{"id":1853,"date":"2023-03-20T19:06:24","date_gmt":"2023-03-20T22:06:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/?p=1853"},"modified":"2023-04-28T14:30:43","modified_gmt":"2023-04-28T17:30:43","slug":"e-feitos-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/multidisciplinar\/e-feitos-da-pandemia","title":{"rendered":"5. E-feitos da pandemia na cidade maravilhosa: entre imagens e esquecimentos de um passado n\u00e3o t\u00e3o maravilhoso, a partir de uma abordagem da teoria ator-rede"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Marcelo Sbarra <sup><sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/sup><\/p>\n<div class=\"acf-input-prepend\" style=\"text-align: right;\">DOI: 10.32749\/nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/1853<\/div>\n<h2>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Este texto tem como proposta mostrar os e-feitos da pandemia de COVID-19 na percep\u00e7\u00e3o da cidade, tendo como exemplo o Rio de Janeiro \u2013 em especial o \u201clugar-em-a\u00e7\u00e3o\u201d (RHEINGANTZ, 2012; RHEINGANTZ; PEDRO, 2012; RHEINGANTZ <em>et al,<\/em> 2017) Porto Maravilha, localizado na regi\u00e3o portu\u00e1ria da cidade e palco de intensas transforma\u00e7\u00f5es urbanas e arquitet\u00f4nicas ao longo dos mais de quinhentos anos de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os lugares-em-a\u00e7\u00e3o s\u00e3o, segundo os autores, interfaces que s\u00e3o afetadas por diversos elementos e, como tal, emergem de processos de media\u00e7\u00e3o que envolvem aspectos pol\u00edticos, t\u00e9cnicos, econ\u00f4micos, arquitet\u00f4nicos se configurando como agentes de transforma\u00e7\u00e3o: como envolvem diferentes materialidades, e podem ser entendidos como interfaces que aprendem, performando produ\u00e7\u00f5es sempre locais e situadas.<\/p>\n<p>O Porto do Rio de Janeiro possui, historicamente, um protagonismo na forma como a cidade do Rio foi sendo moldada e transformada, em sucessivos \u201cmelhoramentos\u201d urbanos (CEZAR; CASTRO, 1989) que, inclusive, alteraram os limites territoriais da cidade atrav\u00e9s de aterramentos de \u00e1reas antes pertencentes \u00e0 Baia de Guanabara.<\/p>\n<p>As obras mais impactantes, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, feitas prefeito Pereira Passos \u2013 que precisava com urg\u00eancia, \u201cmodernizar\u201d a cidade e tirar-lhe o apelido de \u201ccidade\u2011morte\u201d (CARMO; ORTIZ, 2014) e torn\u00e1-la mais \u201cmoderna\u201d e s\u00edmbolo de um novo Brasil (ABREU, 1997) \u2013 e, mais recentemente, as obras realizadas pelo prefeito Eduardo Paes, por ocasi\u00e3o da escolha da cidade para sediar a Copa do Mundo (2014) e as Olimp\u00edadas (2016).<\/p>\n<p>Se, inicialmente, o Porto tinha um papel de escoamento de riquezas provindas principalmente de Minas Gerais (BENCHIMOL, 1992), com a vinda da Fam\u00edlia Real em 1808, o Porto e seus arredores ganham ares mais aristocr\u00e1ticos e uma tentativa de melhorar a imagem da cidade perante um mundo cada vez menos propenso a aceitar a escravid\u00e3o humana. (SOARES, 2007; HONORATO, 2019)<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a do Cais do Valongo para Cais da Imperatriz, em 1843 (VASSALO; CICALO, 2015), \u00e9 um exemplo contundente de como o passado foi sendo coberto por v\u00e1rias camadas que tentavam encobrir os horrores provenientes do tr\u00e1fico negreiro. Este tipo de apagamento da mem\u00f3ria \u00e9 destacado por Montaner e Mux\u00ed (2014) como uma das pol\u00edticas adotadas para a turistifica\u00e7\u00e3o e museifica\u00e7\u00e3o de cidades com vistas a torn\u00e1-las cada vez mais rent\u00e1veis sob o ponto de vista econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Neste texto, propomos uma reflex\u00e3o conjunta, atrav\u00e9s de uma navega\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre a constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do Porto, mas dos pr\u00f3prios limites territoriais do Rio de Janeiro: onde hoje se localiza a Pedra do Sal, no bairro da Sa\u00fade, n\u00e3o h\u00e1 mais sinais da antiga Prainha, onde atracavam os barcos. O Cais do Valongo, localizado a poucos metros dali, constitui apenas um marco arquitet\u00f4nico a c\u00e9u aberto \u2013 onde foi colocada uma placa \u201ccomemorativa\u201d \u2013 um \u00edcone ou fetiche (Latour. 