ARTIGO ORIGINAL
BROGNOLI, Maicol de Oliveira [1], ASSUNÇÃO, Viviane Kraieski de [2]
BROGNOLI, Maicol de Oliveira. ASSUNÇÃO, Viviane Kraieski de. Psicologia ambiental: narrativas de uma cidade em transformação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 09, Vol. 01, pp. 62-78. Setembro de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/psicologia-ambiental, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/psicologia-ambiental
A Psicologia Ambiental (PA) versa sobre a influência que o campo psicológico absorve do ambiente físico e social. Os sujeitos são enternecidos por atributos ambientais tanto quanto por caracteres psicológicos; o ser humano faz parte e constitui o ambiente, embasado em uma relação recíproca que promulga as especificidades do seu comportamento em determinadas ambiências. Fez parte da pesquisa, entender sobre as pessoas e suas percepções, destacando as “nuances” socioambientais envoltas no cenário turístico da cidade de Praia Grande, Santa Catarina. O objetivo deste estudo foi: Analisar as narrativas socioambientais dos moradores de Praia Grande/SC na perspectiva turística como um processo de transformação da cidade. Quanto a metodologia, adotou-se uma abordagem qualitativa, do tipo exploratória e descritiva, amparada nas entrevistas narrativas e nos subsídios teóricos da PA, levando em considerações os moradores, a cidade, os ambientes naturais, sociais, culturais e seu desenvolvimento. Os resultados apontam para a consolidação dos atributos da identidade de lugar, resultando na efetivação da apropriação do espaço, recurso este, que propicia a significação de lugares de modo simbólico, estético e poético. Conclui-se que com o processo turístico emergente em Praia Grande os sujeitos podem vir a ter dificuldades de externar sua subjetividade que é inerente, íntima, singular e específica, o que transforma espaços em lugares criando a identidade de lugar. O processo pode descaracterizar os lugares significativos e simbólicos, a percepção de enraizamento, emoções e afetividade ambiental discutidos pela PA, bem como aspectos que tratam da relação pessoa/ambiente enquanto casa, apropriação do espaço, apego ao lugar, sentimento de pertença, sentimento de defesa vindo a prejudicar os vínculos com o ambiente.
Palavras-chave: Psicologia Ambiental, Percepção, Relação Pessoa-Ambiente, Identidade de lugar.
Intitulada em seu nascimento como Psicologia da Arquitetura, a Psicologia Ambiental (PA), tem seu advento posteriormente a Segunda Guerra Mundial, estimulada pelo intento de reconstrução das cidades devastadas. O comportamento dos moradores e suas necessidades psicológicas foram fatores primordiais no processo de reconstruções, deixando em segundo plano a estética dos espaços habitacionais (Melo, 1991). A PA “com o tempo passou a ter um caráter multidisciplinar recebendo contribuições da psicologia, geografia humana, sociologia urbana, antropologia, planejamento e arquitetura”, segundo Teixeira et al. (2020, p. 02).
Ittelson (1973) corrobora com estas ideias, pois como seres humanos temos qualidades ambientais tanto quanto características psicológicas, indicando que a humanidade é um elemento do ambiente, produzindo trocas mútuas indispensáveis para a qualificação do comportamento humano em determinado meio físico. Nas palavras do autor, o ambiente físico necessita estar envolto em um sistema social e o social direcionado a ele. Essa pesquisa oferece uma forma de entrar e contribuir com os diferentes pontos de vista que nos permitem desafiar as ideias recebidas e criar entendimentos sobre as pessoas e suas percepções, além de considerar as relações pessoa-ambiente destacando as “nuances” socioambientais envoltas no cenário turístico da cidade de Praia Grande, Santa Catarina (Brognoli, 2023, 2022). Conhecer a percepção dos moradores locais torna-se imprescindível porque estes vivem histórias e, ao contá-las se reafirmam. “Modificam-se e criam novas histórias. As histórias vividas e contadas educam a nós mesmos e aos outros, incluindo os jovens e os recém pesquisadores em suas comunidades” (Clandinin; Connelly, 2011, p. 27).
