{"id":704,"date":"2023-01-05T09:04:29","date_gmt":"2023-01-05T12:04:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/?p=704"},"modified":"2023-01-12T20:16:17","modified_gmt":"2023-01-12T23:16:17","slug":"defesa-do-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/reflexoes\/defesa-do-dialogo","title":{"rendered":"1.4 Em defesa do di\u00e1logo no fazer cient\u00edfico interdisciplinar: provoca\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Antonio Luiz da Silva <sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Diana Sampaio Braga <sup><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/sup><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">DOI:\u00a010.32749\/nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/704<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se estivessem reproduzindo os universos pol\u00edticos e\/ou religiosos, de certo por estes sistemas serem mais antigos e consolidados nas comunidades humanas, parece que as pr\u00e1ticas comuns das ci\u00eancias t\u00eam se acostumado a funcionar como que em igrejas e partidos pr\u00f3prios, em ambientes cercados pelas redomas dos altares e das ideologias metodol\u00f3gicas, intelectuais, regionais, nacionais, internacionais, onde cada qual deve pisar apenas no seu quadrado. Assim, as ci\u00eancias t\u00eam se arredomado, revestindo-se em import\u00e2ncias mais para o norte e menos para o sul. N\u00e3o sem motivo, como afirma Santos (2015, p. 25): \u201cCom efeito, a racionalidade que domina no Norte tem tido uma influ\u00eancia enorme em todas as nossas maneiras de pensar, em nossas ci\u00eancias, em nossas concep\u00e7\u00f5es da vida e do mundo\u201d. Nesse sentido, as ci\u00eancias parecem ser mais vistosas em pa\u00edses ricos e menos \u2018vitais\u2019 em pa\u00edses empobrecidos. Mas tamb\u00e9m, seu status geral \u00e9 mais amplo quando se refere \u00e0s ci\u00eancias da natureza e menos vis\u00edvel nas ci\u00eancias sociais. Al\u00e9m disso, o investimento financeiro dispensa maior montante econ\u00f4mico nas ci\u00eancias relativas \u00e0 sa\u00fade, ficando a menor cifra para as ci\u00eancias que se debatem no campo das humanidades.<\/p>\n<p>Est\u00e1 cada vez mais claro que no entorno do empreendimento chamado ci\u00eancia est\u00e3o quest\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, culturais de magnitudes incomensur\u00e1veis. Por essas e outras raz\u00f5es, cada cren\u00e7a \u2018dita cient\u00edfica\u2019 costuma ter infinitas dificuldades para dialogar abertamente com qualquer que seja o \u2018credo\u2019 que se posicione do lado disputante, mesmo aqueles que est\u00e3o distantes ou diferentes de sua vis\u00e3o, n\u00e3o precisando sequer ser oposto ou estar em oposi\u00e7\u00e3o conflitante.<\/p>\n<p>Di\u00e1logo parece ser um movimento dif\u00edcil no campo cient\u00edfico, tanto no plano pr\u00e1tico quanto no plano te\u00f3rico. Em alguma medida, quando o assunto \u00e9 ci\u00eancia, parece ser mais importante alumiar as diferen\u00e7as, mesmo que sejam m\u00ednimas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo a que cada grupo consolidado se habituou a lidar.<\/p>\n<p>Seria apenas um ran\u00e7o do passado, estabelecido quando as ci\u00eancias modernas estavam nascendo? Teria isso algum sentido ainda hoje? Acaso houve no passado alguma cl\u00e1usula para que esse comportamento se prolongasse permanentemente reiterado? Talvez por algum motivo que visava um certo e necess\u00e1rio diferenciamento, ao inv\u00e9s de uma delimita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o\/objeto, as ci\u00eancias acabaram estabelecendo um distanciamento abissal umas das outras, passando cada qual a defender, a ferro e a fogo, o seu quinh\u00e3o particular no universo global do conhecimento. Nada mais tonto.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel que n\u00e3o haja di\u00e1logo nas ci\u00eancias e que elas continuem a defender uma postura cada vez mais arraigada, de fechamento, de ilhamento entre os saberes. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que cientistas se ignorem mutuamente.<\/p>\n<p>Neste ensaio assume-se a tarefa de refletir sobre a quest\u00e3o do di\u00e1logo nas ci\u00eancias, tomando como espa\u00e7o espec\u00edfico o fazer na psicologia. N\u00e3o se tem a pretens\u00e3o da palavra derradeira. Admite-se que esse campo precisa continuar sendo olhado, em comunh\u00e3o com muitos outros pensadores, alguns abaixo citados e outros referenciados. No entanto, mesmo que se reconhe\u00e7a a quase inexist\u00eancia de di\u00e1logo internamente, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer que algumas sub\u00e1reas dos saberes psicol\u00f3gicos conseguem canais de di\u00e1logos na dire\u00e7\u00e3o de alguns saberes externos. Buscar-se-\u00e1 argumentar acerca da import\u00e2ncia do di\u00e1logo tanto interno quanto externo, defendendo-se ser o g\u00eanero humano o ponto de partida e o maior objetivo tanto da ci\u00eancia em geral quanto da psicologia em suas subdivis\u00f5es particulares. Defende-se a constru\u00e7\u00e3o de uma psicologia plural, diversa, mas n\u00e3o fechada. Julga-se oportuno e necess\u00e1rio o di\u00e1logo amplo e espec\u00edfico, interno e externo, macro e micro.