Espiritualidade como geradora de Resiliência e as ciências da religião

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ARTIGO ORIGINAL

SBIZERA, Carmem Lúcia [1], DENDASCK, Carla Viana [2]

SBIZERA, Carmem Lúcia. DENDASCK, Carla Viana. Espiritualidade Como Geradora De Resiliência E As Ciências Da Religião. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 12, Vol. 07, pp. 19-30 Dezembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente estudo abordou a espiritualidade como geradora de resiliência e a ciência da religião, objetivando descrever que o que é resiliência e como a espiritualidade dentre vários outros fatores, compõe esse processo, destacando-se como uma mediadora capaz de dotar o indivíduo de recursos importantes para a superação de adversidades e, neste contexto, esclarecendo qual a ligação da ciência da religião com o fenômeno da resiliência estimulada pela religiosidade, demonstrando que aquela pode ser objeto de estudo desta área do conhecimento. Como procedimento metodológico empregou-se um estudo bibliográfico utilizando-se livros e trabalhos acadêmico científicos que possibilitaram fundamentar o tema proposto e responder seus objetivos. Chegou-se a conclusão que a resiliência é uma característica do indivíduo em lidar e adaptar-se a mudanças e superar obstáculos, resistindo a situações adversas e, nesse contexto, a espiritualidade pode ser um importante catalisador, o que faz com que a ciência da religião tenha interesse na resiliência como foco de seu estudo, uma vez que é seu propósito estudar as religiões e suas manifestações

Palavras-chaves: espiritualidade, resiliência, ciências da religião.

INTRODUÇÃO

É comum que, ao longo da vida, as pessoas passem por situações estressantes e que possam ser significativas para a sua saúde mental e física. Os diferentes acontecimentos possíveis de serem vivenciados variam conforme fatores particulares, educacionais, contexto histórico e idade cronológica. A nossa predisposição para a resiliência nos ajuda a repensar o nosso modo de agir e possibilita, assim, mudar nosso comportamento frente a circunstâncias adversas, de modo a superá-las e a aprender com elas.

Atualmente, entre os temas de interesse social e científico, a resiliência e a espiritualidade aparecem em destaque. No campo das ciências humanas, a resiliência define o processo mediante o qual o sujeito consegue não só vencer e se restabelecer de situações adversas, mas sair ainda fortalecido e transformado por elas. Por outro lado, a palavra espiritualidade designa a experiência humana que atribuí significado e sentido à vida. Trata-se da busca pelo Sagrado, pelo Divido, que pode ser definido pela compreensão ou pelo sentido de ligação com um propósito maior, imaterial, quer dizer, consiste em reconhecer um poder absoluto, que transcende o ego e que desperta um sentimento de completude e de comunhão com o universo, não sendo apenas a adesão a um específico sistema de práticas religiosas e crenças.

Assim, o presente trabalho procurará descrever que o que é resiliência e como a espiritualidade, dentre vários outros fatores, compõe esse processo, destacando-se como uma mediadora capaz de dotar o indivíduo de recursos importantes para a superação de adversidades.

Além disto, é propósito esclarecer qual a ligação da ciência da religião com o fenômeno da resiliência estimulada pela religiosidade, demonstrando que aquela pode ser objeto de estudo desta área do conhecimento.

Como procedimento metodológico empregou-se um estudo bibliográfico utilizando-se livros e trabalhos acadêmico científicos que possibilitaram fundamentar o tema proposto e responder seus objetivos.

RESILIÊNCIA

Resiliência é a habilidade real do ser humano de superar desafios e, ainda, de usar essa experiência a favor de si próprio, isto é, em benefício de seu desenvolvimento pessoal, permanecendo integro frente às situações adversas.

É uma palavra francesa, originária do latim “resilentia. Com certa frequência é empregada na física para caracterizar a capacidade de uma determinada estrutura de absorver energia cinética do meio sem que sofra modificações ou a resistência de um material a choques (ANAUT, 2005).

Complementando, Monteiro et al. (2001) esclarece que o termo resiliência possuí diversos significados, atribuídos conforme a área em que é utilizado. Provem do latim, da palavra “resilio”, que expressa o retorno a um estado primeiro. Os autores Leal, Röhr e Policarpo Júnior (2010) concebem a resiliência como a capacidade efetiva do ser humano de não só retornar a um estado originário de excelência, superando adversidades, mas também de utilizar a experiência em favor de seu desenvolvimento pessoal, sem que se deixe afligir, reunindo e reaproveitando de maneira útil para si o que há de negativo no fato experienciado.

