{"id":4414,"date":"2024-08-30T16:13:12","date_gmt":"2024-08-30T19:13:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/?p=4414"},"modified":"2024-09-09T14:31:12","modified_gmt":"2024-09-09T17:31:12","slug":"ulceras-de-cornea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/c-cv-1-q-2024\/ulceras-de-cornea","title":{"rendered":"\u00daLCERAS DE C\u00d3RNEA E C\u00c9LULAS-TRONCO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Elton Santos Guedes de Morais <\/em><sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jos\u00e9 S\u00e9rgio Herculano Gomes da Silva\u00a0<\/em><sup><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Livia Maria Marques Pereira\u00a0<\/em><sup><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>An\u00edsio Francisco Soares<\/em> <sup><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Mariza Brand\u00e3o Palma\u00a0<\/em><sup><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/sup><\/p>\n<div class=\"acf-input-prepend\" style=\"text-align: right;\">10.32749\/nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/4414<\/div>\n<p>A c\u00f3rnea, uma por\u00e7\u00e3o especializada do olho, \u00e9 transparente e desprovida de vasos sangu\u00edneos, apresentando uma configura\u00e7\u00e3o em formato de c\u00fapula na superf\u00edcie ocular. Essa estrutura n\u00e3o apenas refrata a luz que atravessa a pupila, direcionando-a com precis\u00e3o para a retina, mas tamb\u00e9m desempenha papel fundamental de barreira protetora (WEST <em>et al<\/em>., 2015). A preserva\u00e7\u00e3o dessas caracter\u00edsticas inerentes da c\u00f3rnea est\u00e1 completamente relacionada \u00e0 capacidade de enxergar. Quanto \u00e0 sua estrutura, a c\u00f3rnea exibe camadas bem definidas, sendo que cada uma delas desempenha um papel importante para assegurar a plena capacidade visual (FAYE <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>A camada mais externa da superf\u00edcie ocular \u00e9 formada por epit\u00e9lio escamoso estratificado e atua como uma prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica entre o olho e o meio externo gra\u00e7as a jun\u00e7\u00f5es estreitas entre c\u00e9lulas adjacentes. A localiza\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie celular determina um desgaste constante dessas c\u00e9lulas, que t\u00eam uma expectativa de vida de cerca de 7 a 10 dias. As novas c\u00e9lulas s\u00e3o originadas a partir da camada basal proliferativa e, durante sua perman\u00eancia no globo ocular, sofrem diminui\u00e7\u00e3o de tamanho, apoptose e consequente elimina\u00e7\u00e3o (ARA\u00daJO &amp; GOMES, 2015; SRIDHAR <em>et al<\/em>., 2018; WEST <em>et al<\/em>., 2015).\u00a0 Na regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o entre o epit\u00e9lio da c\u00f3rnea e da conjuntiva, s\u00e3o encontrados nichos de c\u00e9lulas-tronco l\u00edmbicas (LSCs). Elas possuem capacidade de autorrenovar\u00e3o, migra\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o, sendo importantes para a manuten\u00e7\u00e3o e o reparo da c\u00f3rnea (LJUBIMOV <em>et al<\/em>., 2015).<\/p>\n<p>A camada m\u00e9dia \u00e9 representada pelo estroma em si, que exibe tr\u00eas zonas distintas com base na organiza\u00e7\u00e3o das mol\u00e9culas de col\u00e1geno, taxa de hidrata\u00e7\u00e3o, propriedades biomec\u00e2nicas e densidade celular (TIDU <em>et al<\/em>., 2020). Situada imediatamente abaixo do epit\u00e9lio, a camada de Bowman, considerada uma regi\u00e3o especializada do estroma corneano, \u00e9 constitu\u00edda por uma malha de fibrilas de col\u00e1geno de pequeno di\u00e2metro dispostas em organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o lamelar e sem