{"id":744,"date":"2023-01-05T09:21:34","date_gmt":"2023-01-05T12:21:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/?p=744"},"modified":"2023-01-12T20:18:21","modified_gmt":"2023-01-12T23:18:21","slug":"arquitetura-urbanismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/reflexoes\/arquitetura-urbanismo","title":{"rendered":"3.7 Desafios e abordagens no campo da arquitetura-urbanismo na contemporaneidade: o caso dos \u00edcones arquitet\u00f4nicos sob a perspectiva de Charles Jencks e Josep Maria Montaner"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Marcelo Sbarra <sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0DOI:\u00a010.32749\/nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/744<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento deste texto veio atrav\u00e9s de duas for\u00e7as. A primeira, inspirada pelo extenso material levantado durante as pesquisas feitas para a tese (SBARRA, 2020); a segunda, impulsionada pela necessidade de esclarecer melhor termos que s\u00e3o comumente utilizados no linguajar arquitet\u00f4nico, mas cujos sentidos divergem um pouco das suas origens.<\/p>\n<p>Muito embora os conceitos de Arquitetura Ic\u00f4nica, \u00edcones, iconicidade pare\u00e7am fazer parte de um jarg\u00e3o j\u00e1 interiorizado do discurso arquitet\u00f4nico, p\u00f4de-se perceber, durante todo o processo de pesquisa que n\u00e3o s\u00e3o conceitos plenamente claros ou precisos.<\/p>\n<p>O debate cr\u00edtico acontecido entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970 retirou do objeto arquitet\u00f4nico parte de seu protagonismo. O resultado, o objeto constru\u00eddo, passou a ter uma import\u00e2ncia secund\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o e entendimento de um discurso que embasava sua concep\u00e7\u00e3o. S\u00e3o bastante conhecidos os textos de Peter Eisenman sobre os conceitos que norteavam sua produ\u00e7\u00e3o para at\u00e9 mesmo, suplantarem em import\u00e2ncia o objeto propriamente dito. O processo era ent\u00e3o a chave de leitura fundamental para se entender a arquitetura.<\/p>\n<p>Charles Jencks identifica, ent\u00e3o, que em meados dos anos 1990 algo de diferente come\u00e7a a acontecer com a produ\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios. Os discursos passam a ter uma import\u00e2ncia secund\u00e1ria e o objeto arquitet\u00f4nico passa a ter sua import\u00e2ncia retomada, especialmente na produ\u00e7\u00e3o daqueles que ele chama \u201carquitetos-estrela\u201d.<\/p>\n<p>Josep Maria Montaner, cerca de dez anos depois da incurs\u00e3o de Jencks, encontra-se analisando a mesma situa\u00e7\u00e3o: em um mundo de complexidades, a arquitetura ic\u00f4nica parece ter o papel de renovar a cidade.<\/p>\n<p>Partindo de an\u00e1lises muito semelhantes \u2013 por vezes utilizando os mesmos edif\u00edcios \u2013 os dois autores percorrem caminhos distintos, mas parecem chegar em conclus\u00f5es muito pr\u00f3ximas: o edif\u00edcio ic\u00f4nico possui uma mensagem a ser dita, uma met\u00e1fora a ser compreendida, uma imagem a ser lembrada.<\/p>\n<p>Apoiando-se principalmente na Semiologia \u2013 sob diferentes perspectivas \u2013 ambos os autores v\u00e3o descobrir na Arquitetura ic\u00f4nica uma nova forma do objeto arquitet\u00f4nico retomar seu protagonismo: ainda que dentro do discurso de cada arquiteto-autor, o objeto inserido no contexto da cidade ir\u00e1 por si s\u00f3 conseguir ter seu pr\u00f3prio discurso.<\/p>\n<h2><strong>Desenvolvimento<\/strong><\/h2>\n<p>Charles Jencks gradua-se em Literatura Inglesa pela Harvard University em 1961 e em 1965 obt\u00e9m o t\u00edtulo de Bacharel e Mestre em Arquitetura. Em 1970 obt\u00e9m o t\u00edtulo de Doutor em Hist\u00f3ria da Arquitetura, pela London University (JENCKS, 2022)<\/p>\n<p>Como arquiteto, seu trabalho se destaca pelos projetos paisag\u00edsticos e escult\u00f3ricos, al\u00e9m de extensa produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica. \u00c9 conhecido por seus livros que questionam a Arquitetura Moderna e onde define seus sucessores (Tardo, Novo e P\u00f3s-moderno, dentre outros).<\/p>\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o profissional, entre os anos de 1968 a 1988, est\u00e1 relacionada a <em>Architectural Association<\/em> (Londres). Foi Professor visitante na UCLA (Los Angeles) entre os anos 1974 a 1992.<\/p>\n<p>Sua forma\u00e7\u00e3o em Literatura nos ajuda a entender sua aproxima\u00e7\u00e3o com a Semi\u00f3tica. Em 1969 publica <em>Meaning in Architecture<\/em> (JENCKS; BAIRD, 1969) onde discute a rela\u00e7\u00e3o entre Filosofia, Arquitetura e Linguagem.<\/p>\n<p>Em diversas publica\u00e7\u00f5es esta forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no campo da lingu\u00edstica se faz presente, mas podemos destacar os livros <em>Adhocism<\/em> (JENCKS; SILVER, 1973), <em>The Language of post-Modern Architecture<\/em> (JENCKS, 1977), <em>Towards a Symbolic Architecture<\/em> (JENCKS, 1985), <em>The Iconic Buildind: the power of enigma<\/em> (JENCKS, 2005) al\u00e9m da colet\u00e2nea de textos <em>Theories and manifestoes of contemporary architecture<\/em> (JENCKS; KROPF, 2006).