Literatura

A concepção amorosa em Camões

ARTIGO ORIGINAL

PINNA, Julia Neiva Gonçalves Garbéro [1]

PINNA, Julia Neiva Gonçalves Garbéro. A concepção amorosa em Camões. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 01, pp. 116-132. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/concepcao-amorosa, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/literatura/concepcao-amorosa

RESUMO

O presente artigo investiga a concepção amorosa na obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, com ênfase no episódio da Ilha dos Amores. A autora propõe que o amor, na epopeia camoniana, é apresentado como um sentimento ambíguo, oscilando entre o ideal neoplatônico e a materialidade erótica. A análise evidencia a coexistência de espiritualidade e carnalidade, fundidas por meio de uma linguagem poética marcada por referências mitológicas e pela tradição clássica. Nesse contexto, a Ilha dos Amores é interpretada como um locus eroticus, espaço simbólico onde se concretiza o prazer amoroso como recompensa heroica. O texto também destaca o papel do Maneirismo na construção dessa tensão amorosa, que culmina na promessa de regeneração moral e nacional por meio do amor.

Palavras-chave: Camões, Amor, Neoplatonismo, Erotismo, Ilha dos Amores.

1. INTRODUÇÃO

Debruçar-se sobre as páginas de Os Lusíadas nos permite vislumbrar as diversas correntes artísticas e ideológicas do século XVI em Portugal, assim como é possível notar a singularidade camoniana em perpassar inúmeros gêneros poéticos em sua obra.

Nascido em 1524 ou 25, provavelmente em Lisboa, como afirma Antônio José Saraiva, teve seu berço em uma família da pequena nobreza, embora pobre e decaída (Saraiva; Lopes, 1969, p. 331). Realizou o curso de Artes em Coimbra, porém, possivelmente por sua condição financeira frágil, combateu em Marrocos, onde perdeu um olho e optou pela carreira das armas à das letras. Após deixar ferido um funcionário do Paço em uma rixa, foi destinado à cadeia e obrigado a embarcar para a Índia. Esteve em Goa, no Golfo Pérsico, em Ternate, em Macau e na Costa da Cochinchina, onde naufragou e foi capaz de salvar-se e salvar uma outra parte de si – seu manuscrito de Os Lusíadas.

A realidade histórica portuguesa é expressa na epopeia e é nesse período que os portugueses tomam consciência da própria singularidade devido às Descobertas e passam a ser lusitanos, tribo lusíada predestinada ao futuro fabuloso que nas Navegações se tornaram presentes (Lourenço, 1988, p. 148). No tempo de Camões coexistiam as disputas doutrinais, as guerras religiosas, as vigilâncias ortodoxas e inquietações espirituais, como pontua Seabra no Dicionário de Luís de Camões.

Poeta da escola petrarquista, Camões foi genialmente capaz de navegar entre a tradição literária portuguesa e as inovações introduzidas pelos italianizantes (Saraiva; Lopes, 1969, p. 334). Em uma de suas mãos estava a pena e em outra a espada, permitindo que atingisse maestria nos versos, fosse em redondilha ou decassílabo. Foi capaz de cultivar, considerando aspectos formais de sua lírica, a escola tradicional em redondilha maior e menor, como os vilancetes, cantigas, quintilhas, gêneros em hendecassílabo. É interessante pontuar sua habilidade em escrever em português e castelhano.

Podemos atingir o objetivo deste artigo ao analisarmos a epopeia camoniana com ênfase na Ilha dos Amores. Para que isso ocorra, diferenciaremos as concepções de amor presentes em sua obra e iremos culminar no erotismo paradisíaco no qual deleitam-se todos na Ilha, um verdadeiro hino à sexualidade, assinalando que amor e mitologia navegam reunidos em êxtase e carnalidade.

