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Encontro com Moradores em Situação de Rua: Fragmentações Sociais, Experiências e Sentimentos Fluidos a Céu Aberto. Um Relato de Experiência.

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POLTRONIERI, Roberta [1]

POLTRONIERI, Roberta. Encontro com Moradores em Situação de Rua: Fragmentações Sociais, Experiências e Sentimentos Fluidos a Céu Aberto. Um Relato de Experiência. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 2, Vol. 13. pp 368-374., janeiro de 2017. ISSN: 2448-0959

Resumo

Este relato de experiência traz reflexões e apontamentos acerca de encontros mensais realizados durante o ano de 2015, com moradores em situação de rua. O objetivo destas visitas foi a colaboração de forma solidária com alimentos e roupas, ao mesmo tempo foram realizados círculos de diálogos, entre pesquisadora e estes moradores na região central da cidade. Nestes encontros foram abordados temas sobre vida pessoal, social, trabalho, família, memórias e condições de suas sobre(vivências) nas/das ruas. Apoiados no referencial teórico de Foucault, Freire e Caldeira. Durante as conversas foi possibilitado que estes sujeitos falassem de suas vidas através de perguntas mediadoras. Assim, na interação desenvolvida durante a escuta sobre o que diziam, registros escritos e observações foram feitas, para que a produção de possíveis caminhos, pudessem ser desenvolvidos afim de levar a reflexões e problematizações, acerca destas vozes, excluídas de protagonismos e por muitas vezes, silenciadas na vida urbana em sociedade.

Palavras chave: Rua, Exclusão, Vozes, Sobre(vivência).

Introdução

Durante nossa trajetória de vida é notório perceber que somos constituídos de muitos (des)encontros. Alguns destes, marcam nossas trajetórias, deixando rastros e inquietações que podemos de alguma forma desenvolver, e ceder espaço para reflexão e investigação.

Nas vias públicas das cidades encontram-se pessoas em trânsito, acerca de nossos olhares, se misturam ao cotidiano agitado que se cruzam entre ônibus, carros, barulho, lojas comerciais, casas e prédios públicos. A partir desse contexto e o paradoxo da liberdade a céu aberto, é que encontramos alguns moradores que vivem na condição de rua, e foi com alguns destes moradores em uma cidade do estado de São Paulo, que eu me encontrava uma vez ao mês, no ano de 2015. Nestes encontros realizava doações que anotava no encontro anterior, e levava no próximo. Após a entrega dos materiais de suas necessidades como alimentos e roupas, nos sentávamos em lugares onde se situavam nos passeios públicos, para dialogarmos sobre muitos temas relacionados a vida em sociedade. Eu na posição de pesquisadora, e um grupo de moradores, que nem sempre eram os mesmos, devido as suas condições itinerantes de idas e vindas de um lugar para o outro, dentro ou fora da cidade, estabelecíamos, diálogos e trocas de experiências.

Nas abordagens realizadas com estes moradores, Freire nos auxilia, através de muitas de suas contribuições, através da busca pelo diálogo, e pelas relações de horizontalidade. Nossas conversas eram mediadas através de perguntas geradoras, e a partir da fala de um, outros atravessados pelo mesmo instante, falavam cada um, de suas impressões sobre a primeira pergunta que foi feita por mim, na posição de pesquisadora e mediadora.

“ O diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias”. (Freire, 2011.p.109).

As perguntas geradoras foram alicerçadas, no que nos ensina Freire, sobre a tematização de palavras e temas pertencentes a vida e experiência de um sujeito, desta forma, as perguntas feitas a eles, foram programadas usando palavras chave, que incluísse um pouco a vida experiencial das ruas.

Os temas geradores podem ser localizados sem círculos concêntricos, que partem do mais geral ao mais particular. Temas de caráter universal, contidos na unidade epocal mais ampla, que abarca toda uma gama de unidades e subunidades, continentais, regionais, nacionais etc., diversificadas entre si. Como tema fundamental desta unidade mais ampla, que poderemos chamar “nossa época”, se encontra, a nosso ver, o da libertação, que indica seu contrário, o tema da dominação. (Freire, 2011.p.131)

O círculo de palavras, compostas nestas frases, sustentou a forma, com que o diálogo, pudesse ser sutilmente aberto como metodologia de investigação.  Sobre, o que pensam em relação as ruas? Como foram suas experiências? Ainda assim, foi levado em consideração nos registros, qualquer fala, mesmo palavras fora de contexto, e toda expressão comunicativa que pudesse representar um gesto dialógico.

