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APLICAÇÃO DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES PARA O BEM-ESTAR DE PESSOAS SUPERDOTADAS

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Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues [1]

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INTRODUÇÃO

De acordo com o censo escolar de 2022 do INEP, o Brasil tinha um total de 29.932.811 estudantes matriculados na educação infantil e ensino fundamental em 2021. No entanto, a quantidade de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AHSD) é discrepante em relação às matrículas registradas. As estimativas tradicionais ficam entre 5% e 20%, o menor número seria cerca de 1,5 milhões já na estimativa mais ampla, o número de estudantes com AHSD poderia chegar a quase 6 milhões em todo o país (Faber & Alves, 2023).

Essa invisibilidade dificulta o atendimento de crianças e jovens que frequentam o ensino básico. Por características, a altas habilidades/superdotação podem gerar perfeccionismo, ansiedade, entre outros (Schuur et al., 2020).

Além disso, muitos estudantes superdotados enfrentam um profundo estresse devido ao isolamento, sentimentos de inadequação, hiperatividade mental, falta de amigos e desafios em lidar com problemas mundiais. Neste sentido, as terapias integrativas e complementares como o mindfulness possibilita a melhora concentração, reduzindo o estresse e ansiedade (Mendonça, Luciano & Rondini, 2022).

Diante do exposto, a tese apresentada no artigo é de que os indivíduos superdotados, devido às suas características específicas, enfrentam desafios emocionais que podem afetar negativamente seu bem-estar. Tem-se por objetivo, então, destacar a importância de considerar a saúde emocional e mental dos estudantes superdotados para aplicação de terapias integrativas e complementares.

SUPERDOTAÇÃO E BEM-ESTAR

Podemos caracterizar as pessoas com superdotação como tendo um coeficiente de inteligência acima da média. Para Renzulli (1998), a superdotação é composta por habilidades acima da média, criatividade e envolvimento na tarefa (motivação).

As habilidades acima da média, podem ser definidas de duas maneiras: habilidades gerais, como processamento de informações e pensamento abstrato, e habilidades específicas em áreas como matemática ou música. Estudos mostram que habilidades específicas nem sempre se correlacionam com pontuações de testes de inteligência tradicionais, sugerindo que outros indicadores devem ser considerados na identificação de superdotados, como realizações e habilidades criativas (Rodrigues, 2021b; Renzulli, 1998).

Criatividade é vista como um traço central na caracterização de pessoas superdotadas, frequentemente associadas a gênios e criadores eminentes. No entanto, medir a criatividade é desafiador, e testes de pensamento divergente podem não ser indicativos de verdadeira criatividade. Portanto, cabe avaliar produtos criativos e autodeclarações dos estudantes por serem alternativas mais viáveis (Rodrigues, 2021b; Renzulli, 1998).

Já o envolvimento na tarefa, é um conjunto de traços que caracteriza consistentemente pessoas criativas e produtivas com uma forma refinada de motivação. Esta, por sua vez, se concentra em um problema específico ou área de atuação e envolve perseverança, trabalho duro e autoconfiança. Estudos mostram que a capacidade de se dedicar a uma tarefa é uma parte crucial da definição de superdotação (Rodrigues, 2021b; Renzulli, 1998).

Embora o modelo dos três anéis de Renzulli forneça uma perspectiva abrangente sobre a superdotação, enfocando habilidades gerais, criatividade e envolvimento na tarefa, a superdotação ainda pode gerar desafios emocionais significativos (Rodrigues, 2021b).

Dito isso, muitas vezes, os indivíduos acabam por se destacar em suas habilidades e interesses, o que pode dificultar a conexão com os colegas da mesma idade. Tais acontecimentos, tendem a levar ao isolamento social e ao sentimento de não pertencimento, afetando negativamente o bem-estar emocional (Silverman, 2013).

Em crianças e adolescentes, a pressão para alcançar alto desempenho acadêmico gera ansiedade e perfeccionismo. Segundo Schuur et al. (2020), superdotados muitas vezes sentem a expectativa de que devem sempre ter sucesso, o que pode resultar em altos níveis de estresse e autoexigência. Assim, a frustração e a falta de desafios adequados na escola também podem levar à desmotivação e à desvalorização de suas habilidades.

Para além, temos que superdotados possuem uma sensibilidade aflorada, percebendo percebem e sentindo as coisas em um nível mais profundo do que seus pares, o que pode torná-los mais suscetíveis a experiências emocionais intensas, como ansiedade e depressão (Papadopoulos, 2021).

PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES (PICS)

A concepção de saúde e doença evoluiu ao longo do tempo, refletindo diversos contextos históricos, sociais e culturais. E, o processo saúde-doença ainda mantém uma forte ligação com fatores fisiopatológicos, onde a presença de doenças está associada à ausência de bem-estar (Gomes, 2017).

Em 1991, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu a importância das terapias integrativas (WHO, 2019), levando a uma aceitação crescente em sistemas de saúde em todo o mundo devido as possibilidades de restaurar o bem-estar do indivíduo.

Com raízes antigas, elas combinam abordagens convencionais com terapias complementares, têm uma história rica. Originando-se nas práticas tradicionais, como a medicina chinesa e a ayurvédica, essas terapias ganharam reconhecimento ocidental no final do século XX (WHO, 2019).

Vale lembrar que no Brasil, as Práticas Integrativas e Complementares (PIC) foram incorporadas à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) em 2006. Desta forma, foram proporcionadas abordagens holísticas da saúde, como acupuntura, homeopatia e práticas corporais e meditativas. Essas terapias incentivam a integralidade da atenção à saúde, contribuem para a corresponsabilidade dos indivíduos por sua saúde e fortalecem o Sistema Único de Saúde (SUS) (Gomes, 2017).

Tabela 1. Práticas Integrativas e Complementares.

Fonte: Adaptado de Brasil (2023).

Em 2018, o Brasil aprovou 12 novas Práticas Integrativas e Complementares (PICs), ampliando o total para 29. Algumas delas incluem a aromaterapia, que utiliza óleos essenciais vegetais concentrados; a constelação familiar, para identificar bloqueios emocionais familiares; a geoterapia, que utiliza argila rica em minerais; a imposição de mãos, que transfere energia para restaurar o equilíbrio; a medicina antroposófica, com enfoque na integralidade do cuidado; e a terapia de florais, não medicamentosa para equilibrar indivíduos de todas as idades (Mendes et al., 2019).

PICS EM SUPERDOTADOS

Veloso e Monte (2022), alertam que crianças com altas habilidades/superdotação, embora não homogêneas, podem ser mais vulneráveis ao sofrimento psíquico, requerendo uma compreensão baseada em teorias como a das Inteligências Múltiplas (Gardner) e dos Três Anéis (Renzulli).

Sendo assim, a superdotação causa desafios emocionais e pode afetar a saúde mental. Nesse contexto, as terapias integrativas emergem como uma abordagem a fim de promover o bem-estar físico, emocional e mental dos superdotados.

Mendonça, Luciano e Rondini (2022), indicam o mindfulness, técnica que envolve focar a atenção no momento presente sem julgamento. Desenvolvida por Kabat-Zinn, ela baseia-se na meditação Zen budista, demonstrando benefícios para estudantes com altas habilidades/superdotação, como melhoria da concentração, redução do estresse, da ansiedade e da depressão, além do fortalecimento da capacidade de tomar decisões e desenvolver habilidades emocionais, contribuindo para o bem-estar e saúde mental.

Além disso, a aromaterapia, possui potencial como antidepressivos, embora ainda em estágios iniciais de pesquisa. Devido à complexidade de seus constituintes químicos pode ser benéfico no tratamento da depressão, permitindo ações sinérgicas de múltiplos compostos (Santos, Nascimento & Mota, 2022).

Rabêlo e Leite (2016), revelam que as oficinas de arteterapia produziram resultados positivos, de acordo com os relatos espontâneos dos estudantes. Durante as aplicações, as atividades estimularam a imaginação, a criatividade e a autoestima, permitindo que os estudantes expressassem sentimentos e pensamentos, reconhecendo seu potencial criativo e interagindo com o grupo.

Em casos de dupla-excepcionalidade com o TDAH, concomitância de superdotação e algum transtorno (Rodrigues, 2021a), Ogeda (2020) mencionam que terapias alternativas como zooterapia, homeopatia, florais de Bach e óleos essenciais são funcionais. Além disso, são necessárias práticas educativas que promovam o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, incluindo a atenção voluntária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É evidente que as pessoas com superdotação sofrem enfrentam desafios emocionais importantes, muitas vezes relacionados à pressão por alto desempenho acadêmico, perfeccionismo, isolamento social e sensibilidade intensificada. Neste sentido, essas questões podem afetar negativamente seu bem-estar e saúde mental.