2. A DESCOBERTA E A DECADÊNCIA LUSITANA OU O MITO DA COLETIVIDADE

A realização de um poema épico sobre a expansão portuguesa surgiu no século XV como projeto dos Humanistas, a fim de resgatar os gêneros clássicos, principalmente a epopeia, dentro e fora de Portugal. O gênero épico tinha no classicismo do Renascimento regras temáticas moldadas a partir de obras como a Ilíada e a Odisseia de Homero e a Eneida de Virgílio, que impunham “a intervenção dos deuses, divididos em partidos, numa determinada ação humana (uma guerra, uma viagem marítima…) que apresentava uma unidade de conjunto e um desfecho” (Saraiva; Lopes, 1969, p. 350). Os poemas renascentistas que buscavam reviver as glórias do padrão homérico fracassaram em seu intento devido às suas citações eruditas e artificiosas. É inegável o ímpeto humanista e renascentista da obra de Camões, porém, como pontua Maria Vitalina Leal de Matos, no Dicionário de Camões, “estamos perante uma obra bifronte: os valores da épica e da confiança são desmentidos repetidamente por uma voz antiética” (Silva, 2011, p. 1571).

A história de Portugal cantada por Camões se materializa na viagem de Vasco da Gama, aos moldes das viagens de Ulisses e Eneias, seguindo o padrão dos poemas clássicos. Já os poemas Orlando Enamorado de Boiardo, Orlando Furioso de Ariosto ou Jerusalém Libertada de Torquato Tasso, contemporâneos, seguiam a linha de romances cavaleirescos versificados ou buscavam reflorir a grandiosidade da história teológica cristã. Foi exatamente essa questão que Camões buscou solucionar em sua epopeia narrada por Gama, dedicada ao jovem D. Sebastião.

Vasco da Gama recorre à inspiração das “Tagides”, as ninfas do Tejo, pois se antes escrevia em verso “humilde” passa a escrever em “som alto e sublimado” como pede a epopeia. O pano de fundo marítimo aproxima a narrativa da Odisseia, da primeira metade da Eneida e dos poemas sobre os Argonautas escrito por Valério Flanco. Essa epopeia pátria aproxima-se dos modelos homéricos e outros mais arcaicos devido à ênfase dada ao maravilhoso mitológico, que exerce um papel necessário. Homero considerava os deuses como entidades reais, forças vivas, voluntárias, antropomórficas, que auxiliavam nas batalhas e buscavam a vitória em prol de seus adoradores. Os homens durante a luta procuram enganar seus oponentes, assim como os deuses adversos, além de testarem suas forças, aproximam-se da imortalidade e dão espaço ao heroico.

A representação coletiva é a essência do mito, que expressa o mundo e a realidade humana (Brandão, 1986, p. 36). Ao buscar explicar o mundo e o homem, explora a complexidade do real e revela-se, justamente por isso, ilógico e irracional, tal qual a existência humana. Camões vê a história portuguesa como uma cruzada iniciada por Afonso Henriques e como uma “sanguinosa guerra”, exceto pelos amores – de Inês de Castro e Fernando. A nobreza letrada e guerreira, com a espada em uma das mãos e a na outra a pena, é expressa e ocorre a censura ao espírito mercantil, como pode ser observado nas negociações de Gama com o povo de Calecut, a fim de permitir a entrada da mercadoria portuguesa no porto. O comércio transoceânico aberto pela viagem de Gama é considerado por ele como “vil interesse”, despertado pelo dinheiro, senhor de todas as ações (Camões, 1933, p. 360).

A valorização dos feitos de guerra e dos heróis militares era característica dominante do século XVI em Portugal, porém é considerado o peso morto ideológico da epopeia camoniana (Saraiva; Lopes, 1969, p. 361). As ideias camonianas não estão relacionadas à mentalidade burguesa que avançava na Europa ou com o comércio transoceânico, mas a dois sentimentos opostos que se mostram tensionados na obra – ao encantamento com as descobertas geográficas e à consciência da decadência nacional. Esta última é descrita no Canto IV pelo Velho do Restelo, pois censura a ambição humana, revela uma visão profética das consequências dessa ambição para Portugal e resgata o pretérito para censurar a vã cobiça da vaidade e da fama. Há o resgate do fogo de Prometeu – símbolo das paixões humanas – para descrever as desonras e mortes, provocadas pela vaidade portuguesa em navegar para obter as glórias das grandes realizações.

