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Inez Silva de Almeida [1]

Ana Carolina da Costa Correia Lima [2]

Karine Machado Cascaes [3]

Priscila Cristina da Silva Thiengo de Andrade [4]

Helena Ferraz Gomes [5]

Juliana de Souza Fernandes[6]

Gabriela Silva dos Santos Prado [7]

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RESUMO

Objetivo: Compreender qual o significado do estigma na vida dos jovens soropositivos. Metodologia: Estudo qualitativo, descritivo, com abordagem fenomenológica, realizado com 11 jovens, em um ambulatório especializado no atendimento de adolescentes e jovens. As entrevistas foram transcritas, analisadas e interpretadas segundo os preceitos do filósofo Martin Heidegger. Resultados: Foram obtidas duas unidades de significação: O medo do preconceito e o medo de revelar o diagnóstico. A equipe de profissionais de enfermagem que vislumbra o cuidar dos jovens soropositivos necessita compreendê-los, a fim de cuidar com solicitude e preocupação. Conclusões: Foi possível compreender que o significado do estigma do HIV/aids, ainda traz repercussões negativas para a vida do jovem, sendo fundamental a intervenção do enfermeiro, a fim de promover a sua saúde e minimizar o sofrimento psíquico.

Palavras-chave: Adulto Jovem, Infecções por HIV, Enfermagem.

INTRODUÇÃO

Atualmente, um dos maiores desafios ainda enfrentado pelos jovens que convivem com a Síndrome da Imunodeficiência Humana é o estigma, que foi associado à promiscuidade e ao homossexualismo, desde o surgimento da síndrome e que ainda permanece vivo na sociedade (BRASIL, 2017; BRASIL, 2018).

A discriminação, no contexto do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), apresenta uma forte correlação com a homofobia e a discriminação de gênero, enfatizando crenças e mitos que rotulam os jovens com o HIV como seres estereotipados (LIMA et al, 2021). Nesse sentido, o objeto do estudo foi delineado como o estigma do HIV na vida dos jovens soropositivos.

Diante do exposto, emergiu a seguinte questão norteadora da pesquisa: qual o significado do estigma do HIV na vida do jovem soropositivo? Portanto o objetivo deste estudo foi compreender qual o significado do estigma na vida desses jovens.

Este estudo se justifica mediante a reduzida produção científica relacionada ao significado que o estigma acerca do HIV acarreta para os jovens e possui como relevância a possibilidade de cooperar com a Enfermagem em sua assistência, desenvolvendo ações voltadas às demandas da clientela.

MATERIAIS E MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, com abordagem fenomenológica. Nesse estudo foram utilizados os preceitos do filósofo Martin Heidegger. A captação de dados ocorreu mediante a entrevista fenomenológica. Essa é uma técnica mediada pela empatia, em que o entrevistador deve se libertar de pré-conceitos, opiniões e julgamentos pré-concebidos (CARVALHO, 1991).

Foram estabelecidos como critérios de inclusão na pesquisa: estar na faixa etária entre 18 e 29 anos, conviver com o HIV e estar em tratamento ambulatorial. E os critérios de exclusão foram: estar fora da faixa etária definida e ter abandonado o tratamento.

Os depoentes foram 11 jovens que convivem com o HIV. O cenário foi um ambulatório especializado no atendimento de jovens soropositivos, situado no estado do Rio de Janeiro.

A fase de campo ocorreu no período de fevereiro a agosto de 2020, iniciada após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, através do parecer de número 3.825.078. Foram realizadas entrevistas gravadas, individualmente, em um espaço privado, a fim de garantir a privacidade da clientela. Os nomes dos depoentes foram substituídos pela letra J (relativa à jovem), seguida do número definido pela ordem cronológica da entrevista, possibilitando o seu anonimato.

As narrativas foram transcritas após sua gravação e após a leitura exaustiva das transcrições, os dados foram analisados segundo a fenomenologia heideggeriana (HEIDEGGER, 2015).