2009) &#8211; com uma pintura de Rugendas \u2013 mostrando um negro se entregando pacificamente a um vendedor de escravos: um apagamento de mem\u00f3ria de grandes propor\u00e7\u00f5es, uma vez que ali era o local de desembarque de milhares de escravos durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, propomos uma reflex\u00e3o acerca da pandemia e de como existe uma liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre imagens e representa\u00e7\u00f5es da cidade, seus habitantes e mesmo as doen\u00e7as \u2013 a febre espanhola e a COVID-19 \u2013 e as mensagens que tais imagens pretendem passar.<\/p>\n<p>A partir da abordagem da Teoria Ator-Rede, costuramos uma navega\u00e7\u00e3o onde atores humanos e n\u00e3o-humanos se entrela\u00e7am na constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa \u2013 dentre tantas outras poss\u00edveis.<\/p>\n<h2>DESENVOLVIMENTO<\/h2>\n<p>Ao falar da hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional, do sentido de brasilidade e mesmo de o que \u00e9 ser \u201ccarioca\u201d, existem v\u00e1rios caminhos poss\u00edveis de serem seguidos. O fio de Ariadne escolhido aqui foi a arqueologia do Porto do Rio de Janeiro e de sua import\u00e2ncia na configura\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da cidade colonial em capital e metr\u00f3pole mundial. Uma urbaniza\u00e7\u00e3o que passou por cima de muitas hist\u00f3rias; que em sua grandeza ao se abrir para o mundo, tamb\u00e9m operou como porta de entrada de in\u00fameras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A febre espanhola, que assolou a cidade em 1918 (ABREU, 1997), foi retratada em jornais da \u00e9poca sob diferentes enfoques: como trag\u00e9dia, como algo evit\u00e1vel, como algo inevit\u00e1vel e at\u00e9 mesmo com humor. Uma s\u00e9rie de imagens \u2013 ou cartuns \u2013 foram produzidos nesta \u00e9poca, tendo como personagens a Morte, a Espanhola e caricaturas do Prefeito e figuras pol\u00edticas \u2013 maneiras de dar forma \u00e0quilo que muitas vezes \u00e9 invis\u00edvel \u2013 como um estado, um sentimento, uma a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ter em mente que, naquele momento hist\u00f3rico, era preciso agir r\u00e1pido: a cidade j\u00e1 possu\u00eda m\u00e1-fama devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de seu porto (ABREU, 1997; CARMO; ORTIZ, 2014) e arredores. Algumas atitudes foram tomadas para melhorar esta \u201cimagem\u201d, n\u00e3o s\u00f3 no \u00e2mbito do ambiente constru\u00eddo, mas tamb\u00e9m se valendo de diferentes m\u00eddias, o que inclui a m\u00fasica <em>Aquarela do Brasil<\/em>, escrita em 1939 por Ary Barroso e posteriormente inclu\u00edda em um filme produzido pela Disney sobre a visita do Pato Donald \u00e0 cidade do Rio de Janeiro, mostrando suas belezas exuberantes. O filme, lan\u00e7ado em 1942 no auge da pol\u00edtica de boa-vizinhan\u00e7a -, conta com a presen\u00e7a da atriz em ascens\u00e3o Aurora Miranda (irm\u00e3 de Carmem Miranda) e a cria\u00e7\u00e3o de um personagem brasileiro para a Disney: o Z\u00e9 Carioca.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria marcha de Carnaval \u2013 que se tornou hino oficial da cidade em 2003 -, tamb\u00e9m cantada por Aurora Miranda, <em>Cidade Maravilhosa,<\/em> escrita para o Carnaval de 1935 e regravada por in\u00fameros astros do r\u00e1dio, ajudou a refor\u00e7ar a ideia de uma cidade onde tudo \u00e9 vendido como perfeito. (DEL PRIORE, 2006).