas e estão entre as mais vulneráveis a infecções sexualmente transmissíveis, dá-se então, um cenário influenciado pela iniciação sexual em idade precoce e pela falta de cuidado com o uso de métodos contraceptivos. Essa combinação aumenta significativamente os riscos de exposição a essas doenças (Pereira et al., 2020).

Assim, é fundamental fortalecer a educação informativa, intensificar as consultas e aprimorar o diagnóstico por meio do teste de VDRL, além de ampliar o acesso ao tratamento recomendado pelo Ministério da Saúde com penicilina benzatina, visto que essas estratégias podem contribuir significativamente para a melhoria da prevenção e tratamento (Abrão et al., 2024).

Domingues et al. (2021) traz à baila que, apesar do incremento significativo de pré-natais com sete ou mais consultas no período estudado, a quantidade de consultas não se traduziu em qualidade, haja vista que a sífilis congênita continua sendo consequência da sífilis materna não diagnosticada ou não tratada de forma adequada e oportuna. À vista disso, cumpre ressaltar a inconveniente quantidade casos de SC em que se ignora se foi realizado pré-natal.

No tocante ao momento do diagnóstico, verifica-se de modo comparativo um percentual consideravelmente maior de casos descobertos após o parto no Amapá face à realidade média brasileira. Por sua vez, o percentual de diagnósticos de SC durante o pré-natal no estado foi consideravelmente menor que a média nacional em igual período.  Assim, considerando que as gestantes devem ser testadas para sífilis, no mínimo, na primeira consulta de pré-natal, no início do terceiro trimestre, e no momento da internação para o parto, infere-se que houve falha no rastreio da doença, o que evidencia sistematicamente um diagnóstico mais tardio no âmbito estadual (Domingues et al., 2021).

No que se refere ao ínfimo percentual de parceiros tratados, tem-se a confirmação da dificuldade de alcance e de adesão do parceiro ao pré-natal, bem como corrobora a baixa qualidade e eficácia apenas parcial da assistência pré-natal. Outrossim, cumpre ressaltar o grave percentual de casos de SC em que se ignora se houve tratamento do parceiro, principalmente pelo risco de recontaminação e disseminação de doença prevenível e tratável (Fernandes et al., 2021).

Nesse cenário, Fernandes et al. (2021) pontua que as falhas na assistência pré-natal ocorrem devido a aspectos multifatoriais como: 1. Convocação dos parceiros ao serviço de saúde através da gestante; 2. Falta de comunicação da gestante ao parceiro quando a descoberta da sífilis esteve relacionada ao não tratamento dos parceiros; 3. Indisponibilidade temporária da penicilina; 4. Baixo entendimento da importância das medidas de prevenção; 5. Recursos financeiros insuficientes para deslocamento até a unidade de saúde; 6. Multiplicidade de parceiros da gestante; e 7. Medo de violência doméstica.

Apesar dos fatores dificultadores, as medidas de prevenção da doença são simples e de baixo custo, sendo necessárias ao menos três momentos de testagem ao longo do pré-natal, bem como estímulo ao uso de preservativo e tratamento imediato dos casos diagnosticados em mulheres e seus parceiros. Em contrapartida, o tratamento de uma criança com sífilis congênita é bastante prolongado e oneroso, assim faz-se necessário ampliar os esforços para haver maior envolvimento das partes envolvidas na melhoria do referido índice, inclusive porque o estímulo à participação do parceiro durante todo o pré-natal é fundamental para o bem-estar biopsicossocial da mãe, do bebê e dele próprio (Guimarães et al., 2020; Domingues et al., 2021).

6. CONCLUSÃO

Existe um cenário ainda preocupante com relação à Sífilis Congênita no Amapá entre 2013 e 2022, destacando tanto avanços quanto desafios no combate à doença. Embora o aumento nos casos possa ser parcialmente atribuído ao aprimoramento do rastreamento pré-natal, persistem problemas como a baixa adesão ao uso de preservativos, falhas na disponibilidade de penicilina e insuficiências no tratamento dos parceiros. Além disso, a subnotificação e a falta de dados completos sobre cor/raça e escolaridade materna apontam para lacunas significativas na coleta de informações, o que compromete a eficácia das intervenções.

O estudo também evidenciou a necessidade urgente de melhorar o acesso e a qualidade da assistência pré-natal, especialmente fora da capital, e de promover uma educação sexual mais eficaz para jovens. A baixa adesão ao tratamento pelos parceiros e o diagnóstico tardio reforçam a importância de uma abordagem mais integrada e abrangente no enfrentamento da SC. Portanto, é fundamental que as autoridades competentes utilizem esses dados para corrigir as deficiências nas políticas públicas e implementem estratégias mais eficazes, alinhadas às diretrizes nacionais e internacionais, visando reduzir a incidência e o impacto da SC no estado.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial LanguageTool para auxiliar na melhoria de estruturação textual, busca de sinônimos e concordâncias verbais. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.

[1] Graduanda em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil. ORCID: 0009-0001-5562-5978. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8175131715079476.

[2] Graduanda em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil. ORCID: 0009-0007-0235-9606.

[3] Graduando em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil. ORCID: 0009-0007-7040-7702. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1185732984894241.

[4] Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutorado em Psicologia e Psicanálise Clínica. Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrado em Psicanálise Clínica. Graduanda em Medicina. Graduação em Ciências Biológicas. Graduação em Teologia. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2952-4337. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2008995647080248.

[5] Biólogo, Doutor em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Professor e pesquisador do do Instituto de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Amapá (IFAP), do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional e Tecnológica (PROFEPT IFAP) e do Programa de Pós Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Rede BIONORTE (PPG-BIONORTE), polo Amapá. ORCID: 0000-0003-0840-6307. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/8303202339219096.

[6] Orientadora. Biomédica, Doutora em Doenças Tropicais, Professora e pesquisadora do Curso de Medicina do Campus Macapá, Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), e do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPGCS UNIFAP). ORCID: 0000-0001-5128-8903. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9314252766209613.

Material recebido: 15 de janeiro de 2025.

Material aprovado pelos pares: 25 de fevereiro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 29 de abril de 2025.

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Luane Magalhães Pinheiro

Graduanda em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil. ORCID: 0009-0001-5562-5978. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8175131715079476.

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