Olá, tudo bem? Em nossa conversa de hoje iremos discutir sobre um assunto bastante polêmico: a qualis. Antes de discutirmos sobre as alterações na qualis que têm feito os mais diversos pesquisadores, instituições e revistas ficarem receosos acerca de como irá funcionar a avaliação da pós-graduação/revistas de agora em diante, é fundamental que compreendamos o que é a qualis e qual a sua finalidade.
A primeira coisa que você precisa manter em mente sobre a qualis é que ela não é uma base de dados, como muitos pensam. Assim sendo, a qualis atua como uma ferramenta de avaliação. Foi desenvolvida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que é o órgão que regula o funcionamento dos programas de pós-graduação brasileiros. Dentro da qualis da CAPES existem algumas subdivisões sobre as quais iremos discutir a seguir. Como você perceberá, a qualis está em constante evolução e, a depender do momento, é bastante comentada e questionada na comunidade científica.
Dentro do universo qualis da CAPES, há algumas ramificações que gostaríamos de apresentar. Dentre essas, há o qualis periódicos, que é o mais famoso entre os pesquisadores, mas há, também, o grupo de trabalho qualis artístico/classificação em eventos. O qualis periódicos tem como intuito principal classificar a produção científica desenvolvida por nossos cursos de pós-graduação e, assim, analisa-se os artigos científicos dos pesquisadores publicados nos periódicos.
Entretanto, essa classificação não é absoluta, pois está, constantemente, sendo aperfeiçoada, como é o caso da nova qualis, sobre a qual iremos conversar mais adiante. O qualis artístico e de eventos, por sua vez, tem como objetivo aprimorar o processo de classificação das produções artísticas e das publicações em anais de eventos, gerando, como resultado, parâmetros de avaliação. A qualis opera a partir da plataforma Sucupira e é ela que recebe toda a base de dados necessária para classificar os programas de pós-graduação brasileiros.
A qualis tem como objetivo principal, como destacamos, avaliar a produção científica desenvolvida pelos programas de pós-graduação brasileira à nível stricto sensu, isto é, avalia-se os programas de mestrado e também de doutorado. Assim sendo, consequentemente, a qualis tem como intuito, ainda, garantir uma melhor qualidade à formação de mestres e doutores em nosso país, bem como identifica as assimetrias regionais e de áreas estratégicas, para, a partir disso, criar e expandir os programas de pós-graduação brasileiros e, para tanto, desenvolveu-se uma ferramenta com critérios de avaliação dessa produção científica. Nesse sentido, precisamos destacar que, assim como qualquer outro objeto de estudo científico, os instrumentos de avaliação da qualis, de tempos em tempos, passam por aprimoramentos. Recentemente, em julho de 2019, os critérios de avaliação dos periódicos foram revistos, o que causou certa polêmica entre os pesquisadores.
Um dos elementos que mais gerou comentários sobre a nova classificação diz respeito ao fato de que, agora, o qualis periódico passará a classificar cada periódico científico de acordo com a sua área-mãe, isto é, conforme a sua área principal de atuação. Assim sendo, cada periódico pode ser inserido apenas em uma única área-mãe, que será aquela que possui o maior número de publicações e, dessa forma, apenas essa área em questão receberá a “nota” qualis. Isso acaba com o que era proposto antes, pois um mesmo periódico, antes da atualização da qualis, poderia se encaixar em mais de uma área do conhecimento e, com isso, alguns periódicos subiram de nível na nova classificação e outros caíram. A grande vantagem dessa nova forma de classificação é a garantia da comparabilidade entre as áreas e as suas respectivas publicações. Fora isso, a qualis da CAPES adota indicadores bibliométricos utilizados à nível internacional, o que permite a comparação entre revistas nacionais e estrangeiras.
Em razão desse tema sempre abrir brechas para muitos questionamentos, nós estávamos nos preparando para trazer as informações de forma mais complexa para que você entenda, em detalhes, o que muda com a nova qualis. A primeira coisa que você precisa manter em mente é que, por muitos anos, sobretudo nos últimos anos, a qualis tem sido alvo de muitas discussões em todas as esferas que dão vida a nossa comunidade acadêmica, principalmente em 2019, quando saiu a nova classificação prévia de nossos periódicos.
Nesse sentido, cabe apontarmos a origem da qualis periódicos. Ela foi criada com um intuito: servir como mais uma métrica para avaliar os programas de pós-graduação de nosso país, atestando a sua qualidade por meio dos pesquisadores associados a esses programas. Assim sendo, a qualis atribui notas aos programas de mestrado e doutorado de nosso país considerando alguns critérios sobre os quais iremos conversar a seguir.
Dentre os critérios considerados pela CAPES para medir os cursos de mestrado e doutorado stricto sensu, alguns se destacam, como, por exemplo, a formação de professores, produção desempenhada pelos pesquisadores, professores e coordenadores ligados à uma instituição de ensino, a relevância social dos trabalhos desenvolvidos nessas universidades, o local em que esses alunos trabalham, o número de alunos que compõem esses cursos, como eles participam da academia produzindo ciência (sobretudo publicando e participando de eventos científicos) e, por fim, dentro dessas métricas, há, também, a quantidade de publicação desses programas. É daí que vem toda a polêmica que envolve a qualis. Todas essas variáveis serviam como uma forma de se calcular a qualis, isto é, compõem o cálculo que faz com que se chegue à nota de um determinado programa de pós-graduação. Com o cálculo, verifica-se quais foram os periódicos que mais publicaram artigos científicos.