A questão problema deste estudo pautou-se em: Quais as percepções socioambientais dos moradores de Praia Grande/SC diante da cidade em constante transformação pelo turismo? O objetivo da pesquisa buscou: Analisar as narrativas socioambientais dos moradores de Praia Grande/SC na perspectiva turística como um processo de transformação da cidade (Brognoli, 2023, 2022).
Cavalcante e Elali (2011, p. 15) destacam que “uma das características distintivas da Psicologia Ambiental foi a de trazer o espaço físico para o interior do campo psicológico”. No Brasil, os estudos em Psicologia Ambiental são iniciados por Maria do Carmo Guedes, na década de 1960, participando do planejamento de cidades, que buscava utilizar seus estudos para preparar o Brasil do futuro (Tassara; Rabinovich, 2003). Gonçalves (2007) considera que no Brasil, a Psicologia Ambiental trilha seus caminhos com influência tanto anglo-americana quanto europeia: a primeira relacionada à Psicologia Comportamental e Experimental, e a segunda com a Psicologia Social. Para este estudo, reporta-se aos conceitos fundamentais para a Psicologia Ambiental, considerando-se a complexidade de conexões possíveis que esta comporta: percepções, apropriação do espaço (Pol, 2003; Gonçalves, 2004); subjetividade (Gonçalves, 2004); identidade de lugar (Proshansky, 1978); enraizamento e emoções e afetividade ambiental (Bomfim et al., 2018; Massola; Svartman, 2018), e demais autores referenciados.
Percepções – considerada a forma pelas quais as pessoas recebem informações dos ambientes, como o conhecem, como o entendem e que ocorre por meio da experiência sensorial imediata, combinada com memórias e experiências do passado. As percepções remetem à imaginação e à memória que fazem parte do espaço psíquico, lugar onde ocorrem os sentimentos e emoções, são constituintes da subjetividade, do mundo interno (Gonçalves, 2014). De fato, pessoas e espaço estão conectados e coproduzem um ao outro. Vive-se conectado a lugares, pessoas, histórias e geografias materiais e culturais, apropriando-se, portanto, do espaço.
Apropriação do espaço – processo descrito e estudado pela PA, visando a análise existente entre as relações dos significados simbólicos e aspectos psicossociais que a humanidade estabelece com o seu entorno; portanto, caracteriza-se na dialética, ou movimento recíproco entre o sujeito e o sua ambiência física e social (Gonçalves, 2004). “O processo de apropriação tem uma dinâmica em dois sentidos: um dirigido para a conquista do espaço, outro para si. Isso implica o sujeito adaptar um espaço às suas próprias necessidades, dar-lhe característica própria” (Gonçalves, 2007, p. 27). Significa também, desenvolver uma identidade de lugar que fortalece os vínculos comunitários, pois apesar de estar envolto em um mundo concreto, o humano envolve-se com o simbólico, ampliado pelas relações histórico-culturais e sociais. Amparado pelo seu contexto, o indivíduo se constitui embasado nas dimensões afetivas, cognitivas e comportamentais tecendo uma rede que engloba o espaço físico-social e os lugares mais íntimos e significativos (Jerônimo; Gonçalves, 2013).
Subjetividade – No contexto da apropriação do espaço evidencia-se que a subjetividade é o conceito que une os demais em se tratando de processo de apropriação porque é necessariamente, a expressão única, particular, específica de cada sujeito que se apropria dos espaços, constrói lugares e cria identidade. O lugar que foi transformado indica a subjetividade forjada e diz respeito, então, “a um complexo processo de ideias conscientes e inconscientes, sentimentos, valores, objetivos, preferências, habilidades e tendências” (Gonçalves, 2004, p. 19). A subjetividade humana compreende um processo de construção social. “É o processo de invenção de si, a força da invenção da vida, de experimentação e apreensão particular e única do mundo através do modo como cada sujeito se produz como um indivíduo singular, em transformação constante na experimentação cotidiana” (Nogueira, 2009, p. 71). Desta forma, o ambiente sócio físico constitui parte integrante do desenvolvimento do ser humano, e os lugares são fundamentais na formação da identidade, ou ainda, da subjetividade humana.