O sentimento coletivo da guerra se alia ao individualismo abstrato, pois não vemos as ações anônimas de outras camadas sociais, senão nomes advindos da aristocracia e da antiguidade. A audácia dos portugueses devido aos Descobrimentos revela o sentimento pátrio, compreendido como comunidade linguística e pautado pela independência dinástica, modificando a exaltação dos “barões assinalados” e suas linhagens.

Assim como a temática da coletividade através da exaltação dos feitos portugueses é visível, é possível identificar dois temas relevantes em Os Lusíadas – o desconcerto do mundo e o amor. Sobre o desconcerto, devemos nos ater que esse tema, frequente na lírica camoniana, é separável da temática amorosa e pouco interessante à pesquisa. Apenas interessa mencionar que o mundo, para Camões, se assemelharia a um destino confuso e irracional. Antes ser louco e feliz que são e infeliz. A consciência de ser e existir solitariamente pode nos direcionar à própria experiência vivida, problema que reside no âmago do indivíduo lúcido. O sentimento de decadência advém do receio do desastre do Império. Houve uma mudança moral ocorrida entre o período de início dos Descobrimentos e a época de Camões, pois o pessimismo, a incerteza e a desconfiança eram palavras essenciais para compreender a visão de mundo refletida em seus escritos. Os valores de cada tempo, devido à relativização da consciência crítica, abriram espaço para que o homem pudesse vislumbrar utopias, mesmo que o fracasso da nação desse lugar às incertezas da época.

Se o Humanismo compreende uma forma de cultura que possui o homem como centro referencial e como destino, o pessimismo é o legado dos Impérios desmontados. O tema do desconcerto do mundo é vívido na lírica Maneirista e, por sua vez, Camoniana, pois eles estão inseridos em um tempo histórico que reflete a Contrarreforma e evidentemente, devido às inúmeras guerras ocorridas na Europa, adotam uma atitude pessimista tanto do homem quanto da vida.

Sobre o amor, iremos partir do neoplatonismo para diferenciar as concepções desse sentimento sob a ótica camoniana, principalmente a partir do Canto IX, com a chegada à Ilha dos Amores.

3. OS AMORES DE CAMÕES

Insinuar que Camões estava sob uma redoma neoplatônica e por isso foi inconscientemente influenciado por essa atmosfera não condiz com as habilidades deste poeta, que buscava uma explicação teórica sobre o homem, e não apenas seguia uma tendência dos seus contemporâneos. Algumas de suas tensões poéticas, principalmente no que diz respeito ao cerne do presente artigo – o amor -, encontram no platonismo sua tentativa de resolução, através da versão de Santo Agostinho.

As qualidades existentes no mundo físico são limitadas e acessadas através do que Platão denominada “Ideias absolutas” – atributos da divindade. A Beleza plena se encontra neste lugar e por isso o que nossos olhos são capazes de enxergar não passam de imitações do que é superior. Portanto, considerar o corpo amado – corpo físico, entregue, material – como belo é insuficiente e deve-se objetivar o que é Divino. O amor divino é, para o autor de Os Lusíadas, o objeto de seu ardor, sem o intermédio do amor físico, como é possível observar em Sôbolos rios que vão. Há o contraste entre o amor espiritual e o amor carnal, sendo este suprimido em detrimento do outro.

Não é, logo, a saudade

das terras onde nasceu

a carne, mas é do Céu,

daquela santa cidade,

donde esta alma descendeu.

E aquela humana figura,

que cá me pôde alterar,

não é quem se há-de buscar:

é raio de fermosura,

que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia

o fogo que cá sujeita,

não do sol, mas da candeia,

é sombra daquela Ideia

que em Deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram

são poderosos afeitos

que os corações têm sujeitos;

sofistas que me ensinaram

maus caminhos por direitos.

(Camões, 1953, p. 126)

Essa amputação ocorre para que no fim o Poeta possa divinizar o amor humano a fim de garantir-lhe a realização eterna. É justamente nessa tensão que consiste em um dos passos mais poéticos de sua obra – a realização do desejo de maneira a superar-lhe, mas sem suprimi-lo necessariamente:

Ali verá tão profundo

mistério na suma alteza que,

vencida a natureza,

os mores faustos do mundo

julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,

minha pátria singular!