a presen\u00e7a de c\u00e9lulas (ESPANA &amp; BIRK, 2020). O estroma propriamente dito \u00e9 a regi\u00e3o de maior volume presente na c\u00f3rnea, visto que compreende cerca de 80% a 90% da espessura total. Sua constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em mol\u00e9culas da matriz extracelular, cerat\u00f3citos, proteoglicanos, glicosaminoglicanos e lamelas de fibrilas de col\u00e1geno organizadas ortogonalmente. Essa regi\u00e3o \u00e9 a principal respons\u00e1vel pelo formato, resist\u00eancia e transpar\u00eancia da c\u00f3rnea (ESPANA &amp; BIRK, 2020; KONG <em>et al.<\/em>, 2020). No contexto da homeostase dessa regi\u00e3o, os cerat\u00f3citos assumem um papel fundamental. Em condi\u00e7\u00f5es normais da c\u00f3rnea, eles permanecem quiescentes, por\u00e9m, em situa\u00e7\u00f5es de les\u00e3o, s\u00e3o ativados e transformados em fibroblastos e miofibroblastos. Essa ativa\u00e7\u00e3o permite que eles secretem grandes quantidades de fibras de col\u00e1geno contribuindo para o processo de repara\u00e7\u00e3o da les\u00e3o (KONG <em>et al<\/em>., 2020). A terceira zona da camada m\u00e9dia \u00e9 a membrana de Descemet. Ela situa-se entre a por\u00e7\u00e3o posterior do estroma propriamente dito e a camada mais interna da c\u00f3rnea, conhecida como endot\u00e9lio, a qual ela serve como membrana basal. Em sua composi\u00e7\u00e3o, inclui diversos componentes, tanto colagenosos e n\u00e3o colagenosos, como fibronectina, laminina, nidog\u00eanio e perlecano. A membrana de Descemet desempenha um papel fundamental em diversos processos fisiol\u00f3gicos, tais como a regula\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de hidrata\u00e7\u00e3o da c\u00f3rnea, o est\u00edmulo \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas endoteliais, bem como a manuten\u00e7\u00e3o da curvatura e integridade corneanas, visto que representa a camada mais r\u00edgida nesse contexto (SINGHAL <em>et al<\/em>., 2020; OLIVEIRA &amp; WILSON, 2020).<\/p>\n<p>Como dito anteriormente, a camada mais profunda da c\u00f3rnea \u00e9 o endot\u00e9lio, composto por uma \u00fanica camada de c\u00e9lulas de formato hexagonal. Por manter contato direto com o humor aquoso, esta camada acaba por mediar a nutri\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de regular a desidrata\u00e7\u00e3o da camada estromal por interm\u00e9dio de bombas i\u00f4nicas e transportadores de \u00edons, processo que recebe o nome de deturgesc\u00eancia (BOGERD, <em>et al<\/em>., 2018). Ao contr\u00e1rio das outras camadas, as c\u00e9lulas endoteliais apresentam uma capacidade extremamente limitada de regenera\u00e7\u00e3o e o processo de cicatriza\u00e7\u00e3o ocorre principalmente por migra\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o (LJUBIMOV <em>et al<\/em>., 2015).<\/p>\n<p>A c\u00f3rnea ocupa a posi\u00e7\u00e3o mais externa do olho e\u00a0 permanece continuamente exposta ao ambiente, tornando-se assim suscet\u00edvel a potenciais les\u00f5es de natureza t\u00e9rmica, qu\u00edmica ou mec\u00e2nica, abras\u00f5es, complica\u00e7\u00f5es associadas ao uso de lentes de contato, produ\u00e7\u00e3o lacrimal insuficiente, infec\u00e7\u00f5es por agentes biol\u00f3gicos, doen\u00e7as autoimunes e at\u00e9 mesmo efeitos adversos de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas ou de procedimentos cir\u00fargicos voltados \u00e0 corre\u00e7\u00e3o da refra\u00e7\u00e3o (SAGHIZADEH <em>et al<\/em>., 2017). A \u00falcera de c\u00f3rnea consiste na disfun\u00e7\u00e3o recorrente do epit\u00e9lio corneano que pode envolver o estroma subjacente. Requer uma pronta interven\u00e7\u00e3o oftalmol\u00f3gica, pois representa