<\/p>\n<p>Para facilitar a leitura, ap\u00f3s essa breve introdu\u00e7\u00e3o, o texto foi dividido em dez pequenos peda\u00e7os, al\u00e9m da conclus\u00e3o. Embora guardando estreitas rela\u00e7\u00f5es, cada peda\u00e7o poder\u00e1 ser lido de modo independente.<\/p>\n<h2><strong>O separatismo nas ci\u00eancias que estudam o ser humano<\/strong><\/h2>\n<p>Ilustrando-se essa l\u00f3gica dos muitos abismos constru\u00eddos pelo fazer cient\u00edfico, observe-se o caso espec\u00edfico da psicologia e da sociologia. Embora ambas, psicologia e sociologia, tenham o mesmo interesse centralizado no humano, se diz, de modo separatista, que o objeto da psicologia \u00e9 o individual e o da sociologia \u00e9 o coletivo, que a primeira \u00e9 ci\u00eancia do privado ao passo em que a segunda \u00e9 ci\u00eancia do social. Imagine-se que n\u00e3o se trata de questionar a for\u00e7a ou a fragilidade dessa \u2018verdade\u2019, ela j\u00e1 est\u00e1 nua por princ\u00edpio. Mas de reconhecer o seu car\u00e1ter nocivamente reificado. Talvez esse tipo de observa\u00e7\u00e3o deva se estender para as ci\u00eancias sociais, incluindo-se a antropologia e a ci\u00eancia pol\u00edtica. Devem ser elas tamb\u00e9m separadas?<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do espa\u00e7amento no campo da ci\u00eancia vai do did\u00e1tico ao desmedido. Recorda-se aqui o relato de um palestrante querendo esclarecer a diferen\u00e7a entre sociologia, antropologia e ci\u00eancias pol\u00edticas. Grosso modo, o seguinte foi seu argumento: tome-se uma cidade. A sociologia se interessa por ela inteira, tendo que dar conta de compreender a cidade toda como um sistema global, considerando-a em seus mais variados aspectos sociais. Diferente da sociologia, a antropologia iria se interessar apenas por uma parte da cidade. Ou melhor, se interessaria, quando muito, por uma de suas ruas, por um beco ou uma viela. E nesse universo, a ci\u00eancia pol\u00edtica se interessaria pelo sistema de governo, pelas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Numa explica\u00e7\u00e3o assim, n\u00e3o some o humano? Imagine-se o que nessa hipot\u00e9tica cidade sobraria \u00e0 psicologia&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 dito, grosso modo, que a psicologia \u00e9 a ci\u00eancia do indiv\u00edduo, do comportamento. \u00c9 importante sempre que o trabalhador da psicologia se pergunte: se a psicologia \u00e9 a ci\u00eancia do individual, seria poss\u00edvel que ela se interessasse apenas por indiv\u00edduos arrancados da coletividade? Seria poss\u00edvel uma leitura do comportamento ou da individualidade sem as muitas conex\u00f5es? Nem toda psicologia \u00e9 individualista. Seguindo o racioc\u00ednio de Bock, Furtado e Teixeira (2001), a psicologia se interessa pela subjetividade humana, tendo-a como seu objeto de estudo. E, nesse aspecto, a subjetividade humana deve ser estudada, na globalidade da cidade, no atravessamento geracional e relacional, no conflito e no consenso, no entrecruzamento dos arranjados pol\u00edticos administrativos do viver, nas rela\u00e7\u00f5es mi\u00fadas enfrentadas no meio do pequeno terreiro ou da grande pra\u00e7a, trancada em um beco ou a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>De fato, num simplismo terr\u00edvel, se s\u00f3 tem um indiv\u00edduo, pode-se acreditar que esse deve ficar a cargo da psicologia, como se o modelo dessa disciplina fosse apenas o de uma cl\u00ednica psicol\u00f3gica ass\u00e9ptica. Por\u00e9m, se houver mais gente, formando um aglomerado, deixa-se \u00e0 sociologia, porque \u00e9 esta quem consegue dar conta dos agenciamentos coletivos. Ali\u00e1s, at\u00e9 mesmo a psicologia social, cujo adjetiva\u00e7\u00e3o \u2018social\u2019 lhe faz uma defesa demarcat\u00f3ria, n\u00e3o conseguiu ficar imune \u00e0 essa rotula\u00e7\u00e3o. Tanto assim \u00e9 que ela precisou da alcunha de psicologia social psicol\u00f3gica e psicologia social sociol\u00f3gica, na tentativa de compreender o enraizamento desse individualismo nela historicamente instalado (FARR, 1998).<\/p>\n<p>Dentro desse movimento de afastamento, se diz tamb\u00e9m que ao contr\u00e1rio da antropologia, da sociologia e da ci\u00eancia pol\u00edtica, a psicologia faz parte do universo das ci\u00eancias da sa\u00fade e n\u00e3o das ci\u00eancias sociais ou que ela faz parte das ci\u00eancias humanas e as outras fazem das ci\u00eancias das sociedades. Ora! N\u00e3o t\u00eam todos os interesses pelas causas humanas? E os humanos onde vivem? Talvez esse tosco argumento comece de vez a ser quebrado com a entrada de antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos no campo da sa\u00fade (FLEISCHER, 2012; PEREIRA, 2016).