<\/p>\n<p>Entre os anos de 1968 e 2015 \u2013 cerca de 50 anos \u2013 produziu mais de 50 livros e dezenas de artigos. Sua produ\u00e7\u00e3o acompanha in\u00edcio da cr\u00edtica a Modernidade e se constr\u00f3i a partir de an\u00e1lises classificat\u00f3rias da produ\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica de seu tempo. A cada novo livro um novo termo \u00e9 cunhado e acreditamos que esta leitura tenha que ser feita com o entendimento de que sua teoria \u00e9 constru\u00edda como um processo.<\/p>\n<p>Sendo assim, desde a publica\u00e7\u00e3o de seu primeiro livro tendo a an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica como tem\u00e1tica at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o do livro Edif\u00edcios Ic\u00f4nicos: o poder do enigma (JENCKS, 2005), Jencks perpassa trinta e cinco anos no \u00e2mbito da teoria e cr\u00edtica arquitet\u00f4nica, quase quarenta livros publicados e centenas de publica\u00e7\u00f5es espalhadas em jornais, revistas, peri\u00f3dicos (JENCKS, 2022).<\/p>\n<p>Nos parece extremamente injusto que ele continue sendo mais conhecido apenas por seu livro A linguagem da arquitetura p\u00f3s-moderna (JENCKS, 1977), embora a import\u00e2ncia desta publica\u00e7\u00e3o seja ineg\u00e1vel. \u201cA teoria da arquitetura deve o conceito e categoriza\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-moderno a Charles Jencks\u201d (HAYS, 2000, p.306, tradu\u00e7\u00e3o nossa) \u2013 seu pioneirismo se confirma pois A Condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna (LYOTARD, 2006) \u00e9 publicado somente em 1979.<\/p>\n<p>Os textos de Jencks s\u00e3o cheios de refer\u00eancias a fatos e acontecimentos da cultura pop e n\u00e3o segue o formalismo acad\u00eamico, muitas vezes \u201cexigido\u201d para se dar credibilidade a um texto cient\u00edfico. O autor expressa sua opini\u00e3o \u2013 muitas das vezes em tom excessivamente cr\u00edtico, vide o livro <em>Bizarre Architecture<\/em> (JENCKS, 1979).<\/p>\n<p>Jencks (2005) defende que em meados dos anos de 1990 um novo tipo de arquitetura emergiu. Esta arquitetura estaria diretamente relacionada ao crescimento econ\u00f4mico das cidades, busca por fama instant\u00e2nea, publicidade, mudando drasticamente a tradi\u00e7\u00e3o anterior de monumento arquitet\u00f4nico. Segundo ele, as cidades passaram a competir entre si por \u00edcones e usam arquitetos internacionais para terem \u201calgo a mais\u201d (JENCKS, 2005, p. 19)<\/p>\n<p>O autor localiza na obra de Frank Gehry, para o Museu Guggenheim de Bilbao, um momento de mudan\u00e7a de paradigma no papel do edif\u00edcio como objeto inserido na cidade, chamando este fen\u00f4meno de \u201cefeito Bilbao\u201d (JENCKS, 2005, p.7)<\/p>\n<p>\u00c9 importante perceber que a disputa pelas cidades est\u00e1 diretamente ligada a eventos internacionais e ao p\u00fablico que potencialmente eles atraem \u2013 como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Ol\u00edmpicos. (JENCKS, 2005, p. 19)<\/p>\n<p>O alto pre\u00e7o de um edif\u00edcio ic\u00f4nico \u2013 que implica, na maioria das vezes, na contrata\u00e7\u00e3o de \u201carquitetos-estrela\u201d &#8211; se justifica, uma vez que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Funciona, pelo menos de acordo com os pesquisadores de mercado que estudaram o \u00edcone de Frank Gehry que transformou Bilbao. Seu novo Guggenheim, como mencionamos, custou o equivalente a dez De Koonings<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[i]<\/sup><\/a> mal avaliados \u2013 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 muito para um museu, mas n\u00e3o muito para uma cidade enferrujada poder se reinventar. Gra\u00e7as ao novo museu-catedral, a cidade transformou sua ind\u00fastria falida de constru\u00e7\u00e3o de navios em uma ind\u00fastria cultural emergente. Este edif\u00edcio maravilhoso trouxe 1.3 milh\u00f5es de visitantes no primeiro ano, 1998, e 1.1 milh\u00e3o no ano seguinte e, em 2000, o total chegou a 3 milh\u00f5es. Choque e turismo. (JENCKS, 2005, p. 18)<\/p>\n<p>Desta forma, Jencks explica, a sua maneira, as poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es do \u201cEfeito Bilbao\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">As implica\u00e7\u00f5es do \u201cEfeito Bilbao\u201d foram \u00f3bvias para a m\u00eddia e para qualquer cidade que aspire a ser metr\u00f3pole. Se uma cidade consegue achar o arquiteto certo no momento criativo certo de sua carreira e esteja disposta a correr o risco econ\u00f4mico e cultural, ela consegue dobrar o investimento inicial em cerca de tr\u00eas anos. Pode inclusive mudar o destino de \u00e1reas industriais decadentes. Colocando de maneira bem clara, a economia terci\u00e1ria da ind\u00fastria cultural possui um caminho para fugir do decl\u00ednio Modernista: P\u00f3smodernize-se ou afunde! (JENCKS, 2005, p. 19)<\/p>\n<p>O autor n\u00e3o tem problemas em expor sua opini\u00e3o \u2013 j\u00e1 provou ser conhecedor das principais teorias e manifestos que rondaram a arquitetura contempor\u00e2nea ao editar uma compila\u00e7\u00e3o sobre o tema (JENCKS; KROPF, 2006) \u2013 al\u00e9m de dezenas de livros sobre a Modernidade e a P\u00f3s-modernidade. Esta \u201cliberdade\u201d de pensamento possibilita que ele coloque claramente o que pensa sobre o julgamento de um edif\u00edcio ic\u00f4nico: \u201c[&#8230;] Quem realmente se importa qu\u00e3o bom eles s\u00e3o? Um edif\u00edcio ic\u00f4nico \u00e9 criado para fazer barulho, para fazer dinheiro e o crit\u00e9rio normal de avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o se aplica.