Tal conceito já foi usado para definir qualidades flexíveis e elásticas do ser humano e também como sinônimo de invulnerabilidade. Os primeiros estudos acerca do tema caracterizam-se pelo enfoque no sujeito, partem de questões sobre se a resiliência é própria de uma constituição única de sujeito ou se é determinada pela interação entre o que é do meio, oferecido como alicerce para o sujeito, e o que há, implicado nesse processo, de subjetivo (ASSIS; PESCE; AVANCI, 2006).

De acordo com Yunes (2003), o estudo das questões ligadas à resiliência é relativamente novo no campo da psicologia. Há maios ou menos trinta anos o tema vem sendo objeto de investigação, contudo, apenas no último quinquênio, tal construto passou a receber maior atenção e a ser foco de discussões em eventos internacionais.

Contudo, Yunes e Szymanski (2001) ressaltam que, há muito tempo, o termo resiliência vem sendo empregado por engenheiros e por físicos. O cientista inglês Thomas Young, por exemplo, levando em consideração a compressão e a tensão, criou o parâmetro mecânico de módulo de elasticidade. Young, buscando a correspondência entre a força aplicada a um corpo e a deformação nele produzida, descrevia experiências de compressão e tensão de barras.

No campo da psicologia, as investigações sobre resiliência se iniciaram sob o enfoque dos comportamentos não adaptativos e das pessoas relativamente ajustadas em caso de esquizofrenia entre os familiares. Historicamente, no referente à abordagem empírica e teórica da resiliência, esse foi um período muito profícuo (ANAUT, 2005).

Ademais, mesmo que a noção de resiliência seja muito antiga, as pesquisas a seu respeito foram produzidas apenas durante os últimos dez anos. Em qualquer época e em qualquer lugar, é possível ver no esforço dos oprimidos e dos pobres pela sobrevivência algum tipo de resiliência. Trata-se de um fenômeno que conjura os antigos mitos dos semideuses íntegros e invulneráveis, podendo ser visto representado na religião, na arte e na mitologia. A existência e a obra de Aleijadinho, de Máximo Gorki e de Jean Piaget podem ser citadas como exemplo de resiliência, assim como Anne Frank, uma menina de 12 anos que, por conta da perseguição nazista, foi forçada a viver com a sua família em um esconderijo por um certo período de tempo, durante o qual escreveu, em um diário, cartas a uma amiga imaginária. Em seus textos, nota-se o modo como se sentia aceita de forma incondicional: “Não penso na angústia, mas penso na beleza de ainda viver”. Comumente, a resiliência referencia processos de “superação” de momentos crítico e adversos vividos por pessoas, grupos ou sociedades (YUNES; SZYMANSKI, 2001).

Nesse sentido, Chequini (2014) diz que, ainda que seja um assunto muito presente hoje e ainda que encerre muitas controvérsias e polêmicas, havendo, entre os teóricos, opiniões convergentes e concordantes. Para a resiliência, é necessário que se estabeleça uma inter-relação entre diversos fatores, como: os fatores de risco, que define as situações de adversidade; os fatores protetores, que são aqueles que podem reparar os riscos ou preveni-los; e os fatores de resiliência, de enfrentamento das ameaças. Nessa dinâmica, um tanto quanto complexa, o sujeito é percebido nas diferentes dimensões da vida, cultural, social e afetiva.

A resiliência, conforme Poletti e Dobbs (2007), pode suceder em momentos que, em razão do acúmulo de estresses e tensões, há muitas ameaças, de modo que a pessoa consegue superar aquilo que a aflige e continuar progredindo de forma harmoniosa. Em situações como essas, podem ser importantes as memórias de infância da pessoa, as palavras de motivação que ouviu, as ligações afetivas que estabeleceu durante a vida e o sentimento de segurança e de conforto que essas coisas lhe trazem. Para além disso, é preciso considerar ainda o contexto religioso, cultural, social e político em que a pessoa cresceu, o ambiente em que está inserida e se ela tem pessoas sadias em seu entorno.

Portanto, a partir dessas considerações, depreende-se que a resiliências define um comportamento padrão de superação de riscos presentes e reunidos durante o percurso de vida, assim como a sua posterior adaptação. Abarca diversos recursos de caráter psicológico, fundamentais para a solucionar e vencer problemas adversos, tais como: controle interpessoal nas relações sociais de apoio, auto crenças e aptidões pessoais.