A Identidade de lugar– metodologicamente, situa os significados dos símbolos por meio da relação com a ambiência social; por isso, auxilia no processo de gerar o ser social. O ser humano vive do contexto histórico social através dos seus acertos e erros, seus modos de vida e alternativas (Strey, 1998). “Essa identificação gera sentimentos de bem-estar e de intimidade do sujeito com o meio, que na construção da identidade, existem dimensões e características do entorno sócio físico que são incorporadas pelo sujeito por meio da interação com o ambiente” (Gonçalves, 2007, p. 70).
“O apego ao lugar faz-se necessário ao desenvolvimento da identidade da pessoa, ou seja, há lugares que têm um grande valor simbólico para o sujeito. A identificação com o local promove a capacidade de se vincular afetivamente a este” (Lima; Bomfim, 2009, p. 445). Nesse sentido, Gonçalves (2007) relata que a identidade de lugar possui elementos característicos do “eu” do sujeito, traçado em um sistema de ideias tanto consciente como inconsciente, de seus valores, metas, sentimentos, prioridades, habilidades e intenções.
Enraizamento, emoções e afetividade ambiental – Enraizamento se traduz em um estabelecimento de vínculo entre a identidade psicossocial e o sócio ambiente. Ao tratar-se de enraizamento nas questões socioambientais, abarca-se os espaços temporais que abrangem a cultura, a história e a memória coletiva de um povo (Massola; Svartman, 2018). A temática enraizamento suscita as categorias emoções e afetividade ambiental, estando intrinsecamente relacionada à questão pessoa-ambiente (dimensões físicas e simbólicas), passiveis de investigações. Emoções podem ser mediadoras de integração da realidade imediata e dos processos imaginativos do pensamento. As emoções mais básicas elencadas por Ekman (2011) são: medo, alegria, nojo, raiva, tristeza. De caráter social são: o orgulho, a culpa e a vergonha (Bomfim et al., 2018). Os sentimentos são afetos mais duradouros e criados pelos indivíduos. Diante do exposto, emoções e sentimentos são partes vinculadas ao espaço e ao lugar. Emoções positivas e negativas influenciam no comportamento ambiental e o impacto físico na experiência sensorial (Bomfim et al., 2018).
Este estudo se destaca como qualitativo, do tipo descritivo e exploratório. Ainda, faz parte da Dissertação: A relação pessoa-ambiente nas narrativas de moradores de Praia Grande, Santa Catarina: experiências de uma cidade em transformação, defendida no ano de 2022 para a obtenção de Mestre em Ciências Ambientais. Foi realizado em Praia Grande/SC com residentes da cidade e município investigados e que se dispuseram a participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O coletivo desta pesquisa, compôs-se de 10 sujeitos com idades que variam entre 43 e 82 anos e identificados entre E1 a E10, e assim foram caracterizados diante de suas falas no decorrer do estudo (Brognoli, 2023, 2022).
Para Brognoli (2023, 2022), a coleta de dados se norteou pela entrevista narrativa. “Esse tipo de entrevista visa encorajar e estimular o sujeito entrevistado (informante) a contar algo sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social” (Muylaert et al., 2014, p.194). De acordo com Brognoli (2023, 2022), a análise dos dados abraçou a perspectiva metodológica do autor Romeu Gomes (2009, p. 91), defendendo que “chegamos a uma interpretação quando conseguimos realizar uma síntese entre: as questões da pesquisa; os resultados obtidos a partir da análise do material coletado, as inferências realizadas e a perspectiva teórica adotada”. A partir dos dados, a interpretação dos textos, a elaboração de um novo texto coube ao pesquisador” (Brognoli, 2023, 2022).
Segundo Brognoli (2023, 2022), a infância e a adolescência vividas em Praia Grande, Santa Catarina, com seus rios, vales e canyons, podem ser fortemente marcadas pela beleza singular que o território situado entre o litoral e a serra catarinense proporciona ao simbolismo da subjetividade humana. “A cidade faz parte do território do Parque Aparados da Serra, situada aos pés dos grandes canyons e reconhecida como a Capital Catarinense dos Canyons, obtendo o título de Geoparque em 2022; a sua contemplação, oferece aos turistas lazer e desafios em meio a natureza” (Brognoli, 2022, p. 12). As entrevistas narrativas foram analisadas a luz da Psicologia Ambiental, visando apreender as experiências e relações que os moradores instituem com a cidade.