\u201d (JENCKS, 2005, p.21)<\/p>\n<p>No entanto, sabedor de que \u00e9 necess\u00e1rio algum vi\u00e9s de leitura para analisar tais obras, ele oferece:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Um m\u00e9todo, que irei elucidar na breve pesquisa que segue, \u00e9 mostrar como significados enigm\u00e1ticos agem ou n\u00e3o relacionados entre si e a rela\u00e7\u00e3o com o poss\u00edvel significado do edif\u00edcio. De fato, olharei como estranhas conota\u00e7\u00f5es funcionam em um pequeno mundo interno. Meu argumento \u00e9 que \u201csignificados enigm\u00e1ticos\u201d podem ser utilizados de maneira efetiva para dar um significado mais profundo ao edif\u00edcio. (JENCKS, 2005, p. 21)<\/p>\n<p>O segundo m\u00e9todo, segundo ele, consiste em verificar como o arquiteto negocia o dif\u00edcil terreno entre o signo expl\u00edcito e o s\u00edmbolo impl\u00edcito. E a terceira possibilidade segue o padr\u00e3o tradicional de julgamento: entender a hist\u00f3ria do novo g\u00eanero, sensibilizar-se por suas possibilidades e limites, olhando e especulando em suas qualidades emergentes.<\/p>\n<p>Percebe-se aqui que sua forma\u00e7\u00e3o em Literatura se faz presente: embora n\u00e3o cite nominalmente (como faz Montaner ao citar Peirce), ao quer entender o papel dos signos e significados, Jencks est\u00e1 se apoiando em seus conhecimentos de Semi\u00f3tica.<\/p>\n<p>Para Jencks, ainda \u00e9 poss\u00edvel acrescentar uma nova categoria ao estudo dos \u00edcones: o edif\u00edcio que \u00e9 duplamente ic\u00f4nico.<\/p>\n<p>Para exemplificar, o autor cita a \u00d3pera de Sidney, de autoria de J\u00f8rn Utzon (Australia, 1959-1973).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quando a maioria das pessoas pensam sobre a hist\u00f3ria recente dos edif\u00edcios ic\u00f4nicos, vem a mente estruturas como a \u00d3pera de Sydney. Obviamente, devido a sua presen\u00e7a proeminente na baia, sua beleza alva, suas formas inusitadas que nos lembra outras coisas \u2013 as velas brancas dos navios ou o branco da arrebenta\u00e7\u00e3o que pode ser visto t\u00e3o contundentemente por perto. De fato, este tipo de edif\u00edcio \u00e9 duplamente ic\u00f4nico. Em primeiro lugar \u00e9 uma imagem reduzida bizarramente \u2013 como um logo. Em seguida, como um signo ic\u00f4nico, existe a similitude entre as imagens visuais. Uma estranha imagem que nos chama aten\u00e7\u00e3o para met\u00e1foras surpreendentes. (JENCKS, 2005, p. 28)<\/p>\n<p>Aqui, finalmente, temos algumas pistas mais concretas para a interpreta\u00e7\u00e3o de Jencks a respeito da iconicidade de um edif\u00edcio. A edifica\u00e7\u00e3o precisa ser \u201creduzida\u201d a uma imagem visual f\u00e1cil de ser apreendida, como um logotipo. Se al\u00e9m disso possui similitude que possa equipar\u00e1-la a outras imagens\u2013 a met\u00e1fora estaria ent\u00e3o neste aspecto \u2013 ter\u00edamos o \u00edcone ic\u00f4nico.<\/p>\n<p>Para Jencks, a maneira como cada um ir\u00e1 reagir a poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es e met\u00e1foras, n\u00e3o \u00e9 importante, mas sim que sua rea\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea revela formas, conceitos, frases e semelhan\u00e7as com coisas que eles j\u00e1 conhecem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Em resumo [&#8230;], um novo g\u00eanero de arquitetura. Para ser ic\u00f4nico, um edif\u00edcio precisa oferecer uma nova e condensada imagem, ter for\u00e7a como forma ou Gestalt e se levantar da cidade. Por outro lado, para se tornar poderoso, precisa estar presente como reminisc\u00eancia de importantes met\u00e1foras e ser um s\u00edmbolo a ser adorado, o que \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil em uma sociedade secular. (JENCKS, 2005, p. 9)<\/p>\n<h2><strong>Josep Maria Montaner e o novo pragmatismo: fragmenta\u00e7\u00e3o, caos e iconicidade<\/strong><\/h2>\n<p>Josep Maria Montaner gradua-se em Arquitetura pela Escola T\u00e8cnica Superior d\u2019Arquitectura de Barcelona (ETSAB \u2013 UPC) em 1977, onde tamb\u00e9m obt\u00e9m o grau de Doutor, em 1983.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de suas atividades como professor catedr\u00e1tico da Escola de Arquitetura de Barcelona \u00e9 professor convidado de diversas universidades europeias e da Am\u00e9rica latina, al\u00e9m de escritor, te\u00f3rico e cr\u00edtico da Arquitetura. Como arquiteto, possui uma s\u00e9rie de projetos em parceria com Carlos Ferrater, relacionados a desenho urbano (MONTANER, 2001).