Se só com te imaginar

tanto sobe o entendimento,

que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir para ti,

terra excelente,

tão justo e tão penitente

que, despois de a ti subir

lá descanse eternamente

(Camões, 1953, p. 130)

A tríplice canção Manda amor que cante e a ode Pode um desejo imenso exaltam a superação do desejo, sem ocorrer a abdicação deste, elevando-o a outras esferas. A canção já mencionada é destacável por ter trabalhado a temática do amor de maneira mais apurada através de suas reflexões. Ele não elimina de fato os lugares-comuns, segundo Saraiva, próprios da tradição petrarquista e neoplatônica, mas eleva com sua genialidade através das hipérboles, paradoxos e analogias (Saraiva; Lopes, 1969, p. 344-345).

Despois de já entregue a meu desejo,

ou quase todo nele convertido,

solitário, silvestre e inumano,

tão contente fiquei de ser perdido

escusado, senão meu próprio dano.

Bebendo este suave e doce engano,

a troco do sentido que perdia,

vi que Amor me insculpia

dentro nalma a figura honesta e bela,

a gravidade, o siso,

a mansidão, a graça, o doce riso,

e porque não cabia dentro nela

de bens tamanhos tanto,

sai pela boca convertido em canto.

(Camões, 1953, p. 130)

O soneto Transforma-se o amador na cousa amada busca na metafísica de Aristóteles a justificativa de que a Ideia platônica da Beleza e do Bem seja uma matéria indefinida, desperta pelo objeto amado em seu próprio espírito, através da forma feminina plena e humana.

Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar,”

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh’alma transformada,

que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada

Mas esta linda e pura semideia,

que, como um acidente em seu sujeito,

assim com a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:

(e) o vivo e puro amor de que sou feito,

como a matéria simples busca a forma.

(Camões, 1953, p. 142)

Outros sonetos como Alma minha gentil que te partiste… e Sete anos de pastor Jacó servia também fazem predominar a pureza do amor platônico e por isso ideal. A tensão entre o objeto do amor e a realização deste é ponto determinante que mantém o fio da eternidade suspenso entre o que é possível e o que é eterno – o finito e o infinito.

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela 1 só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,

dizendo: — Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

(Camões, 1953, p. 147)

A dialética entre espiritualidade e carnalidade se mostra tanto na Écloga VII, também conhecida como Dos Faunos, quanto na Ilha dos Amores, elevada a uma esfera mitológica, pois os prazeres mundanos se realizam sob o espectro mitológico, ressaltando os atributos da beleza feminina e o deleite dos personagens, que gozam das experiências físicas entre as cerejas, amoras, romãs e lírios roxos – aspectos naturais próprios do locus amoenus.

Na Écloga VII, há o encontro das ninfas desnudas, em uma paisagem que remete à tradição clássica – o regato, o monte Parnaso, o banho das ninfas e os dois Faunos que as observam e seguem:

dest’arte vão as Ninfas que, deixando

de seu despojo os ramos carregados,

nuas por entre as silvas vão voando.

Mas os amantes, já desesperados,

que, para as alcançar, enfim se viam

nada dos pés caprinos ajudados,

com amorosos brados as seguiam

(Camões, 1953, p. 19)

Outra figura imprescindível para traçar a temática amorosa nas obras camonianas, que também está presente na écloga e tem o triste destino de sofrer pelos encantos da figura feminina é Actéon, triste amante seduzido e impossibilitado de realizar seus desejos, pois sofre pela contradição que é própria do amor – ver e não poder obter. Ele teria sido filho de Aristeu e Autónoe, portanto neto de Apolo e de Cadmo, e aprendeu caçar com o centauro Quíron. Suas habilidades o tornaram um notável e também apaixonado caçador, que sucumbiu à dilaceração mortal por parte de seus próprios cães.

