Maico Danúbio Duarte Abreu [1]
Rafael Junqueira Moro [2]
Paulo Anselmi Duarte da Silva [3]
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/4325
INTRODUÇÃO
A construção de uma barragem e a formação de seu reservatório implica em modificações nas condições naturais do curso d’água a partir da redução na velocidade da corrente e, consequentemente, na capacidade de transporte de sedimentos pelo rio, favorecendo sua deposição nos reservatórios que, aos poucos, vão perdendo sua capacidade de armazenar água (Bressan et al., 2019). Nesse contexto Brito e Trentin (2015) afirmam que a utilização inadequada dos recursos hídricos causa diversos impactos ambientais nas Bacias Hidrográficas (BH), sendo essas de grande importância como unidade de planejamento para a gestão ambiental.
A Bacia do Arroio Chasqueiro está localizada no município de Arroio Grande, Estado do Rio Grande do Sul (Brasil), teve sua rede de drenagem interceptada a partir da construção de um reservatório para captação de água e abastecimento de lavouras de arroz irrigado, em especial na planície alta devido a sua alta produtividade, conforme Cunha, Silveira e Severo (1996).
O presente trabalho tem como objetivo apresentar as características e potencialidades da sub bacia hidrográfica do Chasqueiro voltadas a compreensão do estudo da hidrologia dinamizada ao potencial uso do solo na região de Arroio Grande.
METODOLOGIA
O presente estudo foi desenvolvido em três momentos:
(I) Foi escolhida uma Bacia Hidrográfica de até 500km², a partir disso, foi determinado um ponto de exutório, coincidindo com a estação fluviométrica código 88400000. Essas informações foram retiradas do site da ANA (Agência Nacional de Águas). A tabela 1 mostra os dados encontrados sobre a estação fluviométrica.
Tabela 1 – Dados da estação fluviométrica de influência

(II) Utilizou-se, como ferramenta computacional o ArcGIS e QGis para caracterização da BH, obtendo-se:
a) O levantamento de imagens georreferenciadas foi realizado através do banco de dados presente no United States Gological Survey, do Shuttle Radar Topography Mission (SRTM);
b) Mapa sistema de drenagem da bacia em estudo, através do Modelo Digital de Elevação;
c) Mapa de relevo da área de estudo;
d) O Mapa de uso e cobertura do solo foi obtido no MapBiomas (2021), com utilização do software QGis
e) Mapa de tipos de solo retirado do IBGE.
(III) Discussão e estabelecimento de conexões apresentadas ao longo desse paper, bem como a apresentação de potencias uso e manejo do solo e água na região alvo do estudo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conforme Fernandes et al. (2018), no município do Arroio Grande, foi construído na década de 70, dentro do programa PROMIRIM entrando em operação em 1983, o barramento imposto ao sistema fluvial, localizando-se cerca de 80,4km (no sentido Sul do RS) rodoviários do Campus Capão do Leão da Universidade Federal de Pelotas (Tabela 01). A barragem encontra-se implantada nos arroios Chasqueiro e Chasqueirinho, a cerca de 3km da BR-116, é uma barragem de terra com filtro de areia, com cerca de 1200m de comprimento e uma altura máxima da ordem de 22 metros (Coodic, 2010).
Segundo Perazzo (2019), a bacia do Arroio Chasqueiro está localizada no município de Arroio Grande, sul do Rio Grande do Sul, a, afluindo para a margem oeste da Lagoa Mirim. A bacia é formada principalmente pela confluência de dois arroios (Arroio Chasqueiro e Arroio Chasqueirinho), os quais são represados formando a Barragem do Chasqueiro, seguindo o curso de água por um único riacho à jusante da barragem (Arroio Chasqueiro).
A área de captação da barragem (Figura 01) está na ordem de 24.000 hectares, com uma área de alagamento de 1.650 hectares, armazena um total de 117 milhões de metros cúbicos de água, para um volume útil de 105,6 milhões de metros cúbicos.
Figura 1 – Localização da sub bacia do Arroio Chasqueiro

Igualmente, buscou-se em base de dados, as informações de vazões fluviométricas na área de influência da BH do Chasqueiro e, vindo a localizar, uma estação da Ana (2021), a qual aponta uma área de drenagem de 281km². Na figura (2) possível perceber a área de influência da BH (divisor de águas), bem como as redes de drenagem e o ponto de menor cota (exutório), localizado no Arroio Chasqueiro, que possui ligação com a Lagoa Mirim.
Figura 2 – Locação da sub bacia do Arroio Chasqueiro

De modo geral as terras, da área de influência da BH do Chasqueiro, possuem um relevo topográfico (Figura 3) levemente ondulado, que varia de áreas planas (próximo ao exutório) até ondulada (noroeste).
Figura 3 – Classificação do relevo da BH do Chasqueiro