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">E claro, colaborei em v\u00e1rias ocasi\u00f5es com Carlos Ferrater. Na verdade, esta \u00e9 uma parte menor da minha produ\u00e7\u00e3o, que em geral, n\u00e3o tem estreita rela\u00e7\u00e3o com a teoria. Quando trabalho com outros arquitetos, o resultado tem mais a ver com a ideia de arquitetura que eles t\u00eam, ainda que eu contribua com meus crit\u00e9rios. Talvez o \u00fanico ponto onde exista maior rela\u00e7\u00e3o entre a atividade do arquiteto e de te\u00f3rico seja na prepara\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es (MONTANER, 2001 p. 5).<\/p>\n<p>Montaner deixa claro que sua pr\u00e1tica arquitet\u00f4nica n\u00e3o tem, necessariamente, rela\u00e7\u00e3o com sua teoria. Com rela\u00e7\u00e3o aos autores que o interessam, ele afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu gosto mais dos escritores que est\u00e3o neste meio termo, ensa\u00edstas como George Stein, Claude L\u00e9vi-Strauss, Edgar Morin e Mario Praz, ou ainda Paul Virilio, Jean Baudrillard, Elias Canetti e Maria Zambrano, autores em que talvez essas duas vertentes se d\u00e3o juntas, a ensa\u00edstica e um pouco a subjetiva. [&#8230;] E os que me interessam menos seriam esses autores com uma maneira de ser muito fria, muito sistem\u00e1tica, muito t\u00e9cnica, que predominam na nossa profiss\u00e3o. (MONTANER, 2001, p. 6).<\/p>\n<p>Dentre suas publica\u00e7\u00f5es, destacam-se: Arquitetura e Cr\u00edtica (MONTANER, 1999), A Modernidade superada (MONTANER, 2001a), Depois do Movimento Moderno (MONTANER, 2001b). As formas do s\u00e9culo XX (MONTANER, 2002), Sistemas arquitet\u00f4nicos contempor\u00e2neos (MONTANER, 2009), Arquitetura e cr\u00edtica na Am\u00e9rica Latina (MONTANER, 2014), Arquitetura e Pol\u00edtica (MONTANER; MUX\u00cd, 2014) e A condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da arquitetura (MONTANER, 2016).<\/p>\n<p>\u00c9 importante perceber mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o em sua teoria. Perguntando sobre a linearidade adotada em Depois do movimento moderno, ele justifica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">De fato, procedo da mesma forma tanto com os textos liter\u00e1rios quanto com os textos de arquitetura. Por tr\u00e1s, possuem uma estrutura muito pensada, que procuro que seja muito clara, no fundo at\u00e9 estruturalista, sobre a qual depois vai se construindo o trabalho. Antes de tudo, eu penso, por um lado, nessa estrutura, seja para um ensaio ou para um livro, e, por outro lado, em algumas coisas concretas que pretendo dizer. Por isso talvez quando oriento uma tese, tamb\u00e9m me fixo sobretudo na estrutura do trabalho. Em meu caso existe essa obsess\u00e3o no sentido de que detr\u00e1s de todo trabalho feito haja uma constru\u00e7\u00e3o, que ainda que s\u00f3 eu conhe\u00e7a, exista: no livro pronto n\u00e3o se ver\u00e1, mas estar\u00e1 por baixo. N\u00e3o sei se isso ajuda na compreens\u00e3o do texto, mas espero que sim. (MONTANER, 2001, p. 6, grifo nosso)<\/p>\n<p>Esta linha de pensamento estruturalista logo dar\u00e1 lugar a um pensamento mais p\u00f3s-estruturalista, como ele pr\u00f3pria afirma ao final do texto Fragmenta\u00e7\u00e3o, caos e iconicidade (MONTANER, 2016).<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que Bronstein (2013) nos alerta sobrea necessidade de termos chaves de leitura a respeito da cr\u00edtica aos objetos arquitet\u00f4nicos, quando prop\u00f5e \u201cuma invers\u00e3o gest\u00e1ltica do material a ser analisado: n\u00e3o mais objetos arquitet\u00f4nicos, mas as pr\u00e1ticas discursivas que enredam estes objetos. Um elenco de criatura e criadores que pairam sobre a materialidade da obra\u201d (BRONSTEIN, 2013, p.2).<\/p>\n<p>Ainda, com o objetivo de entender melhor a constru\u00e7\u00e3o de seu pensamento, Montaner nos informa sua posi\u00e7\u00e3o a respeito da cr\u00edtica arquitet\u00f4nica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quando envelhecemos nos damos conta \u2013 e isso \u00e9 um inconveniente \u2013 de que acompanhamos os autores mais velhos, que consideramos nossos mestres, e que nos custa muito ler os mais jovens. Da mesma maneira, n\u00e3o me l\u00eaem estes a quem eu leio, que s\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es anteriores: quem me l\u00ea \u00e9 mais jovem. Talvez exista uma certa dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. Com respeito \u00e0s gera\u00e7\u00f5es maduras, h\u00e1 uma s\u00e9rie de autores que me interessam muito e que continuo lendo: Colin Rowe, Alan Colquhoun, Roy Landau, Roberto Fern\u00e1ndez, Pancho Liemur, Carlos Eduardo Comas, Ignasi de Sol\u00e0-Morales, Mike Davis, Anthony Vidler ou William Curtis. Julgo sobretudo desde o ponto de vista do rigor, da capacidade cr\u00edtica e interpretativa, da profundidade e coer\u00eancia que encontro nos escritos desses autores. Da gera\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima \u00e0 minha, citaria autores como Mark Wigley, Dennis Dollens ou Leonie Sandercock. H\u00e1 tamb\u00e9m outros autores que deixei de ler, que j\u00e1 me interessam menos porque me parecem repetitivos, como Kenneth Frampton, Oriol Bohigas, Charles Jencks ou Ramon Gutierrez. (MONTANER, 2001, p. 8-9).