Essas variáveis que dão forma ao cálculo que analisa a produção dos programas de pós-graduação com o tempo deram origem a uma tremenda confusão. Essa confusão sobre a qual estamos chamando a sua atenção está ligada, principalmente, à postura de certos professores-orientadores. Em razão da popularização da qualis, esses professores-orientadores passaram a exigir que os seus alunos publicarem apenas em revistas com certas qualis, desprezando todas aquelas que não possuíam as melhores classificações. Surge, daí, a concepção de que a qualis está ligada à qualidade de uma revista científica. Essa concepção acabou prejudicando uma série de revistas, sobretudo nacionais, que não se encaixavam em uma determinada nota. Como a prática da publicação em periódicos com qualis A, por exemplo, passou a ser incentivada, as outras acabaram se estagnado em uma nota menor, pois a demanda passou a ser menor. Com isso, as revistas internacionais passaram, também, a ser mais privilegiadas.
A antiga qualis é muito complexa porque acabava de certa forma privilegiando certas revistas e prejudicando o alcance de outras. Por exemplo, com a popularização da prática da publicação em revistas internacionais, elas ganharam um status positivo em nosso país, contudo, à nível internacional, elas não são tão relevantes, contudo, a qualis previa a sua relevância, o que fazia com que fossem expressivas apenas no Brasil. Contudo, em fevereiro de dois mil e vinte, a CAPES publicou uma portaria que prevê que no próximo quadriênio a qualis deixará, definitivamente, de existir. Mas por que ela perderá a sua validade? Como destacamos, a qualis era uma das métricas necessárias à avaliação dos programas de pós-graduação das nossas instituições, porém, agora, ela tem sido utilizada para outros fins que não são tão satisfatórios, como, por exemplo, para medir a qualidade de uma revista. Assim sendo, outras métricas serão consideradas para se medir a relevância de uma revista.
Toda mudança, para que seja viável, demanda novos instrumentos, certo? Assim sendo, tem-se comentado e, na verdade, é uma recomendação da própria CAPES, que os pesquisadores pesquisem e adotem revistas a partir de uma outra métrica, que não é mais a qualis que estamos acostumados. Esses indicadores são populares e reconhecidos a nível internacional e, portanto, são de confiança e fomentaram a escolha de revistas realmente engajadas com a produção de ciência de qualidade. Nesse sentido, cabe, nesse momento, entendermos um pouco sobre como essas novas métricas funcionam. De forma geral, elas têm como objetivo apontar a nós o grau de impacto alcançado por um determinado artigo, pois isso faz com que escolhamos materiais que realmente tem atingido a sociedade, tanto acadêmica quanto não acadêmica. O impacto, no entanto, também perpassa uma série de variáveis, como a antiga qualis.
Tudo irá depender da base de dados em que a revista que deseja publicar está indexada. Como mencionamos, no caso da Google Acadêmico, considera-se o índice h. Já no caso da Web of Science não se tem o índice h, mas sim o índice JCR. O que deve ficar claro é que essas métricas não são válidas apenas em território nacional, como é o caso da antiga qualis e, dessa forma, as métricas das bases de dados, sejam elas abertas ou fechadas, são válidas à nível internacional, o que possui uma aceitação maior por parte da comunidade científica. Essas métricas são importantes e devem ser compreendidas de forma detalhada e profunda pois, a partir do próximo quadriênio, elas irão apontar o verdadeiro impacto de uma determinada revista e, consequentemente, de um pesquisador e da sua instituição. Mostra, então, o quão relevante é esse artigo com base nas métricas que irão variar de acordo com a base de dados na qual a revista se encontra indexada.
Em razão de toda a confusão gerada pela qualis, a CAPES indicou que a qualis deve ser extinta para que a pós-graduação de nosso país seja, a partir do próximo quadriênio, analisada e avaliada de outra forma. O próximo quadriênio contemplará os anos de 2021, 2022, 2023 e 2024, quando teremos novas notas para os nossos programas de pós-graduação, e, também, para os periódicos científicos. Implica discutirmos um pouco sobre as mudanças mais bruscas.
A primeira delas é que aquela qualis por área que conhecemos deixou de existir e, assim, uma revista é analisada a partir de sua área-mãe, isto é, não se considera todas as outras subáreas na avaliação, apenas aquela que possui materiais que são mais citados. Assim sendo, a revista não ganha diversas notas, como antes, uma única será atribuída. Nesse sentido, a partir do ano que vem, qualquer tipo de “qualis” deixará de existir, ou seja, aquela classificação de A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, C1 e assim por diante não será mais passível de ser aplicada, pois o impacto dos materiais irá substituir essa nota na forma de letras.
Então, o principal desafio é tirar das nossas mentes as palavras qualis e pensar nos fatores de impacto, pois eles passarão a ocupar o lugar que era da qualis a muito tempo. Esses fatores de impacto irão apontar o quão relevante o material de um pesquisador/revista é para a sociedade. Atenção: esse é o nome dado por uma das bases de dados e que será utilizado como critério de avaliação. Esse critério é de uma base de dados fechada, assim como o índice JCR que mencionamos. O índice H será considerado pelas bases de dados abertas, como o Google.
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