<\/p>\n<p>O projeto para o \u201cPorto Maravilha\u201d, lan\u00e7ado em 2009 (CDURP, 2009), talvez seja uma das mais recentes tentativas de continuar vendendo a imagem de uma cidade maravilhosa \u2013 um projeto criticado em sua incapacidade de \u201crevitalizar\u201d uma \u00e1rea que j\u00e1 possu\u00eda vida, transformando-a em uma grande esplanada \u00e0 c\u00e9u aberto, cujo principal objetivo seria oferecer aos navios de cruzeiro que abarcam ali uma vista mais \u201cmoderna\u201d da cidade. (SBARRA, 2020)<\/p>\n<p>Devemos ressaltar que um dos pontos principais do projeto Porto Maravilha era a constru\u00e7\u00e3o de torres de 150 metros de altura \u2013 que, em \u00faltima an\u00e1lise, esconderiam os Morros ali existentes, que guardam a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o da cidade. (ABREU, 1997). Tais \u00edcones arquitet\u00f4nicos possu\u00edam em comum a assinatura de um \u201carquiteto-estrela\u201d (JENCKS, 2005; MONTANER; MUXI, 2014) para assegurar o status do empreendimento \u2013 estrat\u00e9gia identificada por Jencks (2005) como uma das caracter\u00edsticas o edif\u00edcio ic\u00f4nico.<\/p>\n<p>Uma segunda caracter\u00edstica \u2013 e esta nos interessa bastante \u2013 \u00e9 que todo edif\u00edcio ic\u00f4nico pode, segundo Jencks (2005), ser reduzido a uma imagem \u2013 como um logotipo \u2013 de forma a facilitar sua assimila\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia. De fato, todos os novos edif\u00edcios inseridos no \u00e2mbito do Porto Maravilha e estudados por Sbarra (2020) possu\u00edam logotipos que representavam suas caracter\u00edsticas arquitet\u00f4nicas mais fortes e s\u00e3o usados em suas p\u00e1ginas da internet, em suas m\u00eddias sociais e em propagandas.<\/p>\n<p>Este fetiche pela imagem e representa\u00e7\u00e3o de uma realidade \u00e9 ressaltado por Bruno Latour em diversos trabalhos (ver, p. ex. LATOUR, 2009). Como destaca o autor, a necessidade de se ter um objeto de adora\u00e7\u00e3o (seja um totem, um edif\u00edcio ou mesmo a representa\u00e7\u00e3o destes, como no caso do v\u00edrus) causa uma esp\u00e9cie de encantamento \u2013 ou feiti\u00e7o, segundo o autor \u2013 que mostra o poder que as imagens possuem de transmitir uma ideia ou sentimento.<\/p>\n<p>Desta forma, considerando a import\u00e2ncia desta regi\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro, passamos a abordar e a estudar a inser\u00e7\u00e3o de \u00edcones arquitet\u00f4nicos como estrat\u00e9gia de \u201cchamar a aten\u00e7\u00e3o\u201d (JENCKS, 2005) e garantir uma renova\u00e7\u00e3o urbana de \u201csucesso\u201d (JENCKS, 2005; MONTANER; MUXI, 2014), sempre atrelando esses \u00edcones com a imagem dele produzidas: como logotipos, material de divulga\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de novos pontos de interesse na cidade.<\/p>\n<p>A \u201cmuseifica\u00e7\u00e3o\u201d da cidade (MONTANER;MUXI, 2014) \u00e9 uma das caracter\u00edsticas apontadas pelos autores como ind\u00edcio de que existe uma tentativa de cria\u00e7\u00e3o de uma nova ontologia, uma recria\u00e7\u00e3o mais glamorosa do local de interven\u00e7\u00e3o, com vistas ao esquecimento de seu passado e, frequentemente, contando com a participa\u00e7\u00e3o de um \u201carquiteto-estrela\u201d para dar valor \u00e0 marca.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia desta inser\u00e7\u00e3o \u2013 e consequente, deste \u201capagamento da mem\u00f3ria\u201d &#8211; \u00e9 gerar lugares urbanos cujo objetivo \u00e9 atrair turistas, a qualquer pre\u00e7o: o exemplo mais conhecido, a inser\u00e7\u00e3o do Museu Guggenhein em Bilbao \u2013 a que Charles Jencks dar\u00e1 o nome de Efeito Bilbao (Jencks, 2005).<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, o Efeito Bilbao pode ser conferido nas reformas ocorridas no \u00e2mbito do Projeto Porto Maravilha, tendo no Museu do Amanh\u00e3, de autoria do arquiteto espanhol Santiago Calatrava seu maior s\u00edmbolo e \u00edcone.