<\/p>\n<p>O texto utilizado como refer\u00eancia para este ensaio, no entanto, sugere uma retomada da an\u00e1lise do objeto como fruto de uma produ\u00e7\u00e3o autoral, n\u00e3o levando em conta os poss\u00edveis discursos que poderiam t\u00ea-los produzido. Montaner (MONTANER, 2016) cita Colin Rowe como sendo uma importante chave de leitura para a an\u00e1lise dos \u00edcones, deixando claro esta nova posi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Depois da idade dourada da cr\u00edtica e da teoria da arquitetura das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, tanto do projeto cr\u00edtico (de Aldo Rossi ou Manfredo Tafuri) como do formalismo anal\u00edtico (de Colin Rowe), a arquitetura e o urbanismo da fragmenta\u00e7\u00e3o t\u00eam continua\u00e7\u00e3o e se expressam no auge do novo pragmatismo, que tem sido denominado de \u201cp\u00f3s-cr\u00edtica\u201d. (MONTANER, 2016, p.71).<\/p>\n<p>Desta forma, tanto o projeto cr\u00edtico de Aldo Rossi e Manfredo Tafuri quanto o formalismo anal\u00edtico de Colin Rowe, est\u00e3o presentes nesta arquitetura e urbanismo de fragmenta\u00e7\u00e3o, permanecendo e se expressando neste momento &#8211; auge de um novo pragmatismo &#8211; a chamada \u201cp\u00f3s cr\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A partir da d\u00e9cada de 1990, especialmente nas culturas anglo-sax\u00e3 e holandesa, passou a predominar um pensamento herdeiro do pragmatismo estadunidense, iniciado e consolidado por Charles Sanders Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952). Trata-se de um empirismo radical que analisa e interpreta os fatos de maneira como os experimentamos, sem purismos nem preconceitos, sendo atualmente desenvolvido por te\u00f3ricos como Joan Ockman, Robert Somol, Sarah Whiting e Romer van der Toorn. (MONTANER, 2016, p.71).<\/p>\n<p>Para fortalecer este discurso, Montaner se utiliza de um eloquente texto de Robert Somol e Sarah Whiting, onde os autores buscam analisar alguns modus operandi sobre a cr\u00edtica arquitet\u00f4nica e estabelecem a \u201cironia\u201d como uma chave de an\u00e1lise importante (MONTANER, 2016, p.71).<\/p>\n<p>Al\u00e9m ao car\u00e1ter \u201cir\u00f4nico\u201d, Montaner associa a tr\u00edade \u201c\u00edcone, \u00edndice e s\u00edmbolo\u201d de Peirce (2005) como elementos fundamentais para o entendimento e an\u00e1lise deste novo pragmatismo. A chave de leitura, para Montaner, \u00e9 que dentro dos \u00edcones Peirce (2005) situa as imagens, diagramas e met\u00e1foras como elementos formadores de sua completude.<\/p>\n<p>Aqui, mais uma vez, podemos estabelecer um paralelo com a chave de leitura empregada por Jencks (2005). Embora este n\u00e3o tenha estabelecido a refer\u00eancia formal que norteia sua an\u00e1lise, ele se utiliza dos conceitos de signo, imagem, \u00edcone, met\u00e1foras.<\/p>\n<p>Para exemplificar o conceito de \u00edcone, Montaner (2016) n\u00e3o se aprofunda nos conceitos te\u00f3ricos, mas opta por relacionar exemplos de objetos arquitet\u00f4nicos e apresentar suas caracter\u00edsticas formais. Novamente podemos observar uma mudan\u00e7a de an\u00e1lise cr\u00edtica: n\u00e3o mais o discurso que est\u00e1 por tr\u00e1s da forma, mas uma disseca\u00e7\u00e3o da forma por ela mesma.<\/p>\n<p>Montaner inicia suas an\u00e1lises, utilizando como exemplo o projeto de Peter Eisenman para o Monumento \u00e0s v\u00edtimas do holocausto nazista, destacando a met\u00e1fora \u2013 e sua interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 como uma de suas caracter\u00edsticas sem, no entanto, deixar de criticar o que ele considera \u201cum exagero\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Al\u00e9m do Eisenman te\u00f3rico e desenhista, h\u00e1 o projetista e construtor. Entre suas obras mais representativas, encontra-se o monumento comemorativo \u00e0s v\u00edtimas do holocausto nazista (Berlim, 1997-2005), uma obra minimalista cheia de sugest\u00f5es sobre como interpretar a hist\u00f3ria, a pol\u00edtica e a cidade. Contudo, uma obra t\u00e3o exagerada como a Cidade da cultura (Santiago de Compostela, 1999-2013), com algumas propostas t\u00e3o absurdas que fizeram que parte do projeto n\u00e3o fosse executada, faz com que questionemos as propostas do arquiteto. (MONTANER, 2016 p.72, grifo nosso)<\/p>\n<p>Um aspecto interessante a ser observado \u00e9 que Montaner n\u00e3o oferece uma chave de leitura baseada na teoria que cita no come\u00e7o de seu texto \u2013 seja baseada na semi\u00f3tica de Peirce, na cr\u00edtica de Rowe e Tafuri ou mesmo nos diagramas de Eisenman\u2013 oferecendo uma an\u00e1lise puramente subjetiva e parcial. No mesmo par\u00e1grafo, ele segue, analisando outro projeto \u2013 a Cidade da Cultura (1999-2013), em Santiago de Compostela:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O gigantesco projeto cria uma montanha artificial de m\u00e1rmore inacess\u00edvel para substituir o ec\u00f3topo existente, com certas passagens para pedestres que lembram desfiladeiros e imensos espa\u00e7os internos definidos por tramas diagram\u00e1ticas e fragmentadas formadas por tetos falsos que ocultam uma grande quantidade de volumes perdidos. Portanto, aplicando a mesma teoria pragm\u00e1tica que valoriza os fen\u00f4menos em seus efeitos sobre a realidade e suas qualidades comprov\u00e1veis, os nefastos resultados da Cidade da Cultura p\u00f5em em crise as propostas te\u00f3ricas que ela pr\u00f3pria pretendia legitimar. (MONTANER, 2016, p.72-3, grifo nosso)<\/p>\n<p>Montaner segue sua constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica analisando o Museu da Acr\u00f3pole (Atenas, 2009) de Bernard Tschumi, sem, no entanto, deixar de comentar que o autor \u201cque em sua juventude conseguiu realizar um importante projeto, o parque de La Villette (Paris, 1982-1990), em sua obra posterior caiu em certa atonia, apesar de sua potente base te\u00f3rica. (MONTANER, 2016, p. 73).