Círculos de diálogos em desenvolvimento

As experiências a céu aberto segundo os registros e algumas observações feitas, mostraram que há uma série de problemas quando se pensa em direito sociais, e a atuação do Estado, frente a estes direitos. Muitos moradores revelaram em suas falas, que os abrigos que o poder público oferece, tem condições piores que as ruas, comida escassa, tratamento desumano, e abandono de suas particularidades familiares e identitária, como seus pertences pessoais. Seus animais de estimação não podem frequentar o abrigo, e o auxilio para emprego, segundo eles não é oferecido. Estas condições afasta-os da tutela dos abrigos, e os faz procurarem becos, praças e locais público cobertos para dormirem e se abrigarem da forma como conseguem.

Para Caldeira:

Quando o acesso a certas áreas é negado a algumas pessoas e quando grupos diferentes não interagem no espaço público, as referências a ideais de abertura, igualdade e liberdade como princípios organizadores da vida social não são mais possíveis, mesmo como a ficção. As consequências da nova separação e restrição na vida pública são sérias: Ao contrário do que pensa Jencks (1993), a arquitetura e o planejamento defensivos promovem o conflito em vez de evita-lo, ao tornarem explícitas as desigualdades sociais e a falta de referências comuns. (Caldeira, 2000.p.340).

Caldeira, em sua obra; Cidade de Muros, analisa a interação de um conjunto de fatores que promovem a desigualdade do espaço urbano; a falência institucional, fragmentação do espaço público, violência e discriminação social. Para estas populações em condições de vulnerabilidade, já se torna difícil convivem com a escassez de direitos, aliado a isso soma-se a segregação dos espaços urbanos, por falta de planejamento e ausência do poder público.

No percorrer dos encontros eu pedia após conversa inicial, para que nos sentássemos todos em círculo, após isso, deixava um certo tempo, para que conversássemos assuntos corriqueiros que muitas vezes se tratava sobre suas relações presentes com seus pares com os quais dividiam a vida nas ruas, percebendo assim, que em suas constituições na vida do presente, alguns companheiros de rua, dividiam entre si, muitas angústias sobre comida, sono, frio, chuva e fome.

As perguntas iniciais realizadas com eles, tinham caráter aberto, dentre elas, havia algumas perguntas com temas geradores que havia formulado previamente; destacarei a temática de três delas, do qual foram separados os recortes:

1- Formas de sobre(vivência) nas ruas

2- Relações com a família no passado e presente

3- Sentimentos

A seguir um recorte do sujeito que chamaremos de C. Sobre a temática 1:

Não gosto muito de andar pela cidade nesse movimento, é b.o… Os outros fica olhando a gente, xinga de mendigo, acha que vai roubar… que isso aí!! Eu fico de boa aqui mesmo na minha, dou uma volta a noite, e arrumo um canto pra dormi.. Vivê na rua é difícil moça. A gente tem que se virá na marra. ”

O sujeito C, evidencia a reclusão de andar pelas ruas, segundo sua condição. Sua voz silenciada, guarda consigo a violência da exclusão em sua vida. Neste sentido o espaço social que deveria ser de todos, de forma exclusa, se abstém de grupos distintos, e fortalece a sociedade de padrões hegemônicos. A compreensão de espaço social aqui, é concebida de acordo com Bourdieu (1996, p.18-19):

Conjunto de posições distintas e coexistentes, exteriores umas das outras, definidas umas em relação as outras por sua exterioridade mútua e por relações de proximidade, de vizinhança, ou de distanciamento e, também, por relações de ordem, como acima, abaixo e entre.

Os limites físicos no espaço social presentes na fala do sujeito C, algumas formas de estigmas que sofrem os moradores que estão em condições de rua; estigmas de nome, e de suas presenças nos espaços marcam seu discurso. Segundo Caldeira:

O corpo é incircunscrito não tem barreiras claras de separação ou evitação; é um corpo permeável, aberto a intervenção, no qual as manipulações de outros não são consideradas problemáticas. Por outro lado, o corpo incircunscrito é desprotegido por direitos individuais e, na verdade, resulta historicamente da sua ausência. No Brasil, onde o sistema judiciário é publicamente desacreditado, o corpo (e a pessoa) em geral não é protegido por um conjunto de direitos que o circunscreveriam, no sentido de estabelece barreiras e limites a interferência ou abuso de outros. (Caldeira, 2000.p.370)

A diversidade, o negro, mulher e homens em situação de rua e pobreza, são circunscrevidos em seus corpos de forma punitiva pela sociedade hegemônica, desrespeitando assim, condições e direitos mínimos da pessoa humana.