<\/p>\n<h2><strong>A dificuldade do di\u00e1logo no \u00e2mbito intradisciplinar<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9 importante ainda reconhecer que o problema do enclausuramento n\u00e3o tende a apenas ao interdisciplinar. N\u00e3o se trata somente de \u201cA\u201d que n\u00e3o consegue dialogar com \u201cB\u201d e com \u201cC\u201d e com o restante do pr\u00f3prio alfabeto acad\u00eamico, tanto em seu aspecto <em>sof<\/em>t quanto em seu car\u00e1ter <em>hard<\/em> das ci\u00eancias exatas ou sociais (BORJAS GIL, e V\u00cdLCHEZ PAZ, 2010). Trata-se da constata\u00e7\u00e3o de que o fen\u00f4meno do n\u00e3o di\u00e1logo e das falas truncadas se reproduzem tamb\u00e9m na esfera intradisciplinar. \u00c9, ent\u00e3o, o \u201cA\u201d que, por algum motivo, n\u00e3o consegue conversar com facetas inversas do pr\u00f3prio \u201cA\u201d. \u00c9 como se os campos disciplinares dos saberes sociais e humanos tivessem fechado suas portas e janelas para seu pr\u00f3prio interior. E dentro de seu pr\u00f3prio casulo parece que eles tamb\u00e9m fecharam entradas e acesso aos seus poss\u00edveis compartimentos.<\/p>\n<p>Olhando de longe, as disciplinas podem at\u00e9 se assemelhar a grandes bloc\u00f5es de conhecimentos sistematizados, mas, adentrando-se em seu \u00edntimo, o que se revela melhor s\u00e3o os seus espatifamentos, seus cacos, ocasionando mil faces turvas, umas nem conseguindo olhar para as outras. Internamente, as disciplinas est\u00e3o trancadas por suas correntes, abordagens, referenciais te\u00f3ricos, bases epistemol\u00f3gicas, coisas que elas pr\u00f3prias inventaram em seus caminhos.<\/p>\n<p>Nos espa\u00e7os da psicologia, campo aqui tomado de modo particular, como j\u00e1 mostrou Luiz Cl\u00e1udio Figueiredo (1996), h\u00e1 verdadeiramente uma gigantesca fragmenta\u00e7\u00e3o, o que faz com que todos os galhos e ramifica\u00e7\u00f5es da disciplina estejam praticamente isolados, se alimentando de fontes as mais desconectadas poss\u00edveis de uma globalidade disciplinar. A psicologia desconhece a pr\u00f3pria psicologia. A abordagem psicanal\u00edtica n\u00e3o sabe de onde vem abordagem cognitivo-comportamental, que n\u00e3o sabe quem \u00e9 a abordagem gest\u00e1ltica etc. Dessa forma, nos rompantes das muitas posturas acad\u00eamicas psicol\u00f3gicas o h\u00e1bito \u00e9 alumiar muito mais aquilo que desune, que \u00e9 irreconcili\u00e1vel, e muito menos aquilo que mostra os muitos ramos como membros de uma mesma fam\u00edlia, como parentes intelectuais.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que \u00e9 importante reconhecer o esfor\u00e7o dos historiadores da disciplina psi. Eles acreditam que, conhecendo bem as origens e ramifica\u00e7\u00f5es desse fazer, talvez assim seja poss\u00edvel um abra\u00e7o conceitual, uma quebra dos preconceitos que amea\u00e7am, que viram as costas e tantas coisas que afastam (SCHULTZ e SCHULTZ, 2002).<\/p>\n<h2><strong>A saga do pensamento sempre encaixotado<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9 verdadeiro que a psicologia tem se estabelecido num conjunto de caixas e caixinhas. Naquelas caixinhas tem sido colocados os pensamentos mais criativos de algumas pessoas. Quem olha dentro de uma caixinha, praticamente, fica empatado de olhar o que tem no interior da outra. Por\u00e9m, a primeira surpresa \u00e9 que muitos dos considerados criadores das determinadas caixinhas n\u00e3o se intitulavam criadores daquelas caixinhas. Em muitos casos, foram seus comentadores que, em algum momento e com um determinado olhar, a eles se dirigiram e assim os denominaram, a posteriori, \u00e0s vezes na qualidade de seus cr\u00edticos. E o mais impressionante \u00e9 que muitos dos criadores daquelas caixinhas n\u00e3o as criaram para os lugares em que hoje elas se encontram armazenadas. Assim, alguns pensamentos viraram caixinhas personalizadas, mesmo que n\u00e3o quisessem seus formuladores.<\/p>\n<p>Pode-se trazer a t\u00edtulo de exemplo o grupo da psican\u00e1lise, mas poderia ser da psicologia experimental ou de qualquer outra psicologia. Jacques Lacan, Fran\u00e7oise Dolto, Winnicott n\u00e3o disseram que eram lacanianos, fran\u00e7oisianos ou winnicottianos. Melanie Klein nunca afirmou ser kleiniana e mesmo Freud nunca disse ser um grande freudiano. No entanto, seguindo a l\u00f3gica das caixas e caixinhas, hoje todo mundo afirma que esses e outros autores constitu\u00edram escolas dentro de uma escola, a psican\u00e1lise. Teriam acaso quebrado o paradigma fundante? A psican\u00e1lise, inicialmente somente uma caixa, tornou-se ao longo dos anos uma grande caixa com v\u00e1rias caixinhas dentro?<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que pode mesmo chegar a acontecer de alguns seguidores dos pensamentos colocados nessas caixinhas terem dificuldades, ou vergonha, de dialogar com o todo daquela heran\u00e7a maior fora de seu caixote espec\u00edfico.