RESULTADOS

As entrevistas foram finalizadas quando os assuntos revelados pelos entrevistados começaram a se repetir. Mediante o objetivo e os dados obtidos a partir das falas dos depoentes foram constituídas as Unidades de Significação (US): o medo do preconceito e o medo de revelar o diagnóstico do HIV.

1. UNIDADE DE SIGNIFICAÇÃO: O MEDO DO PRECONCEITO

O preconceito relacionado à soropositividade foi encontrado nos depoimentos de mais da metade dos entrevistados. Os participantes da pesquisa demonstraram receio por temerem as atitudes das outras pessoas, revelando o medo de vivenciarem algum tipo de discriminação. Esse receio foi exposto nas falas:

“Comecei a ter medo do preconceito (…)foi quando eu fui ao hospital colher o exame e uma moça falou que não ia colher o meu sangue, porque ela não colhe o sangue de pessoas que nem eu. (…) depois que eu descobri, eu sempre tive medo de falar.” J9

O estigma relacionado ao HIV é um fenômeno social amplo e global que se manifesta inclusive nos ambientes de saúde (RUEDA, 2016).

“Tem gente que é ignorante e mesmo você explicando, dando todos os detalhes, ela continua com o preconceito, que não tem necessidade.” J10

O temor dos jovens do preconceito de serem descobertos por terem que conviver com a doença, adquire o teor de ameaça (DUBOIS, 2004)).

2. UNIDADE DE SIGNIFICAÇÃO: O MEDO DE REVELAR O DIAGNÓSTICO DO HIV

As falas, em geral, convergiram para uma mesma ideia quanto a contar sobre o diagnóstico do HIV. Os respondentes acreditam que não devem revelar seu status sorológico.

Os jovens expressaram diferentes significações para não revelar a doença que vivenciam:

“Eu não comento isso com qualquer pessoa não. Tem que ser muito íntimo da minha parte para eu comentar, porque tem pessoas que são maldosas.” J3

“O HIV influencia (…)se eu falar para uma pessoa que eu tenho como amigo, a pessoa pode ficar com medo (…).” J8

A estigmatização e a discriminação em relação ao HIV/aids vêm ocorrendo dentro de um amplo espectro de exclusão social e desigualdade, o que acentua o seu impacto negativo sobre a vida dos jovens (GRECCO, 2016).

DISCUSSÃO

 A epidemia da AIDS, causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), surgiu na década de 80, no século XX, atingindo, principalmente, indivíduos homossexuais. Com o surgimento da síndrome e o número alarmante de pessoas contaminadas, a discriminação foi enfatizada, associada à homofobia (HIPOLITO, OLIVEIRA, COSTA, MARQUES, PEREIRA, GOMES, 2017).

Neste estudo foi possível compreender que o estigma é considerado um defeito que desvaloriza o outro, através de rótulos preconceituosos. Assim, além das alterações clínicas que o HIV traz para a vida das pessoas vivendo com o HIV/Aids (PVHA), a estigmatização pode acarretar sérios prejuízos sociais e psicológicos, que levam a solidão, a redução de autoestima, a depressão e ao desejo de morte (LEMOS et al, 2016).

As PVHA também revelaram que o ritual cotidiano de utilizar medicações diariamente, adaptar-se a realização de exames e comparecer periodicamente aos serviços de saúde, evidenciam a realidade da existência da doença, que conduz à marginalização e, portanto, dificultam a adesão ao seguimento terapêutico (ZUGE et al., 2017). O filósofo Martin Heidegger revela que a cotidianidade é o modo de ser em que o ser-no-mundo jovem soropositivo vivência, antes de tudo e na maioria das vezes o estigma (DUBOIS, 2004).

O fato dos jovens vivendo com HIV/Aids terem medo de sofrer uma situação de exclusão, faz com que ocultem o diagnóstico como forma de se proteger do julgamento social. Para Heidegger, o temor é um fenômeno que pode ser caracterizado sob as perspectivas do que se teme, o temer e pelo que se teme. O que se teme, nesse estudo se reflete na curiosidade daqueles que circundam as PVHA, que tem o caráter de ameaça, caso seja revelado e divulgado o diagnóstico dos jovens em sua comunidade (MARQUES et al., 2006).