A apropriação do espaço compreendida a partir da Psicologia Ambiental, se consolida nos passos de identificação, sentimento de pertença, personificação, cultivação e sentimento de defesa (Gonçalves, 2007; Ittelson et al., 2005; Pol,1996; Proshansky, 1978). Diante dos quesitos expostos, vale ressalvar que os entrevistados foram indagados sobre como se sentem em relação ao espaço em que moram.
De acordo com Brognoli (2023, 2022), a narrativa abaixo demonstra um processo de identificação baseada na relação do sujeito da pesquisa com o seu “investimento”. “Eu fiquei 15 anos como funcionário dele, na verdade sócio e funcionário, daí quando ele faleceu eu já tinha 40% da empresinha… vim até os dias de hoje Graças a Deus […] tem um investimento bom” (E2). Como visto, ele considera a relação de trabalho como vínculo de sentimento de pertença. Sobre esta relação, destaca-se que é no ambiente de trabalho que o sujeito passa a maior parte do seu dia, onde se identifica. Ao sentir-se pertencente ao ambiente que traz impacto direto na realização de bem-estar, é impactado pela promoção de sua inclusão. O processo de apropriação e o sentimento de pertença percebido por um morador, pode residir em diferentes setores. A percepção do usuário em relação ao ambiente se conecta ao campo que pode ser definido como percepção ambiental. “[…] que está relacionada ao modo como as pessoas experienciam os aspectos ambientais […] em seu entorno […] não apenas os aspectos físicos, mas também os aspectos sociais, culturais e históricos” (Kuhnen; Higuchi, 2011, p. 250). Cavalcante e Elali (2011, p. 63) definem a apropriação do espaço enquanto “processo psicossocial central na interação do sujeito com seu entorno por meio do qual o ser humano se projeta no espaço e o transforma em um prolongamento de si mesmo, criando um lugar seu”.
Com uma visão voltada ao “investimento” em seu mercado, (E2) diz que começou suas atividades em um moinho na juventude, fato este, que o faz preservá-lo até os dias atuais pela conservação de suas memória e, sobretudo, pela história. “Era tocado a água e a gente abastecia os tropeiros que desciam. Eles compravam arroz descascado daqui de nós e farinha de milho” (E2). Para Pol (1992), o espaço não se resume somente a atribuições funcionais; trata-se do resumo da vida e das experiências todas, sendo que a apropriação desse espaço oferta ao sujeito uma projeção no tempo e garante a estabilidade de sua identidade, ao processo de significações simbólicas e sentimento de defesa. (E3) narra uma breve história que marcou sua trajetória em relação à apropriação do espaço e sentimento de pertença, dizendo que queriam fazer uma barragem, mas que a comunidade lutou muito contra, e que iria abranger o local onde mora, Mãe dos Homens e Roça da Estância/RS. Lembra da luta que foi com o “[…] Frei Luiz. Foi algo bem marcante esta luta, até minha avó plantou um pinheiro aqui na frente do salão como um marco onde teve uma reunião muito grande e vencemos a luta contra a barragem” (E3). Assim, ela expressa essa relação de apropriação do espaço, podendo-se perceber o sentimento de defesa ao seu espaço que se configura em um lugar de profundo significado pessoal. Ainda, encontra-se o quesito da personificação quando plantou-se um pinheiro como marco de vitória diante da demanda comunitária. A personificação é um componente comportamental, pois envolve uma ação de transformação do espaço, promovendo atitudes de conservação e proteção do mesmo. De acordo com Sansot (1996), a personificação é a transformação intencional do espaço, uma vez que o sujeito deixa nele suas marcas. Destarte, concebe-se as palavras enunciadas acima voltadas às ações humanas, relatadas por Azevedo et al. (2011) na identificação, posse e ação: 1. Identificação – quando o sujeito percebe-se conectado, acolhido e protegido pelo ambiente. 2. Posse – “corresponde ao cuidado e apego em relação ao local. […] zelo na manutenção de um ambiente ou por manifestações de territorialidade, com demarcação do ambiente” (Azevedo et al., 2011, p. 69). 3. Ação – “consiste na movimentação e uso do local” onde “[…] a pessoa supra as suas necessidades e se expresse. […] o uso intenso de um ambiente é uma das evidências de sua apropriação” (Azevedo et al., 2011, p. 69).