<\/p>\n<p>No Brasil, por exemplo, j\u00e1 se diz, possivelmente, que Luiz Cl\u00e1udio de Figueiredo, Jurandir Freire Costa, Maria Rita Kehl, David Levisky e v\u00e1rios outros n\u00e3o s\u00e3o mais psicanalistas ou s\u00f3 psicanalistas. Uns pertencem ao campo freudiano, outros ao campo lacaniano e outros ainda h\u00e3o de pertencer sabe l\u00e1 Deus a quem. Por isso, s\u00e3o quaisquer coisas novas, dadas as lonjuras que eles assumem em seus escritos no que diz respeito a essa l\u00f3gica hegem\u00f4nica de encaixotamento, por vezes obtuso, muitos assumindo um pensamento mais aberto, coadunantes com seus tempos. Est\u00e3o mesmo construindo escolas ou novas pequenas caixinhas? N\u00e3o cabem mais dentro da caixa maior que a genialidade de Freud inventou, a psican\u00e1lise? N\u00e3o s\u00e3o trabalhadores do universo psi ou da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Mas muitos defendem que seus pressupostos s\u00e3o bem outros. E qual \u00e9 o problema? O ideal seria reproduzir <em>ad infinitum<\/em> para n\u00e3o correr o risco de ruptura paradigm\u00e1tica? Ou o ideal seria n\u00e3o olhar para al\u00e9m do posto? De certo caberia bem aqui a ideia de uma ci\u00eancia normal no sentido utilizado por Thom\u00e1s Kuhn (2003), cujo sentido deseja ser imut\u00e1vel e s\u00f3lido. De qualquer forma, sempre \u00e9 poss\u00edvel pensar que uma teoria comporta v\u00e1rias vers\u00f5es. Uma teoria \u00e9 um farolzinho aproximativo que clareia o real. E vai clareando ao redor do real.<\/p>\n<h2><strong>As v\u00e1rias faces ou a face da psicologia social<\/strong><\/h2>\n<p>Ainda dentro da psicologia, tome-se um exemplo da experi\u00eancia brasileira: a psicologia social. Hoje independente de suas muitas origens, das formas de pens\u00e1-la e conceb\u00ea-la, do modo como ela se apresenta, seria quase ou imposs\u00edvel coloc\u00e1-la numa mesma caixa. Quem poder\u00e1 imaginar a grande S\u00edlvia Lane e o grande Aroldo Rodrigues e todos os seus disc\u00edpulos num mesmo lugar? E quem o fizer ser\u00e1 acusado de irrespons\u00e1vel, de sincr\u00e9tico, de il\u00f3gico, de formulador de coxas de retalhos etc.<\/p>\n<p>Mas que vantagem representa, depois de tanto tempo, esse separatismo radical? N\u00e3o s\u00e3o ambos, em algum momento de suas vidas, trabalhadores da psicologia que se diz social? Suas diferen\u00e7as n\u00e3o enriquecem o olhar desse subcampo disciplinar? Uma vez permanecendo assim, ainda se trata de uma mesma disciplina? Por que assumem, desaforadamente, a mesma rubrica?<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o sempre exige que seus iniciados tomem partidos, apoiando um ou outro lado, ou inventando outra l\u00f3gica para pensar o elemento psi no mundo social, configurando assim um terceiro olho no meio da testa, esgar\u00e7ando ainda mais a teia complexa das rela\u00e7\u00f5es nessa subdivis\u00e3o disciplinar.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, chamando a aten\u00e7\u00e3o sobre a multiplicidade desse subcampo, que parece n\u00e3o estacionado nesses dois grandes nomes e\/ou modelos, os profissionais da psicologia social no Brasil contempor\u00e2neos, conforme Cordeiro e Spink, (2014, p. 289): \u201cUns(mas) baseiam-se nas leituras do Materialismo Hist\u00f3rico-Dial\u00e9tico para estruturar sua pr\u00e1tica profissional, outros(as) preferem as leituras construcionistas ou ainda as da Teoria das Representa\u00e7\u00f5es Sociais\u201d. Do que se depreende dessa leitura, a situa\u00e7\u00e3o vem chegando a tal complexidade que os pensadores t\u00eam medo de se citarem uns aos outros, ficando sempre com o p\u00e9 atr\u00e1s ou com pulgas atr\u00e1s das orelhas, para n\u00e3o incorrem em erros graves, em desvios de percursos intelectuais, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que agem sob o manto do mesmo distintivo disciplinar ou subdisciplinar. Tamb\u00e9m nesse campo, a impossibilidade de di\u00e1logo \u00e9 a regra.<\/p>\n<h2><strong>Portas fechadas para dentro, janelinhas abertas para fora<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9 claro que esse medo do interno abre possibilidade para outra dire\u00e7\u00e3o. Ainda no campo psi, para n\u00e3o praticar total injusti\u00e7a, deve-se admitir que apesar de frequentemente fechados para dentro, j\u00e1 existe um pouco mais de abertura para o exterior. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esclarecer se se trata de aberturas, de capturamentos ou de apropria\u00e7\u00f5es ind\u00e9bitas. Fato \u00e9 que j\u00e1 foram trazidos, traduzidos, adaptados e adotados pela psicologia: S. Freud, K. Marx, Jean Paul Sartre, B. Husserl, M. Heidegger, M. Merleau-Ponty, M. Foucault, P. Ari\u00e8s, F. Guatari, G. Deleuze, S. Moscovici, E. Morin, J. Piaget, S. L. Vigotski, H. Wallon, F. Varela, Em\u00edlia Ferreiro, Sara Paim, Paulo Freire, Pedrinho Guareschi, P. Bourdieu, M. Bakhtin, Bruno Latour etc.<\/p>\n<p>Os blocos da disciplina que se dedicam aos pensadores acima aludidos os entendem como as grandes luzes da psicologia que praticam. Mas, de onde eles v\u00eam? Do Sul? Do Norte do mundo? Dos pa\u00edses desenvolvidos? Do mundo em desenvolvimento? De quais saberes suas reflex\u00f5es se originaram? De qualquer modo, pela sele\u00e7\u00e3o de pensadores externos tamb\u00e9m \u00e9 importante notar que n\u00e3o s\u00e3o todos os grandes pensadores que brilham no are\u00f3pago da psicologia, mas alguns&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, esquecendo suas origens geopol\u00edticas, ser\u00e1 que se fossem atr\u00e1s dos referenciais que formaram, ao menos por algum tempo, o <em>background <\/em>desses pensadores, n\u00e3o se diria, de pronto, que seus pressupostos tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiriam dialogar com a psicologia em seus fazeres hodiernos?