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Embora uma parte da cr\u00edtica tenha considerado excessivo seu volume e pouco respeitosa sua rela\u00e7\u00e3o com o entorno imediato, o museu apresenta clareza tipol\u00f3gica, com espa\u00e7os e acessos amplos, lugares generosos e abundantes para se sentar comodamente e admirar as obras de arte e apresenta boa ilumina\u00e7\u00e3o natural e artificial, prote\u00e7\u00e3o adequada do sol e do calor e uma boa rela\u00e7\u00e3o, especialmente no terceiro n\u00edvel, entre o museu e o templo original. (MONTANER, 2016, p.74).<\/p>\n<p>O que Montaner oferece, no entanto, \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o do percurso que o usu\u00e1rio faz no Museu e uma opini\u00e3o altamente subjetiva sobre os espa\u00e7os criados pelo autor do projeto, deixando, mais uma vez, de oferecer uma an\u00e1lise cr\u00edtica sobre o objeto ic\u00f4nico.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel perceber a presen\u00e7a da met\u00e1fora e sua rela\u00e7\u00e3o com os antigos templos, assim como seria poss\u00edvel associar uma an\u00e1lise da imagem do objeto como \u201c\u00edcone, \u00edndice e s\u00edmbolo\u201d (PIERCE, 2005). No entanto, tal an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 apresentada.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo arquiteto a ter sua obra analisada \u00e9 Rem Koolhaas:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Se h\u00e1 um arquiteto que representa essa virada do s\u00e9culo, \u00e9 Rem Koolhaas (1944), que j\u00e1 havia se destacado por seus escritos e sua capacidade de criar relatos arquitet\u00f4nicos em Nova Yorka delirante, bem como por uma obra incipiente, como o Kunsthall (Rotterdam, 1987-1992). A prol\u00edfica atividade arquitet\u00f4nica e cr\u00edtica de Koolhaas, que lidera o OMA [&#8230;] atingiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, um de seus pontos culminantes: a embaixada dos Pa\u00edses Baixos em Berlim, o centro McCormick-Tribune, em Chicago, a Casa da M\u00fasica, na cidade do porto, e a biblioteca p\u00fablica de Seattle. (MONTANER, 2016, p.74).<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Montaner segue como uma descri\u00e7\u00e3o do objeto arquitet\u00f4nico, abrindo m\u00e3o de uma tentativa de entender a constru\u00e7\u00e3o do discurso do arquiteto, ou mesmo se aprofundar nas quest\u00f5es te\u00f3ricas que possam estar envolvidas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O edif\u00edcio estabelece uma \u00f3tima rela\u00e7\u00e3o com o tecido urbano e social e \u00e9 o resultado de um s\u00e9culo de pol\u00edticas-modelo nas bibliotecas p\u00fablicas de Seattle. Aproveitou-se o desn\u00edvel entre as duas ruas da quadra em que se situa, facilitando o acesso a todo tipo de pessoas, e oferecendo belas vistas sobre a ba\u00eda. Em seu interior, desenvolve-se a vontade de repensar totalmente a tipologia da biblioteca contempor\u00e2nea: agrupam-se os volumes com as fun\u00e7\u00f5es mais determinadas e valoriza-se o movimento, a fluidez, a flexibilidade, a versatilidade e as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas que est\u00e3o nos grandes espa\u00e7os horizontais e verticais formados entre esses volumes. Enfim, Koolhaas conseguiu que seu pr\u00f3prio relato arquitet\u00f4nico se sintonizasse com aquele de uma cidade culta e passasse a fazer parte dela. (MONTANER, 2016, p.75).<\/p>\n<p>Ao analisar a Casa da M\u00fasica (Porto, 1999-2005), Montaner apresenta alguns conceitos para tentar decifrar o projeto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Analisada sob uma perspectiva hist\u00f3rica, a obra de Rem Koolhaas desenvolve uma estrat\u00e9gia tipol\u00f3gica clara para a passagem de certos programas, que sempre s\u00e3o reformulados, a espa\u00e7os din\u00e2micos, que funcionam e conseguem resultar unidade e coer\u00eancia. Estes mecanismos de renova\u00e7\u00e3o tipol\u00f3gica baseiam-se na \u00eanfase e na autonomia e, ao mesmo tempo, na conex\u00e3o entre diversas partes do programa previamente reagrupado; em um ponto de partida relativamente indeterminado, que permite combina\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas e vari\u00e1veis, e em um sistema de superposi\u00e7\u00f5es de volumes e n\u00edveis [&#8230;] e o recurso da dobra procede do pensamento de Gilles Deleuze. (MONTANER, 2016, p.76, grifo nosso)<\/p>\n<p>Montaner segue sua an\u00e1lise apresentando a escola holandesa contempor\u00e2nea, na figura do escrit\u00f3rio MVRDV, sem, no entanto, deixar de lado o tom ir\u00f4nico e, por vezes, mordaz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Durante