uma amea\u00e7a \u00e0 capacidade visual (AHMED <em>et al<\/em>., 2015). Os sinais cl\u00ednicos desse tipo de les\u00e3o consistem no blefaroespasmo, lacrimejamento, miose, edema corneano, hiperemia conjuntival, fotofobia, uve\u00edte anterior e excesso aquoso na regi\u00e3o. Ainda que n\u00e3o seja um m\u00e9todo infal\u00edvel, a simples observa\u00e7\u00e3o macrosc\u00f3pica a olho nu de um defeito corneano \u00e9 considerada uma avalia\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, mas deve ainda ser realizada \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do corante de fluoresce\u00edna por via t\u00f3pica associada \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da l\u00e2mpada de luz de fenda para estabelecer um diagn\u00f3stico preciso e definitivo (BELKNAP, 2015; SOIFER <em>et al<\/em>., 2022).<\/p>\n<p>As ulcera\u00e7\u00f5es podem ser classificadas quanto \u00e0 profundidade da les\u00e3o. As les\u00f5es mais superficiais, mesmo sendo altamente dolorosas, em geral, n\u00e3o indicam um risco imediato para a capacidade de enxergar. Entretanto, ainda s\u00e3o necess\u00e1rios exames oculares para detectar poss\u00edveis processos patol\u00f3gicos subjacentes, a fim de evitar agravamentos no quadro. J\u00e1 as \u00falceras estromais podem ser caracterizadas por um defeito vis\u00edvel na c\u00f3rnea, eventualmente ocasionado pela instala\u00e7\u00e3o de agentes infecciosos, o que resulta na progress\u00e3o cont\u00ednua da profundidade e da largura da les\u00e3o. Se a \u00falcera atingir a membrana de Descemet, um padr\u00e3o distinto de colora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 observado. Gra\u00e7as \u00e0 composi\u00e7\u00e3o hidrof\u00f3bica desta regi\u00e3o, apenas as laterais da perfura\u00e7\u00e3o, onde o estroma (hidrof\u00edlico) permanece exposto, ser\u00e3o coradas, ao passo que o centro da descemetocele se apresentar\u00e1 escuro e com uma protuber\u00e2ncia transparente na superf\u00edcie da c\u00f3rnea. Esses casos representam um alto risco \u00e0 vis\u00e3o, configurando-se como emerg\u00eancias cir\u00fargicas de progn\u00f3stico ruim para a manuten\u00e7\u00e3o do sentido e\/ou do globo ocular ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o (BELKNAP, 2015; PUTHALATH <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>O reparo de feridas \u00e9 um processo sequencial e interdependente, que consiste nas fases de coagula\u00e7\u00e3o e hemostasia, inflama\u00e7\u00e3o, prolifera\u00e7\u00e3o e remodela\u00e7\u00e3o tecidual. Quando o processo cicatricial se prolonga, a ferida se torna cr\u00f4nica. Isso pode acontecer por falha em qualquer uma das etapas cicatriciais, mas a cronicidade de uma ferida por prolongamento da fase inflamat\u00f3ria \u00e9 muito comum. Nesses casos o tratamento se torna mais complexo (TIMARU <em>et al<\/em>., 2017). Quando ocorre uma les\u00e3o grave, h\u00e1 a possibilidade de perda do limbo ocular, do epit\u00e9lio central\u00a0 da c\u00f3rnea e de estruturas colagenosas no estroma. Tal situa\u00e7\u00e3o pode ser acompanhada por inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, defeitos epiteliais persistentes, neovasculariza\u00e7\u00e3o e, em situa\u00e7\u00f5es extremas, a conjuntivaliza\u00e7\u00e3o. Esses eventos podem levar \u00e0 turva\u00e7\u00e3o da c\u00f3rnea e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da qualidade visual (NICHOLAS &amp; MYSORE, 2021).