O temer dos jovens se transforma em motivo para não desejar falar acerca da doença, que se torna um sofrimento psíquico tão danoso quanto a patologia, realçando o aspecto pelo que se teme.

O temor de que alguém descubra sua sorologia, de sofrerem o preconceito e de serem rejeitados, permeia a vida dos jovens que convivem com o HIV, constantemente, influenciando em suas atividades cotidianas (CALIARI, 2017). Esse processo envolve múltiplos aspectos, dentre eles, o receio de padecer através da morte social. Segundo Heidegger (2015), o medo conduz a uma vida de inautenticidade. Para o filósofo, a inautenticidade realça a vida imprópria, aquela fora dos padrões para determinada população. Ademais o jovem portador do HIV/aids deixa de viver a autenticidade comum a outros jovens, se afastando até dos familiares e amigos, passando a viver uma vida imprópria, marcada pela solidão e o isolamento, devido a serem perigo.

Assim, o ser-jovem-que-convive com o HIV/aids deixa que os outros e as circunstâncias atribuam um sentido impróprio e se subjuga ao temor do julgamento do outro. O impacto de viver com um diagnóstico irreversível de uma doença crônica e incurável, que carreia muita intolerância, é o maior obstáculo desse ser, impactando e interferindo, diretamente, em seu existir (COLAÇO, 2019).

O preconceito permeia tudo o que envolve a doença e está há muito tempo inculcado na sociedade. Concepções antigas acerca dos tipos de transmissão, da baixa qualidade de vida e do prognóstico fatal de morte, ainda permanecem no imaginário coletivo da população, com o caráter factual de uma realidade que não se pode transformar. A facticidade, sob o olhar heideggeriano, se constitui em uma verdade acerca da qual não se tem nenhum tipo de controle.

Segundo Heidegger, a facticidade da sociedade possui uma identidade e um sistema de valores que não foi escolhido.

Neste sentido, desconstruir a imagem da promiscuidade do jovem soropositivo, ainda é um desafio a ser superado e é prevenindo riscos e participando da sua rede de apoio social que os enfermeiros devem atuar. Portanto, a equipe de profissionais de enfermagem, que vislumbra o cuidar do jovem soropositivo necessita compreendê-lo, a fim de favorecer o cuidado, através da solicitude e preocupação, buscando a redução de danos e a promoção da saúde desse grupo populacional (WALDOW, 2011).

CONCLUSÕES

 Este estudo possibilitou compreender o que representa o estigma do HIV/aids na vida dos jovens soropositivos. Apesar dos avanços tecnológicos e da disseminação de informações sobre as formas de contaminação e prevenção, verificou-se que ainda existe muita discriminação, o que favorece a baixa adesão terapêutica e a redução da qualidade de vida dos jovens que convivem com o HIV/aids.

O estudo reafirmou que é fundamental fomentar conhecimentos sobre o HIV/aids, objetivando orientar a população quanto à relevância de se combater o que mais dificulta e traz sofrimento para os jovens soropositivos, o estigma.

Foi possível a compreensão de que o estigma do HIV/aids ainda repercute negativamente na vida do jovem, sendo fundamental a intervenção do enfermeiro, a fim de promover a sua saúde e reduzir vulnerabilidades.