esta mudan\u00e7a de s\u00e9culo, a forte presen\u00e7a da arquitetura holandesa dentro de uma linha hedonista e experimental baseada em diagramas e \u00edcones, na linguagem e na pragm\u00e1tica, tem sido criticada ironicamente por Roemer von Toorn devido a seu formalismo e falta de comprometimento pol\u00edtico. Esse conservadorismo, por sua ignor\u00e2ncia dos n\u00edveis mais profundos, se expressa em formas aparentemente atuais, inovadoras e divertidas. (MONTANER, 2016, p.76)<\/p>\n<p>Embora utilize o termo \u00edcone\/ic\u00f4nica, Montaner n\u00e3o deixa claro quais aspectos caracterizam, sob o seu ponto de vista e interpreta\u00e7\u00e3o, o que viria a ser este tipo de arquitetura. A simples refer\u00eancia a Peirce (2005) no in\u00edcio de seu texto n\u00e3o \u00e9 suficiente para clarificar quais conceitos deste autor ele se apropria. Como exemplo, ao analisar o projeto Markhall do MVRDV, Montaner apenas diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Sua obra espetacular mais recente \u00e9 o Markhal (Rotterdam, 2004-2014), uma edifica\u00e7\u00e3o de tipologia h\u00edbrida, fortemente ic\u00f4nica, como uma catedral ou t\u00fanel com 228 habita\u00e7\u00f5es cobrindo um mercado. (MONTANER, 2016, p.78)<\/p>\n<p>O que seria, ent\u00e3o, uma edifica\u00e7\u00e3o fortemente ic\u00f4nica?<\/p>\n<p>Montaner ent\u00e3o apresenta a produ\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio BIG, dando-lhes o t\u00edtulo de \u201ca iconicidade da arquitetura\u201d (MONTANER, 2016, p. 78). Ao leitor, resta a esperan\u00e7a de uma explica\u00e7\u00e3o mais acad\u00eamica, embasada nos crit\u00e9rios te\u00f3ricos prometidos no in\u00edcio do texto. No entanto, a explica\u00e7\u00e3o dada pelo autor \u00e9 um tanto mais simples.<\/p>\n<p>A iconicidade prometida se resume ao fato do escrit\u00f3rio utilizar s\u00edmbolos (e n\u00e3o \u00edcones, como sugere Montaner) em seu website para identificar suas obras.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Outra heran\u00e7a de Rem Koolhaas \u00e9 a iconicidade da arquitetura de seu disc\u00edpulo Bjarke Ingels (1974) e seu ateli\u00ea BIG que, para entrar no mercado de concursos e contratos internacionais em um mundo global de maior concorr\u00eancia, exploram ao m\u00e1ximo as possibilidades dos signos e das imagens, seguindo as teorias de Sanders Peirce e seu conceito de \u00edcones expressos em diagramas e met\u00e1foras. Toda a obra de BIG resume-se, assim como apresenta o portal de sua p\u00e1gina na internet, aos \u00edcones que o ateli\u00ea expressa em cada uma de suas interven\u00e7\u00f5es, sendo cada projeto explicado por meio de anima\u00e7\u00f5es extremamente did\u00e1ticas e sugestivas. Assim, a marca BIG consegue ter reconhecimento na m\u00eddia e distin\u00e7\u00e3o internacional. (MONTANER, 2016, p.78).<\/p>\n<p>Concluindo a sequ\u00eancia de arquitetos e obras, Montaner analisa algumas obras de Zaha Hadid, classificando-a como \u201ctipologias para o futuro\u201d (MONTANER, 2016, p. 79). \u00c9 interessante observar que novamente temos os mesmos edif\u00edcios j\u00e1 analisados por Jencks (2005), mas a quem Montaner se refere jocosamente como repetitivo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A linha que Hadid tem desenvolvido mais amplamente \u00e9 a dos grandes edif\u00edcios com imensas curvaturas e enormes balan\u00e7os, como o MAXXI, o Museu Nazionale dele Arti del XXI Secolo (Roma, 1998-2009) ou a biblioteca da Universidade de Viena (Viena, 2013), com seu balan\u00e7o ic\u00f4nico e um excesso de grandes espa\u00e7os internos, que lembram um transatl\u00e2ntico. (MONTANER, 2016, p.80, grifo nosso)<\/p>\n<p>Mais uma vez, o autor n\u00e3o deixa claro o sentido do termo ic\u00f4nico \u2013 em especial ao se referir a um balan\u00e7o estrutural e n\u00e3o a uma poss\u00edvel meta-linguagem que a imagem possa estar oferecendo.<\/p>\n<p>Montaner encerra seu texto concluindo que \u201co pensamento p\u00f3s-estruturalista e a nova ci\u00eancia tem contribu\u00eddo para a arquitetura e o urbanismo contempor\u00e2neos com refer\u00eancias conceituais e geom\u00e9tricas, como no caso dos fractais, das dobras e dos rizomas\u201d (MONTANER, 2016, p.81).<\/p>\n<p>No entanto, de que forma os conceitos p\u00f3s-estruturalistas e esta nova ci\u00eancia auxiliam na cr\u00edtica e na an\u00e1lise n\u00e3o fica explicitado, uma vez que nos exemplos elencados fica clara a subjetividade das an\u00e1lises. A Arquitetura ic\u00f4nica permanece \u2013 ao menos para Montaner &#8211; em suspens\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/h2>\n<p>Discutir conceitos \u2013 ou mesmo cri\u00e1-los \u2013 faz parte da discuss\u00e3o te\u00f3rica no campo da arquitetura e urbanismo e n\u00e3o constituem unanimidades, muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mesmo cr\u00edticos que j\u00e1 possuam um grande respaldo gra\u00e7as \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o e contribui\u00e7\u00e3o podem apresentar dificuldades em estabelecer crit\u00e9rios \u2013 ou chaves de leitura \u2013 para a an\u00e1lise de determinados assuntos. \u00c9 assim em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o do \u00edcone, por exemplo.