<\/p>\n<p>O processo terap\u00eautico empregado nas ulcera\u00e7\u00f5es de c\u00f3rnea \u00e9 fundamental para o restabelecimento das fun\u00e7\u00f5es oculares. Inicialmente, o objetivo principal consiste em estimular a reepiteliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que, independentemente do agente etiol\u00f3gico, esse \u00e9 um sinal comum dessa les\u00e3o. Frequentemente, lubrificantes s\u00e3o usados com esse objetivo. Al\u00e9m disso, \u00e9 crucial adotar medidas para prevenir, reduzir ou erradicar infec\u00e7\u00f5es, utilizando medica\u00e7\u00e3o adequada ao caso. No entanto, quando a \u00falcera de c\u00f3rnea n\u00e3o apresenta uma resposta satisfat\u00f3ria ao tratamento medicamentoso, pode ser necess\u00e1rio recorrer \u00e0 interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (STAMATE <em>et al<\/em>., 2019).<\/p>\n<p>Atualmente, entre as t\u00e9cnicas cir\u00fargicas praticadas na cl\u00ednica, encontram-se colagem corneana por adesivos teciduais e reticula\u00e7\u00e3o de col\u00e1geno com riboflavina fotoativada, al\u00e9m de transplantes espec\u00edficos, como o de membrana amni\u00f3tica, de retalho conjuntival e de c\u00f3rnea. O transplante de c\u00f3rnea, por exemplo, \u00e9 amplamente utilizado para tratar danos a qualquer uma das camadas estruturais, mas possui suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, incluindo a baixa disponibilidade de doadores e o risco de rejei\u00e7\u00e3o imunomediada (STAMATE <em>et al<\/em>., 2019; HERTSENBERG &amp; FUNDERBURGH, 2015). Nessa perspectiva, torna-se necess\u00e1ria a busca por m\u00e9todos mais responsivos, que promovam um alto grau de recupera\u00e7\u00e3o e sejam comprovadamente seguros.<\/p>\n<p>A medicina regenerativa surge como uma estrat\u00e9gia inovadora no cuidado de pacientes portadores de doen\u00e7as corneanas, trazendo mudan\u00e7as do enfoque convencional de transplantes para abordagens terap\u00eauticas ancoradas nas propriedades das c\u00e9lulas-tronco (OIE &amp; NISHIDA, 2013). As c\u00e9lulas-tronco mesenquimais (CTM) s\u00e3o c\u00e9lulas estromais n\u00e3o hematopoi\u00e9ticas e multipotentes presentes em v\u00e1rios tecidos e \u00f3rg\u00e3os, descritas pela primeira vez por Friedenstein e colaboradores a partir de c\u00e9lulas derivadas da medula \u00f3ssea (FRIEDENSTEIN <em>et al<\/em>., 1968). Podem ser isoladas a partir da medula \u00f3ssea, tecido adiposo, polpa dent\u00e1ria, placenta, sangue do cord\u00e3o umbilical e matriz. Al\u00e9m disso, possuem capacidade de autorrenovar\u00e3o e potencial de se diferenciar em v\u00e1rios tipos celulares <em>in vivo<\/em> (MA <em>et al<\/em>., 2013; HU <em>et al<\/em>., 2020; LUO <em>et al<\/em>., 2021; ZHOU <em>et al<\/em>., 2021). Os crit\u00e9rios para uma c\u00e9lula ser considerada CTM foram definidos em estudo publicado por Dominici e colaboradores (DOMINICI <em>et al<\/em>. 2006) e adotados tamb\u00e9m pela Sociedade Internacional de Terapia Celular (International Society for Cellular Therapy), sendo eles a capacidade de se diferenciar em osteoblastos, adip\u00f3citos e condroblastos <em>in vitro<\/em>, al\u00e9m de aderirem ao pl\u00e1stico e expressar os marcadores CD105, CD90 e CD73, mas n\u00e3o expressar CD45, CD34, CD14 ou CD11b, CD79a ou CD19 e a mol\u00e9cula de superf\u00edcie HLA-DR (DOMINICI <em>et al<\/em>. 2006; XIONG <em>et al<\/em>., 2021)<\/p>\n<p>Tr\u00eas propriedades das CTMs as tornam importantes no processo de regenera\u00e7\u00e3o tecidual: capacidade imunorreguladora ben\u00e9fica para aliviar respostas imunes anormais, fun\u00e7\u00f5es par\u00e1crinas e aut\u00f3crinas que geram fatores de crescimento e capacidade de diferencia\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas-alvo (HAN <em>et al<\/em>., 2019). Torna-se importante destacar que CTMs de diferentes locais apresentam marcadores de agrupamento de diferencia\u00e7\u00e3o