<\/p>\n<p>E, o mais inc\u00f4modo, o que aconteceria se esses pensadores pudessem interpelar de volta a psicologia que eles muitas vezes, \u00e0 revelia, ajudam a iluminar? Ser\u00e1 que n\u00e3o estranhariam quando dessem conta das muitas formas que a psicologia se apossou de seus sistemas? Perguntar n\u00e3o ofende.<\/p>\n<p>De qualquer forma, assim como pouca import\u00e2ncia tem sido dada \u00e0 suas origens geopol\u00edticas, ignora-se retumbantemente a origem disciplinar de todos eles. Por ironia do destino cient\u00edfico, muitos desses grandes luzeiros da psicologia de hoje nunca desejaram se tornar psic\u00f3logos e muitos deles, al\u00e9m de n\u00e3o terem se interessado por uma forma\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os psi, iniciaram suas carreiras acad\u00eamicas em outros campos. Pode-se dizer que para muitos, a psicologia ainda n\u00e3o existia. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso de todos.<\/p>\n<p>Muitas vezes a psicologia tem utilizado o que \u00e9 de outros campos sem pedir licen\u00e7a, sem paga tributo pelos empr\u00e9stimos feitos. Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o declarada e muitas vezes n\u00e3o assumida pela psicologia deve ser tomada como, no m\u00ednimo, interessante. Postura que lembra o comportamento do poeta Pablo Neruda, para quem uma poesia depois de publicada perdia o dono. Agindo assim, como o contribuinte espertalh\u00e3o que sonega impostos, os trabalhadores da psicologia p\u00f5em a nu as suas mais ambiciosas pretens\u00f5es e at\u00e9 mesmo o poder de parte de todas as suas querelas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdadeiro tamb\u00e9m que alguns autores e teorias, muitas vezes, s\u00e3o tomados por modismo editorial. Mas como n\u00e3o se tem olhos pra isso, eles t\u00eam produzido, alguns no p\u00f3s-morte, muitos frutos bons. E independente do que deles se pense, todos t\u00eam colaborado com a ci\u00eancia psicol\u00f3gica, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Defende-se, de qualquer forma, que com essa postura de cancelas fechadas para dentro e um pouco mais abertas para fora a psicologia acaba tendo uma pr\u00e1tica menor, com for\u00e7a espalhada, sem pujan\u00e7a. Dentro de sua pr\u00f3pria cabana, encolhida em si, cada corrente defende coisas bem dif\u00edceis, levando em conta somente o seu grupelho, cada qual entendendo sua racionalidade como a \u00fanica, melhor, mais correta.<\/p>\n<h2><strong>Da hibridez que, \u00e0 revelia, a ci\u00eancia psicol\u00f3gica tem se tornado<\/strong><\/h2>\n<p>Agora, reparada de fora de seus espa\u00e7os, dados os muitos casamentos que j\u00e1 conseguiu efetuar com forasteiros, pela diversidade de ideias alheias que acolheu em seu fazer, e aqui atente-se n\u00e3o somente para a pr\u00e1tica brasileira, a psicologia destaca-se hoje bem diversificada em suas misturas. Sua hibridez, contudo, \u00e9 muito mais expressa em seus movimentos exog\u00e2micos do que endog\u00e2micos. Por conta de seu autorecha\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 ainda uma hibridez interna consolidada, porque ela alimenta um comportamento muito fascinado pelo que se produz extramuro.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que, assim como muitos dos componentes da etnicidade na cultura brasileira que s\u00e3o dif\u00edceis de serem assimilados, a psicologia tamb\u00e9m parece ter dificuldades para se assumir. Uma vez n\u00e3o assumindo a hibridez que j\u00e1 a conquistou, acaba desenvolvendo, como consequ\u00eancia, o mascaramento daquilo que ela verdadeiramente tem sido: plural, diversa, humana, mundana.<\/p>\n<p>Pedir que a psicologia se assume ela pr\u00f3pria n\u00e3o \u00e9 descabida. Acredita-se que esta observa\u00e7\u00e3o caminha muito ao encontro da defesa de Ana Bock (1999) quando assumia que a identidade do profissional de psicologia n\u00e3o pode ser est\u00e1tica, mas em movimento que se coadune com a defesa de um compromisso social mais ampliado.<\/p>\n<p>Entende-se ent\u00e3o que a n\u00e3o assun\u00e7\u00e3o de sua identidade p\u00fablica, not\u00f3ria, desencapada, j\u00e1 suficientemente miscigenada, do ponto de vista cient\u00edfico, tem conduzido a psicologia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia meio desgarrada, desenraizada, fragmentada ou com s\u00e9rios problemas identit\u00e1rios, no m\u00ednimo. Portanto essa hibridez que j\u00e1 se expressa em algumas de suas caracter\u00edsticas, precisa ser assumida em seu \u00e2mbito interno. Sem essa consci\u00eancia, a psicologia ser\u00e1 apenas um servi\u00e7o de guetos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio assumir que a assun\u00e7\u00e3o p\u00fablica da miscigena\u00e7\u00e3o na psicologia poder\u00e1 ser extremamente valiosa. Penso que, ao menos no Brasil, assumindo suas fei\u00e7\u00f5es cotidianas, ela expressaria melhor seu compromisso com a realidade cultural, misturada, rica em suas diversas nuances e poderia comprometer-se cada vez mais firme com essas fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>Perguntar n\u00e3o \u00e9 nunca ofensivo: por que defender os v\u00e1rios fechamentos?