Aprendemos com Foucault, em Vigiar e Punir, que as bases históricas da punição, responde a fronteiras da submissão do corpo. No século XVII, eram utilizados sinais no corpo para reconhecer homens que seriam bons e corajosos soldados. Neste sentido Foucault contribui de forma significativa ao elucidar o caráter histórico da punição.

Houve durante a época clássica, a descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo – ao corpo que se manipula, modela-se, treina-se, que obedece, responde, torna-se hábil ou cuja as forças se multiplicam. (Foucault, 2014.p.134).

A disciplina e o controle aplicado aos corpos, revelam a forma histórica que as relações de poder se (res)significam nas sociedades. Os controles exercidos nos corpos causam efeitos negativos. “Exclui, reprime, recalca, censura, abstrai, mascara, esconde, na verdade o poder produz”. (Foucault, 2014.p.189).

Recorte do sujeito X, sobre a temática 2 e 3:

“Namorada…não não, nunca casei só amiguei.. agora tô sem ninguém..até queria uma companhera, mas me divirto aqui com meu corote, né não..(olhou para o companheiro do lado e …risos)”

O sujeito X revelou um pouco de humor, acompanhado ao que pode estar presente na vida dos sujeitos em condição de rua. Em conversa com alguns moradores e moradoras, dizem que a bebida é algo presente diariamente em suas experiências nas ruas. Dizem ser comum comprarem uma bebida popularmente conhecida como “Corotinho”, segundo o que dizem, pelo fato de custar pouco e conseguirem comprar. Ainda revelaram que há em suas memórias familiares ao que se refere a companheiras, relatos de, já terem passado por laços matrimoniais, e abandonaram suas companheiras por sentirem-se um “peso”, para a família, pelas causas de suas trajetórias diante de percas expressivas. Cada um expressou-se de forma particular, mas todos eles, levam de formas diferentes, angústias, memórias e representações sobre suas vidas diante das ruas.

Fragmento de um sujeito que chamaremos de O:

“Não tenho notícias da minha esposa, e nem da minha mãe faz uns 2 anos pra mais… não procuro sabe não, abandonei, não me procuram, perdi emprego, casa… me envolvi nas drogas.. agora tô aqui nessa”…(silêncio) “não gosto do abrigo também lá é sujo, não tem nada…”

O sujeito O, traz consigo as marcas da trajetória nas ruas, exclusão por perdas, laços familiares interrompidos, identidades esfaceladas, fragilizados diante da insuficiência do Estado, no auxilio social, fazendo-lhes na procura das ruas e espaços públicos, suas moradias temporárias, vagam de um lugar para o outro, disciplinados e excluídos pelas normas e leis sociais que não os integram, mas ao contrário, os punem no paradoxo silencioso e explicito ao mesmo tempo. “ Ali onde a comunidade não levanta objeção a conduta do Estado, as pessoas se livram a atos de crueldade e de perfídia, de traição e de barbárie tão incompatíveis com seu grau de civilização” (Derrida, 2001.p.69)

O sujeito O ainda, evidencia o presente quando diz (“agora tô aqui nessa”). Com referência ao espaço físico, onde foi produzido seu discurso, ele evidencia a situação atual das ruas, como “nessa”, de forma que ao observa-lo, não necessariamente precisaria de dizer com todas as letras a caracterização da sobre(vivência) nas/das ruas, do qual ele se referiu.

Algumas considerações

As experiências de segregação e esquecimento relatadas pela população na condição de rua, apontam para a expressão de espaços e valores dominantes da sociedade hegemônica, mesmo os espaços urbanos, não demonstram ser espaços democráticos e justos, na medida em que muros privatizados se erguem em torno de uma vigilância extrema, e as pessoas ao redor, que não estão nesta situação de rua de forma geral, ainda não compreendem que estes moradores são parte integrante da sociedade.