espec\u00edficos que diferenciam uma fonte da outra. Segundo Qin et al. (2014),\u00a0 as CTMs de diferentes origens t\u00eam potenciais de diferencia\u00e7\u00e3o distintos. A diferencia\u00e7\u00e3o de CTMs em tipos espec\u00edficos de c\u00e9lulas maduras \u00e9 controlada por v\u00e1rias citocinas, fatores de crescimento, mol\u00e9culas de matriz extracelular e fatores de transcri\u00e7\u00e3o. Para diferencia\u00e7\u00e3o <em>in vitro<\/em>, as CTMs requerem certos indutores, incluindo alguns fatores de transcri\u00e7\u00e3o espec\u00edficos associados a uma linhagem celular. Por exemplo, na diferencia\u00e7\u00e3o osteog\u00eanica, Runx2 \u00e9 um fator chave de transcri\u00e7\u00e3o que eleva a diferencia\u00e7\u00e3o osteobl\u00e1stica. J\u00e1 a diferencia\u00e7\u00e3o condrog\u00eanica \u00e9 impulsionada pelo Sox9 e a diferencia\u00e7\u00e3o adipog\u00eanica \u00e9 controlada principalmente pelo PPAR\u03b3 (ALMALKI &amp; AGRAWAL, 2016).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sua capacidade de autorrenova\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas da linhagem mesenquimal, o potencial imunoregulador das CTMs vem sendo cada vez mais explorado, visto que, quando um tecido \u00e9 danificado, ocorre inflama\u00e7\u00e3o e as CTMs s\u00e3o mobilizadas para o local da les\u00e3o. Por seu potencial multipotente, acreditava-se que as CTMs recrutadas se diferenciam em c\u00e9lulas funcionais para substituir as c\u00e9lulas danificadas (PALADINO, 2017). No entanto, al\u00e9m da diferencia\u00e7\u00e3o, as CTMs tamb\u00e9m modificam o microambiente em resposta a citocinas inflamat\u00f3rias,\u00a0 produzindo fatores imunorreguladores que modulam a progress\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o, como fatores de crescimento, quimiocinas e citocinas. Tais fatores atuam sobre c\u00e9lulas adjacentes, al\u00e9m de serem capazes de suprimir c\u00e9lulas T, c\u00e9lulas B e c\u00e9lulas NK, auxiliando na restri\u00e7\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o local e ajustando as respostas imunes. Sendo assim, as CTMs induzem a regenera\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas lesadas, diminuindo a les\u00e3o tecidual e, finalmente, acelerando o reparo do tecido ou \u00f3rg\u00e3o (WANG <em>et al<\/em>. 2014; MORAVEJ <em>et al<\/em>., 2016; KESHTKAR <em>et al<\/em>., 2018).<\/p>\n<p>As CTMs t\u00eam tido destaque na medicina regenerativa por causa das possibilidades cl\u00ednicas na terapia com c\u00e9lulas-tronco devido ao seu papel homeost\u00e1tico atuando na comunica\u00e7\u00e3o intercelular, imunomodula\u00e7\u00e3o, cicatriza\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o\u00a0 de tecidos (FREIRE <em>et al.<\/em>, 2021).\u00a0 Segundo Al-Jaibaji, Swioklo &amp; Connon (2019), as CTM apresentam efeitos positivos no reparo de \u00falceras profundas de c\u00f3rnea de animais, uma vez que elas promovem a redu\u00e7\u00e3o da descarga ocular, da hiperemia conjuntival e da angiog\u00eanese local, o que, consequentemente, reduz a opacidade ocular. Essas capacidades est\u00e3o diretamente associadas \u00e0 a\u00e7\u00e3o par\u00e1crina, bem como a capacidade de diferencia\u00e7\u00e3o multipotente que as CTMs apresentam (Figura 1), uma vez que em um microambiente biol\u00f3gico e mediado por sinais indutores, as CTMs\u00a0 secretam citocinas, quimiocinas e fatores de crescimento, que s\u00e3o uma classe de polipept\u00eddeos moduladores da migra\u00e7\u00e3o celular, prolifera\u00e7\u00e3o, diferencia\u00e7\u00e3o e s\u00edntese da matriz extracelular (FU<em> et al<\/em>., 2019) .