Azevedo et al. (2011) resumem os processos de apropriação do espaço dos entrevistados quando estes sinalizam que o moinho “Era tocado a água e a gente abastecia os tropeiros que desciam” (E2). A identificação em relação à apropriação do espaço ocorre porque o entrevistado assume uma familiaridade com o ambiente e os tropeiros, mesmo referindo-se a um tempo muito distante. Quando o (E3) menciona “nosso lugar”, está tomando posse daquilo que pressupõe ser de sua propriedade, com zelo, manutenção, cuidado e apego. A ação é efetivamente a apropriação daqueles espaços conforme cita Azevedo et al. (2011).
Do mesmo modo, a entrevistada acima traz sua história pessoal sobre a igreja, as festas e à santa, numa demonstração de seu sentimento de pertença e cultivação à comunidade. “[…] a igreja e o salão porque eu me criei nas festas participando na comunidade […] as festas são um marco importante. […] Também foi o meu avô que trouxe a santa Nossa senhora Mãe dos Homens para a comunidade” (E3). O processo de apropriação se estabelece quando o sujeito sente segurança e apoio, sendo aceito, incluso, e possa representar-se enquanto identidade em seu ambiente. Este contexto remete a Pol (1992), quando diz que a apropriação do espaço é, efetivamente, a vida social e a cultivação do seu universo íntimo, que se ancora na relação pessoa-ambiente, o que garante a estabilidade da identidade humana.
Outra narrativa vale ser destacada: “[…] eu fico muito satisfeito de tá no meio da natureza […] me considero filho da natureza […] eu olho tudo em volta […] essa linha do horizonte com essa natureza muito bem trabalhada […]. O relato prossegue descrevendo o lugar em que vive demonstrando sua satisfação “[…] o vale que vai em direção a cidade de Praia Grande, quando eu chego ali e fico olhando parece que eu recupero uma espécie de energia. Tem os passarinho que eu gosto de cortar banana e abacate pra eles vim comer […]”. Sua narrativa encerra aludindo ao sangue indígena: “[…] Não sei se é por eu ter sangue de índio, […] gosto de sentir o cheiro de arvoredo florescido, o cheiro da natureza, de trabalhar na roça, […] no mato em contato com os bicho” (E8).
Há uma identificação e sentimento de pertença acerca do cenário da natureza de Praia Grande. Sobre este contexto, Elali (2009) reporta-se que mais do que informações visuais, táteis, térmicas, auditivas e/ou olfativas-gustativas, o ambiente é um agente propiciador de afetividade e simbolismo continuamente presente na humanidade. “[…] grande parte do comportamento do indivíduo envolve a interação com o espaço e no espaço, desde atividades simples como alimentar-se e vestir-se, até atividades complexas […] (Elali, 2009, p. 43).
A apropriação do espaço, movimentada pelas interconexões simbólicas entre pessoa e espaço, produz à identidade de lugar; contexto este percebido ao se indagar qual o lugar mais significativo para os moradores da cidade de Praia Grande. Na Psicologia Ambiental, a identidade do lugar pauta-se em uma perspectiva na qual o significado dos símbolos decorre da convivência com o entorno sócio físico que gera o ser social. (E2) discorre sobre seu lugar essencial relacionando-o com seu ramo de negócio: “Na verdade, é aqui pra mim […] vim lá do interior […] A vida maior é aqui. […] até tem uma foto aqui. Aqui tá eu e aqui é o seu Neco Esteves. Este é o armazenzinho, foi aberto em 1968, nós temos CNPJ até hoje o mesmo” (E2).