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2020, j\u00e1 na finaliza\u00e7\u00e3o da tese que deu origem ao presente texto, o mundo \u00e9 abalado pela emerg\u00eancia e crescimento exponencial da pandemia de COVID\u201119, trazendo um novo ator para a pesquisa: o novo Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Demo-nos conta que, seguindo a mesma l\u00f3gica do \u00edcone arquitet\u00f4nico, o v\u00edrus encontrou uma forma peculiar de estar presente, fortemente, durante o per\u00edodo da pandemia. Ainda que os n\u00fameros de infectados e mortos fossem alarmantes, foi necess\u00e1rio que o v\u00edrus ganhasse forma e presen\u00e7a: uma esp\u00e9cie de identifica\u00e7\u00e3o, como em um cartaz de \u201cprocura-se\u201d: estampado em logotipos, chamadas de telejornais, capas de jornais, cartuns. Sua forma simplificada \u00e9 uma maneira de dar visibilidade a algo somente visto ao microsc\u00f3pio.<\/p>\n<h2>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/h2>\n<p>Latour (1984), no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, j\u00e1 havia se debru\u00e7ado sobre o papel do micr\u00f3bio, dos microbiologistas e da sociedade afetada por ambos: ele seguia os rastros do trabalho do microbiologista Louis Pasteur (1822-1895) e sobre o porqu\u00ea de seu trabalho ser mais ou menos aceito em determinadas camadas da chamada elite intelectual francesa.<\/p>\n<p>Tendo como inspira\u00e7\u00e3o as publica\u00e7\u00f5es mais recentes de Bruno Latour, onde ele se volta para as rela\u00e7\u00f5es interplanet\u00e1rias, retornamos ao in\u00edcio: a chegada dos &#8220;descobridores&#8221; e a dizima\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas pelo simples contato social \u2013 epidemia. (ABREU, 1997)<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, refor\u00e7amos a constru\u00e7\u00e3o da imagem de uma na\u00e7\u00e3o: acolhedora, paradis\u00edaca, maravilhosa &#8211; &#8220;o pa\u00eds do futuro&#8221; (ROTHER, 2012).<\/p>\n<p>Um pa\u00eds t\u00e3o futurista que implanta um Museu que, contrariando a l\u00f3gica ainda dominante sobre a fun\u00e7\u00e3o de um museu em preservar o passado e a mem\u00f3ria \u2013 se volta para o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Essa busca incans\u00e1vel pelo devir, pelo que est\u00e1 pela frente parece ter causado uma cegueira coletiva, como em Saramago.<\/p>\n<p>Neste momento cr\u00edtico onde milh\u00f5es de vidas est\u00e3o em perigo, vamos ignorar novamente, \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o que vive \u00e0 margem do sistema?<\/p>\n<p>As orienta\u00e7\u00f5es das autoridades incluem isolamento social, limpeza. As favelas, onde muitos se espremem em apertados c\u00f4modos sem ilumina\u00e7\u00e3o e ventila\u00e7\u00e3o adequadas \u2013 s\u00e3o os corti\u00e7os de Pereira Passos que nunca desapareceram, mas permaneceram invis\u00edveis enquanto conveniente para o restante da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito cr\u00edtico, as ci\u00eancias, precisam retomar seu lugar. A Universidade P\u00fablica \u2013 onde ocorrem todas as pesquisas relacionadas \u00e0 pesquisa da cura desta e de incont\u00e1veis doen\u00e7as \u2013 precisa voltar a ser o centro do debate.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a pandemia de 2020, com esta ruptura epistemol\u00f3gica, onde o sentido de real e normal n\u00e3o produzem mais efeitos, tudo urge que seja re-feito<sup><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/sup>, repensando.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos e-feitos vis\u00edveis da quarentena: fazer com que pensemos em nossa pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, nosso papel na sociedade, como trabalhadores, como familiares ou como <em>quarenteneers<\/em><sup><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/sup>, como pesquisadores.<\/p>\n<p>O \u00edcone arquitet\u00f4nico, as imagens, perpassam tudo isso, como o plasma que d\u00e1 forma ao mundo (LATOUR, HERMANT, 1998): \u00e9 a presen\u00e7a ausente, que est\u00e1, mas que n\u00e3o se faz presente por si s\u00f3: carrega consigo ideais de lucro, turistifica\u00e7\u00e3o, marketiza\u00e7\u00e3o de cidades e lugares, mas tal como um \u00edcone que se coloca im\u00f3vel em um altar, n\u00e3o \u00e9 capaz de interceder pelos lugares onde se inserem.