<\/p>\n<p><strong>Figura 1. <\/strong>A\u00e7\u00e3o par\u00e1crina e capacidade de diferencia\u00e7\u00e3o de CTMs<\/p>\n<figure id=\"attachment_4415\" aria-describedby=\"caption-attachment-4415\" style=\"width: 919px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4415 size-full\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Acao-paracrina-e-capacidade-de-diferenciacao-de-CTMs.png\" alt=\"\" width=\"919\" height=\"737\" srcset=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Acao-paracrina-e-capacidade-de-diferenciacao-de-CTMs.png 919w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Acao-paracrina-e-capacidade-de-diferenciacao-de-CTMs-300x241.png 300w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Acao-paracrina-e-capacidade-de-diferenciacao-de-CTMs-768x616.png 768w\" sizes=\"(max-width: 919px) 100vw, 919px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4415\" class=\"wp-caption-text\">FONTE: FU et al., 2019.<\/figcaption><\/figure>\n<p>V\u00e1rios estudos mostraram que o fator b\u00e1sico de crescimento de fibroblastos (bFGF), fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), fator de crescimento de hepat\u00f3citos (HGF), fator de crescimento semelhante \u00e0 insulina-1 (IGF-1), fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF) e crescimento transformador fator \u03b21 (TGF-\u03b21) est\u00e3o envolvidos na migra\u00e7\u00e3o da CTMs para o tecido lesado e \u200b\u200bna repara\u00e7\u00e3o tecidual. VEGF, por exemplo, \u00e9 um regulador crucial do crescimento, desenvolvimento e migra\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios tipos de c\u00e9lulas (FU <em>et al<\/em>., 2019; SAMAEEKIA, 2018).<\/p>\n<p>Sabe-se que as mol\u00e9culas bioativas secretadas pelas CTMs s\u00e3o exportadas das c\u00e9lulas atrav\u00e9s de exossomos, ves\u00edculas revestidas por membrana bilip\u00eddica, medindo de 40 a 100n. Estudos relatam os efeitos de exossomos derivados de CTMs na cicatriza\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o de feridas epiteliais <em>in vitro e in vivo<\/em>. Em ensaio <em>in vitro,<\/em> feridas induzidas por arranh\u00e3o com pipeta em monocamadas de c\u00e9lulas epiteliais da c\u00f3rnea humana mostraram fechamento significativamente maior nas monocamadas de c\u00e9lulas incubadas com exossomos. O mesmo ocorreu em ensaio usando um modelo de les\u00e3o mec\u00e2nica epitelial, onde a c\u00f3rnea, tratada topicamente com exossomos, demonstrou cicatriza\u00e7\u00e3o significativamente maior em compara\u00e7\u00e3o com o grupo controle (SAMAEEKIA, 2018).<\/p>\n<p>As CTMs agem tanto regulando de forma negativa a produ\u00e7\u00e3o de citocinas pr\u00f3-inflamat\u00f3rias proveniente das c\u00e9lulas de defesa do organismo (macr\u00f3fagos, neutr\u00f3filos e mast\u00f3citos), como ainda secretando interleucinas com a\u00e7\u00e3o anti-inflamat\u00f3ria, como por exemplo as interleucinas 4 e 10. Na a\u00e7\u00e3o imunossupressora, as CTMs\u00a0 inibem a prolifera\u00e7\u00e3o e a citotoxicidade dos linf\u00f3citos T (SAMAEEKIA, 2018). Embora o mecanismo das CTMs seja multifatorial, est\u00e1 evidente que os fatores anti-inflamat\u00f3rios\/imunomoduladores secretados pelas CTMs em resposta ao dano s\u00e3o determinantes para o controle do micro-ambiente da les\u00e3o e melhora dos resultados de cicatriza\u00e7\u00e3o de \u00falceras de c\u00f3rnea (AL-JAIBAJI, SWIOKLO &amp; CONNON, 2019). Os achados histopatol\u00f3gicos e imunohistoqu\u00edmicos de um estudo em modelos de \u00falcera profunda de c\u00f3rnea em coelhos revelou que as \u00falceras tratadas com CTMs demonstraram presen\u00e7a discreta de infiltrado inflamat\u00f3rio e aus\u00eancia de vasculariza\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com