ESPIRITUALIDADE

O autor Pazzola (2002) entende que a espiritualidade não está associada à pratica de rituais, mas ao desenvolvimento de valores humano. Röhrs (2007) defende também uma noção de espiritualidade semelhante, que busca se afastar dos modismos do nosso século, concebe-a como parte indispensável e permanente da humanização das pessoas.

O ser humano, para Frankl (2007), é espiritual-pessoal. O realmente homem não é um ser impulsionado. Segundo Jasper, é mais do que isso, é um ser que faz escolhas ou, nos termos de Heidegger, é um “estar aqui”. Na concepção analítica-existencial, o homem é um ser responsável, isto é, existencial. A plena e real compreensão do homem está, por conseguinte, na dimensão espiritual, quer dizer, apenas por meio da abordagem do espiritual é que se pode falar do que há de humano em uma pessoa, dado que somos caracterizados pela responsabilidade e não pela impulsividade. Nesse sentido, sem afetar a unidade do homem, a dimensão animalesca é suplantada pela espiritual.

Entre os estudiosos do tema, é unanime a ideia de que a espiritualidade é intrínseca ao ser humano, que busca significar e dar sentido a sua existência e que cogita a possibilidade de conhecimento pessoal, de existência de uma verdade universal ou de uma potência superior que possa lhe trazer uma sensação de bem-estar com o mundo e de completude, isto é, de unidade com a natureza e com o universo. A espiritualidade, nessa perspectiva, é vista como a pedra angular da resiliência, sendo capaz de mediá-la e de promove-la.

RESILIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE

Walsh (2005, p. 42), tratando das crenças, diz que a alma da resiliência é o coração. O autor entende que os sistemas de crenças são poderosas forças na resiliência, já que a pessoa, quando enfrenta uma adversidade, extraí significado dessa experiência e a vincula ao mundo social, as suas crenças religiosas e culturais, ao seu passado multigeracional e a seus sonhos e expectativas para o porvir. Esses sistemas definem a habilidade humana de, sob a ótica da espiritualidade e da transcendência, dar um novo significado para a adversidade

Segundo Cameron (2004 apud LEÃO; SILVA, 2016), os benefícios da religiosidade para o ser humano são o bem-estar e o estímulo de suas virtudes, como: a honradez, a prudência, a temperança, a confiança e a honestidade; que podem gerar solidariedade nas reações sociais e atitudes éticas. Dessa forma, a espiritualidade virtuosa, enquanto o oposto da intolerância, impõe-se como algo edificador e como sinônimo de resiliência. A busca pela adoção de princípios religiosos e a sua vivência proporciona o desfrute de sentimentos benéficos e o estabelecimento de relações mais saudáveis entre as pessoas.

Presume-se que é no estágio inicial do desenvolvimento humano que a pessoa tem sua primeira experiência religiosa, isto é, quando é ainda um recém-nascido e aprende a ilusão mediante o objeto transicional. Um objeto no berço, uma coberta ou o próprio cuidador podem, para a criança, ser um objeto transicional e ter o significado de segurança, já que estão sempre a sua disposição. A relação com a ilusão se estabelece a partir da certeza de algo existe, ainda que este algo não esteja fisicamente próximo da pessoa. Estaria, portanto, associada a algo que não é possível de ser visto ou a algo transcendente, podendo proporcionar sentimento de bem-estar ao sujeito, já que o espiritual é transicional e a disciplina é assegurada pelos princípios e pelos ritos (ECCO et al., 2016).

A fé, para Flach (1991), seria um dos sustentáculos da resiliência, que consiste em processo de contínua adaptação, em que o sujeito dispõe de uma soma de recursos biológicos e psicológicos para se reestabilizar e superar, com êxito, as diferentes mudanças estressantes por que passa em sua trajetória de vida. Algumas pessoas entendem que a fé está nas delimitações de uma religião, para outros, está no nosso inconsciente, no seu nível mais profundo, em união com o absoluto.

Em sua pesquisa, “A Vivência do Luto e sua Interface com a Religiosidade e Espiritualidade”, de 2011, Ferinasso percebeu que a religião é de grande ajuda para as pessoas que perdem afetos próximos. O pesquisador tomou como enfoque os sentidos ligados ao luto em relação com a espiritualidade. Constatou, então, que tanto a instituição religiosa quanto a religiosidade atuam dando forças para a superação de perdas. Além disso, pessoas que já vivenciaram o luto, ao invés de terem dificuldades maiores, acabam aceitando o fato mais facilmente.

