{"id":1747,"date":"2023-03-17T09:30:26","date_gmt":"2023-03-17T12:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/?p=1747"},"modified":"2023-05-04T12:45:44","modified_gmt":"2023-05-04T15:45:44","slug":"endometriose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/ciencias-da-saude\/endometriose","title":{"rendered":"7. Modula\u00e7\u00e3o estrog\u00eanica da dor relacionada \u00e0 endometriose"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Marina Matos de Moura Fa\u00edco <sup><sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">DOI: 10.32749\/nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/1747<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A endometriose caracteriza-se pela observa\u00e7\u00e3o do tecido endometrial fora da cavidade uterina, na regi\u00e3o p\u00e9lvica e tecidos adjacentes ao \u00fatero, e pode desencadear sintomas que variam de dismenorreia a dores p\u00e9lvicas intensas e infertilidade. Um sintoma chave na suspeita da doen\u00e7a \u00e9 o surgimento ou a exacerba\u00e7\u00e3o de dismenorreia refrat\u00e1ria ao tratamento convencional.<\/p>\n<p>Tem sido observada forte associa\u00e7\u00e3o entre dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica e endometriose. Apesar disso, a etiologia, a fisiopatologia e as vias nociceptivas que desencadeiam os sintomas de dor na endometriose permanecem n\u00e3o compreendidas, o que tem resultado em interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas n\u00e3o efetivas que comprometem a qualidade de vida e a fertilidade da mulher.<\/p>\n<p>A IASP (<em>International Association for the Study of Pain<\/em>) define a dor como uma experi\u00eancia emocional, com sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, associada \u00e0 les\u00e3o tecidual presente, potencial ou descrita como tal<sup>43<\/sup>. Sendo assim, eis que a dor por si s\u00f3 poderia estabelecer uma intera\u00e7\u00e3o c\u00e9rebro-corpo atrav\u00e9s do estresse que provoca.<\/p>\n<p>Entretanto, o estresse \u201cinflamat\u00f3rio perif\u00e9rico\u201d \u2013 descrito na endometriose \u2013 e a pot\u00eancia de sintomas cl\u00ednicos como a dor cr\u00f4nica podem por sua vez induzir a resposta \u00e0 doen\u00e7a, a qual pode ser intitulada \u201cinter-rela\u00e7\u00e3o corpo-c\u00e9rebro\u201d (Figura 1) (TARIVERDIAN <em>et al.<\/em>, 2007; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Tal rela\u00e7\u00e3o pode subsequentemente perpetuar a percep\u00e7\u00e3o do estresse e disparar a libera\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nio liberador de corticotropina (CRH) pelo sistema nervoso central (SNC) e dar in\u00edcio a altera\u00e7\u00f5es no comportamento, atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o aumentada de citocinas que cruzam a barreira hematoencef\u00e1lica ou pela estimula\u00e7\u00e3o de vias aferentes vagais pelas citocinas pr\u00f3-inflamat\u00f3rias peritoneais (TARIVERDIAN <em>et al.<\/em>, 2007; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o do estresse agrava a angiog\u00eanese e a inflama\u00e7\u00e3o peritoneal, a dor cr\u00f4nica e a infertilidade em pacientes com endometriose via circuitos neurais envolvendo as catecolaminas, CRH, fator de crescimento neural (NGF), subst\u00e2ncia P (SP), e pept\u00eddeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP); isto pode ser referido como \u201cinter-rela\u00e7\u00e3o c\u00e9rebro-corpo-c\u00e9rebro\u201d j\u00e1 que envolve a resposta central ao estresse. Como resultado, observa-se um ciclo vicioso \u201cc\u00e9rebro-corpo-c\u00e9rebro\u201d nas pacientes que sofrem com a endometriose (TARIVERDIAN <em>et al.<\/em>, 2007; MARQUARDT <em>et al<\/em>., 2019; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p><strong>Figura 1.