Direitos mínimos não são garantidos, através de seus relatos, constatamos que a condição oferecida nos abrigos, é pior que a vida nas ruas, são condições sub-humanas, e só procuram esta instituição, quando chove, devido à dificuldade para se abrigarem. Relataram que o banho é frio e sem chuveiro, que a comida é carente, e que muitos funcionários não os incentivam, lhes dando um tratamento desmoralizante. Suas subjetividades estão destruídas, na medida que os círculos que integram suas identidades, como família, emprego fixo, moradia e interação social, neles encontram-se deterioradas.

Estigmas são produzidos diariamente, pelas pessoas da sociedade, as mais variadas possíveis, é notório perceber como as pessoas que não estão próximas a esses moradores reproduzem o status-co, dirigindo-se a eles com palavras ofensivas e estigmatizada, como por exemplo: mendigos, sujos, e de forma negativa, se distanciam ao passarem.

Os diálogos ainda revelaram que nem todas as pessoas que se encontram em situação de rua, possuem passagens criminais, são variados os casos, assim como, nem todos usam drogas. E há ali, vidas pulsando no meio da selva de concreto. Suas trajetórias demonstram a falta de visibilidade para o futuro, devido ao silenciamento prolongado na situação que lhes causaram sofrimento, esquecimento da família e a ausência de pessoas que possam fazer esse resgate.

Há ainda segundo os registros do que relataram, a presença assistencial das instituições religiosas de caridade, de várias denominações que oferecem ajuda voluntária, que na ausência do Estado, tem uma presença esperada por eles, oferecendo auxilio com alimentos e roupas, nos tempos do frio.

Algumas considerações acerca desse trabalho realizado ao longo de 2015, possuem ainda outros percursos que nos levará para muitas reflexões, de forma que as problematizações se encontram sempre inacabadas. As ruas revelaram a mim, na posição de pesquisadora muitos detalhes da sociedade estrutural capitalista e hegemônica, que em sua forma cruel de exclusão reprimi, grupos sociais difusos, que não se alinharam na produção sistêmica do lucro, estão à margem das condições de produção, do poder público, estigmatizados pelas pessoas que possuem moradia e debilitados socialmente. Estas visitas ainda continuarão, de forma que a busca por mais caminhos continue, e muitas outras considerações possam ser feitas.

Referências

BOURDIEU.P. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo.Papirus.1996.

CALDEIRA, T. P. R. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp. 2000.

DERRIDA, J. Estados-da-alma da psicanálise. O impossível para além da soberania crueldade; tradução Antonio Romane Nogueira, Isabel Kahn Marin – São Paulo: Escuta, 2001.

FOUCAUT.M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete.42.ed.Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

FREIRE.P. Pedagogia do Oprimido. 50.ed. – Rio de janeiro: Paz e Terra.2011.

[1] Graduação em Pedagogia com Licenciatura Plena. Especialista em Psicopedagogia Institucional; Educação e Saúde mental (436h). Especialista em Educação Ambiental (540h). (Barão de Mauá). Aperfeiçoamento em Educação para as relações Étnico-raciais UFSCAR. Atualmente dedica-se a estudos na área de educação e sociedade, atuando principalmente nos seguintes temas: Escola pública, Trajetória do professor na escola pública, Educação pública; (Temas Transversais), Populações em Vulnerabilidade; moradores em situação de rua. Possui experiencia na área da educação. Colaboradora do M.N.D.H (Movimento Nacional de Direitos Humanos).Atualmente é Professora do Ensino Fundamental I, na Secretaria de educação municipal de Ribeirão Preto

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Graduação em Pedagogia com Licenciatura Plena. Especialista em Psicopedagogia Institucional; Educação e Saúde mental (436h). Especialista em Educação Ambiental (540h). (Barão de Mauá). Aperfeiçoamento em Educação para as relações Étnico-raciais UFSCAR. Atualmente dedica-se a estudos na área de educação e sociedade, atuando principalmente nos seguintes temas: Escola pública, Trajetória do professor na escola pública, Educação pública; (Temas Transversais), Populações em Vulnerabilidade; moradores em situação de rua. Possui experiencia na área da educação. Colaboradora do M.N.D.H (Movimento Nacional de Direitos Humanos).Atualmente é Professora do Ensino Fundamental I, na Secretaria de educação municipal de Ribeirão Preto.

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