Bruno Marcos Nunes Cosmo [1]
INTRODUÇÃO
O agronegócio brasileiro representa um dos setores mais significativos da economia brasileira, movimentando percentual significativo do produto interno bruto (PIB). Neste sentido, todas as tecnologias que envolvam ou sejam envolvidas pelo agronegócio estão destinadas a terem grande movimentação financeira e apresentarem alta importância no desenvolvimento nacional (JACINTHO, 2022).
Este impacto tornou-se tão significativo, que diversas novas tecnologias estão em processo de desenvolvimento. Dentre os fatores de importância no manejo das propriedades, o solo apresenta papel significativo, pois representa a base de todo o processo produtivo (SAATH; FACHINELLO, 2018).
Contudo, muitas variações são observadas no mesmo, tornando-o um objeto de manejo que foi fundamental no surgimento da agricultura de precisão. Com o avanço da técnica, outras fontes de variação na propriedade, como a ocorrência de plantas daninhas, manchas de produtividade na cultura e afins, também passaram a ser manejadas, gerando as bases da agricultura de precisão moderna.
Neste contexto, o objetivo deste trabalho foi descrever e exemplificar a presença e importância da variabilidade no meio agrícola.
VARIABILIDADE AGRÍCOLA
A variabilidade é um conceito estudado em diversas áreas, sendo mencionado especial no campo da estatística. A variabilidade encontra-se no campo das medidas de dispersão, sendo associada ou mensurada por parâmetros como desvio padrão, variância, amplitude e o coeficiente de variação (UNESP, 2019).
De forma genérica, a variabilidade refere-se ao quanto determinado parâmetro oscila em função da média de um conjunto de dados. Estes dados podem ser de diversas naturezas: altura de indivíduos, peso de alimentos, espécies de plantas, produtividade da lavoura e afins.
Em ciência, a variabilidade (ou variação de um fenômeno) pode ser analisada como um produto indesejável da pesquisa, um “ruído” decorrente da falta de controle experimental sobre variáveis desconhecidas ou mesmo de erro de mensuração. Essa variabilidade se entende que siga um padrão aleatório descrito por modelos probabilísticos, tais como o normal, o bi ou multinomial, entre outros. Entretanto, a variabilidade pode ser, em si mesma, um objeto de estudo, considerada como conseqüência de um conjunto de fatores de interesse temático. Sendo assim, fenômenos variáveis ou aparentemente caóticos vêm sendo investigados em diferentes ciências. (HUNZIKER; MORENO, 2000, p.135).
A variabilidade pode ser um aspecto desejado ou indesejado, além de ser passível de análise. No melhoramento genético de plantas e animais, existe interesse na ocorrência de variabilidade genética, pois, possibilita a seleção de características específicas, como ganho de peso, arquitetura de plantas ou estrutura animal, resistência a pragas e doenças, produção de substâncias com efeitos desejáveis e etc. (MIQUELONI et al., 2019; SILVA, 2019). Na indústria, a produção de roupas e calçados, por exemplo, tem interesse em reduzir a variabilidade no processo produtivo, pois, deseja-se que os bens produzidos sigam um padrão de tamanho, peso, coloração e etc. (GILSA, 2012).
Enfatizando características como a física e a química do solo, a variabilidade é um aspecto natural. Em decorrência de diversos fatores, existe uma grande amplitude nas características do solo, tanto em distância, quanto em profundidade (SILVA, 2017). Neste caso, mesmo que a uniformização da área favoreça a realização do manejo, pode não haver viabilidade. Fazendo-se necessário a compreensão, caracterização e adoção de medidas que permitam trabalhar dentro de tais variações.
Segundo Ronquim (2010), os solos brasileiros em sua maioria são naturalmente ácidos e de baixa fertilidade. Estas características são decorrentes de seus processos de formação. Em regiões de clima tropical ou subtropical, ocorre a intensificação do processo de intemperismo do solo devido às características do clima (precipitação e altas temperaturas na maior parte do ano), caracterizando-os como solos velhos.
Neste caso, ocorre a remoção das bases do solo como cálcio e magnésio pela lixiviação nas camadas superiores em decorrência da ação da água, ocasionando concentração de hidrogênio, alumínio e ferro. Também se observa a formação de óxidos de ferro e alumínio que podem causar indisponibilização de fósforo no solo (RONQUIM, 2010).
Estes processos de formação não ocorrem de forma uniforme, bem como, o material de origem dos solos (rocha matriz) pode sofrer variações em sua composição. As rochas matrizes podem ser classificadas em ígneas ou magmáticas, sedimentares ou metamórficas, cada qual com características específicas (DAMASCENO, 2017).
Os processos de formação podem incidir sobre a rocha de forma desuniforme ampliando as variações. Dessa forma, a variabilidade no solo é uma característica do material de origem e que tende a ser amplificada em decorrência dos processos de formação, manejos e modificações no meio. Outro fator de variabilidade no solo é a densidade global (solo + poros), pois, o processo de compactação pode elevar este parâmetro, causando oscilações acima de 100% em pequenas distâncias.
A variabilidade é um parâmetro intrínseco do solo, repercutindo no sistema de produção como um todo. Em um estudo realizado por Oliveira et al. (2018), pode-se verificar o efeito da variabilidade na fertilidade do solo, estado nutricional e produtividade da cana-de-açúcar em uma área de 5,0 hectares com aparente homogeneidade visual.
Tabela 1. pH em água, teores de fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca+2), magnésio (Mg+2), alumínio (Al+3), hidrogênio + alumínio (H + Al), soma de bases (SB), capacidade de troca catiônica a pH 7,0 (CTC – T) e saturação por bases (V%) na camada de 0 a 20 cm. Anadia (AL)