<\/p>\n<p>Se no campo da Semi\u00f3tica h\u00e1 d\u00e9cadas esta discuss\u00e3o est\u00e1 colocada, ainda que sob diferentes olhares, aproxima\u00e7\u00f5es e cr\u00edticas, na Arquitetura ainda existe um grande caminho a ser percorrido.<\/p>\n<p>Muito embora seja um termo bastante utilizado, o \u00edcone em Arquitetura necessita de algo mais do que somente a relacionalidade com a simplifica\u00e7\u00e3o da forma e sua apreens\u00e3o gest\u00e1ltica e similitude \u2013 como sugere Jencks \u2013 ou a retomada do objeto e an\u00e1lise diagram\u00e1tica \u2013 como entende Montaner.<\/p>\n<p>Nos dois trabalhos selecionados para a an\u00e1lise apresentada neste ensaio, nenhum dos dois autores conseguiu, de fato, apresentar uma metodologia ou um vi\u00e9s de interpreta\u00e7\u00e3o. Jencks (2005) esbo\u00e7a uma defini\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o se fortalece \u00e0 medida que o autor apresenta as dezenas de exemplos elencados ao longo do livro. Qual seria a met\u00e1fora por detr\u00e1s da biblioteca de Seattle, por exemplo? Coincidentemente, \u00e9 um exemplo que tamb\u00e9m aparece na an\u00e1lise de Montaner (2016).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o objetivo deste texto apresentar as teorias de Charles Sanders Peirce \u2013 pois de fato, se utilizadas por Jencks e Montaner deveriam estar presentes em seus textos originais, ainda que somente os pontos os quais os autores se fizeram valer. No entanto, acreditamos que passados mais de sessenta anos de sua publica\u00e7\u00e3o, em 1953, seja poss\u00edvel que a teoria de Peirce (2005) necessite de uma atualiza\u00e7\u00e3o \u2013 ou, no m\u00ednimo, de uma releitura.<\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que o \u00edcone, uma vez \u201cdefinido\u201d, se mant\u00e9m imut\u00e1vel? Finalizamos este texto com esta reflex\u00e3o: Tudo pode ser um \u00edcone. (JENCKS, 2005, p.40).<\/p>\n<h2><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h2>\n<p>BRONSTEIN, La\u00eds. Acerca da cr\u00edtica aos objetos arquitet\u00f4nicos.\u00a0Arquitextos, S\u00e3o Paulo, ano 14, n. 160.03, Vitruvius, set. 2013 &lt;http:\/\/www.vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/14.160\/4879&gt;. Acesso: 09 dez. 2022.<\/p>\n<p>HAYS, K. Michael (ed.) <strong>Architecture Theory since 1968<\/strong>. New York: MIT Press, 2000.<\/p>\n<p>JENCKS, Charles. <strong>Charles Jencks CV and Narrative<\/strong>. Charles Jencks official website, London, 2016. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.charlesjencks.com\/#!biography. Acesso: 09 dez.2022.<\/p>\n<p>JENCKS, Charles; BAIRD, George. <strong>Meaning in Architecture<\/strong>. New York: George Brazillier, 1969.<\/p>\n<p>JENCKS, Charles; SILVER, Nathan. <strong>Adhocism<\/strong>. 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Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.ufrgs.br\/propar\/publicacoes\/ARQtextos\/PDFs_revista_1\/1_Montaner.pdf&gt;. Acesso em: 09 dez. 2022.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria. <strong>Arquitectura y critica<\/strong>. Barcelona: Gustavo Gili, 1999.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria. <strong>A modernidade superada<\/strong>: arquitetura, arte e pensamento do s\u00e9culo XX. Barcelona: Gustavo Gili, 2001b.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria. <strong>Depois do movimento moderno<\/strong>: Arquitetura da segunda metade do s\u00e9culo XX. Barcelona: Gustavo Gili, 2001c.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria.\u00a0 <strong>As formas do s\u00e9culo XX<\/strong>. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria.\u00a0\u00a0 <strong>Sistemas arquitet\u00f4nicos contempor\u00e2neos<\/strong>. Barcelona: Gustavo Gili, 2009.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria. <strong>Arquitetura e cr\u00edtica na Am\u00e9rica Latina<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Romano Guerra, 2014.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria; MUX\u00cd, Zaida. <strong>Arquitetura e Pol\u00edtica<\/strong>: ensaios para mundos alternativos. Barcelona: Gustavo Gili, 2014.<\/p>\n<p>MONTANER, Josep Maria. <strong>A condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Arquitetura<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Gustavo Gili, 2016.<\/p>\n<p>PEIRCE, Charles S. <strong>Semi\u00f3tica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2005.<\/p>\n<p>SBARRA, Marcelo.\u00a0<strong>Os \u00edcones do Porto Maravilha numa abordagem da Teoria Ator-Rede\/<\/strong>. 2020. 304 f. Tese (Doutorado) &#8211; Curso de Arquitetura, PROARQ\/FAU\/UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a><\/sup> Arquiteto e Urbanista; Doutor em Arquitetura (PROARQ\/\/FAU\/UFRJ); Especialista em Ci\u00eancias Humanas: Sociologia, Hist\u00f3ria e Filosofia (PUC-RS), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Lugares e Paisagens (PROARQ\/FAU\/UFRJ).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A motiva\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento deste texto veio atrav\u00e9s de duas for\u00e7as. 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