ARTIGO DE REVISÃO
OTTO, Gabriela Dudar [1], ZAJAC, Silvana [2]
OTTO, Gabriela Dudar. ZAJAC, Silvana. Balanço da produção científica sobre a prática de automedicação entre surdos usuários de língua de sinais: uma investigação multidisciplinar (2019-2023). Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 08, Vol. 01, pp. 48-66. Agosto de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/automedicacao-entre-surdos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/automedicacao-entre-surdos
O presente artigo tem por objetivo apresentar o resultado de um balanço de produção científica nacional e internacional, relacionada à automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais. Trata-se de um Balanço de Produção, em que foram selecionados 6 bancos de dados, sendo eles o PubMed (National Library of Medicine), SciELO (Scientific Electronic Library Online), Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde (BVSMS), Repositório Institucional da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Portal de Periódicos CAPES e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD, utilizando 5 descritores: Automedicação; Equipe de saúde; Língua Brasileira de Sinais or Libras or Língua de Sinais; Surdos or Pessoas Surdas; Deficientes Auditivos, com a delimitação temporal de 2019 a 2023. No processo de análise dos dados não foram encontradas pesquisas publicadas que tratam da automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais nos últimos 5 anos, entretanto foram encontradas 11 pesquisas relacionadas ao acesso à saúde das pessoas surdas que, de alguma forma, tenham relação com a intenção do objeto de estudo em questão. Entre essas 11 pesquisas, foram identificados três temas convergentes: 1) As barreiras linguísticas que dificultam a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes surdos; 2) A busca pela equidade no acesso aos serviços de saúde; 3) A necessidade de formação dos profissionais de saúde em língua de sinais. Apontando para a invisibilidade e marginalização dos surdos no sistema de saúde.
Palavras-chave: Automedicação, Surdos, Língua de Sinais.
A análise de dados do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade Industrial (ICTQ) evidenciou um aumento da prática de automedicação[3] entre a população brasileira, passando de 76% em 2014 para 81% em 2020 (Leonardi, 2022). Essa tendência, por si só, levanta questões pertinentes, tanto sobre os riscos associados a essa prática, como dependência, efeitos colaterais, interações medicamentosas, mascaramento de doenças e aumento da morbidade (Baracaldo-Santamaría et al., 2022), quanto como os fatores que influenciam esta prática, como idade, sexo, escolaridade, falta de acesso aos serviços de saúde e o acesso facilitado aos medicamentos (Araúdo, 2014).
No entanto, além dessas implicações já reconhecidas, considera-se uma necessidade de analisar a incidência e possíveis impactos da automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais, principalmente, ao considerar “a marginalização do surdo nas campanhas e orientações preventivas” (Barroso; Freitas; Wetterich, 2020, p. 146), comprometendo o acesso a informações de saúde.
No que diz respeito ao acesso à informações de saúde, sabe-se que a leitura das informações contidas nas bulas de fármacos, por exemplo, é recomendado para garantir seu uso seguro e adequado, informando as dosagens apropriadas, efeitos colaterais, interações medicamentosas e modo de uso (Santos; Feitosa; Dalcin, 2019), no entanto, a maioria dos surdos usuários da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) enfrentam dificuldades na compreensão da língua portuguesa escrita (Zajac; Soares, 2010), o que pode tornar restrito o acesso do conteúdo da bula, uma vez que não há tradução em Libras, corroborando para uso inadequado por esses usuários.
Desta forma, considerando as colocações anteriormente citadas, entende-se que o acesso à saúde pelos surdos é uma prática complexa que merece uma abordagem à luz das leis e políticas que regem a acessibilidade e os direitos das pessoas com deficiência. De acordo com o artigo 18 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), é dever do Estado assegurar às pessoas com deficiência o pleno exercício de seus direitos, incluindo o acesso à informação e à saúde em condições de igualdade (Brasil, 2015).