Sendo assim, as PICs surgem como uma promissora abordagem para abordar esses desafios, uma vez que proporciona benefícios visando a promoção do bem-estar físico, emocional e mental. Nesse contexto, técnicas como o mindfulness, aromaterapia e arteterapia se destacam como alternativas viáveis para auxiliar na melhoria da saúde mental dos superdotados.

Além disso, terapias alternativas, como zooterapia, homeopatia, florais de Bach e óleos essenciais, podem ser funcionais em casos de dupla-excepcionalidade, combinando superdotação com outros transtornos, como TDAH. Nas escolas, também é possível práticas educativas fomentadoras no desenvolvimento de funções psicológicas superiores, especialmente a atenção voluntária.

Por fim, considera-se fundamental que os sistemas educacionais e de saúde considerem as necessidades específicas dos superdotados, promovendo a conscientização sobre essas questões e o acesso a terapias integrativas. Além disso, os educadores e profissionais de saúde devem receber treinamento adequado para identificar e apoiar esses indivíduos de maneira eficaz.

REFERÊNCIAS

BRASIL. As práticas. Ministério da Saúde [online], 24 ago. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pics/as-praticas. Acesso em: 12 out. 2023.

FABER, Juliana Andreatta & ALVES, Adriana Gomes. A. Altas habilidades/superdotação no Brasil: uma revisão de literatura no período de 2012 a 2022. Revista Diálogos e Perspectivas em Educação Especial, v. 10, n. 1, p. 11-26, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.36311/2358-8845.2023.v10n1.p11-26. Acesso em: 12 out. 2023.

GOMES, Diana Ribeiro Gonçalves de Medeiros et al. A inclusão das terapias integrativas e complementares na formação dos acadêmicos da saúde. SANARE – Revista de Políticas Públicas, v. 16, n. supp. 1, p. 74-81, 2017. Disponível em: https://sanare.emnuvens.com.br/sanare/article/view/1142. Acesso em: 12 out. 2023.

MENDES, Dayana Senger et al. Benefícios das práticas integrativas e complementares no cuidado de enfermagem. Journal Health NPEPS, v. 4, n. 1, p. 302-318, 2019. Disponível em: http://dx.doi.org/10.30681/252610103452. Acesso em: 12 out. 2023.

MENDONÇA, Adriana Vazzoler; LUCIANO, Anderson Ricardo Malmonge Barbosa & RONDINI, Carina Alexandra. Saúde mental na educação: mindfulness para estudantes com altas habilidades/superdotação. Revista Eletrônica Científica Ensino Interdisciplinar, v. 8, n. 25, p. 246-262, 2022. Disponível em: http://dx.doi.org/10.21920/recei72022825246262. Acesso em: 12 out. 2023.

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RABÊLO, Eneluce de Jesus Reis & LEITE, Sandro J. S. Arterapia: despertando a criatividade e o autoconceito de estudantes com características de altas habilidades/superdotação. Revista de Arteterapia da AATESP, v. 7, n. 2, p. 6-25, 2016. Disponível em: https://www.aatesp.com.br/arquivos/revistas/revista_v07_n02.pdf. Acesso em: 12 out. 2023.

RENZULLI, Joseph S. The Three Ring Conception of Giftedness. In: BAUM, S. M.; REIS, S. M. & MAXFIELD, L. R. (eds.). Nurturing the gifts and talents of primary grade students. Mansfield Center, CT: Creative Learning Press, 1998. Disponível em: https://gifted.uconn.edu/schoolwide-enrichment-model/three-ring_conception_of_giftedness/. Acesso em: 07 out. 2023.

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[1] Pós-doutora em Psicologia; Doutora em Educação; Mestrado em Intervenções Psicológicas no Desenvolvimento e na Educação. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4948-6462. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4339738876228880.

Foto de Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues

Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues

Neuropsicopedagoga e Psicanalista; Doutora em Educação; Doutoranda em Neurociências pela Logos University International; Atuação como coordenadora e professora no CBI of Miami; Pesquisadora no Departamento Internacional de Antropologia e Religião da Logos University International; Pesquisadora voluntária no grupo de pesquisa GEPECUMA - Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura, Memória e Arte (UNESP - PUC/SP); Pesquisadora voluntária no Departamento de Psicologia da Universidad del Flores (UFLO).

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