O mito de Actéon, além de ter sido muito relevante na literatura e na pintura no período Renascentista e Maneirista, também teve seu lugar nos tratados de inúmeros autores portugueses contemporâneos de Luís de Camões. Foi retratado no Cancioneiro Geral do autor Garcia de Resende, na Fábula do Mondego de Sá Miranda, na História de Santa Comba dos Vales de António Ferreira, em um soneto de Diogo Bernardes denominado En selva umbrosa, entre montañas puesta e em uma ode de André Falcão de Resente, intitulada Dos ilustres Meneses.

Este mito possui variadas versões, sendo a mais popular a encontrada nas Metamorfoses de Ovídio (III, 138 – 252), que retrata o ocorrido ao meio-dia, considerado o momento de culminância tanto da incidência solar quanto do desejo erótico, no momento em que Actéon teria entrado em um desconhecido bosque e avistado a deusa Diana acompanhada por ninfas despidas, assim como ela se encontrava, se banhando. Ao perceberem a aproximação, as ninfas protegeram a deusa com seus corpos, ao mesmo tempo que gritavam por terem sido surpreendidas. Nesse momento, Diana pegou-se enrubescida e salpicou os cabelos e o rosto de Actéon com a água que a rodeava, dizendo-lhe que, se fosse capaz de fazê-lo, poderia contar que a vira nua. Em seguida ele foi transformado em um veado, o que levou-lhe a voz, mas não a consciência de existir em si mesmo, uma vez que foi possível vislumbrar seu reflexo nas águas, surpreendendo-o com sua nova imagem – sua galhada e seu rosto de cervinho. Devido a seu aspecto animalesco, não fora reconhecido por seus cães e terminou despedaçado e devorado por eles. A Fortuna teve papel fundamental nessa narrativa de Ovídio, que ressaltou o fato de o desfecho não ter sido causado por uma punição.

Actéon aparecerá no episódio da Ilha dos Amores, na estância 26, após ter aparecido no encontro de Vênus com Júpiter no Canto II, estância 35 (Camões, 1933, p. 384-475). No Canto IX, ele é condenado pelo próprio Cupido, o que o levou a afastar-se do convívio com as mulheres, descritas por “bella forma humana”. Ele, consumido pelos seus cães assemelhar-se-ia a D. Sebastião, que devido às suas paixões venatórias, se afastava da corte e evitava o contato com as mulheres. A alusão ao mito dá voz às preocupações compartilhadas pelo povo português, pois desejavam que o jovem monarca se casasse para assegurar a sucessão no trono:

Via Acteon na caça tão austero

(De cego na alegria bruta, insana)

Que por seguir hum feio animal fero

Foge da gente e bella forma humana

(Camões, 1933, p. 388)

4. O EPISÓDIO MÍTICO-ERÓTICO NA “ÍNSULA DIVINA” – A ILHA DOS AMORES

O amor é a força que une a poesia, a lírica e a épica camonianas e é possível observar a potência endereçada ao tema a partir da estância 18 do Canto IX até a estância 143 do Canto X, parte em que consiste o episódio da Ilha dos Amores.

Esta parte é imprescindível para destacar o papel do amor na épica do poeta e consiste em 20% da totalidade da obra. É necessário pontuar que a expressão utilizada no título – Ilha dos Amores – não ocorre no poema, uma vez que ela é denominada no Canto IX “ilha Namorada”, na estância 51, “ínsula divina”, na estância 21, “ilha […] fresca e bela” na estância 52, “fermosa Ilha, alegre e deleitosa” na estância 54, “Ilha angélica pintada” na estância 89, “Ilha de Vênus” na estância 95 e “Ilha alegre e namorada” no Canto X, estância 143. Inúmeros autores buscaram localizar a ilha em um referente empírico, porém devemos nos ater que é uma ilha imaginária e simbólica, onde residem as recompensas pelos feitos dos navegadores.

A estância 18 narra a última intervenção da deusa Vênus – chamada de deusa Cípria pela primeira vez na épica -, que recebeu de Júpiter a incumbência de premiar e favorecer os lusitanos, pois estes alcançaram a honra e a glória devido a seus esforços e sofrimentos durante seu percurso. A deusa também encontra o Cupido nos montes Idálios da ilha de Chipre, parte que apresenta o amor – de origem neoplatônica – como princípio regulador e regenerativo do ordenamento do mundo, com o objetivo de garantir-lhe a plena harmonia.