No entanto, no contexto da comunidade surda a aplicação efetiva dessas disposições legais muitas vezes esbarra em obstáculos como a falta de intérpretes qualificados em serviços de saúde (Holdorf; Robinson, 2020) e a escassez de materiais informativos acessíveis (Pimentel et al., 2018), resultando na dificuldade ao acesso equitativo das pessoas com deficiência referente à saúde.
Essas barreiras linguísticas e comunicacionais contribuem para a marginalização dos surdos no contexto da saúde e podem levá-los a buscar soluções, como a automedicação. Portanto, ao discutir a automedicação entre surdos, é necessário considerar não apenas as escolhas individuais, mas também os sistemas e estruturas sociais que influenciam essas decisões.
Considerando o propósito deste estudo, que busca aprofundar a compreensão sobre a incidência da automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais, delineou-se como objetivo do presente trabalho, apresentar uma análise da produção científica dos últimos cinco anos (2019 – 2023) concernente a esse tema. Destaca-se, assim, a relevância de realizar um balanço da produção científica existente, com o objetivo de compreender o atual panorama das discussões presentes nas pesquisas sobre o tema da automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais.
Assim, passa-se agora à apresentação dos aspectos metodológicos que envolveram esta revisão, abordando a metodologia adotada, os procedimentos utilizados para coleta e análise dos dados.
Esta pesquisa delineou-se por meio dos aportes de uma abordagem quali-quantitativa, na qual reconhece a importância da complementaridade entre quantidade e qualidade (Souza; Kerbauy, 2017), visto que estas estão intimamente relacionadas (André, 2002) e desempenham um papel crucial na compreensão e análise da extensão e intensidade do objeto social em estudo (Minayo; Deslandes, 2008). Delineando assim, uma perspectiva que transcende dicotomias entre métodos quantitativos e qualitativos, visando não apenas reunir dados quantitativos, mas também de enriquecer sua interpretação por meio de uma análise qualitativa.
Nesse contexto, como etapa inicial para conhecer os estudos mais relevantes relacionados ao objeto de estudo da pesquisa, tanto em âmbito nacional quanto internacional nos últimos cinco anos (2019 – 2023), recorreu-se ao Balanço de Produção. Esse procedimento, de acordo com Milhomem; Gentil; Ayres (2010), possibilita-nos conhecer o que vem sendo desenvolvido sobre o assunto, se este é inédito, e se nossas inquietações já foram respondidas por outros pesquisadores. Para este mapeamento incluíram-se teses, dissertações, trabalho de conclusão de curso, artigos e capítulos de livros.
Assim, o trabalho de busca foi realizado por meio de consultas on-line, na base de dados PubMed (National Library of Medicine), SciELO (Scientific Electronic Library Online), Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde (BVSMS), Repositório Institucional da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Portal de Periódicos CAPES e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD.
A pesquisa nas plataformas mencionadas acima, fundamenta-se pelo caráter científico e educacional que as bases possuem, priorizando desta forma, a compilação de produções acadêmicas relevantes ao tema em questão, sobretudo, quando se buscam evidências científicas rigorosas. A escolha pelo Repositório Institucional da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP justifica-se pela universidade sediar o Grupo de Estudos e Pesquisas da Libras e Educação de Surdos – GEPLES em que as pesquisadoras participam. A delimitação temporal da busca nos últimos cinco anos assegura que as pesquisas científicas estejam alinhadas aos avanços mais recentes no campo da pesquisa, promovendo, assim, uma análise atualizada.
Para realizar as pesquisas nos bancos de dados foram utilizados cinco descritores, dentre eles: Automedicação; Equipe de saúde; Língua Brasileira de Sinais or[4] Libras or Língua de Sinais; Surdos or Pessoas Surdas; Deficientes Auditivos. Destaca-se que a pesquisa foi realizada nos seis bancos de dados mencionados, e que se utilizou os mesmos cinco descritores nesses bancos.