<\/p>\n<p>O olhar despreocupado, muitas vezes, \u00e9 capaz de observar muito mais cuidadosamente a ess\u00eancia do que se v\u00ea: o plasma que molda a vida, o olig\u00f3ptico \u2013 em oposi\u00e7\u00e3o ao pan\u00f3ptico &#8211; que nos for\u00e7a a um olhar atento nos ajuda a enxergar muitas vezes o \u00f3bvio \u2013 que nem sempre \u00e9 evidente ou evidenciado.<\/p>\n<p>Latour (2020b) resume, de forma contundente, o momento que estamos passando e como o observar cuidadoso \u00e9 fundamental para se entender o que est\u00e1 acontecendo ao inv\u00e9s do negacionismo que se tornou comum, ao afirmar que \u00e9 \u201caterrorizante\u201d publicar o livro Diante de Gaia no Brasil em meio a uma crise destas propor\u00e7\u00f5es. Temos, diante de n\u00f3s, a oportunidade de aprender com a crise: mesmo o \u00edcone, com todo o seu poder, n\u00e3o resiste \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria, esta sim \u00e9 a ess\u00eancia que se faz presente: seja nas pessoas, nas pedras das ruas, na pesquisa cient\u00edfica. Apesar de todas as tentativas, ela n\u00e3o ser\u00e1 apagada ou ocultada facilmente, seja atrav\u00e9s de novas narrativas, outras ontologias, novos totens ou mon\u00f3litos.<\/p>\n<h2>REFER\u00caNCIAS<\/h2>\n<p>ABREU, M de A. <strong>Evolu\u00e7\u00e3o urbana do Rio de Janeiro<\/strong>. Rio de Janeiro: IPLANRIO, 1997.<\/p>\n<p>BENCHIMOL, J. L. <strong>Pereira Passos, um Haussmann tropical<\/strong> \u2013 a renova\u00e7\u00e3o urbana da cidade do Rio de Janeiro no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Rio de Janeiro: Departamento Geral de Documenta\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o Cultural, 1992.<\/p>\n<p>CARMO, M. H.; ORTIZ, A. Meu Porto Maravilha: a inven\u00e7\u00e3o de novas paisagens de cart\u00e3o postal da cidade do Rio de Janeiro. In: XII Congresso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicaci\u00f3n, 2014, Lima. <strong>ALAIC 2014<\/strong>, 2014, p. 1-21. Dispon\u00edvel em: http:\/\/congreso.pucp.edu.pe\/alaic2014\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/CARMO-y-ORTIZ.pdf Acesso em: 23 abr. 2018.<\/p>\n<p>CDURP. Caracteriza\u00e7\u00e3o do empreendimento.\u00a0 <strong>Companhia de Desenvolvimento Urbano da Regi\u00e3o do Porto do Rio de Janeiro S\/A<\/strong>. 2009. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.portomaravilha.com.br\/conteudo\/estudos\/impacto-a-vizinhaca\/III.%20Caracterizacao%20do%20Empreendimento.pdf. Acesso em: 05 mai. 2020.<\/p>\n<p>CEZAR, P. B.; CASTRO, A. R. V. de. <strong>A Pra\u00e7a Mau\u00e1 na mem\u00f3ria do Rio de Janeiro<\/strong>. Rio de Janeiro: Ex Libris\/IPLAN-RIO\/Jo\u00e3o Fortes Engenharia, 1989.<\/p>\n<p>DEL PRIORE, M. <strong>Hist\u00f3rias da gente brasileira<\/strong>: volume 1 &#8211; Col\u00f4nia. S\u00e3o Paulo: Leya, 2006.<\/p>\n<p>HONORATO, C. de P. <strong>Valongo<\/strong>: o mercado de almas da pra\u00e7a carioca. Curitiba: Appris, 2019.<\/p>\n<p>JENCKS, C. <strong>Iconic buildings<\/strong>: the power of enigma. London: Frances Lincoln, 2005.<\/p>\n<p>LATOUR, B. <strong>Les microbes<\/strong>: guerre et paix. Paris: \u00c9ditions Anne-Marie M\u00e9tailie\u00e9, 1984.<\/p>\n<p>LATOUR, B. <strong>Sur le culte moderne des dieux faitiches<\/strong>: suivi de Iconoclash. Paris: La d\u00e9couverte, 2009.<\/p>\n<p>LATOUR, B. <strong>Diante de Gaia<\/strong>: oito confer\u00eancias sobre a natureza no antropoceno. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2020b.<\/p>\n<p>LATOUR, B.; HERMANT, E. <strong>Paris<\/strong>: ville invisible. Paris: La d\u00e9couverte, 1998.<\/p>\n<p>MONTANER, J. M.; MUX\u00cd, Z. <strong>Arquitetura e Pol\u00edtica<\/strong>: ensaios para mundos alternativos. Barcelona: Gustavo Gili, 2014.<\/p>\n<p>RHEINGANTZ, P. A. Narrativas ou tradu\u00e7\u00f5es de Urbanidade. In: AGUIAR, D.; NETTO, V. M. (Org.). <strong>Urbanidades<\/strong>. Rio de Janeiro: Letra e Imagem, 2012.