o grupo de animais tratados com cirurgia de enxerto corneoconjuntival (FREITAS, 2018). O efeito de redu\u00e7\u00e3o da vasculariza\u00e7\u00e3o promovido pelas CTMs no processo de cicatriza\u00e7\u00e3o de \u00falcera de c\u00f3rnea tamb\u00e9m foi observado no estudo histopatol\u00f3gico em modelos de coelho, onde o tecido neovascular foi menos observado no grupo tratado com CTM em compara\u00e7\u00e3o ao grupo controle (HUSSEIN &amp; HAMEED, 2022). Em um outro estudo onde foram utilizados ratos com \u00falcera de c\u00f3rnea induzida por NaOCl\u00a0 foi relatado, a partir da an\u00e1lise imunohistoqu\u00edmica, que os escores de colora\u00e7\u00e3o de IL-1b e TNF-a e o n\u00famero de c\u00e9lulas coradas positivas para CD68 e Cas-3 foram significativamente menores na c\u00f3rnea dos grupos de ratos tratados com CTMs derivadas da medula \u00f3ssea e na c\u00f3rnea dos grupos tratados com CTMs derivadas de tecido adiposo em compara\u00e7\u00e3o com os ratos do grupo controle, o qual recebeu apenas PBS (DIN\u00c7 <em>et al<\/em>., 2020).<\/p>\n<p>Estudos cl\u00ednicos tamb\u00e9m j\u00e1 relatam resultados promissores e isso \u00e9 evidenciado por Novaes, Hill &amp; Hill (2023). Eles relataram que uma cadela f\u00eamea da ra\u00e7a <em>shih tzu<\/em> de 7 anos de idade diagnosticada com descemetocele (hernia\u00e7\u00e3o da membrana de Descemet) e obteve remiss\u00e3o completa da \u00falcera com aus\u00eancia de opacidade da c\u00f3rnea ap\u00f3s 75 dias do tratamento com aplica\u00e7\u00e3o via subconjuntival de CTMs, fornecidas pela CellTech \u2014 <em>Stem Cell Technologies<\/em>. Em outro caso de \u00falcera de c\u00f3rnea profunda diagnosticada em uma cadela\u00a0 SRD que n\u00e3o respondeu ao tratamento cl\u00ednico com col\u00edrios e n\u00e3o estava apta a realizar cirurgia, foi observada cicatriza\u00e7\u00e3o completa da \u00falcera, com pouca forma\u00e7\u00e3o de tecido cicatricial, ap\u00f3s 14 dias da terapia com CTMs derivadas de tecido adiposo, aplicadas por meio de instila\u00e7\u00e3o ocular e via subconjuntival (AMORIN, <em>et al<\/em>, 2022). No estudo com a participa\u00e7\u00e3o de 75 c\u00e3es, o grupo que teve a \u00falcera de c\u00f3rnea tratada com CTMs hal\u00f3genas, derivadas de tecido adiposo, associada a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica apresentou cicatriza\u00e7\u00e3o total da \u00falcera em menos dias, comparado ao grupo de c\u00e3es que n\u00e3o recebeu terapia com CTMs (AMORIM, 2022). Vinte e seis c\u00e3es foram tratados previamente com antibi\u00f3ticos e col\u00edrios lacrimais durante 15 dias e em nenhum deles as \u00falceras cicatrizaram naturalmente. Todos\u00a0 receberam a terapia com CTMs alog\u00eanicas e 22 dos 26 c\u00e3es apresentaram cicatriza\u00e7\u00e3o completa da \u00falcera em 14 dias (FALC\u00c3O <em>et al<\/em>., 2019).<\/p>\n<p>Em ensaio <em>in vitro<\/em> para avaliar os efeitos de CTMs humanas (CTMh) na cicatriza\u00e7\u00e3o do epit\u00e9lio corneano de coelhos, as feridas de c\u00e9lulas epiteliais de coelho induzidas pela exposi\u00e7\u00e3o ao etanol que foram incubadas no meio condicionado com CTMh, por 48 horas, foram rapidamente reduzidas em compara\u00e7\u00e3o com o epit\u00e9lio corneano incubados em meio fresco. Isso indica que as CTMh aumentaram a sobreviv\u00eancia e a prolifera\u00e7\u00e3o e inibiram a apoptose das c\u00e9lulas epiteliais da c\u00f3rnea de coelhos quimicamente lesadas (HUSSEIN &amp; HAMEED, 2022).