A concepção do amor camoniano é contraditória, pois logo após ser exaltado como garantia da regeneração do universo, tem seus aspectos negativos revelados:

Contra o mundo revelde, porque emende

Erros grandes que ha dias nelle estão,

Amando cousas que nos foram dadas,

Não pera ser amadas, mas usadas.

(Camões, 1933, p. 387)

Camões continua suas críticas às desonestidades dos que governam e dos bajuladores, que “vendem adulação”, nos mostrando que os desregramentos estão presentes em qualquer extrato social, seja entre os humildes e os “heróis de altos estados” (Camões, 1933, p. 390). Afirmar com habilidade que ninguém de fato ama o que deve, mas apenas o que indevidamente deseja, em uma crítica aos insubordinados amantes que desobedecem e espalham o mal.

A partir da estância 34, o poeta canta a abominação das relações incestuosas representadas, inicialmente com Bíblis, filha de Mileto, que se apaixona por seu irmão Cauno e é convertida em fonte. Em seguida por Cinirea, também chamada Mirra, por ter amado seu pai Ciniras, por um mancebo da Assíria, denominado Nínias, filho e amante da mãe, rainha Semíramis e também por um mancebo da Judeia, conhecido como Amnon, filho de David, violador de sua irmã Tâmar.

O amor desconcertado, causado pelos tiros desordenados dos cupidos, faz com que os poderosos senhores se apaixonem por simplórias pastoras e as ilustres senhoras se deixem levar pelos namorados enlouquecidos que sobem telhados e trepam paredes nas horas cúmplices da noite.

Vênus é recebida na estância 36 pelo Cupido – “o frecheiro”- e por todos os “Cupidos servidores”, que beijam sua mão, em um gesto de reconhecimento da “Deosa dos amores”. Seu filho, que possui sua potência, também tem a dádiva das armas Tifeas, que são os raios de Júpiter. Tifeu fora, como outros gigantes, fulminado pelo pai dos deuses. Além de proporcionar o repouso aos cansados navegantes lusitanos, Vênus objetiva gerar “progenie forte e bella” capaz de regenerar o que é mau e corrompido pelos homens. Cabe ao divino restaurar o que está em constante desconcerto no mundo.

A ilha é o locus amoenus – expressão latina que retrata o bucolismo dos campos e a tranquilidade que goza o heroi – e também o locus eroticus, onde residem toda sorte de prazeres carnais provenientes da união amorosa entre as ninfas e os navegantes, da qual irá nascer a geração que irá lutar contra o mundo vil. A relação amorosa ocorre sem sentimento de pecado e há a exaltação dos deleites venéros. A descrição através da intensa adjetivação dos elementos naturais ressalta a sensualidade através da coloração e formato das plantas, flores e frutos, principalmente nas estâncias 59 e 61 do Canto IX – “o lírio roxo”, “a fresca rosa bella”, “a romã, mostrando a rubicunda”, “Peras pyramidais”, “cerejas, purpureas na pintura”, compõem a caracterização extraordinária da “fermosa ilha”, permitindo vislumbrar o ambiente erótico que se delineia a cada verso.

A caça se desnuda através do pacto selado entre os caçadores nautas e as presas ninfas, que entre corridas, sorrisos e gritos cumprem o ritual amoroso. Novamente há menção ao mito de Actéon, quando as ninfas estão se banhando e tentam esconder o corpo despido de Diana, a deusa caçadora. A corrida atrás das jovens ninfas cessa com o cansaço e se rendem à “vontade do inimigo” culminando no deleite, pois elas se deixam cair “aos pés do vencedor, / que todo se desfaz em puro amor”. Ocorre então o rito nupcial, pois agora são descritas como “esposas” que se prometem em eterna companhia, em vida ou em morte, em honra ou em alegria:

Oh que famintos beijos na floreta!