REFERÊNCIAS

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Cuidado integral às pessoas que vivem com HIV pela Atenção Básica. Brasília: Assessoria de Comunicação (ASCOM), 2017. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cuidado_integral_hiv_manual_multiprofissional.pdf>. Acesso em: 02 de out. 2022.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico: Hiv Aids. Brasília: julho de 2017 a junho de 2018. ISSN: 1517-1159. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2018/boletim-epidemiologico-hivaids-2018. Acesso em: 01 mai 2021.
  3. CALIARI, J. S, et al. Fatores relacionados com a estigmatização percebida de pessoas vivendo com HIV. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v.51, e03248, 2017.   Availablefrom<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342017000100447&lng=en&nrm=iso>.accesson 27 Apr.  2021.  Epub Oct 09, 2017.  https://doi.org/10.1590/s1980-220×2016046703248.
  4. CARVALHO AS. Metodologia da entrevista: uma abordagem fenomenológica. Rio de Janeiro: Agir; 1991.
  5. COLAÇO, A. D. et al. O Cuidado à pessoa que vive com Hiv/Aids na Atenção Primária À Saúde. Texto contexto – enferm., Florianópolis, v.28, e20170339, 2019.Availablefrom<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072019000100332&lng=en&nrm=iso>.accesson 01 May 2021.  Epub June 10, 2022. https://doi.org/10.1590/1980-265x-tce-2017-0339.
  6. DUBOIS, C. Heidegger: introdução a uma leitura. RJ. Ed. Jorge Zahar, 2004.
  7. GRECCO, D. B. Trinta anos de enfrentamento à epidemia da Aids no Brasil, 1985-2015. Ciência e Saúde Coletiva, 21(5): 1553- 1564, 2016.
  8. HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis. Editora: Vozes. 10ª ed., 2015.
  9. HIPOLITO, R. L; OLIVEIRA, D. C; COSTA, T. L; MARQUES SC, PEREIRA, E. R; GOMES, A. M.T (2017). Quality of life of people living with HIV/AIDS: temporal, socio-demographic and perceived health relationship. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2017;25:e2874. [Access 01 de maio de 2021]. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1258.2874.
  1. LEMOS, T. S. A. et al. Atuação do profissional de saúde junto à família com HIV/AIDS. Rev Cubana Enfermer, Ciudad de la Habana, v. 32, n. 4, dic. 2016. Disponibleen<http://scielo.sld.cu/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0864-03192016000400008&lng=es&nrm=iso>. Acedido en 27 feb. 2023.
  2. LIMA, A. C. C. C. et al. Os reflexos do HIV na vida do jovem soropositivo. RSD [Internet]. 20º de junho de 2021 [citado 12º de maio de 2023];10(7):e24110716435. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/16435
  1. MARQUES, H. H. S. et al. A revelação do diagnóstico na perspectiva dos adolescentes vivendo com HIV/AIDS e seus pais e cuidadores. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22(3):619-629, mar, 2006.
  2. RUEDA, S. et al. Examining the associations between HIV-related stigma and health outcomes in people living with HIV/AIDS: a series of meta-analyses. BMJ open, v. 6, n. 7, p. e011453, 2016. <https://doi: 10.1136/bmjopen-2016-011453.
  3. WALDOW, V. R.; BORGES, R. F. Cuidar e humanizar: relações e significados. Acta paul. enferm; 24(3): 414-418, 2011.
  4. ZUGE, S. S.; PRIMEIRA, M. R.; REMOR, E.; MAGNAGO, T. S. B. de S.; PAULA, C. C. de; PADOIN, S. M. de M. Fatores associados à adesão ao tratamento antirretroviral em adultos infectados pelo HIV: estudo transversal. Revista de Enfermagem da UFSM, [S. l.], v. 7, n. 4, p. 577–589, 2017. DOI: 10.5902/2179769225657. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reufsm/article/view/25657. Acesso em: 11 abr. 2023.

[1] Doutorado em Enfermagem; Mestrado em Enfermagem; Especialização em Enfermagem Intensivista. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5082-5607. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3292430837672130.

[2] Especialização em Enfermagem Obstétrica. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7253-6141; Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5535846933432947.

[3] Especialização em Saúde da Família e Comunidade; Graduação em Enfermagem. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6512-3544. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5843017781774008.

[4] Doutorado em Enfermagem. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0840-4838. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8283601954784151.

[5] Doutorado em Enfermagem. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6089-6361. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7063560761574373.

[6] Especialização em Enfermagem Obstétrica. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9556-798X. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0415071491404170.

[7] Doutorado em Enfermagem; Mestrado em Enfermagem. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6687-9888. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7911806411343172.

Foto de Inez Silva de Almeida

Inez Silva de Almeida

Doutorado em Enfermagem; Mestrado em Enfermagem; Especialização em Enfermagem Intensivista. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5082-5607. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3292430837672130.

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