Para seleção, analisou-se em primeiro momento os títulos, resumos e palavras-chaves dos trabalhos científicos encontrados, representando o ponto de partida para uma investigação mais aprofundada, passando então, para uma fase subsequente na qual foram lidos os trabalhos correlacionados na íntegra. Milhomem; Gentil; Ayres (2010) explicam que a estratégia de leitura dos resumos para início de uma pesquisa tem seu valor, considerando que é a base inicial de uma investigação e faz parte de um processo. No entanto, ao encontrar números expressivos acima de 1.000 trabalhos, optou-se em realizar um cruzamento com as temáticas, para assim, filtrar publicações que tivessem relação com o interesse da pesquisa.
O processo de análise do mapeamento das produções científicas, procedeu-se com a Análise de Conteúdo de Bardin (2016), por entender que a metodologia de análise é consonante com o viés do percurso investigativo da pesquisa. Na sequência, foram apresentadas e discutidas 11 pesquisas com autores que dialogam com a temática.
O quadro a seguir detalha as buscas empreendidas e os resultados obtidos nas diferentes bases de dados pesquisadas. No total, foram encontrados 182.486 trabalhos no período considerado (2019 a 2023), dos quais 3.234 abordaram a temática automedicação.
Quadro 1 – Resultado do levantamento da produção científica realizado em seis bancos de dados relativos a 5 anos de publicações (2019 – 2023)
| BANCO DE DADOS | |||||||
| DESCRITORES | PubMed | SciELO | BVSMS | Repositório Institucional UNIFESP | CAPES | BDTD | TOTAL |
| Automedicação | 2.235 | 23 | 552 | 90 | 282 | 52 | 3.234 |
| Equipe de saúde or profissionais de saúde | 33.072 | 6.710 | 62.431 | 2.722 | 24.664 | 6.838 | 136.437 |
| Língua brasileira de sinais or Libras or língua de sinais | 253 | 113 | 3.476 | 230 | 29.471 | 616 | 34.159 |
| Surdos or pessoas surdas | 340 | 146 | 686 | 334 | 1.865 | 1.005 | 4.376 |
| Deficientes auditivos | 3.645 | 10 | 287 | 142 | 125 | 71 | 4.280 |
Fonte: Primária (2024), com base nos resultados da pesquisa realizada nas bases de dados: PubMed, SciELO, BVSMS, Repositório Institucional UNIFESP, CAPES e BDTD.
A análise do quadro 1, remete a uma observação importante para a perspectiva desta investigação, ao examinarmos o descritor equipe de saúde or profissionais de saúde, constatou-se um número expressivo de 136.437 pesquisas, destacando a atenção dedicada a esse tema.
Esta quantidade de trabalhos pode ser explicada pelo fato de que o tema é abrangente, ou seja, existem muitos trabalhos que envolvem o termo equipe de saúde e/ou profissionais de saúde, o que não quer dizer que todos tratam da atuação deles no contexto da automedicação dos surdos usuários de língua de sinais, tal como é de interesse desta pesquisa. Por conseguinte, apesar do destaque com inúmeras publicações do descritor em questão, 4 trabalhos se apresentam alinhados aos propósitos desta pesquisa.
Na busca pelo descritor língua brasileira de sinais or Liibras or língua de sinais, identificou-se um número considerável de 34.159 estudos, dentre os quais 4 pesquisas possuem relação com o enfoque deste trabalho, os demais contemplavam o tema língua de sinais por outras vias, como por exemplo, a de escolarização; mercado de trabalho; inclusão; tradução; tecnologias; dentre outros.
O descritor surdos or pessoas surdas, apresenta-se com 4.376 trabalhos científicos publicados nos respectivos bancos de dados. Sendo este o descritor presente nas 11 pesquisas selecionadas.
Em relação ao descritor deficientes auditivo constatou-se 4.280 publicações, apresentando 1 pesquisa que de alguma forma possui relação com o tema em questão.
Em contraste, o descritor automedicação, apresenta-se com menor número de trabalhos científicos, com 3.234 publicações. Dessas pesquisas encontradas não houveram seleção para este balanço de produção, sua correlação com o descritor surdos or pessoas surdas não apresentaram resultado de busca. Esta constatação revela uma lacuna no mapeamento das produções científicas, indicando que, até o momento, há uma escassez de estudos que abordem a automedicação no contexto da comunidade surda. Não obstante, é crucial ressaltar que essa ausência não denota uma falta de relevância ou importância ao tema, mas sim, um ponto de partida para futuras investigações que possam oferecer contribuições significativas ao entendimento das práticas de automedicação nesse grupo específico.