\u00a0 Em outro estudo <em>in vitro<\/em>, foram realizados ensaios de raspagem de c\u00f3rneas de coelhos tratadas com CTMs. As les\u00f5es tratadas com CTMs reduziram em 95% no per\u00edodo de 48h, enquanto no grupo controle a diminui\u00e7\u00e3o foi de apenas 50% no mesmo per\u00edodo. Ademais, nos grupos tratados com CTMs a express\u00e3o de \u03b1-actina de m\u00fasculo liso (\u03b1-SMA) foi menor, comparado ao grupo controle, sugerindo supress\u00e3o da\u00a0 transforma\u00e7\u00e3o miofibrobl\u00e1stica (CARTER <em>et al<\/em>., 2019)<\/p>\n<p>Cunha <em>et al<\/em>., (2019) realizaram um estudo <em>in vivo<\/em> em ratos nos quais as les\u00f5es da c\u00f3rnea foram realizadas mecanicamente. Em um grupo de animais, as feridas foram tratadas com secretoma liofilizado proveniente de CTMs associado a um gel viscoel\u00e1stico composto de \u00e1cido hialur\u00f4nico (AH) e sulfato de condroitina (SC). Esse grupo apresentou redu\u00e7\u00e3o do tamanho da ferida quando comparado com: (1) o grupo cujos animais foram tratados somente com o secretoma de CTM, (2) o grupo tratado somente com HA e (3) o grupo de animais que recebeu apenas solu\u00e7\u00e3o salina. Isso demonstra que\u00a0 a aplica\u00e7\u00e3o das CTMs derivadas da medula \u00f3ssea combinada com HA\/SC favoreceu a cicatriza\u00e7\u00e3o das feridas em compara\u00e7\u00e3o com o\u00a0 tratamento realizado apenas com CTMs ou HA\/CS.<\/p>\n<p>A terapia celular com c\u00e9lulas-tronco representa um m\u00e9todo promissor e inovador no tratamento de \u00falceras de c\u00f3rnea. A capacidade das c\u00e9lulas-tronco de promover a regenera\u00e7\u00e3o da c\u00f3rnea danificada \u00e9 evidente, constituindo uma alternativa importante aos m\u00e9todos convencionais j\u00e1 praticados. Entretanto, s\u00e3o necess\u00e1rios estudos experimentais adicionais bem como estudos cl\u00ednicos de longo prazo para aprimoramento da compreens\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o dessa terapia que oferece uma perspectiva promissora para o futuro da oftalmologia com consequente melhoria da qualidade de vida e sa\u00fade ocular de muitos pacientes.<\/p>\n<p>Os efeitos terap\u00eauticos das CTMs e o seu secretoma em c\u00f3rneas ulceradas s\u00e3o evidentes. No entanto, a compreens\u00e3o completa do mecanismo de a\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas ainda precisa ser completamente elucidada, bem como a padroniza\u00e7\u00e3o de metodologias da sua entrega que garantam e\/ou possam ampliar a durabilidade da sua a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica.<\/p>\n<h2>REFER\u00caNCIAS<\/h2>\n<p>ALMALKI, Sami G.; AGRAWAL, Devendra K. Key transcription factors in the differentiation of mesenchymal stem cells. <strong>Differentiation<\/strong>, v. 92, n. 1-2, p. 41-51, jul. 2016.<\/p>\n<p>AHMED, F.; HOUSE, R. J.; FELDMAN, B. H. Corneal abrasions and corneal foreign bodies. <strong>Primary Care: Clinics in Office Practice<\/strong>, v. 42, n. 3, p. 363-375, 2015.<\/p>\n<p>ARA\u00daJO, A.; GOMES, J. A. P. Corneal stem cells and tissue engineering: Current advances and future perspectives. <strong>World journal of stem cells<\/strong>, v. 7, n. 5, p. 806, 2015.<\/p>\n<p>BELKNAP, E. B. 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Curr\u00edculo Lattes: http:\/\/lattes.cnpq.br\/5072449145232488.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a><\/sup> PhD em Bioqu\u00edmica e Fisiologia; Mestrado em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas; Gradua\u00e7\u00e3o em Biologia. ORCID: 0000-0003-1493-7964. Curr\u00edculo Lattes: http:\/\/lattes.cnpq.br\/9044747136928972.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a><\/sup> PhD em Bioci\u00eancia Animal; Mestrado em Anatomia; Gradua\u00e7\u00e3o em Odontologia. ORCID: 0000-0002-6809-8396. 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