<\/strong><\/h2>\n<p>A essa altura da reflex\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel acreditar que a l\u00f3gica suprema esteja no humanismo, no marxismo, na fenomenologia, no feminismo, no construcionismo social, nas representa\u00e7\u00f5es sociais, na hist\u00f3ria oral, no construtivismo, no sociointeracionismo, enfim&#8230; Por que o praticante das muitas psicologias tem que <em>a priori<\/em> se definir por uma verdade secreta ou p\u00fablica qualquer que seja? E, se definindo por uma, porque tem que abrir fogo inimigo contra as outras, taxando-as de inv\u00e1lidas? Por que n\u00e3o indagam as raz\u00f5es muitas de seus surgimentos?<\/p>\n<p>Da mesma forma, por que acreditar que a solu\u00e7\u00e3o se encontra na pesquisa quantitativa ou somente na qualitativa, dentro dum drama positivista ou exclusivamente interpretativista?<\/p>\n<p>Entende-se a import\u00e2ncia desses \u00f3culos e\/ou ferramentas. Mas h\u00e1 que se admitir que a vida tem muitos mist\u00e9rios e alguns dos quais bem caprichosos e irredut\u00edveis a enquadramentos sum\u00e1rios, atemporais etc. Por que, por exemplo, n\u00e3o seria a quantifica\u00e7\u00e3o \u201c[&#8230;] uma ferramenta cultural de apoio ao esfor\u00e7o global de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento neste dom\u00ednio, ferramenta esta que pode, em contextos espec\u00edficos, prestar servi\u00e7os de amplifica\u00e7\u00e3o da observa\u00e7\u00e3o de valor ineg\u00e1vel\u201d (FALC\u00c3O &amp; R\u00c9GNIER, 2000, p. 241)?<\/p>\n<p>E onde a l\u00f3gica verdadeira estaria: no objetivismo ou no subjetivismo? No realismo, no relativismo? Saliente-se que nenhuma objetividade sobrevive sem uma subjetividade. Ali\u00e1s, mesmo que usado \u00e0 revelia, para Tonet (2011, p. 86): \u201cSubjetividade e objetividade s\u00e3o dois momentos em termos ontol\u00f3gicos de igual estatuto\u201d.<\/p>\n<p>Assim, o autoisolamento, fortemente marcado por l\u00f3gicas autoexcludentes, n\u00e3o tem sido nem o melhor caminho nem a sa\u00edda para os impasses humanos, nem pol\u00edticos nem acad\u00eamicos. Mas uma coisa essa realidade da ci\u00eancia em geral e da psicologia em particular tem revelado: \u00e9 extremamente dif\u00edcil o di\u00e1logo respeitoso, fecundo.<\/p>\n<h2><strong>Sobre a reprodu\u00e7\u00e3o de pensamento parcelar<\/strong><\/h2>\n<p>De qualquer forma, \u00e9 importante lembrar que apesar dos ataques, abertos ou encapsulados, desferidos para o interior dos saberes cient\u00edficos, muitas l\u00f3gicas d\u00edspares coexistem desde as mais remotas produ\u00e7\u00f5es disciplinares, com frequ\u00eancia caminhando em estradas paralelas muradas.<\/p>\n<p>Pensando em especial no universo psi e em toda a sua parentela intelectual intradisciplinar lembre-se aqui das psicometrias, hoje tamb\u00e9m conhecidas como pr\u00e1ticas avaliativas e de psicodiagn\u00f3sticos e relidas de mil outras formas, lembre-se das psicologias experimentais, animal e humana, das psicologias da personalidade, das psicologias em di\u00e1logo com a estat\u00edstica, da pr\u00f3pria psican\u00e1lise, das psicologias do desenvolvimento humano, das psicologias das aprendizagens, das din\u00e2micas de grupos, muitas vezes confundidas com as autoajudas etc. Estes subcampos psi, sobrevivendo, horas mais horas menos, sob os in\u00fameros fogos cruzados das enormes guerrilhas parentas, estranhamente continuam enriquecendo a disciplina com pesquisas fecundas e vastos aprofundamentos. Entretanto, o que uma psicologia tem dito a outra? Em que medida uma tem fecundado a outra? Quantas vezes um pesquisador de uma psicologia vai citar o outro sem medo de uma condena\u00e7\u00e3o intelectual?<\/p>\n<p>Assim com os demais saberes, isoladamente, ser\u00e1 que continuam h\u00e1 mais de um s\u00e9culo sob um ledo engano e ao som da cilada de um fazer cient\u00edfico n\u00e3o valioso, cuja avalia\u00e7\u00e3o ilhada indica que aquele esfor\u00e7o para nada presta? O que justifica a perman\u00eancia dessas l\u00f3gicas de pequenos currais de cabritos e le\u00f5es no mundo psi? Essas racionalidades n\u00e3o s\u00e3o, n\u00e3o podem, n\u00e3o precisam e n\u00e3o devem continuar estanques.<\/p>\n<p>Pensando para dentro ou para fora da psicologia, est\u00e1 correta a forma de pensar de Edgar Morin (2013, p. 13): \u201cOra, uma das trag\u00e9dias do pensamento atual \u00e9 que nossas universidades e escolas superiores produzem eminentemente especialistas cujo pensamento \u00e9 muito compartimentado\u201d. Est\u00e1 claro que \u00e9 muito mais c\u00f4modo acreditar na impossibilidade do di\u00e1logo do que estabelecer um esfor\u00e7o para pratic\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Entende-se que escondido por detr\u00e1s da ideologia que afirma serem todos os campos diferentes demais para dialogar est\u00e1, sem d\u00favida, um comodismo separatista extremo. E cada separatismo se prop\u00f5e a caminho da l\u00f3gica universalmente v\u00e1lida.