Não apenas no contexto acadêmico, mas na vida, como um todo, ter conhecimentos múltiplos é algo bastante vantajoso. O primeiro passo é reconhecer esses conhecimentos e admitir eles em sua prática de pesquisa. Embora já tenhamos levantado essa pauta em alguns momentos, acreditamos que essa questão está relacionada com um problema: acreditarmos que somos donos de uma verdade absoluta. Isso restringe a nossa jornada ao buscarmos por nossos conhecimentos. Na pesquisa científica, essa visão é um problema grave, pois, a partir do momento que você acredita que apenas existe essa possibilidade, você anula a necessidade de realizar uma pesquisa. Nós pesquisamos justamente aquilo que não sabemos. O grande objetivo é o de procurar respostas para esses problemas que afligem a sociedade. Quando reconhecemos que existem outras capacidades, áreas e pontos de vista, corre-se menos riscos.
A fim de que a lógica da interdisciplinaridade fique mais clara, iremos apresentar alguns exemplos. Podemos citar a própria semiótica, que é um assunto que atravessa áreas e linhas de pesquisa diversas. A partir do momento que adotamos a semiótica, iremos nos deparar com uma série de perspectivas que podem guiar o estudo. Devemos escolher uma delas. Assim sendo, durante a execução do seu estudo, você irá utilizar a semiótica como uma ferramenta que irá guiar todos os aspectos da sua discussão, sejam eles teóricos, metodológicos ou analíticos. O assunto e o contexto ligado a ele que você irá analisar deverão estar ligados a essa perspectiva semiótica escolhida. Todavia, você precisará de certas técnicas de pesquisa capazes de permitir a execução da sua análise. Elas advêm da metodologia científica. Diante desse cenário, gostaríamos de pontuar algumas especificidades da metodologia científica.
Caso você não atue na área de metodologia científica, mas precisa desse conhecimento para desenvolver o tópico em seu estudo, o seu objetivo será um. Contudo, a metodologia científica pode ser uma forma de trabalho. Por exemplo, na área da administração, a metodologia científica costuma ser aplicada para aferir um determinado tipo de percepção. Assim sendo, você pegará essa ferramenta de percepção em um público específico que tenha a ver com o perfil da empresa investigada. A metodologia científica pode estar atrelada a diversas óticas, como é o caso da própria administração, da gestão de pessoas, da economia (em alguns casos), do direito, da psicologia, dentre muitos outros. Com isso, percebemos que há várias áreas, e, dessa forma, uma infinidade de possibilidades a partir das quais a pesquisa científica pode ser realizada de uma forma mais direcionada, com um foco específico.
Escolhendo uma perspectiva, é preciso colocá-la em prática respeitando as suas exigências, limites e demandas. Por exemplo, suponhamos que você tenha como objetivo realizar uma análise semiótica de uma imagem, será preciso entender a lógica dessa perspectiva de análise: a própria semiótica e conceitos da área da comunicação. Para tanto, precisará buscar por subsídios teóricos capazes de tornar a sua pesquisa exequível. Como estamos falando de imagens, diversas áreas podem proporcionar essa perspectiva, como a arquitetura, a linguística, a psicologia e as artes, em geral. Assim sendo, precisamos buscar compreender como as áreas podem interagir para que o seu trabalho seja, de fato, interdisciplinar. Além disso, precisamos chamar a atenção para o fato de que a separação do conhecimento em “caixinhas” não é algo tão antigo, pois, por muito tempo, essa separação foi refutada e contestada pelos acadêmicos.