<\/strong> Cen\u00e1rio hipot\u00e9tico para endometriose: a \u201cinter-rela\u00e7\u00e3o c\u00e9rebro\u2013corpo-c\u00e9rebro\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Cenario-hipotetico-para-endometriose-a-inter-relacao-cerebro\u2013corpo-cerebro.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2110 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Cenario-hipotetico-para-endometriose-a-inter-relacao-cerebro\u2013corpo-cerebro.png\" alt=\"\" width=\"729\" height=\"757\" srcset=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Cenario-hipotetico-para-endometriose-a-inter-relacao-cerebro\u2013corpo-cerebro.png 729w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Cenario-hipotetico-para-endometriose-a-inter-relacao-cerebro\u2013corpo-cerebro-289x300.png 289w\" sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" \/><\/a><\/p>\n<p>BBB: barreira hematoencef\u00e1lica, CGRP: pept\u00eddeo relacionado com o gene da calcitonina, CRH: horm\u00f4nio liberador de corticotropina, NGF: fator de crescimento neural, SP: subst\u00e2ncia P. <strong>Fonte:<\/strong> Tariverdian <em>et al<\/em>. 2007.<\/p>\n<p>Existem evid\u00eancias da modula\u00e7\u00e3o de vias neuronais no SNC pelos estrog\u00eanios.\u00a0 Duas classes de receptores estrog\u00eanicos \u03b1 e \u03b2 s\u00e3o expressos em regi\u00f5es espec\u00edficas do c\u00e9rebro. Outros receptores localizados na membrana plasm\u00e1tica auxiliam na regula\u00e7\u00e3o da cascata de sinaliza\u00e7\u00e3o intracelular e mediam efeitos r\u00e1pidos que n\u00e3o envolvem ativa\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica. Algumas a\u00e7\u00f5es estrog\u00eanicas no SNC s\u00e3o potencialmente relevantes para o processamento da cogni\u00e7\u00e3o, por exemplo (BRYAN <em>et al<\/em>., 2010; MARQUARDT <em>et al<\/em>., 2019; CHANTALAT <em>et al<\/em>., 2020; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Pesquisas em animais demonstraram a exist\u00eancia de receptores estrog\u00eanicos em regi\u00f5es corticais e cerebelares, no hipocampo, no hipot\u00e1lamo, no sistema l\u00edmbico e na am\u00edgdala. A intera\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios sexuais com receptores intracelulares resulta em altera\u00e7\u00f5es gen\u00f4micas que incluem a modifica\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia de transcri\u00e7\u00e3o de genes que regulam a s\u00edntese e o metabolismo de neurotransmissores e que modulam os receptores do fator de crescimento neural. Al\u00e9m disso, observa-se uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o-gen\u00f4mica que se d\u00e1 em n\u00edvel da membrana celular, permitindo a modula\u00e7\u00e3o de sistemas que regulam a serotonina (<em>down-regulation<\/em> dos receptores 5-HT<sub>2<\/sub>), a noradrenalina ou a dopamina (ROCCA <em>et al.<\/em>, 2010; MARQUARDT <em>et al<\/em>., 2019).<\/p>\n<p>Os estrog\u00eanios ainda acentuam a plasticidade sin\u00e1ptica, o crescimento neur\u00edtico, neurog\u00eanese hipocampal e a potencia\u00e7\u00e3o a longo-prazo, eventos importantes para o processamento da mem\u00f3ria epis\u00f3dica e para a modula\u00e7\u00e3o nociceptiva. Esses horm\u00f4nios influenciam v\u00e1rios sistemas neurotransmissores, incluindo o da acetilcolina (importante no processamento da mem\u00f3ria), da serotonina, da noradrenalina e do glutamato. Neur\u00f4nios colin\u00e9rgicos na regi\u00e3o frontal do c\u00e9rebro expressam receptores estrog\u00eanicos, e a administra\u00e7\u00e3o de estrog\u00eanios acentua\/melhora a fun\u00e7\u00e3o colin\u00e9rgica ap\u00f3s ooforectomia (HENDERSON, 2008; BRYAN <em>et al<\/em>., 2010; ROCCA <em>et al<\/em>., 2010; BULUN <em>et al<\/em>., 2019; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>A dor cr\u00f4nica \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o frequente em mulheres, geralmente caracterizada pela persist\u00eancia apesar da remo\u00e7\u00e3o do