Em um outro estudo empreendida por Fontes e Neri (2015), em que se pretendeu, mediante revisão da literatura brasileira e internacional produzida entre 2007 e 2013, expor conceitos referentes à resiliência psicológica, foi constatado que em mulheres casadas, de baixo nível educacional e renda, a espiritualidade está fortemente associada à resiliência. Frente ao sofrimento, elas recorrem à fé religiosa e às crenças espirituais para o enfrentamento das adversidades da vida, percebe-se, dentre essas mulheres, estados de saúde melhores.

Segundo Park (2007 apud VIEIRA, 2010), muitos estudos mostram que, em relação aos jovens, os idosos são muito mais religiosos e espiritualistas. Isso pode estar ligado a fatores sócio históricos, como mudanças de valores e secularização, o que permite afirmar que é resultado de transformações culturais. Contudo, em trabalhos longitudinais produzidos recentemente, há sinais de que, com o passar dos anos, as pessoas tendem a ser aproximar da espiritualidade ou de religiões.

A partir de um estudo comparativo entre 398 pessoas que tiveram câncer e 796 que não o tiveram, pesquisadores observaram que aqueles que sobreviveram à doença demonstraram possuir um senso de crescimento pessoal, espiritualidade e bem-estar social, de modo que os mais velhos, em relação aos mais jovens, mostraram-se mais resilientes, manifestando um comportamento psicossocial semelhante ao de seus iguais (FONTES; NERI, 2015).

Nota-se, então, que toda pessoa possuí limites pessoais no trato com os desafios da vida. Ademais, percebe-se também que a resiliência se potencializa e se torna maior com a superação de fatos traumáticos ou adversos, sendo favorável ao desenvolvimento pessoal e levando o sujeito a uma outra percepção da vida, dos valores e do mundo, que são, consequentemente ao processo, resinificados (MACHADO, 2014, p. 215).

A resiliência faz com que as pessoas passem a olhar de forma positiva para o enfrentamento de problemas sérios, transformando, dessa forma, tanto as práticas educativas quanto o enfoque dado à saúde e ao trabalho social, o que se inicia com a identificação e a devida utilização dos recursos daqueles que padecem de algum sofrimento (ECCO et al., 2016).

Contudo, não se deve tomar a resiliência como uma fonte de invulnerabilidade ou de total proteção, mas como um meio de confrontar questões adversas, superá-las e se adaptar às mudanças. Não só está relacionada à aspectos pessoais como também à fatores circunstanciais, sociais e ambientais. Dessa forma, um indivíduo pode demonstrar resiliência em algum momento, frente a algum fato, e em outros não (ECCO et al., 2016).

Para que um indivíduo aprenda a resiliência, portanto, é necessário que ele perceba o obstáculo em sua dimensão real e, a partir disso, defina um modo de enfrentá-lo e objetivos a serem alcançados (MACHADO, 2014, p. 217-218).

As pessoas, ao conseguirem aprender com as suas experiências pessoais e, com isso, encontrarem novos sentidos, como a busca pela transcendência ou o contato com a espiritualidade, tornam-se mais capazes de encarar os problemas e de vencê-los (LANGER, 2004 apud VIEIRA, 2010).

Percebe-se, por conseguinte, como a espiritualidade está intimamente ligada à resiliência, uma vez que leva a pessoa a se fortalecer espiritualmente e a se tornar mais maleável diante de certas circunstâncias, resultando em menor sofrimento.

RESILIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE Á LUZ DA CIÊNCIA DA RELIGIÃO

A disciplina que se destina, de forma sistemática, ao estudo das religiões em suas mais diversas formas de manifestação é a ciência da religião. O pesquisador dessa área parte do entendimento de que a teologia é um dos componentes mais essências das religiões, porém não a restringe a esse aspecto, de modo a evitar julgamentos de valor a respeito da qualidade ou da veracidade de determinada doutrina. Por conseguinte, o objetivo dessa ciência é, sobretudo, descrever ampla e detalhadamente fatos próprios do universo religioso, visando compreender, historicamente, como surgiram as religiões e como se desenvolveram, fugindo de reducionismos que possam prendê-lo a acontecimentos e/ou a fatos específico, olhando, assim, para as inter-relações que a crença estabelece com as diferentes instancias da vida social (ALVES, 2009).

Nesse sentido, Usarki (2014) diz que uma condição básica para essa transação é que a outra disciplina seja tomada como fonte de motivações funcionais para a própria investigação, e não como oponente. Consiste em uma relação de bilateralidade, na qual, em alguns momentos precisos, uma das disciplinas confere a outra a qualidade de “auxiliar” em benefício do estudo de um determinado problema. Assim, dependendo da disponibilidade dos cientistas em se ocupar das competências acadêmicas de outras áreas de conhecimento, conforme as necessidades de uma pesquisa em andamento, a teologia pode ampliar, reciprocamente, a perspectiva da ciência da religião.