<\/p>\n<p>RHEINGANTZ, P. A.; PEDRO, R. M. L. R. (Org.). <strong>Qualidade do Lugar e Cultura Contempor\u00e2nea<\/strong>: controv\u00e9rsias e resson\u00e2ncias em coletivos urbanos. Rio de Janeiro: UFRJ, 2012.<\/p>\n<p>RHEINGANTZ, P. A; PEDRO, R. M. L. R.; ANGOTTI, F.; SBARRA, M. Arena do Morro e Museu do Amanh\u00e3: dois lugares em a\u00e7\u00e3o. <strong>URBE<\/strong>. Revista Brasileira de Gest\u00e3o Urbana, v. 9, p. 387-400, 2017.<\/p>\n<p>ROHTER, L. <strong>Brazil on the rise<\/strong>: the story of a country transformed. New York: Palgrave Macmillan, 2012.<\/p>\n<p>SBARRA, M. <strong>Os \u00edcones do Porto Maravilha numa abordagem da Teoria Ator-Rede<\/strong>. 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Acesso em: 01 maio 2020.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a><\/sup> Doutor em Arquitetura (PROARQ\/FAU\/UFRJ), Mestre em arquitetura (PROARQ\/FAU\/UFRJ), Especialista em Ci\u00eancias Humanas: Sociologia, Hist\u00f3ria e Filosofia (PUC\/RS), Arquiteto e Urbanista (FAU\/UFRJ). Membro do Grupo ProLUGAR. ORCID: 0000-0003-3944-0954. Curr\u00edculo Lattes: http:\/\/lattes.cnpq.br\/3665338208914266.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a><\/sup> Propositalmente para dar \u00eanfase ao que \u00e9 feito, fabricado.<\/p>\n<p><sup><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a><\/sup> Express\u00e3o para designar pessoas que, por algum motivo, tiveram que passar a quarentena juntos, mesmo n\u00e3o sendo da mesma fam\u00edlia ou tendo quaisquer outros la\u00e7os que as unissem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto tem como proposta mostrar os e-feitos da pandemia de COVID-19 na percep\u00e7\u00e3o da cidade, tendo como exemplo o Rio de Janeiro \u2013 em<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":2011,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[525],"tags":[136,859,817,126],"class_list":["post-1853","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multidisciplinar","tag-covid-19","tag-e-feitos-da-pandemia","tag-multidisciplinar","tag-pandemia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>E-feitos da pandemia na cidade maravilhosa: entre imagens<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Este texto tem como proposta mostrar os e-feitos da pandemia de COVID-19 na percep\u00e7\u00e3o da cidade, tendo como exemplo o Rio de Janeiro \u2013 em...\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/multidisciplinar\/e-feitos-da-pandemia\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"E-feitos da pandemia na cidade maravilhosa: entre imagens\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Este texto tem como proposta mostrar os e-feitos da pandemia de COVID-19 na percep\u00e7\u00e3o da cidade, tendo como exemplo o Rio de Janeiro \u2013 em...\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/multidisciplinar\/e-feitos-da-pandemia\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Livros Acad\u00eamicos\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-03-20T22:06:24+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2023-04-28T17:30:43+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Multidisciplinar-Atualizacao-de-Area-janeiro-e-fevereiro-de-2023.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1409\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"2000\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Marcelo Sbarra\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Marcelo Sbarra\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.nucleodoconhecimento.com.br\\\/livros\\\/multidisciplinar\\\/e-feitos-da-pandemia#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.nucleodoconhecimento.com.br\\\/livros\\\/multidisciplinar\\\/e-feitos-da-pandemia\"},\"author\":{\"name\":\"Marcelo Sbarra\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.nucleodoconhecimento.com.br\\\/livros\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/46c7b1bb7a2959c19e1c237b4d26ba06\"},\"headline\":\"5. 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