est\u00edmulo causal ou dor que surge na aus\u00eancia de qualquer dano detect\u00e1vel (HASSAN <em>et al<\/em>., 2014; GUYNTON &amp; HALL, 2021). Uma vez que a preval\u00eancia de dor cr\u00f4nica nas mulheres \u00e9 maior entre a puberdade e menopausa, ou seja, durante a vida reprodutiva, acredita-se que os horm\u00f4nios ovarianos possam ser respons\u00e1veis por este evento. Estudos t\u00eam demonstrado que a diversidade de sintomas dolorosos cr\u00f4nicos relatados pelas mulheres pode ser atribu\u00edda \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es dos horm\u00f4nios ovarianos durante o ciclo menstrual (HASSAN <em>et al<\/em>., 2014; BULUN <em>et al<\/em>., 2019; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Evid\u00eancias apontam que a severidade da dor relatada pelas mulheres varia conforme a fase do ciclo menstrual. Relata-se aumento da severidade da dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica conforme se observa redu\u00e7\u00e3o abrupta dos n\u00edveis de estrog\u00eanios (Figura 2). No entanto, tais estudos utilizaram diferentes metodologias e n\u00e3o podem ser levados em considera\u00e7\u00e3o para se formar um consenso (HASSAN <em>et al<\/em>., 2014; CHANTALAT <em>et al<\/em>., 2020; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p><strong>Figura 2.<\/strong> Esquema sumarizando as altera\u00e7\u00f5es nos n\u00edveis de estrog\u00eanios e <em>score <\/em>de dor conforme as varia\u00e7\u00f5es de um ciclo menstrual t\u00edpico baseado na revis\u00e3o de literatura realizada por Hassan <em>et al<\/em>., 2014<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014.png\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2112 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014.png\" alt=\"\" width=\"1288\" height=\"742\" srcset=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014.png 1288w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014-300x173.png 300w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014-1024x590.png 1024w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-sumarizando-as-alteracoes-nos-niveis-de-estrogenios-e-score-de-dor-conforme-as-variacoes-de-um-ciclo-menstrual-tipico-baseado-Hassan-et-al.-2014-768x442.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1288px) 100vw, 1288px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> Hassan <em>et al<\/em>., 2014.<\/p>\n<p>Embora o mecanismo exato pelo qual os horm\u00f4nios ovarianos participam da modula\u00e7\u00e3o da dor permane\u00e7a incerto, tais horm\u00f4nios, especialmente os estrog\u00eanios, desempenham fun\u00e7\u00e3o em algumas vias de transmiss\u00e3o dos est\u00edmulos dolorosos como fibras nervosas aferentes as quais modulam a transdu\u00e7\u00e3o de sinais e transmiss\u00e3o dos est\u00edmulos nociceptivos; na subst\u00e2ncia gelatinosa da medula espinhal, que constitui o port\u00e3o de modula\u00e7\u00e3o da nocicep\u00e7\u00e3o, onde se expressam receptores de estrog\u00eanios que se modificam conforme flutua\u00e7\u00f5es na s\u00edntese hormonal durante o ciclo menstrual; e, em regi\u00f5es do c\u00e9rebro que modulam a nocicep\u00e7\u00e3o onde se expressam receptores de estrog\u00eanio (subst\u00e2ncia cinzenta periaquedutal, t\u00e1lamo, amigdala) (HASSAN <em>et al<\/em>., 2014; BULUN <em>et al.<\/em>, 2019; GUYNTON &amp; HALL, 2021; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os horm\u00f4nios ovarianos podem afetar a percep\u00e7\u00e3o da dor pela modula\u00e7\u00e3o de diversos neurotransmissores incluindo: serotonina, dopamina, beta endorfinas e \u00e1cido gama-aminobut\u00edrico (GABA). A intera\u00e7\u00e3o entre estrog\u00eanios e GABA (Figura 3) tem sido demonstrada como uma das mais importantes intera\u00e7\u00f5es na modula\u00e7\u00e3o da dor, com os estrog\u00eanios modulando a s\u00edntese e libera\u00e7\u00e3o do GABA, produ\u00e7\u00e3o e <em>up regulation<\/em> dos receptores GABA\u00e9rgicos, assim como modulando a afinidade deste horm\u00f4nio pelos receptores (MCCARTHY, 2008; HASSAN <em>et al<\/em>., 2014; CHANTALAT <em>et al<\/em>., 2020; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p><strong>Figura 3.