Conforme Dellazoppa et. al. (2010) a configuração altimétrica dessa região propicia uma estrutura fundiária, que conta com a participação da tecnologia moderna, elevando a rentabilidade da agricultura mecanizada, principalmente quando comparada a obtida em áreas coloniais, onde o relevo, entre outros fatores como a escassez hídrica, impede a plena racionalização do trabalho e consequentemente, a obtenção de rendas compatíveis.
USO E OCUPAÇÃO DO SOLO
Tal área compreende um corpo alongado natural, vindo que propiciar a construção de reservatórios a partir do represamento de rios e riachos é uma prática usual, especialmente para o desenvolvimento da agricultura de larga escala, como a de arroz irrigado, cujo maior produtor do Brasil é o estado do Rio Grande do Sul.
Brito e Trentin (2015) apontam que na Bacia Hidrográfica do Arroio Chasqueiro predomina a classe campo e pasto, característica do bioma Pampa. Há também uma grande utilização de seus recursos devido a sua extensa área destinada à agricultura, porém, as áreas à montante da bacia, estão atualmente preservadas. O solo, no geral, possui o horizonte superficial profundo e leve, onde, geralmente, há algum cascalho de quartzo. O horizonte B é argiloso e muito delgado, podendo não existir em algumas partes (Cunha; Silveira; Severo, 1996).
Estudos de Corrêa et al. (2015) indicam que às margens do reservatório são dominadas por pastagens plantadas, utilizadas para pastagem, e alguns pedregulhos grandes, com um substrato arenoso (73,6%), seguido de argila (14,0%) e silte (12,4%), com algumas pedras grandes.
Outra importante constatação é levantada por Silveira et al. (2020), que indicam que na região desse estudo, encontra-se na zona de Domínio Sudeste do Cinturão Dom Feliciano, que é um dos principais granitoides cálcico-alcalinos alto-K ocorre próximo da cidade de Arroio Grande/RS, denominado de Granito Chasqueiro, possuindo características mineralógicas particulares na sua composição de: Conforme K-Feldspato, plagioclásio, quartzo, biotita, hornblenda, minerais opacos (essencialmente ilmenita e magnetita) e acessórios (titanita, zircão, apatita e alanita).
Na região da BH do Chasqueiro podem ser observadas quatorze classes de solo (Figura 5), sendo as principais (com suas variações):Argissolo, Neossolo, Luvissolo e Planossolo.
Figura 4 – Classes de solos e Sobreposição das drenagens

Sobre as classes de solos observadas nessa microrregião, os pesquisadores Jarbas et al. (2021) indicam que:
1 – Argissolos – São solos medianamente profundos a profundos, moderadamente drenados, com horizonte B textural (horizonte diagnostico que caracteriza a classe de solo), de cores vermelhas a amarelas e textura argilosa, abaixo de um horizonte A com cores mais claras e textura arenosa ou média, com baixos teores de matéria orgânica.
2 – Neossolos – São solos constituídos por material mineral ou orgânico pouco espesso com pequena expressão dos processos pedogenéticos (processos de formação do solo) em consequência da baixa intensidade de atuação dos mesmos, que não conduziram, ainda, as modificações expressivas do material originário, pela sua resistência ao intemperismo ou composição química, e do relevo, que podem impedir ou limitar a evolução desses solos.
3 – Luvissolos – São solos rasos a pouco profundos, com horizonte B textural resultante de acumulação ou concentração de argila decorrente de processos de iluviação e/ou formação in situ, de cores vivas e argila de atividade alta, apresentando horizonte A fraco, de cor clara, pouco espesso, maciço ou com estrutura fracamente desenvolvida. São de elevado potencial nutricional, decorrente das altas quantidades de nutrientes disponíveis às plantas e de minerais primários facilmente intemperizáveis e são ricos em bases trocáveis, especialmente o potássio.
4 – Planossolo – Ocorrem tipicamente em áreas de cotas baixas, planas a suave onduladas. São, geralmente, pouco profundos, com horizonte superficial de cores claras e textura arenosa ou média (leve), seguido de um horizonte B plânico (horizonte característicos dos planossolos), de textura média, argilosa ou muito argilosa, adensado, pouco permeável, com cores de redução, decorrente de drenagem imperfeita, e responsável pela formação de lençol suspenso temporário. Geralmente, apresentam alta CTC e ocorrem, muitas vezes, com componentes secundários em muitas áreas de Luvissolos.
Nesse contexto, pode-se verificar que os solos, dispostos na microrregião da BH do Chasqueiro, possuem algumas características importantes de salientar: São solos rasos; possuem médio teor de argila; boa capacidade de drenagem; boa disponibilidade de nutrientes às plantas.
Assim, é possível perceber, figura 4, que os Argissolos estão mais a montante da BH, seguidos dos Neossolos, Luvissolos e Planossolos (a jusante).
O uso atual recente das terras indica que os Argissolos das áreas altas da bacia (fertilidade média, pouca profundidade e relevo forte ondulado), indicados para culturas perenes (silvicultura, fruticultura), vêm sendo ocupados com culturas anuais (soja), exercendo forte pressão sobre a diminuição da infiltração e do tempo de concentração, com aumento do escoamento superficial da drenagem na área de estudo. No mesmo sentido atua a substituição da pecuária (pastagens nativas e exóticas) pelos cultivos anuais, especialmente nas áreas mais frágeis.
A área da bacia de estudo abrange 14 tipos de associações de solos, sendo que 11,7% dessa área é constituída de solos da baixa fertilidade, 47,1% de média e 41,2% de alta fertilidade. As principais associações de classes de solos presentes na área da bacia hidrográfica, em ordem de significância quantitativa (%), estão na tabela 2:
Tabela 2 – Associações de solos na bacia de estudo

