REVISÃO INTEGRATIVA
REIS, Adilson dos [1], EVARISTO, Leidiane da Silva [2], SOUSA, Clarisse Cristina Ferreira Silva [3], CASTRO, Mônica França de [4], GUASTALDI, Rosimeire [5]
REIS, Adilson dos. Et al. As competências do enfermeiro frente ao serviço de atendimento móvel de urgência – SAMU. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 11, Vol. 04, pp. 159-170. Novembro de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/competencias-do-enfermeiro
Introdução: No Brasil, as redes de atenção de urgência e emergência são amparadas e regulamentadas pelo sistema único de saúde, o profissional de enfermagem é essencial para as práticas do atendimento realizado pelos serviços de atendimento móvel de urgência (SAMU), não somente no que tange a orientação e apoio médico, nota-se que a enfermagem tem um grande quantitativo de funções relacionadas ao seu atendimento no SAMU. Objetivos: Identificar o trabalho do Enfermeiro frente ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Método: Foi realizada uma pesquisa do tipo revisão sistemática da literatura, com análise dos principais periódicos de enfermagem nas bases de dados Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e o Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (Pubmed/MEDLINE). Foram levantados um total de 47 artigos com a temática do estudo. Resultados: Foi evidenciado que há uma quantidade considerável de artigos relacionados às competências do enfermeiro frente ao SAMU, e a relevância da profissão para o bom funcionamento do SAMU. Conclusão: Conclui-se que mediante ao desenvolvimento científico e técnico da profissão, com a realização de cursos de graduação e pós-graduação, considera-se importante as atribuições de enfermagem frente ao SAMU, mas que ainda é necessário novas pesquisas por estudantes desta categoria.
Palavras-chave: Enfermagem, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, atribuições de enfermagem.
No Brasil as redes de atenção de urgência e emergência são amparadas e regulamentadas pelo sistema único de saúde, pela portaria n 1.600, de 2011. E são estabelecidas pelos segmentos de: promoção, prevenção e vigilância a saúde, além dos serviços de atendimento móvel de urgência (SAMU). O enfermeiro é o profissional com formação científica e competência humana para lidar com a vida, e seu papel é de suma importância para atendimentos que necessitam de procedimentos invasivos em casos que envolvam as unidades de suporte avançado de vida (SAV). ¹
A enfermagem é uma ciência ampla que contempla os direitos humanos e da saúde, com olhar humanizado no que tange ao desenvolvimento humano e cada vez mais conquista seu espaço nos mais diversos setores de saúde. Antigamente, o profissional de enfermagem era visto como um profissional auxiliar do médico, hoje entende-se essa profissão com amplitude, que tem diversas contribuições que favorecem os pacientes, seja sobre informações, procedimento, manuseio de equipamentos e humanização. ²
O profissional de enfermagem é essencial para as práticas do atendimento realizado pelo SAMU, não somente no que tange a orientação e apoio médico, mas também no atendimento humanizado, com ampla visão de organização, gerenciamento de equipe, conhecimento de equipamentos e manobras que salvam vidas. Portanto, é possível que o enfermeiro foque constantemente em formação continuada, para que se torne cada vez mais especializado na prestação de Primeiros Socorros, para desenvolver o seu trabalho com qualidade e efetividade. ³
Segundo Costa 2016, a atuação do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar móvel deve ser ampliada, por se tratar de um campo extremamente importante em prol da vida e quanto mais eficiente for esse atendimento, maior a chance de vida de um indivíduo. Em conformidade, para Mendes 2010, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU representa um atendimento crucial para o indivíduo que passa por alguma intercorrência de saúde, e precisa ser atendido por profissionais aptos e capazes de realizarem todos os procedimentos necessários, visando a preservação da vida.3
A qualidade dos serviços de saúde oferecidos no Brasil na década de 1980 passou por mudanças significativas, impulsionadas pela falta de recursos financeiros evidenciando a importância de adotar uma nova forma de administrar e gerenciar os recursos financeiros. O gerenciamento de qualidade feito pela enfermagem representa grande importância, portanto é entendido como uma estratégia que alcança um aceitável padrão contínuo de assistência com qualidade. O gerenciamento permite o desenvolvimento de recursos humanos gerando responsabilidades à equipe, incluindo gerentes e administradores.4
Reconhecendo que o Enfermeiro é indispensável na realização do atendimento pré-hospitalar, torna-se de grande interesse compreender as competências e as contribuições para a área, surgindo a indagação: qual as atribuições do enfermeiro frente ao atendimento no SAMU?