Tabela 2. Teores de matéria orgânica (M.O) zinco (Zn), ferro (Fe), manganês (Mn), cobre (Cu) e sulfato (SO42-) na camada de 0 a 20 cm. Anadia (AL)

A variação entre os parâmetros também oscila. Enquanto o alumínio e o pH apresentam coeficientes de variação de 0,0% e 8,4%, respectivamente, os teores de fósforo e zinco apresentam coeficientes de variação de 87,4% (Tabela 1) e 92,9% (Tabela 2), respectivamente. O zinco apresenta uma diferença entre o menor e o maior valor de 22 vezes.
Estes aspectos são importantes na definição do manejo, na agricultura de precisão, por exemplo, não se busca uniformizar todos os pontos para o mesmo valor, mas manejar cada ponto, conforme sua capacidade (COCCO, 2016). Tomando o zinco de exemplo, não é viável elevar todos os pontos da propriedade para o teor de 6,7 mg dm-3, mas devem ser estabelecidas zonas de manejo, onde serão definidos os teores coerentes com a capacidade do solo e cultura. A produtividade também irá oscilar, assim deve-se ter a compreensão que existiram pontos que não serão capazes de responder igualmente. Ocorreram pontos em que a produtividade irá corresponder a 60% da produtividade na melhor zona de manejo e ambas estarão em seus máximos potenciais.
Tabela 3. Teores foliares de macro e micronutrientes no terço médio da folha +3 da cana-de-açúcar, variedade RB867515. Anadia (AL)

Na composição nutricional das plantas também é possível observar divergências na variação dos nutrientes. Enquanto o fósforo e o nitrogênio apresentam coeficientes de variação de 6,5% e 8,9% respectivamente, o cálcio apresenta 44,4% (Tabela 3).
Tabela 4. Acúmulo de biomassa (AB), produção de colmos industrializáveis (TCH) e de açúcares (TPH) e índice de colheita (IC), da variedade de cana-de-açúcar RB867515. Anadia (AL)

Os fatores de produção também apresentam alta variabilidade. Neste exemplo, a produção de colmos industrializáveis apresentou coeficiente de variação de 28,5%. Entre a menor e a maior produtividade existe uma variação de quase 2,2 vezes (números expressivos no campo).
Assim como a produtividade outros aspectos produtivos como altura de plantas, número de vagens e grãos (para culturas graníferas), diâmetro de colmos, número de folhas e outras medidas biométricas poderão apresentar oscilação. Esta oscilação está fundamentada na variabilidade do solo, sendo intensificada por outros fatores na lavoura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A variabilidade é uma característica natural de diversos sistemas e que pode apresentar efeitos positivos ou negativos dependendo do contexto analisado. Na agricultura, o manejo da variabilidade do solo e outros aspectos têm ganhado maior destaque, permitindo e estimulando práticas como a agricultura de precisão.
REFERÊNCIAS
COCCO, L. B. Utilização de ferramentas de agricultura de precisão na definição de zonas de manejo. 2016. 56f. Dissertação (Mestrado em Agricultura de Precisão) – UFSM, Santa Maria, 2016.
DAMASCENO, G. C. Especialização em Mineração e Meio Ambiente: Geologia, mineração e meio ambiente. Cruz das Almas: UFRB, 2017.
GILSA, D. V. Gestão da qualidade de produtos e processos. Indaial: UNIASSELVI, 2012.
HUNZIKER, M. H. L.; MORENO, R. Análise da noção de variabilidade comportamental. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v.16, n.2, p.135-143, 2000.
JACINTHO, H. Agropecuária tem a maior geração de empregos nos últimos 10 anos. 2022. Disponível em: https://forbes.com.br/colunas/2022/02/agropecuaria-tem-a-maior-geracao-de-empregos-nos-ultimos-10-anos/. Acesso em: 15 fev. 2023.
MIQUELONI, D. P. et al. Seleção genômica ampla (GWS) e associação genômica ampla (GWAS) no melhoramento de forrageiras: abordagem conceitual, genética quantitativa e aplicações. Enciclopédia Biosfera, v.16, n.30, p.556-582, 2019.
OLIVEIRA, M. W. et al. Variabilidade da fertilidade do solo, do estado nutricional e da produtividade em canavial manejado homogeneamente e visualmente uniforme. In: ALFARO, A. T. S.; TROJAN, D. G. Agronomia: Elo da cadeia produtiva. Ponta Grossa: Atena Editora, 2018. p.293-308.
SAATH, K. C.; FACHINELLO, A. L. Crescimento da demanda mundial de alimentos e restrições do fator Terra no Brasil. RESR, v.56, n.2, p.195-212, 2018.
SILVA, J. J. C. Variabilidade espacial dos atributos do solo com horizonte a antrópico sob diferentes usos no sul do amazonas. 2017. 101f. Tese (Doutorado em Produção Vegetal) – UFAM, Manaus, 2017.
SILVA, T. L. Interação genótipo-ambiente na análise da variabilidade genética de características reprodutivas na raça nelore. 2019. 53f. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – UESB, Itapetinga, 2019.
UNESP. Estatística e bioestatística. São Paulo: UNESP, 2019.
[1] Doutorando em Agronomia (Agricultura) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Botucatu (SP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3252-5349. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5681872370469923.