Segundo a CONAB (2023) a produção de arroz irrigado no estado do RS abrangeu uma área de 957,4 mil hectares semeados com uma produção estimada de 8.980 kg. ha-1. Dados do IRGA (2023) apontam que o município de Arroio Grande contribui com uma área de 3,55% do percentual semeado no RS. Tais dados indicam que a ação humana sobre a área ocorre de forma intensificada, promovendo alteração no meio, redobrando os cuidados com o manejo do solo e dos recursos hídricos.
A análise da figura 5 com intervalo de cerca de 10 anos, constatou que o incremento dos cultivos anuais sobre áreas de culturas permanentes e pecuária, tem provocado impacto sobre áreas úmidas (locais de infiltração e surgência de água) que vêm sendo suprimidas e/ou alteradas pelo manejo. Neste sentido, o projeto MapBiomas (2021) também constatou a mudança no uso do solo e, consequentemente, na cobertura vegetal.
Figura 5 – Apresentação do Uso do solo

CONTEXTUALIZAÇÃO DO USO COM A HIDROLOGIA
A gestão dos recursos hídricos ocorrentes na bacia de estudo pode ser dividida em 2 modelos, a saber: o cooperado, representado pelos beneficiários do Projeto Chasqueiro, localizados principalmente à jusante da barragem, que usufruem do planejamento de disponibilidade hídrica, regulação de vazões, eficientização do uso de água, rateio de custos operacionais, monitoramento ambiental e da organização formal em cooperativa; e o individualizado, composto pelos empreendimentos à montante do barramento, com gestão tradicional e isolada no manejo da água.
O aumento de culturas anuais nas áreas de cabeceiras, implicando em remoção frequente da cobertura vegetal e mobilização do solo, proporciona a maior ação erosiva das precipitações na superfície do solo e dos fluxos hídricos na rede de drenagem (Figura 6).
Figura 6 – Apresentação da Disponibilidade hídrica no solo

O impacto mais claro dessa ação é a supressão de ambientes de infiltração e afloramento de água, provocando a diminuição do tempo de permanência na bacia hidrográfica, o que implica na menor disponibilidade hídrica mesmo com as precipitações em níveis normais.
Essas alterações, oriundas da modificação do meio, para fins de produção agrícola/pecuária aliadas ao tipo de manejo adotado promovem desequilíbrio no sistema água-solo, bem como na disponibilidade de nutrientes e água às plantas. Podem ser listados, os seguintes parâmetros, identificados a partir da análise dos resultados dessa pesquisa como
Problemas em potencial:
- Diminuição da infiltração e aumento do escoamento superficial.
- Aumento da erodibilidade dos solos.
- Aumento da erosão e do assoreamento dos cursos d’água.
- Aumento do pico de cheia pela diminuição do tempo de concentração.
- Diminuição do tempo de permanência da água na bacia e diminuição da disponibilidade hídrica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As evidências encontradas nos estudos de caso, bem como na avaliação dos modelos avaliados nesse trabalho permite confirmar as evidências de que a região da bacia hidrográfica do Arroio Chasqueiro possui potencial uso para algumas culturas, como a do arroz irrigado, por possuir boa capacidade e fertilidade do solo, associado a abundância de recursos hídricos.
Obviamente torna-se indispensável a adoção de critérios técnicos de monitoramento dos recursos hídricos, a fim de investigar, não só a quantidade, mas a qualidade da água. De igual forma estabelecer monitoramento do solo a fim de indicar o melhor manejo a ser adotado conforme as faixas e surgimento de diferentes tipos de solos.
REFERÊNCIAS
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[1] Engenheiro Agrícola e Civil, Especialista em Ciências e Tecnologias da Educação, Mestre e Doutor em Agronomia, Doutorando em Ciência. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-86548493. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/4913661802288480.
[2] Graduado em Engenharia Agrícola. Orcid: https://orcid.org/0009-0000-0374-6252. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6749805056246334.
[3] Graduado em Engenharia Agronômica. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-1028-736X. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2583756517781452.