<\/p>\n<h2><strong>Do pensar de viseira ao pensar god\u00ea<\/strong><\/h2>\n<p>Da forma como est\u00e3o, vetadas ao di\u00e1logo, as psicologias acabam sendo alimentadas por um pensamento de viseira, quando na verdade deveriam ser sustentadas por um pensamento god\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que o grande Vigotsky queria uma psicologia geral capaz de produzir um di\u00e1logo englobante. Mas qual? A Marxista? N\u00e3o teve tempo de formul\u00e1-la suficientemente? \u00c9 claro que isso n\u00e3o o desmerece, mas tem gente achando que seu sistema nem era t\u00e3o marxista assim e se era marxista n\u00e3o era excludente de outras contribui\u00e7\u00f5es. Para Veresov (2005, p. 32): \u201cNem todo pensamento de Vygotsky pode ser atribu\u00eddo \u00e0 sua famosa teoria e, al\u00e9m disso, existem algumas caracter\u00edsticas dentro de sua teoria que s\u00e3o, erroneamente, identificadas como exclusivamente marxistas\u201d. Seria ent\u00e3o o caso de perguntar de qual materialismo estaria falando? Como sabe-se hoje o marxismo n\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3. Para Edgar Morin (2010, p. 73): \u201cH\u00e1 marxismos: marxismos reformistas, marxismos leninistas, marxismos estalinistas, marxismos trotskistas, etc., e estes marxismos fazem an\u00e1lises diferentes da realidade, com conclus\u00f5es pol\u00edticas frequentemente divergentes\u201d.<\/p>\n<p>E seja como for, mesmo marxista, o dito pesquisador era tamb\u00e9m um pensador de amplos di\u00e1logos, ali\u00e1s, como a maioria dos grandes investigadores. E ao que parece esta foi a li\u00e7\u00e3o que os pesquisadores atuais ainda n\u00e3o conseguiram assimilar dos grandes pensadores que os antecederam. Sem d\u00favida, isso vale para a psicologia, mas vale para os demais campos da ci\u00eancia.<\/p>\n<h2><strong>O que fazer com o medo \u00e0 diversidade?<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9 preciso que se confesse publicamente que o reconhecimento da diversidade cient\u00edfica, em qualquer campo, traz consigo, como bem j\u00e1 mostrou Qvortrup (2010) uma tenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o do diversificar, do divergir para se aproximar do irreconcili\u00e1vel. Por essa raz\u00e3o, ao defender-se a interdisciplinaridade \u00e9 preciso fazer justamente o contr\u00e1rio, pedindo que os diversos sejam reconhecidos, mas que, simultaneamente, possam ser reunidos.<\/p>\n<p>Portanto, em termos mais amplos, importa sublinhar que o diverso existe e \u00e9 poss\u00edvel tanto em aprendizados quanto em contatos mais alargados. \u00c9 verdade que, do ponto de vista as ci\u00eancias, o diverso &#8211; para divertir, para divergir, para se espalhar &#8211; j\u00e1 foi alumiado exaustivamente. J\u00e1 foi incentivado tanto ao n\u00edvel macro quanto ao n\u00edvel micro. E seguindo Qvortrup (2010): em todos os n\u00edveis pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Ao se defender a interdisciplinaridade indica-se que est\u00e1 na hora de voltar e de se buscar um novo recome\u00e7o, porque o fim para onde se encaminha esse esgar\u00e7amento intelectual j\u00e1 est\u00e1 suficiente conhecido. Pois ele conduz, tanto as disciplinas quanto os fazeres cient\u00edficos, cada vez para mais longe de suas pr\u00f3prias fronteiras, o que n\u00e3o \u00e9 bom individualmente, nem \u00e9 bom politicamente. Ele parte dum reconhecimento enviesado de que os objetos de estudos, sujeitos humanos n\u00e3o apenas s\u00e3o diversos e irredut\u00edveis, mas irreconcili\u00e1veis, como se nada de comum pudessem ter.<\/p>\n<p>A defesa deve ser na dire\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo cr\u00edtico cont\u00ednuo, permanente, tenso, mas extenso entre os saberes, entre todas as \u00e1reas e dentro das pr\u00f3prias \u00e1reas. \u00c9 preciso construir saberes de portas abertas para dentro e para fora, com portas que se abrem para os corredores. Sim, tamb\u00e9m \u00e9 preciso s\u00ednteses que se fazem e desfazem-se dentro de sua historicidade. Sem isso n\u00e3o faz sentido. O di\u00e1logo acad\u00eamico deve ser pleno, no sentido mais ecum\u00eanico da palavra. Pois mesmo sabendo das diferen\u00e7as enormes, deve-se entrever a possibilidade de conversar, profundamente, por horas seguidas, at\u00e9 \u00e0 possibilidade de um fruto, uma a\u00e7\u00e3o em conjunto, uma transforma\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mesmo que pequena.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, h\u00e1 que se por a pergunta: a quem interessaria um saber que n\u00e3o se disp\u00f5e a dialogar, que n\u00e3o faz pontes, que n\u00e3o amplia a abertura de suas janelas para ver cada vez mais longe? Qual seria a for\u00e7a transformadora de um saber sect\u00e1rio? A quem beneficiaria um saber especialista em totalidade de coisa nenhuma? Serviria apenas para um \u2018gueto hegem\u00f4nico\u2019 ou a uma \u2018ditadura in\u00f3cua de palavras\u2019. E desse modo se poria a servi\u00e7o de quem reina, de quem comanda, daquele que est\u00e1 no topo da visibilidade e a mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a l\u00f3gica pol\u00edtico-econ\u00f4mica milenar tem sido a do muito dividir para melhor dominar. Assim fizeram os escravagistas, assim agiram os imperialistas, assim fazem aqueles que assumem postos de comandos autorit\u00e1rios, s\u00f3 chamando \u00e0 unidade de portas de quart\u00e9is na hora de seus interesses, \u00e0s vezes, bem mesquinhos.