A ciência da religião, por assim dizer, constitui uma ciência prática, tem como fundamento a sistematicidade da investigação de um dado objeto, conduzida de forma metodológica. Sua ocupação é o estudo das religiões, independentemente de qual seja, pode estar morta ou viva. Não tem qualquer pretensão de caráter metafísico ou especulativo, muito menos normativo. O cientista da religião enxerga todas as crenças como meros objetos investigativos, como linguagens distintas, em que o religioso se revela, distanciando-se, dessa forma, de intenções apologéticas. Tal aspiração de objetividade e de transparência não significa que seus procedimentos metodológicos científicos se orientem pelas ciências naturais. Ainda que a abordagem histórica seja primordial nessa área de investigação, somente ela não é suficiente, pois que a sociologia, a antropologia e a psicologia possuem peso igual de importância.

Isto posto, considerando que consiste em um fenômeno físico que pode ser mensurado e, conforme já dito, que recebe influência direta da espiritualidade do sujeito em que se manifesta, a resiliência é um objeto passível de ser estudado pela ciência da religião.

O professor Sabbag (apud KOPSCHITZ, 2011), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, realizou um amplo estudo acerca da resiliência e encontrou um meio de mensurá-la, chegando à conclusão que se trata de uma capacidade que pode ser aprendida e desenvolvida. Segundo o pesquisador, uma personalidade resiliente apresenta nove características: flexibilidade mental; otimismo; perseverança; competência social; proatividade; empatia; capacidade de gerenciar bem as emoções, isto é, temperança; facilidade para resolver problemas e auto eficácia, que engloba a convicção de que é capaz de executar tarefas com excelência e a autoconfiança.

Considerando que a ciência da religião intenciona estudar sistemática e empiricamente as religiões em todas as suas formas de manifestação, deduz-se que a resiliência, enquanto uma dessas diferentes formas, pode resultar da espiritualidade, que, por sua vez, possuí intima ligação com a religião.

CONCLUSÃO

A partir de um ponto de vista de superação, a adoção da espiritualidade como um elemento que favorece a resiliência parece desafiar porvir, levando em consideração as dificuldades que poderão ajudar no desenvolvimento pessoal do sujeito, isso por meio do alargamento da visão de mundo e da instauração de um novo modo de estabilidade.

Nota-se que a resiliência não é uma compleição que possa, a priori, ser encontrada ou suprimida no sujeito. Muito menos consiste em atributo perene, imutável e fixo. Ao invés disso, manifesta-se como uma capacidade em potencial no percurso de crescimento do sujeito. É, portanto, mutável e, em determinadas situações ou circunstâncias, pode ser mais ou menos presente.

Assim sendo, pode-se dizer que a resiliência não é apenas uma qualidade particular de alguns poucos beneficiado, para além disso, consiste em um recurso universal, podendo ser usado por qualquer ser humano, ou não, de forma variada. A sua variabilidade está no fato de se instaurar entre uma pessoa e outra (intersubjetiva) e nas mudanças que se operam no interior de um mesmo sujeito no decorrer do tempo.

A espiritualidade surge então como um elemento auxiliar para o processo que decorre da resiliência, dando ênfase a sua relevância para as políticas de promoção da necessidade ao ser humano no reagir positivamente face às adversidades da vida.

A ciência da religião, portanto, sendo uma disciplina voltada para o estudo das religiões e das manifestações religiosas, divulga, de modo mais amplo e completo possível, acontecimentos do universo religioso. Além disso, busca compreender historicamente o aparecimento e o desenvolvimento de determinadas religiões e suas relações com outros setores da vida. Possuí franco interesse pelo entendimento da resiliência, enquanto fenômeno social e investigativo, uma vez que se manifesta como uma qualidade do ser humano que pode ser diretamente influenciada pela religiosidade, que, por sua vez, traz um conforto maior para a vida do sujeito.

REFERÊNCIAS

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[1] Teóloga. Licenciada em História. Docente de História e Geografia do Curso de Bacharel em Teologia na Universidade Santanna em São Paulo – SP. Mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

[2] Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

Como publicar Artigo Científico
Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo. Parabéns. Muita prece, alicerçada na fé não dogmática e esta, por sua vez, sustentada pelas boas obras.

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