Assim, para melhor elucidar a relação entre os descritores das 11 pesquisas selecionadas, a seguir será apresentado o Diagrama de Venn[5]:
Diagrama 1 – Representação da relação entre os descritores das 11 pesquisas
O diagrama 1 mostra as inter-relações entre os descritores das pesquisas encontradas. De modo explicativo, este diagrama é delimitado por uma área maior (retângulo) que representa o descritor surdos or pessoas surdas, isto ocorreu pelo fato das 11 pesquisas selecionadas conter este descritor. Em seu interior são mostrados 3 conjuntos em forma de círculo, cada um representando um descritor. As intersecções mostram a presença de mais de um descritor na mesma pesquisa.
Ao analisar esta ilustração, percebe-se que uma (1) pesquisa apresenta 4 descritores: deficiente auditivo, equipe de saúde or profissionais de saúde, língua brasileira de sinais or libras or língua de sinais e surdos or pessoas surdas. Quatro (4) pesquisas, apresentam 3 descritores: saúde or profissionais de saúde, língua brasileira de sinais or libras or língua de sinais e surdos or pessoas surdas. Uma (1) pesquisa, por sua vez, apresenta 2 descritores, sendo eles: equipe de saúde or profissionais de saúde e surdos or pessoas surdas. Outras cinco (5) pesquisas, são representadas fora dos círculos, dentro do retângulo por conterem apenas o descritor: surdos or pessoas surdas. Estas, apesar de não possuírem outro descritor em comum, foram selecionadas por contemplar o objeto de estudo deste balanço de produção. No diagrama não foi adicionado o descritor automedicação pelo motivo deste não apresentar trabalhos publicados que tratem desta prática na comunidade surda.
Porém, ao examinar as estatísticas que abrangem o número de publicações ao longo dos anos, observou-se um crescimento significativo em relação a quantidade de trabalhos publicados que tratam da temática automedicação. A figura 1 a seguir, do banco de dados Pubmed, ilustra o panorama das publicações no período compreendido entre 1966 a 2023, evidenciando o crescimento das pesquisas.
Figura 1 – extraída do banco de dados PubMed, expõe em forma de gráfico a quantidade de publicações sobre automedicação no período de 1966 a 2023
É possível identificar que a partir do ano de 1966 houve um aumento gradual da investigação científica da automedicação, com total de 8.386 publicações. No entanto, frente a esta realidade, é notório que os estudos ainda têm se mostrado ínfimos, principalmente em âmbito nacional como destacado pela pesquisa de Arrais et al. (2016). Em meio a esse contexto é importante salientar que não foram encontradas pesquisas que investigassem a automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais, o que ressalta a importância de estudos nessa área.