A alta demanda por serviços eficazes de atendimento às urgências e emergências médicas gerou diversos modelos de sistemas de atendimento em todo o mundo. No Brasil, a primeira proposta aconteceu em 2003, através da Política Nacional de Atenções às Urgências – (PNAU).5
De acordo com Mendes 2010, esta política representa o esforço do Ministério da Saúde em organizar os fluxos regionais de atenção integral para os casos de urgência e emergência no Brasil. Dessa forma, a PNAU norteia-se pelos princípios do SUS e é estruturada em cinco eixos, sendo estes: promoção da qualidade de vida; organização em rede; operação de centrais de regulação; capacitação e educação continuada; humanização da atenção.6
Sua implementação foi marcada pelo componente pré-hospitalar móvel, apresentando-se como uma estratégia no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), constituindo um modelo padronizado de assistência, na qual o atendimento é prestado após uma chamada gratuita para o número 192, e a central médica define como deve ser conduzido o atendimento.6
Além disso, houve uma ampliação de acesso aos serviços, não só através do atendimento prestado pelo SAMU, bem como a implementação das Unidades de Pronto Atendimento (UPA), que se apresentam como a estratégia mais recente da política, unindo a estratégia de capacitação e educação continuada dos profissionais, denominada Núcleos e Educação e Urgência.6
Buscando compreender a importância do enfermeiro frente ao serviço móvel de urgência (SAMU), durante o levantamento de dados, levando em consideração os critérios de inclusão e exclusão, foram encontrados 9 artigos científicos que abordaram as competências assistenciais e gerenciais do enfermeiro em publicações apresentadas nas tabelas no item anterior, em duas etapas, a primeira diz sobre a caracterização dos artigos publicados quanto à título, local, autor, ano, tipo de estudo e objetivo e a segunda quanto as competências e atividades relacionadas e porcentagem.
A coleta de dados desta revisão integrativa resultou através da seleção dos estudos descritos no quadro 1
Quadro 1 – Caracterização dos artigos publicados quanto à título, local, autor, ano, tipo de estudo e objetivo. São Paulo, 2019
| Identificação | Título, autor | Local, ano | Tipo de estudo | Objetivo |
| A1 | Enfermeiros do serviço de atendimento móvel de urgência: perfil e atividades desenvolvidas. Luchtemberg MN, Pires DEP | Florianópolis, 2015 | Estudo descritivo qualitativo | Caracterizar o perfil e identificar as atividades desenvolvidas por enfermeiros do serviço de atendimento móvel de urgência de um estado da região sul do Brasil |
| A2 | Educação permanente continuada como estratégias de gestão no serviço de atendimento móvel de urgência. Hetti LBE, Bernardes A, Gabriel CS, Fortuna CM, Maziero VG. | São Paulo, 2013 | Estudo qualitativo | O estudo objetivou analisar a percepção dos profissionais sobre educação permanente e/ou continuada no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de um município do Estado de São Paulo |
| A3 | A visão do enfermeiro/ gestor sobre as necessidades de implementar apoio psicológico aos profissionais do serviço de atendimento móvel de urgência; Meskita KL, Gomes GPLA, Silva MJBF, Santos LF. | Tocantins, 2014. | Pesquisa descritiva e exploratória qualitativa | Analisar a visão do enfermeiro/ge sor sobre necessidade de implementar o apoio psicológico aos profissionais do SAMU |