Os entrevistados (E3) e (E5) tem respostas similares quando se reportam ao lugar mais significativo para eles: “Bom, aqui é um lugar muito tranquilo de se viver, nasci e me criei aqui. As pessoas e os vizinhos são muito bons.” (E3); e “Bom, eu gosto de tudo aqui, mas a minha casa, o meu lar é muito importante. Eu vou na praça de Praia Grande e faço minhas voltas por lá e minha vontade é de voltar pra cá, eu gosto é daqui.” (E5). Percebe-se aí a relação com o lugar mais significativo dos entrevistados ao que Carvalho (2016), em sua definição de identidade de lugar, relata como um mecanismo primordial ao surgimento de um cenário interno, sustentando e protegendo a identidade do sujeito.
O (E4) volta sua preferência para a natureza de Praia Grande enquanto lugar mais significativo: “Eu me sento na área ali em casa e adoro olhar pra tudo aquilo lá […] eu acho muito bonito”, remetendo-se à identidade de lugar e ao lugar mais significativo, traz lembranças de imagens, sentimentos, valores, atitudes, assim, ele se reconhece no espaço (Carvalho, 2016).
Para a entrevistada (E10), “o Buraco da Vicença”, na comunidade de Vila Rosa em Praia Grande, é o lugar mais marcante, significativo e simbólico. Sua narrativa volta-se ao contexto histórico, cultural, imaginário, afetivo, valores e outros elementos responsáveis pela construção de sua identidade de lugar. A entrevistada reúne elementos diversificados que possibilitam sustentar a identidade coletiva e, por conseguinte, a identidade pessoal que lhe traga sentido. O lugar que lhe é mais significativo a remete ao resgate do passado lhe trazendo elementos para o fortalecimento dos sentidos do eu em situações de ameaça à identidade psicossocial (Tuan, 1980). (E10) diz que fica pensando “[…] como eram as pessoas que circulavam ali, como elas passavam, como elas se vestiam, o que elas conversavam […]”. Sua imaginação pondera também sobre os casamentos e relacionamentos que aconteceram por ali: “[…] porque tinham os tropeiros, as filhas de donos de comércio, as amigas então tem muita história, muitos amores, muitos casamentos […].” A entrevistada descreve elementos importantes em sua narrativa: “[…] E eu tive contato com algumas cartinhas dos namoros da década de 60, […] consigo ver, as crianças brincando, todas aquelas famílias, os brinquedos de madeira, de sabugo de milho, as bonecas de palha”. Destaca ainda: “[…] as vestimentas das pessoas, aquela coisa simples, elas plantavam algodão, colhiam e teciam” (E10). Diante do exposto, a menção da entrevistada traz sobre vários elementos determinam aspectos que habitam na condição de seu lugar preferido: o Buraco da Vicença, revelando sua identidade psicossocial diante da percepção visual (Tajfel, 1972). As falas dos entrevistados que discorreram acerca do que reside em seu consciente e inconsciente, levam ao enraizamento, emoções e afetividade ambiental por sua relação e discussão pela Psicologia Ambiental já que trata da relação pessoa/ambiente considerando casa, desejo de apropriação do espaço, suas origens e segurança por meio de suas raízes.
Sobre o enraizamento, (E3) reflete um tempo mais distante e o atual: “[…] Então crescer aqui foi muito bom, a gente pôde ser livre, pôde brincar na rua, pular, caminhar, hoje em dia já é difícil né, a gente já não deixa os filhos irem brincar perto das estradas porque passam muitos carros” (E3). A emoção e a afetividade ambiental aparecem nas palavras da entrevistada remetendo ao enraizamento, aos espaços temporais que envolvem a cultura, a história e a memória coletiva de um povo (Massola; Svartman, 2018). “No contexto socioambiental, o enraizamento diz respeito ao habitar-se por longo tempo em dado lugar, familiaridade a um lugar, forma inconsciente de vínculo com um lugar e tudo o que este vínculo oferta” (Brognoli, 2023, p. 123).