E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves! Que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

(Camões, 1933, p. 408)

A aparição de Tétis na estância 85 irá culminar em sua união amorosa com Vasco da Gama. Esta Tétis não deve ser confundida com a nereida, pois é filha de Celo (Urano) e de Vesta, e não é a esposa de Peleu e mãe de Aquiles, objeto do infeliz amor do Gigante Adamastor. A filha de Urano leva Gama para o cume de um monte alto e divino, tão alto quanto a grandeza e decoro da “senhora grande e egregia”, para que possam passar o dia “em doces jogos e em prazer contínuo “. Ocorre a imortalização dos heróis, que com fama grande e “nome alto subido” são premiados com coroas de louro, ouro e flores, permitindo que, como prêmio pelos grandes feitos e glórias, os nautas pudessem ascender a uma existência sobre-humana. A recorrência do adjetivo “alto” em “monte alto e divino” e “nome alto e subido” assinala um tempo teofânico, pois os deuses manifestam sua superioridade diante dos descobrimentos portugueses guiados por Vasco da Gama.

5. CONCLUSÃO

A temática do Amor em Camões é vasta e perpassa sua obra lírica, teatral e também épica. É apresentado como um sentimento espontâneo capaz de elevar o homem e a humanidade a um grau superior de conhecimento e perfeição. O amor é, acima de tudo, o combustível que põe a escrita em prática, como é possível analisar nas redondilhas com o título “Carta a ũa dama”: “das asas tirou a pena / com que me fez escrever» (Camões, 1953, p. 8). Seguem-se os seguintes versos: «E dando-me a padecer / tudo o que quis que pusesse, / pude, enfim, dele dizer / que me deu com que escrevesse / o que me deu a escrever».”

O presente artigo teve por objetivo apresentar as concepções diversas e ao mesmo complementares do amor, pois se mostra uma questão contraditória em sua obra, gerando grande tensão, principalmente quando nos deparamos com o episódio da Ilha dos Amores, a partir do Canto IX. O universo amoroso camoniano está rodeado pelas sombras do Maneirismo e por isso mesmo essas diferentes concepções se delineiam em seus versos. Se em Sôbolos rios que vão Camões revela que esse sentimento deverá ser alcançado através do espírito, pois as qualidades existentes no mundo físico são insuficientes e incapazes de atingir as ideias absolutas relevantes para o platonismo e o neoplatonismo, o erotismo como resultado da caça às ninfas é evidente, promovendo o merecido repouso dos navegantes exaustos, que são envolvidos e envolvem em um jogo que consiste no aproveitamento, sem sentimento de culpa e pecado, dos deleites da carne (Camões, 1953, p. 120).

Os elementos naturais se apresentam tanto como locus amoenus quanto como locus eroticus neste poema épico que celebra a nação portuguesa, culminando na esperança de um futuro que supere o presente, de uma nação redentora, que renove tudo o que fora maculado pelas instituições religiosas e governantes do reino. O amor desconcertado é superado pela ascensão à existência sobre-humana guiada por Tétis neste ambiente dionisíaco. A tensão referente ao Amor deixa de ser dual e passa a representar a elevação da raça humana que, diante das glórias coroas e “eternas esposas e fermosas”, resgatará o olhar para a pátria amada e para novos feitos.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Volume I, Petrópolis, Vozes, 1986.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Anotados e parafraseados por Campos Monteiro. 4ª Edição. Revista por Joaquim Ferreira. Editorial Domingos Barreira. Porto. S. d., 1933.

CAMÕES, Luís de. Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimba: Acta Universitatis Conimbrigensis, 1953.

SARAIVA, António José & LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. Rio de Janeiro, Cia. Brasileira de Publicações, 1969.

SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. Dicionário de Camões / coord. de Vítor Manuel de Aguiar e Silva. – Lisboa: Caminho, 2011.

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Dom Quixote, 1988.

[1] Pós-doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mestrado em Estudos Literários (UERJ), Graduação em Letras (UERJ). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6302-2459. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0034538620598432.

Material recebido: 12 de abril de 2025.

Material aprovado pelos pares: 11 de junho de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 22 de setembro de 2025.

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Julia Neiva Gonçalves Garbéro Pinna

Pós-doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mestrado em Estudos Literários (UERJ), Graduação em Letras (UERJ). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6302-2459. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0034538620598432.

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