| A4 | O cotidiano dos enfermeiros que atuam no serviço de atendimento móvel de urgência. Tavares TY, Santana JCB, Eloy MD, Oliveira RD, Paula RF | Minas Gerais, 2017 | Pesquisa qualitativa e exploratória | Compreender o cotidiano de trabalho dos enfermeiros que atuam no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência |
| A5 | Perspectivas de enfermeiras no cuidado em atendimento pré-hospitalar móvel. Anjos MS, Oliveira SS, Rosa DOS | Bahia, 2016 | Estudo exploratório qualitativo | Descrever as perspectivas das enfermeiras no cuidado em atendimento pré-hospitalar móvel. |
| A6 | Atuação do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar móvel. Adão RS, Santos MR. | São Paulo, 2013 | Revisão bibliográfica qualitativa | O objetivo com este estudo foi descrever as ações do enfermeiro em unidade básica e avançada de saúde no APH móvel, por meio de revisão literária. |
| A7 | Atuação do enfermeiro de um serviço de atendimento pré-hospitalar privado. Peres PSQ, Arboit EL, Camponogara S, Pilau COB, Menezes OS, Kaefer CT. | Rio Grande do Sul, 2018 | Estudo descritivo exploratório qualitativo | Conhecer a percepção de trabalhadores de saúde sobre a atuação do enfermeiro em um serviço de atendimento pré-hospitalar. |
| A8 | Atuação do Enfermeiro no Atendimento Pré-hospitalar móvel. Fernandez MG, Espindula BM. | São Paulo, 2018 | Revisão integrativa da literatura | O objetivo com este estudo foi descrever as ações do enfermeiro em unidade básica e avançada de saúde no APH móvel, por meio de revisão literária. |
| A9 | Supervisão do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar móvel. Bernardes A, Maziero GV, Hetti LBE, Baldin MSC, Gabriel CS. | São Paulo, 2014 | Pesquisa descritiva qualitativa | O estudo objetivou analisar como ocorre a supervisão no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de um município do Estado de São Paulo |
Fonte: Reis, 2019.
Os estudos selecionados foram analisados e agrupados conforme competências encontradas, atividades e porcentagem, descritas no quadro 2.
Quadro 2: Distribuição dos artigos encontrados quanto as competências assistenciais e gerenciais. São Paulo, 2019
| TIPO | ARTIGOS | ATIVIDADES | % |
| Assistenciais | A1 A4 A5 A6 A7 A8 | – Avaliação ao agravo e tratamento; – Medicação conforme prescrição médica; – Punção de acesso venoso, sondagem vesical e nasogástrica; – Monitorização cardíaca e oximetria de pulso; – Avaliação hemodinâmica, cuidados com a ventilação mecânica; – Curativos; | 66,6% |
| Gerenciais | A2 A3 A9 | – Atividades de gerenciamento e/ou atividades administrativas; – Realizar capacitações e educação permanente; – Construir protocolos; – Supervisionar e avaliar as ações da equipe no APH móvel; – Preenchimento da ficha de ocorrência; – Check list dos materiais, medicamentos e equipamentos; – Relatório em livro ata, inventário da base e controle de estoque, relatório de enfermagem, pedido de medicamentos e materiais; – Desinfecção de equipamentos e viatura; – Ficha de medicamentos controlados, termo de responsabilidade de transferência, controle de temperatura do almoxarifado; – Escala de desinfecção da viatura, preenchimento de prontuário, participação em elaboração de projetos como o educa SAMU; – Participação de reuniões e preenchimento da folha de ponto | 33,3% |
| TOTAL: | 100% |
Fonte: Reis, 2019
Para melhor compreensão dos resultados, eles serão discutidos em dois tópicos: competências assistenciais para atuação do enfermeiro no SAMU e competências gerenciais para atuação do enfermeiro no SAMU.