O (E6), morador da comunidade de São Roque, onde se localiza a comunidade quilombola, conta sua história pontuada de elementos que remetem ao enraizamento: “[…] Eu tenho, assim, muita adoração porque eu me criei por aqui, nossas águas são muito boas, a minha água aqui é boa demais e as terras são produtivas. Aqui o que o senhor planta produz.” Cita que é muito satisfeito com sua vida junto à natureza: “[…] Tô satisfeito, as vezes eu saio uns cinco ou seis dias e já tô voltando pro meu lugar. Gosto de ficar perto do fogão a lenha eu, mais a velha, os filhos tão criados graças a Deus (E6). Há uma familiaridade de (E6) pelo longo tempo que habita no lugar. Suas palavras refletem a emoção e a afetividade vindo ao encontro de Tuan (1980, p. 6), quando observa que o “enraizamento é um estado de existência irrefletido no qual a personalidade humana funde-se com seu meio”, definição pertinente à fala do entrevistado que mescla vários elementos em sua exposição no lugar que lhe é tão especial. “Também aspectos relacionados com o passado e a tradição do grupo ou povo que fundamenta o sentido de identidade pessoal são inerentes ao enraizamento” (Brognoli, 2023, p. 123).
O apego ao lugar é um elemento presente nas falas de três entrevistados, (E4), (E6) e (E7), sendo que os três justificam seu apego à natureza de Praia Grande. “É a natureza, eu vou na cidade às vezes, mas volto rápido pra cá. […] Meu Deus, melhor do que aqui no mundo acho que não existe. Também os vizinhos são tudo gente boa, um cuida do outro” (E4). Esta entrevistada reside na comunidade Mãe dos Homens e declara seu apego ao lugar.
A teoria do apego ao lugar acontece nas dimensões funcional, simbólica e atemporal. No que se refere a dimensão funcional, o ambiente físico impacta nas estruturas de comportamento que por meio dos seres humanos que nele ocorrem. Na simbólica o apego ao lugar não é proporcional ao tempo de vinculação. “A estabilidade do laço afetivo depende da relação entre o significado atribuído ao lugar e os elementos significativos para a identidade do indivíduo no momento da vinculação” (Giuliani, 2004, p. 95). (E6) diz: “No passado a gente não dava importância pra montanha da pedra branca. “[…] de uns tempos para cá é que a gente tá olhando e prestando atenção desta beleza”. Identifica-se que a estabilidade do laço afetivo opera no significado que se atribuiu ao lugar pelo viés dos elementos significativos para a identidade do indivíduo no momento da vinculação (Giuliani, 2004).
O (E7) também revela seu apego ao lugar, a cultivação e sentimento de defesa em função da natureza: “[…] a gente aqui é muito de preservar os rios e suas matas, as árvores e os animais. Já aqui em casa adoro cuidar seja aquele pouquinho que eu planto e posso cultivar, sei que já estou velha, mas eu amo a natureza, gosto de preservá-la. (E7). “A dimensão temporal é mais emocional que cognitiva, o que implica em sofrimento, diante de uma eventual separação e dificuldade de substituição de um laço afetivo por outros, impactando no desenvolvimento da identidade individual e comunitária” (Giuliani, 2004, p. 98). Mediante ao exposto, Barretto (1998) ao se referir ao turismo, aponta para a possibilidade do direcionamento da constituição de uma sociedade que, por sua vez, nega ou ignora as funções, os costumes e as paisagens locais, em função dos objetos de apropriação turística. A autora Barretto (1998) tece críticas, quando destaca que atualmente toda manifestação humana se transforma em bem de consumo, seja pela indústria cultural, seja pela globalização da economia que tem o objetivo de igualar todos os espaços. Oliveira (2014) entende que a cidade turística passa por uma transformação pensada na satisfação do público externo ao lugar, e não à expectativa do morador local. “Construindo obras grandiosas, pretende-se tornar a cidade mais competitiva, sem se importar com as questões de infraestrutura básicas inacabadas, necessárias ao lugar e aos moradores” (Brognoli, 2022, p. 14). Pode-se inferir que o modo contemporâneo de produzir o espaço, possui bases sólidas no sistema capitalista vigente, pois direciona a elaboração do espaço com o ensejo de encará-la como mercadoria. O que ocorre com o turismo não escapa dessa condição mercadológica! (Brognoli, 2023, 2022).