<\/p>\n<p>Mas dizer isso \u00e9 t\u00e3o simpl\u00f3rio que parece sem sentido. Pois, sabe-se que um sindicato dividido n\u00e3o tem for\u00e7a, um partido pol\u00edtico esfacelado n\u00e3o se sustenta. E at\u00e9 mesmo um governo que n\u00e3o consegue dialogar acaba se suicidando ou sofrendo um homic\u00eddio coletivo. Por que sustentar <em>ad infinitum<\/em> uma ci\u00eancia dividida, parcelar e fragmentada?<\/p>\n<h2><strong>Para finalizar este momento<\/strong><\/h2>\n<p>A possibilidade de di\u00e1logo cr\u00edtico dentro da pr\u00f3pria ci\u00eancia e dentro da psicologia precisa existir. Na psicologia n\u00e3o \u00e9 mais aceit\u00e1vel que suas pr\u00f3prias correntes estejam empatadas de uma conversa, porque suas bases, suas vis\u00f5es de mundo, suas convic\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito d\u00edspares. Quem disse que tem que ser assim? Quem imp\u00f4s a todos esses modos de pensar? Ser\u00e1 que a ci\u00eancia e o saber psi n\u00e3o t\u00eam interesse pelo mesmo objeto\/sujeito de pesquisa: os seres humanos, com seus comportamentos, suas produ\u00e7\u00f5es subjetivas, suas hist\u00f3rias, suas trajet\u00f3rias socioculturais e suas vidas concretas, individuais e coletivas?<\/p>\n<p>O argumento essencial para o di\u00e1logo cient\u00edfico inter e intradisciplinar \u00e9 possibilidade de se alumiar a unidade do g\u00eanero humano. Existe sim um g\u00eanero humano, categoria \u00e0 qual todos os objetivos cient\u00edficos se direcionam. O g\u00eanero humano \u00e9 sim o interesse maior do fazer acad\u00eamico ou pelo menos deveria ser. Existe uma universalidade que faz com que o ser humano seja quem ele \u00e9: humano. E o ser humano tem de ser reunido em suas m\u00faltiplas fei\u00e7\u00f5es. As diversidades dos homens, das mulheres, das crian\u00e7as, da adolesc\u00eancia, da juventude e dos idosos expressam aquilo que caracteriza o humano em sua maior amplitude.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acreditar na exist\u00eancia do humano como categoria universal. Diferente do humano que \u00e9 universal, as condi\u00e7\u00f5es existenciais humanas n\u00e3o podem pleitear universalidade. Pois, apesar de humanos no sentido pleno compartilhar muitas coisas com todos os humanos do planeta, n\u00e3o d\u00e1 para pensar que todos os humanos respiram, comem, bebem e sentem e se igualam em tudo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar que todos os humanos est\u00e3o funcionando no mesmo estilo e intensidade, sejam eles europeus, africanos, asi\u00e1ticos, americanos, ind\u00edgenas, negros, ciganos, orientais ou ocidentais. O ser humano \u00e9 universal, sim, mas n\u00e3o tem, em todo lugar o mesmo paladar, as mesmas subjetividades, ali\u00e1s, nem as mesmas indument\u00e1rias. Ao defender a interdisciplinaridade deve-se partir desse entendimento pressuposto.<\/p>\n<h2><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h2>\n<p>BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. <strong>Psicologias: Uma introdu\u00e7\u00e3o a estudo de psicologia.<\/strong> 13\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2001.<\/p>\n<p>BOCK, A. M. B. A Psicologia a caminho do novo s\u00e9culo: identidade profissional e compromisso social. <strong>Estudos de Psicologia <\/strong>(Natal), 4(2), 315-329, 1999.<\/p>\n<p>BORJAS GIL, M. I.; V\u00cdLCHEZ PAZ, C. F. (2010). Ciencias \u201cDuras\u201d Vs. Ciencias \u201cBlandas\u201d. <strong>REDHECS,<\/strong> 7(4).<\/p>\n<p>CORDEIRO, M. P. C., &amp; SPINK, M. J. P. La multiplicidad de la Psicolog\u00eda Social brasile\u00f1a. <strong>Athenea Digital<\/strong><em>,<\/em> 14(1), 289-300, 2014.<\/p>\n<p>FALC\u00c3O, J. T. R.; R\u00c9GNIER, J. C. 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Mestrado e Doutorado em Psicologia Social pela UFPB \u2013 Universidade Federal da Para\u00edba. Professora da UEPB &#8211; Universidade Estadual da Para\u00edba-Campina Grande, Para\u00edba, Brasil. https:\/\/orcid.org\/0000-0002-3329-2850<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se estivessem reproduzindo os universos pol\u00edticos e\/ou religiosos, de certo por estes sistemas serem mais antigos e consolidados nas<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":611,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[128,132,130,134],"class_list":["post-704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reflexoes","tag-dialogo","tag-fazer-cientifico","tag-interdisciplinar","tag-psicologia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Em defesa do di\u00e1logo no fazer cient\u00edfico interdisciplinar<\/title>\n<meta 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