Hoje, por um lado, há uma necessidade posta ao pesquisador: transitar entre as mais diversas áreas do conhecimento no processo de produção do estudo. Com isso, tem-se, como objetivo, compreender os conhecimentos veiculados entre essas áreas e, sobretudo, os pontos de vida envolvidos. Algo interessante nessa interdisciplinaridade é que aprendemos a reconhecer as limitações postas pela própria pesquisa, sendo que elas não devem ser vistas como algo maléfico, mas sim como algo inevitável e que propicia que o conhecimento continue sendo desenvolvido e nunca se esgote. É um fenômeno que atravessa todas as áreas do conhecimento. Por esse motivo, é de suma importância que, na execução da pesquisa, você retrate o conceito de forma profunda e clara. Deixe claro, também, de que ponto de vista você está partindo. Tem-se, com isso, um respeito consigo mesmo, com a pesquisa e com os leitores.
A primeira coisa que precisamos destacar quando discutimos sobre o conhecimento múltiplo é que é preciso que reconheça a ação deles em áreas e subáreas diversas. Saiba que a sua área interliga-se com muitas outras, de modo que uma pode absorver conhecimentos da outra por meio do trabalho interdisciplinar. Para que esse trabalho possa ser executado é preciso que você conheça conhecimentos de áreas que estão conectadas com o assunto que está investigando. Os aspectos tratados pelo seu estudo devem resgatar a profundidade devida. Tem-se, com isso, o reconhecimento de outras áreas em sua própria área. O conhecimento dessas outras áreas é a estratégia que viabiliza o intercâmbio entre esses conhecimentos múltiplos. Assim sendo, um autor da área das ciências sociais, como é o caso de Bourdieu, pode ser introduzido em outras áreas, como é o caso da administração e economia.
Em seu trabalho, precisará ficar claro ao leitor como se dá essa interdisciplinaridade. Por exemplo, como se trata de um autor que integra o campo das ciências sociais, é preciso explicitar essa condição e que as reflexões foram adaptadas ao campo da administração/economia. Todo esse contexto deve ser apresentado ao leitor, e, com isso, há o reconhecimento de uma área em um outro contexto, o que demonstra, mais uma vez, a interdisciplinaridade do conhecimento e a sua capacidade de adaptação. Você parte, portanto, de outras áreas, o que enriquece ainda mais a sua discussão e demonstra o seu comprometimento com o conhecimento múltiplo. Todavia, para que esse processo seja efetivo, é preciso que você trabalhe de forma interdisciplinar do início ao fim do estudo. Assim, você deverá fazer com que a sua área conecte-se com as demais relacionadas com as quais se propôs a trabalhar.
Em razão das exigências típicas ao trabalho interdisciplinar, é preciso que tomemos alguns cuidados básicos para que a pesquisa mantenha a sua qualidade em todos os seus capítulos. Antes de escolher um objeto e perspectiva com a qual irá trabalhar, seja honesto consigo mesmo e reconheça se você tem o conhecimento necessário para tal abordagem. Assim sendo, recomendamos um processo de autoanálise. Reconheça se o conhecimento que você possui irá permitir que chegue à profundidade que demanda esse tipo de trabalho. Se após essa autoanálise você perceber que o conhecimento que possui sobre as outras áreas que deseja integrar na sua própria não é suficiente, talvez o mais adequado seja permanecer apenas na sua área de atuação para que a qualidade seja mantida e o trabalho não seja refutado. Essa questão está ligada ao reconhecimento do conhecimento real que possuímos das áreas envolvidas.
Algo muito importante nesse exercício é reconhecer até que ponto vai o seu conhecimento sobre as áreas que deseja integrar no estudo. Reconheça até onde essas novas áreas irão contribuir para com a análise do seu objeto. Caso você visualize que não é capaz de fazer essa interação de uma forma profunda, não há problema, você pode e deve apoiar-se na sua área para realizar essa análise com a devida profundidade. O trabalho será muito mais efetivo caso você trabalhe com uma área que conhece e sabe o que funciona e o que não funciona. Os resultados serão muito mais produtivos e a sua pesquisa terá mais credibilidade. Os resultados serão muito mais benéficos e contributivos para a sociedade. Tome cuidado, também, com as pessoas que chamará para a sua banca. Não as chame apenas por serem famosas em suas áreas. Chame aqueles que podem realmente contribuir.
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