Com o processo turístico emergente em Praia Grande o sujeito pode vir a ter dificuldades de externar sua subjetividade que é inerente, íntima e específica de cada indivíduo, o que transforma espaços em lugares e cria a identidade de lugar. O processo de transformação pelo turismo pode modificar os lugares significativos e simbólicos, a percepção de enraizamento, emoções e afetividade ambiental discutidos pela Psicologia Ambiental, bem como aspectos que tratam da relação pessoa/ambiente enquanto casa, apropriação do espaço, apego ao lugar, sentimento de pertença, sentimento de defesa criando vínculos com o ambiente.
Desse modo, em relação ao espaço e sua representatividade na vida dos moradores verifica-se um forte sentimento de pertença quando mencionaram pequenos negócios, moinhos de engenho, movimento contra uma barragem (sentimento de defesa), empenho de familiares na construção de igrejas que caracterizam a criação de uma comunidade. Também há uma referência consciente, beirando o encantamento sobre as belezas naturais quando expressam a linha do horizonte, a natureza bem trabalhada, os passarinhos, a energia, o cheiro da mata, os bichos, citam locais específicos, cartinhas de namorados, amores, brinquedos e brincadeiras, remetendo que a natureza reflete tudo o que há no inconsciente humano fazendo conexão entre o ambiente ecológico e o sistema psíquico. Sob a ótica da Psicologia Ambiental há um rompimento dos muros que separam a natureza que há no indivíduo, pois ambos se interconectam; o ser humano vive em um profunda ligação com seu entorno sócio físico.
Todo este contexto vivido pelos moradores locais que buscam em suas memórias tantos elementos constitutivos de suas vidas expressam a si mesmos. Com recorrência a natureza do lugar aparece, encanta, ilustra cada um dos elementos citados. Registra-se que este estudo trouxe, de fato, uma percepção que alertou, inclusive ao pesquisador, sobre os caminhos do turismo em Praia Grande, um espaço que pode vir a ser transformado em mercadoria.
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O autor declarou que o material submetido trata-se da Dissertação: “A relação pessoaambiente nas narrativas de moradores de Praia Grande, Santa Catarina: experiências de uma cidade em transformação”, defendida em 2022, transformado em artigo científico, sendo todos os dados de minha autoria ou então citados da maneira correta.
[1] Professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Doutorando em Ciências Ambientais – PPGCA – UNESC. Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Graduação em Psicologia pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Especialização em Docência do Ensino Superior e EJA, Especialização em Psicologia Clínica, Especialização em AEE e Educação Inclusiva, Especialização em Psicologia Comportamental e Cognitiva, Especialização em Psicologia Social, Especialização em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica, Especialização em Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico, Especialização em Psicologia Hospitalar, Especialização em Saúde Mental, Especialização em Neuropsicologia Clínica, Especialização em Psicologia Analítica, Especialização em Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade, Especialização em Psicossomática, Especialização em Psicologia Escolar e Educacional, Especialização em Psicologia e Orientação Profissional, Especialização em Psicologia Humanista: Abordagem Centrada na Pessoa e Especialização em Psicologia Transpessoal. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1539-1759. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8435952480356147.
[2] Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) e de cursos de graduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). É Doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2011), e realizou estágio-sanduíche no Institute of Latin American Studies da Columbia University, Nova York, EUA. Possui mestrado em Antropologia Social (2007) e graduação em Jornalismo (2002) pela Universidade Federal de Santa Catarina. Realizou pós-doutorado em Antropologia na Vrije Universiteit Amsterdam (2012-2013). Foi Professora Visitante na San Diego State University, California, EUA (Center for Brazilian Studies Sustainability Fellow – Spring Semester 2023). É líder do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente, Cultura e Sociedade (GPMACS). Atua em pesquisas, principalmente, nos seguintes temas: desastres ambientais e projetos de desenvolvimento; alimentação, consumo e descarte; ambiente urbano, culturas e práticas socioespaciais. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0118-2486. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3938314040854246.
Material recebido: 12 de setembro de 2023.
Material aprovado pelos pares: 24 de outubro de 2023.
Material editado aprovado pelos autores: 02 de setembro de 2024.
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