Assim, como resultado do levantamento do balanço das produções, apresentam-se alguns aspectos das onze pesquisas encontradas, que indicaram alguma relação com a automedicação dos surdos usuários de língua de sinais. O quadro 2, a seguir, elucida os referidos trabalhos acadêmicos, informando seus autores, ano de publicação da pesquisa, instituição vinculada, tipo de trabalho, como artigo científico, livros, dissertação ou tese, bem como o título, objetivo e conclusão de cada um:
Quadro 2 – Apresenta algumas informações das 11 pesquisas encontradas
| Autor (Ano) Instituição Tipo de Trabalho (Fonte) | Título |
| Objetivo | |
| Conclusão | |
| Rezende; Guerra; Carvalho (2020) Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Artigo (SciELO) | Título: Satisfação do usuário surdo com o atendimento à saúde |
| Objetivo: Investigar a satisfação de surdos em relação aos Serviços de Saúde, caracterizar a amostra quanto aos aspectos sociodemográficos, socioeconômicos e auto declaração da surdez e verificar se há associação entre satisfação com o atendimento; comunicação; profissional e autodeclaração da surdez. | |
| Conclusão: A maioria da população não se mostrou satisfeita com o atendimento médico, embora este tenha sido o mais procurado. A modalidade de comunicação utilizada pelos profissionais e a presença de intérprete não foram efetivas. É necessária a implementação de estratégias para garantir a acessibilidade e integralidade à saúde dessa população. | |
| Mazzu-Nascimento et al. (2020) Universidade Federal de São Carlos – UFSCar Artigo (SciELO) | Título: Fragilidade na formação dos profissionais de saúde quanto à Língua Brasileira de Sinais: reflexo na atenção à saúde dos surdos |
| Objetivo: Identificar como é a formação de profissionais da saúde quanto à Língua Brasileira de Sinais (Libras). | |
| Conclusão: Há evidências de fragilidade na formação dos profissionais de saúde quanto ao ensino da Libras, o que reflete diretamente no atendimento integral dos surdos. | |
| Pereira et al. (2020) Centro Universitário de Maringá, PR Artigo (SciELO) | Título: “Meu Sonho É Ser Compreendido”: Uma Análise da Interação Médico-Paciente Surdo durante Assistência à Saúde |
| Objetivo: caracterizar os atendimentos de saúde aos surdos, na perspectiva dos profissionais médicos, dos internos de Medicina e dos próprios usuários, e discutir as estratégias desenvolvidas na interlocução e interação médico-paciente e as ferramentas para o aprimoramento da prática médica. | |
| Conclusão: As percepções dos diferentes atores da interação médico-paciente analisados mostraram diferença de satisfação com o serviço e riscos à saúde dos surdos, o que significa que falta planejamento multimodal com estratégias de comunicação efetivas. | |
| Santos; Portes (2019) Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro/RJ Artigo (SciELO) | Título: Percepções de sujeitos surdos sobre a comunicação na Atenção Básica à Saúde |
| Objetivo: Analisar as percepções de indivíduos com surdez em relação ao processo comunicacional com profissionais de saúde da Atenção Básica do Estado do Rio de Janeiro. | |
| Conclusão: A comunicação com os profissionais foi facilitada quando os surdos estavam com acompanhante ou quando utilizavam mímicas e gestos, sendo a língua de sinais negligenciada, apesar da legislação garantir aos surdos atendimento por profissionais capacitados para o uso desta. | |
| Neto et al. (2019) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco Campus Pesqueira e Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Artigo (SciELO) | Título: Tecnologias para educação em saúde de surdos: revisão integrativa |
| Objetivo: Investigar as evidências científicas acerca das tecnologias que são utilizadas para educação em saúde de pessoas surdas. | |
| Conclusão: as tecnologias educativas são, em sua maioria, vídeos que se mostram compreensíveis pelas pessoas surdas e eficazes para serem utilizados na educação em saúde. | |
| Duarte; Guida; Duarte (2023) Faculdade de Medicina de Itajubá – FMITPPGE-UFES Artigo (SciELO) | Título: Atendimento e capacidade comunicacional de médicos e enfermeiros a pacientes surdos na atenção primária à saúde, numa cidade de Minas Gerais, Brasil: estudo transversal |
| Objetivo: Avaliar o atendimento e a capacidade comunicacional de médicos e enfermeiros a pacientes surdos na atenção primária à saúde (APS) numa cidade de Minas Gerais, Brasil. | |
| Conclusão: Conclui-se que a comunicação é a principal barreira na interação profissional-paciente surdo, dificultando a criação de vínculo, informação de diagnóstico e adesão ao tratamento. | |
| Yet et al. (2022) Patient Education and Counseling Artigo (PubMed) | Título: Communication methods between physicians and Deaf patients: A scoping review |
| Objetivo: Deaf individuals often face communication challenges within healthcare settings. Given the importance of the role played by physicians in shaping patients’ health outcomes, it is paramount to explore Deaf patient-physician interactions. This research aims to explore (1) the existing communication support and (2) the factors influencing its usage in medical consultations with Deaf patients. | |
| Conclusão: Healthcare professionals need to appreciate the heterogeneity of Deaf patients and their communication methods and adopt a more person-centred approach. | |
| Gay-Crossier; Kamdem; Amaudruz; Dumoulin (2023) Médecine d’urgence Artigo (PubMed) | Título: Rompre le silence : l’urgence d’améliorer l’accès aux soins pour les patients sourds |
| Objetivo: faire un état des lieux des inégalités en santé dont est victime la population sourde. | |
| Conclusão: Il révèle également la défaillance d’un système de santé fait de professionnels qui méconnaissent largement cette population et ses besoins spécifiques, et dont la prise en charge aux urgences reste particulièrement inadaptée.