<\/strong> Esquema ilustrando a intera\u00e7\u00e3o GABA\/estrog\u00eanios em n\u00edvel do SNC<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1753 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-ilustrando-a-interacao-GABA-estrogenios-em-nivel-do-SNC-jpg.webp\" alt=\"\" width=\"777\" height=\"583\" \/><\/p>\n<p>Fonte: McCarthy, 2008.<\/p>\n<p>A complexa intera\u00e7\u00e3o entre flutua\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis dos horm\u00f4nios ovarianos durante o ciclo menstrual parece refletir sintomas em mulheres relacionados ao SNC, como migr\u00e2nea\/cefaleia decorrente da queda s\u00fabita de estrog\u00eanios durante o ciclo menstrual, que tende a desaparecer ap\u00f3s a menopausa, quando os n\u00edveis de estrog\u00eanios, assim como as flutua\u00e7\u00f5es hormonais, diminuem (PINKERTON <em>et al<\/em>., 2010; STOVNER <em>et al<\/em>., 2011; MARQUARDT <em>et al<\/em>., 2019).<\/p>\n<p>Embora acometam partes diferentes do corpo da mulher, a endometriose e a migr\u00e2nea\/cefaleia, s\u00e3o influenciadas pelos horm\u00f4nios sexuais femininos. Fatores fisiol\u00f3gicos como elevados n\u00edveis de estrog\u00eanios e\/ou aumento da sensibilidade estrog\u00eanica tem sido utilizado para explicar a maior preval\u00eancia de migr\u00e2nea\/cefaleia em mulheres durante a menacme, assim como ocorre com a endometriose. Ainda, considerando que a menstrua\u00e7\u00e3o seria pr\u00e9-requisito para o desenvolvimento da endometriose e que as flutua\u00e7\u00f5es hormonais relacionadas ao ciclo menstrual s\u00e3o o gatilho para disparar os ataques de migr\u00e2nea\/cefaleia nas mulheres, parece aceit\u00e1vel que a menarca precoce seria fator comum entre ambas as desordens (STOVNER <em>et al<\/em>., 2011; BULUN <em>et al<\/em>., 2019; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>A dor p\u00e9lvica pode apresentar diversas causas e pode ser dif\u00edcil diferenci\u00e1-la da dor causada pela endometriose. N\u00e3o existe ainda uma rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre a les\u00e3o (n\u00famero, tamanho e infiltra\u00e7\u00e3o) e a dor. Se a endometriose \u00e9 a causa, o tratamento pode ser realizado com analg\u00e9sicos, terapia hormonal e\/ou cirurgia. Apesar disso, frequentemente a dor retorna, e parece n\u00e3o necessariamente relacionada ao retorno de les\u00f5es endometri\u00f3ticas (STRATTON &amp; BERKLEY, 2010; BOURDEL <em>et al<\/em>., 2014; WANG <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Por outro lado, a recorr\u00eancia de les\u00f5es endometri\u00f3ticas parece n\u00e3o estar associada ao retorno da dor; \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de estrog\u00eanios ou outros fatores pr\u00f3-inflamat\u00f3rios, imunol\u00f3gicos, angiog\u00eanicos ou neurog\u00eanicos que, provavelmente causam a dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica (STRATTON &amp; BERKLEY, 2010; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021). Isso tem sido observado em mulheres que necessitam ser reoperadas pelo retorno dos sintomas dolorosos. Nem todas essas mulheres, durante a segunda interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (laparosc\u00f3pica), apresentam novas les\u00f5es endometri\u00f3ticas, refletindo uma independ\u00eancia do SNC na modula\u00e7\u00e3o da dor e sugerindo que a dor pode ser devida a outro fator que n\u00e3o a endometriose (STRATTON &amp; BERKLEY, 2010; BULUN <em>et al<\/em>., 2019; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p><strong>Figura 3.