As publicações abordaram as competências do enfermeiro, tanto as assistenciais como as gerenciais concomitantemente, porém 33% (n=3) das publicações o foco principal era a atuação do enfermeiro enquanto gestor, dentre as competências assistenciais encontradas, as que mais se destacam e são recorrentes são: avaliação da extensão dos agravos dando prioridade ao maior comprometimento e realização de procedimentos e cuidados. Destacando-se entre os procedimentos, a punção venosa, a passagem de sonda vesical de demora e sondagem nasogástrica, enquanto que na prestação de cuidados se encontrou: realização de curativos, monitorização dos sinais vitais e administração de medicamentos, monitorização cardíaca e oximetria de pulso, higiene e conforto, avaliação hemodinâmica, imobilizações, anamnese, auxílio ao médico nos procedimentos, como a reanimação e tomada de decisões.6
Entre outros. Diante das múltiplas funções exercidas pelo enfermeiro, é clara a ideia da importância do mesmo e da responsabilidade que lhe é dada, o que requer o desenvolvimento de habilidades que envolvam a cognição, atitudes e a realização dos procedimentos, o que finda por implicar na função de gestor, significando em muitos casos, o surgimento de desgaste físico e mental. Portanto é imprescindível a disponibilização dos recursos humanos e físicos com o intuito de prestar o melhor atendimento à vítima, sempre objetivando a minimização dos agravos.
Para as competências gerenciais principais evidenciou-se que, é papel do enfermeiro a elaboração de protocolos para a correta prestação dos cuidados, considerando toda a casuística que justifica o atendimento e o comprometimento do paciente.8 Cabendo também ao enfermeiro, o preenchimento da ficha de ocorrência do atendimento, checagem e reposição do estoque de materiais que devem estar no veículo e que são pertinentes ao atendimento, desinfecção dos equipamentos e do veículo, relatório de enfermagem, participação ou elaboração de projetos que possibilitem a educação em saúde de forma permanente.9
Visto a evidenciação das competências do enfermeiro, entende-se a importância e que este profissional é indispensável considerando tanto as atividades assistenciais e gerenciais, que são privativas do enfermeiro, como, prestar suporte aos colaboradores da equipe de enfermagem, o que acarreta no índice de qualidade da prestação do atendimento entendendo que a não realização, o não conhecimento das suas atividades pertinentes podem caracterizar danos ou morte a vítima atendida. 9
Visando além de tudo, a boa qualidade da assistência de enfermagem, cabe privativamente ao enfermeiro a gerencia da equipe de enfermagem, devendo o mesmo ser responsável pelo dimensionamento da equipe, considerando a performance de cada colaborador, a elaboração de protocolos que baseados em evidencias cientificas e adaptado a realidade da saúde brasileira, forneçam meios de realizar o atendimento e que respalde as ações do profissional.10 Segundo Santos e Adão, 2013 a introdução do profissional Enfermeiro no atendimento pré-hospitalar móvel se deu através da PNAU, o que entra em concordância com o que diz o Conselho Regional de Enfermagem, que considera este profissional importante para a composição da equipe do APH, visto que o mesmo é capaz de desenvolver ações com o intuito de preservar e reduzir danos à vida, seja por meio da assistência direta ou pela gestão da equipe.10
Enquanto gestor, uma das mais importantes competências de responsabilidade do Enfermeiro é a educação permanente em saúde, visto que o mesmo é detentor de conhecimento teórico e científico. Essa educação em saúde se traduz mais rotineiramente pelas orientações e explicações passadas à família da vítima do que propriamente aos colaboradores de enfermagem, onde o enfermeiro é responsável pelo treinamento e capacitação de seus colaboradores, visando uma melhor qualidade dos serviços prestados.1,10
Dos 9 artigos identificados para alcançar os objetivos propostos, 100% (n=9) abordaram as competências assistenciais, porém deste total, apenas 33% (n=3) abordaram as competências gerenciais da categoria de enfermagem. Para as competências gerenciais, as que mais se destacaram foram as que tem relação direta com a vítima, como a prestação dos cuidados. Enquanto as gerenciais encontraram-se competências que não estão ligadas diretamente a vítima, ficando as atividades administrativas como as principais, como exemplo, o dimensionamento de equipe. Conclui-se que o enfermeiro é um profissional indispensável tanto no atendimento direto a vítima quanto nas ações que coordenam esse atendimento.
[1] Graduando em Enfermagem.
[2] Graduanda em Enfermagem.
[3] Graduanda em Enfermagem.
[4] Graduanda em Enfermagem.
[5] Doutorado em andamento em Ciências da saúde. Mestrado em Ciências da Saúde. Especialização em Gerenciamento de Serviços de Enfermagem. Graduação em Enfermagem.
Enviado: Novembro, 2019.
Aprovado: Novembro, 2019.
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