| |
| Menezes (2022) Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP Trabalho de conclusão de curso (Repositório Institucional UNIFESP) | Título: A comunicação dos profissionais da saúde com os sujeitos surdos e/ou com deficiência auditiva: os desafios da inclusão como expressão da questão social |
| Objetivo: Analisar como é assegurada a inclusão dos sujeitos, identificar como ocorre a comunicação dentro dos espaços de saúde, explorar o nível de conhecimento da LIBRAS, assim como contribuir para o debate da inclusão. | |
| Conclusão: Verificou-se que a LIBRAS é uma das ferramentas fundamentais durante o atendimento como forma de comunicação e acolhimento dos sujeitos em questão, destacando a qualificação dos profissionais antes de adentrarem no serviço de saúde. | |
| Martins (2019) Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC Dissertação (BDTD) | Título: A interpretação intermodal Libras-Português em contexto de saúde |
| Objetivo: Conhecer a situação atual vivenciada pelos surdos sinalizantes de Libras como usuários dos serviços de saúde, bem como a atuação dos profissionais de saúde e dos intérpretes de Libras-Português no atendimento a esse público específico. | |
| Conclusão: O trabalho de interpretação comunitária, mais especificamente em contexto de saúde, que é disponibilizado à comunidade surda brasileira, encontra-se em fase de construção e aprimoramento e, portanto, carece do oferecimento de uma formação específica para os intérpretes que atuam nessa área, assim como de orientações e esclarecimento aos profissionais da saúde. | |
| Coelho (2020) Universidade de Brasília – UNB Dissertação (BDTD) | Título: A saúde é para todos? experiências de pessoas surdas no acesso à saúde.
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| Objetivo: Conhecer experiências de pessoas surdas no acesso ao sistema de saúde, visando identificar principais demandas, barreiras de acesso e estratégias adotadas por esses usuários. | |
| Conclusão: Identificou-se que a barreira linguística, presente na dificuldade de comunicação entre pacientes e profissionais de saúde, gera múltiplas consequências, tais como dificuldades de acesso à informação em saúde, dependência de interpretação familiar, comprometimento da autonomia em saúde e maior exposição a riscos em situação de emergência.
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Fonte: Primária (2024) dados organizados pelas autoras.
Nos estudos recentes aqui abordados sobre acesso à saúde para a comunidade surda, observa-se uma convergência de temas nestas investigações. Entre esses temas, destacam-se as barreiras linguísticas que dificultam a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes surdos, a busca pela equidade no acesso aos serviços de saúde e a necessidade de formação dos profissionais em língua de sinais.
Dentre as temáticas pode-se observar que a tendência da produção científica tem privilegiado o déficit da comunicação entre o profissional para com a pessoa surda, sendo essa ineficaz tanto na explicação de procedimentos quanto nas informações sobre o uso de medicamentos e/ou tratamentos. Ademais, constatou-se que a presença de um intérprete, embora destinado a mitigar esta falha do sistema, mostrou-se ineficiente. Então, é passível de se questionar: qual seria a importância de uma comunicação eficaz no atendimento à saúde?