<\/strong> Desequil\u00edbrio neuroend\u00f3crino-imunol\u00f3gico na Endometriose<\/p>\n<figure id=\"attachment_1754\" aria-describedby=\"caption-attachment-1754\" style=\"width: 930px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1754 size-full\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desequilibrio-neuroendocrino-imunologico-na-Endometriose-.png\" alt=\"\" width=\"930\" height=\"644\" srcset=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desequilibrio-neuroendocrino-imunologico-na-Endometriose-.png 930w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desequilibrio-neuroendocrino-imunologico-na-Endometriose--300x208.png 300w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desequilibrio-neuroendocrino-imunologico-na-Endometriose--768x532.png 768w\" sizes=\"(max-width: 930px) 100vw, 930px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1754\" class=\"wp-caption-text\">AAb = auto anticorpos, Ach = acetilcolina, CGRP = pept\u00eddeo relacionado com o gene da calcitonina, CRH = horm\u00f4nio liberador de corticotropina, E = estrog\u00eanios, E2 = estradiol, Hb = hemoglobina, HO = heme oxigenase, IL = interleucina, HLA = ant\u00edgeno leucocit\u00e1rio humano, IFN-\u03b3 = interferon-\u03b3, KIR = receptor inibidor de c\u00e9lulas natural killer, M-CSF = fator de estimula\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias de macr\u00f3fagos, MCP-1 = prote\u00edna quimiot\u00e1tica de mon\u00f3citos, MHC-I = complexo principal de histocompatibilidade classe-I, MMP = metaloproteinase da matriz, NGF = fator de crescimento neural, NK = c\u00e9lulas natural killer, P = progesterona, PAR-2 = receptor ativado por protease tipo-2, PGE(2) = prostaglandina E(2), pHP hepatoglobulina peritoneal, RANTES = Regulada sob ativa\u00e7\u00e3o, expressa e secretada por c\u00e9lulas T normais, sCD23 = CD23 sol\u00favel, SCF = fator de c\u00e9lula tronco, sICAM-1 = mol\u00e9cula de ades\u00e3o intercelular-1 sol\u00favel, SP = subst\u00e2ncia P,TGF-\u03b2 = fator de transforma\u00e7\u00e3o de crescimento beta, TH = tirosina hidroxilase, TNF-\u03b1 = fator de necrose tumoral alfa;, VEGF = fator de crescimento endotelial vascular. Fonte: Tariverdian et al., 2007.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A figura 3, ilustra a complexa resposta neuroend\u00f3crino-imunol\u00f3gica que ocorre no tecido endometrial ect\u00f3pico. Destaque-se a intera\u00e7\u00e3o das termina\u00e7\u00f5es nervosas com os fatores inflamat\u00f3rios (TARIVERDIAN <em>et al<\/em>., 2007; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021). Essa resposta parece coerente para explicar a manuten\u00e7\u00e3o dos sintomas dolorosos apesar do tratamento cir\u00fargico das les\u00f5es endometri\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Algumas situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas de pacientes com dor deixam claro que o c\u00e9rebro pode gerar dor na aus\u00eancia de impulsos perif\u00e9ricos dos nociceptores ou da medula espinhal, por exemplo, a dor de membro fantasma. A nocicep\u00e7\u00e3o \u00e9 a detec\u00e7\u00e3o de les\u00e3o tecidual por transdutores especializados, os nociceptores, que podem ser alterados por mudan\u00e7as neurais ou inflamat\u00f3rias. Os mediadores inflamat\u00f3rios agem em sinergismo, aumentando a sensibilidade dos nociceptores, com consequente redu\u00e7\u00e3o de seu limiar de excitabilidade (GUYNTON &amp; HALL, 2021; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Na endometriose, como descrito acima, tanto a persist\u00eancia do est\u00edmulo hormonal para manuten\u00e7\u00e3o do ciclo vicioso que resulta em inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica como a estimula\u00e7\u00e3o\/desenvolvimento de inerva\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria nos implantes de endom\u00e9trio ect\u00f3pico poderia agir como mediadores algog\u00eanicos locais e explicar a manuten\u00e7\u00e3o e\/ou recorr\u00eancia do quadro doloroso apesar da interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica.<\/p>\n<p>Por outro lado, considerando a express\u00e3o de receptores estrog\u00eanicos no SNC e a prov\u00e1vel modula\u00e7\u00e3o exercida por estes horm\u00f4nios na neurotransmiss\u00e3o nociceptiva, mesmo ap\u00f3s a remo\u00e7\u00e3o da les\u00e3o endometri\u00f3tica, as vias nervosas poderiam se manter sensibilizadas e perpetuar a manifesta\u00e7\u00e3o dolorosa.<\/p>\n<p>A inflama\u00e7\u00e3o parece ter ainda outro papel sobre os nervos perif\u00e9ricos. Nociceptores silentes, uma classe de aferentes prim\u00e1rios n\u00e3o mielinizados que normalmente n\u00e3o s\u00e3o sens\u00edveis a est\u00edmulos t\u00e9rmicos e mec\u00e2nicos intensos, em presen\u00e7a de sensibiliza\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria ou qu\u00edmica, tornam-se responsivos, despolarizando-se vigorosamente, mesmo na aus\u00eancia de est\u00edmulo (GUYNTON &amp; HALL, 2021; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021). Talvez, este seja o mecanismo pelo qual a denominada inflama\u00e7\u00e3o neurog\u00eanica resultaria na variedade de sintomas dolorosos e na persist\u00eancia destes, mesmo ap\u00f3s a excis\u00e3o das les\u00f5es na endometriose.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 de se considerar que provavelmente, al\u00e9m da diversidade de fatores etiol\u00f3gicos envolvidos na fisiopatog\u00eanese da endometriose, o envolvimento do SNC via modula\u00e7\u00e3o hormonal estrog\u00eanica direta ou indireta da nocicep\u00e7\u00e3o contribuiria para a dificuldade no\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 estabelecimento da adequada interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica para a doen\u00e7a e as manifesta\u00e7\u00f5es associadas como a dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica (DJOKOVIC &amp; CALHAZ-JORGE, 2014; BULUN <em>et al<\/em>., 2019; KONINCKX <em>et al<\/em>., 2021).<\/p>\n<p>Apesar dos in\u00fameros estudos sobre a patog\u00eanese da endometriose, permanece n\u00e3o estabelecida a etiologia das les\u00f5es, sendo prov\u00e1vel que uma combina\u00e7\u00e3o de diversos mecanismos e a intera\u00e7\u00e3o entre eles contribua para o in\u00edcio e desenvolvimento da doen\u00e7a (Figura 4) (DJOKOVIC &amp; CALHAZ-JORGE, 2014).<\/p>\n<p><strong>Figura 4.<\/strong> Esquema demonstrando a depend\u00eancia estrog\u00eanica na correla\u00e7\u00e3o entre Endometriose e Dor P\u00e9lvica Cr\u00f4nica<\/p>\n<figure id=\"attachment_2113\" aria-describedby=\"caption-attachment-2113\" style=\"width: 816px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-demonstrando-a-dependencia-estrogenica-na-correlacao-entre-Endometriose-e-Dor-Pelvica-Cronica-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2113 size-full\" src=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-demonstrando-a-dependencia-estrogenica-na-correlacao-entre-Endometriose-e-Dor-Pelvica-Cronica-1.png\" alt=\"\" width=\"816\" height=\"1019\" srcset=\"https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-demonstrando-a-dependencia-estrogenica-na-correlacao-entre-Endometriose-e-Dor-Pelvica-Cronica-1.png 816w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-demonstrando-a-dependencia-estrogenica-na-correlacao-entre-Endometriose-e-Dor-Pelvica-Cronica-1-240x300.png 240w, https:\/\/www.nucleodoconhecimento.com.br\/livros\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Esquema-demonstrando-a-dependencia-estrogenica-na-correlacao-entre-Endometriose-e-Dor-Pelvica-Cronica-1-768x959.png 768w\" sizes=\"(max-width: 816px) 100vw, 816px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2113\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Fonte:<\/strong> Adaptado de Djokovic &amp; Calhaz-Jorge, 2014.