Mazzu-Nascimento et al. (2020) explicam que a comunicação desempenha um papel fundamental no estabelecimento de vínculos entre profissionais de saúde e pacientes surdos. É por meio dela que os profissionais podem compreender as necessidades de saúde e desenvolver planos terapêuticos individualizados. No entanto, essa dificuldade na comunicação pode gerar um distanciamento entre profissionais e o usuário, afetando diretamente o estado de saúde do paciente e, consequentemente impactando na prevenção e promoção da saúde. (Jardim et al., 2016 apud Mazzu-Nascimento et al., 2020).
Sobre isso, Santos e Portes (2019) complementam que, frequentemente, a comunicação com essa comunidade se limita ao uso da oralização, mímica ou escrita da língua portuguesa, negligenciando a LIBRAS. Como apresentado em seu estudo, a falta de utilização desta língua pelos profissionais de saúde, com a predominante ausência de intérpretes nas unidades de saúde, representa uma barreira linguística para a compreensão adequada dos sintomas para diagnósticos, tratamentos e orientações de saúde.
Ainda, as pesquisas de Santos e Portes (2019) afirmam que a comunicação é facilitada com a presença de um acompanhante bilíngue ou de um intérprete da unidade de saúde. No entanto, essa assistência pode tornar-se uma experiência frustrante para o paciente, uma vez que implica na perda de autonomia e privacidade. Nesse sentido, conforme aludiram Gay-Crosier et al. (2023) a frustração não se limita ao paciente, mas também afeta o profissional que está realizando o atendimento. Assim, compreende-se que a presença de acompanhantes ou intérpretes pode ser uma solução para superar as barreiras linguísticas, porém, é essencial considerar os impactos emocionais tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde envolvidos no processo.
Outra questão que emergiu nas pesquisas deste balanço de produção trata da invisibilidade tecida no conjunto das relações sociais que se apresentam às pessoas surdas na interação nos atendimentos à saúde. Coelho (2020) considera, neste sentido, que essa invisibilidade está atribuída às barreiras linguísticas que permeiam as interações de cuidado à saúde. Sob esta ótica, Mazzu-Nascimento et al. (2020), relaciona essa barreira à ausência da disciplina de LIBRAS na formação dos profissionais de saúde, comprometendo o atendimento integral e contribuindo para a invisibilidade da população surda na atenção à saúde.
Desse modo, pode-se admitir que essa invisibilidade não só marginaliza os surdos dentro do sistema de saúde, mas também traz consequências significativas, refletindo-se em barreiras no que diz respeito ao acesso aos serviços, na qualidade do atendimento e no próprio estado de saúde dos indivíduos surdos.
Outra temática recorrente nas pesquisas, refere-se à importância de garantir o acesso equitativo aos serviços de saúde para a comunidade surda, o que engloba não apenas a disponibilidade de intérpretes, mas também a adaptação das estruturas de saúde para garantir a acessibilidade. O estudo de Menezes (2022) propõe a implantação de cursos de Libras para os profissionais da saúde, juntamente com a adoção de práticas humanizadas nos atendimentos e sinalização nos locais de saúde, garantindo a inclusão social, como forma de assegurar o acesso aos surdos.
Frente a proposta de inclusão, Pereira et al. (2020) enfatizam que a verdadeira inclusão social do surdo depende do preparo da população para acolhê-lo e interagir de forma adequada, ou seja, a inclusão vai além das medidas institucionais, prover acessibilidade linguística não é suficiente se a sociedade não estiver preparada para receber e interagir de maneira adequada com os surdos.
As pesquisas encontradas lançam luz quanto à necessidade de formação dos profissionais de saúde em relação à linguagem de sinais. Santos e Portes (2019) destacam, com base nos estudos de Bisol e Sperb (2010) que a dificuldade de comunicação entre o profissional e surdo pode ser justificada pela ausência de conteúdos relacionados à atenção à pessoa surda durante a formação inicial. Salientando a necessidade de inserção obrigatória da LIBRAS no currículo dos profissionais de saúde o que poderia favorecer a comunicação do sujeito surdo com os profissionais de saúde e possibilitar a integração de novos verbetes à língua de sinais (Souza; Porrozzi, 2009 apud Santos; Portes, 2019).