<\/figcaption><\/figure>\n<h2>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/h2>\n<p>Existem evid\u00eancias da modula\u00e7\u00e3o de vias neuronais no SNC pelos estrog\u00eanios. Agindo em seus receptores \u03b1 e \u03b2 em diferentes regi\u00f5es cerebrais, os estrog\u00eanios interferem na modula\u00e7\u00e3o sin\u00e1ptica e neurotransmiss\u00e3o colin\u00e9rgica, noradren\u00e9rgica, serotonin\u00e9rgica, glutamat\u00e9rgica, gaba\u00e9rgica entre outros, desempenhando diferentes fun\u00e7\u00f5es, inclusive na modula\u00e7\u00e3o das vias nociceptivas. Estudos tem demonstrado que a diversidade de sintomas cr\u00f4nicos dolorosos relatados pelas mulheres pode ser atribu\u00edda \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es dos horm\u00f4nios ovarianos durante o ciclo menstrual.<\/p>\n<p>No entanto, de uma forma ou de outra se observa o estabelecimento de um quadro inflamat\u00f3rio cr\u00f4nico que \u00e9 influenciado pelas varia\u00e7\u00f5es dos horm\u00f4nios sexuais femininos e que resulta em constante manifesta\u00e7\u00e3o dolorosa nas mulheres acometidas pela doen\u00e7a, inclusive em dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>O conceito de que a queda abrupta ou a redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de estrog\u00eanio aumentaria a severidade da dor sugere que al\u00e9m dos efeitos na sensibiliza\u00e7\u00e3o das termina\u00e7\u00f5es nervosas, quer pela modula\u00e7\u00e3o direta quer pela manuten\u00e7\u00e3o da resposta inflamat\u00f3ria cr\u00f4nica na endometriose, as varia\u00e7\u00f5es nos n\u00edveis deste horm\u00f4nio desencadeiam ou disparam sintomas dolorosos diversos.<\/p>\n<p>Em se tratando dos implantes endometri\u00f3ticos, a dor parece ocorrer independente das les\u00f5es e pode realmente ser decorrente de modula\u00e7\u00e3o exercida pelos estrog\u00eanios nas termina\u00e7\u00f5es nervosas envolvidas na modula\u00e7\u00e3o e processamento das informa\u00e7\u00f5es nociceptivas. Tanto, que a abla\u00e7\u00e3o da inerva\u00e7\u00e3o uterina e a neurectomia pr\u00e9-sacral, dois procedimentos cir\u00fargicos que avan\u00e7aram com a interven\u00e7\u00e3o p\u00e9lvica laparosc\u00f3pica, interrompem a maioria das fibras nervosas sensoriais na regi\u00e3o p\u00e9lvica e nem sempre promovem benef\u00edcios nas mulheres que sofrem com dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias de participa\u00e7\u00e3o estrog\u00eanica na modula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e central das vias nociceptivas devem ser consideradas durante a abordagem terap\u00eautica. Uma prov\u00e1vel intera\u00e7\u00e3o \u201cc\u00e9rebro-corpo-c\u00e9rebro\u201d parece justificar, pelo menos em parte, a perpetua\u00e7\u00e3o dos sintomas dolorosos relacionados \u00e0 endometriose. As terapias alternativas, em especial a acupuntura, que demonstra resultados bastante satisfat\u00f3rios no tratamento da dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica ilustra bem tal possibilidade.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se possa estabelecer como, as evid\u00eancias sugerem que existe correla\u00e7\u00e3o estreita e importante entre a endometriose e a dor p\u00e9lvica cr\u00f4nica quer do ponto de vista cl\u00ednico ou terap\u00eautico. Os estrog\u00eanios, envolvidos no estabelecimento e desenvolvimento de ambas as condi\u00e7\u00f5es, parece ser o eixo desta correla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>REFER\u00caNCIAS<\/h2>\n<p>AGARWAL N, SUBRAMANIAN A. Endometriosis \u2013 Morphology, Clinical Presentations and Molecular Pathology. <strong>Journal of Laboratory Physicians<\/strong>. 2010; 2(1): 1-9.<\/p>\n<p>BOURDEL N, ALVES J, PICKERING G, RAMILO I, ROMAN H, CANIS M. 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