De modo semelhante, a pesquisa de Menezes (2022) aborda a importância de incluir a Língua brasileira de sinais no currículo dos profissionais de saúde, em consonância com que defendem Duarte, Guida e Duarte (2023) ao colocar que além de investimentos na formação dos profissionais de saúde em língua de sinais, é imprescindível a presença obrigatória de um intérprete, os quais devem realizar anualmente uma prova de proficiência para avaliar seus conhecimentos. Entretanto, Pereira et al. (2020) fazem alerta à carência de intervenções específicas voltadas para a formação adequada dos intérpretes, pelo desconhecimento da terminologia médica e inexperiência de trabalho em equipe com os demais servidores da saúde.
Diante da preocupação com a saúde e bem-estar dos surdos, é imprescindível investigar e compreender de que forma a automedicação se faz presente no cotidiano dessa comunidade. No entanto, ao realizar um balanço das recentes produções científicas disponíveis (2019 a 2023), uma lacuna significativa se destaca: a ausência de estudos que abordem a automedicação entre os surdos usuários de língua de sinais nos 6 bancos de dados, PubMed (National Library of Medicine), SciELO (Scientific Electronic Library Online), Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde (BVSMS), Repositório Institucional da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Portal de Periódicos CAPES e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD.
Isso revela não apenas uma carência de estudos dedicados a essa temática, mas também aponta a necessidade de compreender as práticas de automedicação dos surdos, uma vez que a tendência a essa prática vem se tornando uma preocupação para a OMS (Leonardi, 2022) dada a sua associação com potenciais riscos à saúde humana.
As pesquisas destacam de forma reiterada as barreiras linguísticas como um dos principais desafios na comunicação entre profissionais de saúde e pacientes surdos. Esta barreira na comunicação não apenas compromete a qualidade do atendimento médico, mas também impacta diretamente o estado de saúde dos pacientes surdos, interferindo na prevenção e promoção da saúde.
Além disso, ressalta-se a necessidade de garantir a equidade no acesso aos serviços de saúde para a comunidade surda, o que inclui a presença de intérpretes e adaptação das estruturas de saúde para garantir a acessibilidade. A formação dos profissionais de saúde em língua de sinais emerge como uma demanda, visto que a ausência de habilidades nesse aspecto compromete o atendimento integral dos surdos.
Portanto, ao considerar os resultados das pesquisas, torna-se evidente que os desafios enfrentados pela comunidade surda usuária de língua de sinais podem contribuir para a incidência da automedicação entre eles. Sendo essencial abordar essas questões por meio de políticas e práticas de saúde inclusivas, garantindo que todos os pacientes tenham acesso a serviços de saúde adequados independente da sua condição linguística.
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3. Nesta pesquisa o conceito de automedicação é considerado como “o uso de medicamento sem a prescrição, orientação e/ou o acompanhamento do médico ou dentista” (Brasil, 1998).
4. A utilização do operador “OR” nas buscas por descritores tem como objetivo ampliar os resultados, incluindo termos relacionados, sinônimos ou variações na linguagem utilizada nos estudos. Esse operador indica que a presença de qualquer um dos termos relacionados é suficiente para que o item seja considerado relevante na busca.
5. O Diagrama de Venn de acordo com Martins (2014, p. 01) “possibilita a visualização de propriedades e de relações entre um número finito de conjuntos”, sendo desta maneira, “[…] representados por linhas fechadas, desenhadas sobre um plano, de forma a representar os conjuntos e as diferentes relações existentes entre conjuntos e elementos”.
Os autores utilizaram a IA ChatGPT 3.5 para correção gramatical em algumas frases da introdução, resultados, discussões e conclusão do artigo. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.
[1] Graduanda de Medicina. ORCID: 0009-0000-9363-7307. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8624756838189799.
[2] Orientadora. Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, Mestre em Educação, Graduada em Letras-Libras e Pedagogia. ORCID: 0000-0003-2455-4158. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/2062179799776077.
Material recebido: 14 de março de 2024.
Material aprovado pelos pares: 28 de maio de 2024.
Material editado aprovado pelos autores: 26 de julho de 2024.
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